quinta-feira, 27 de junho de 2013

Sobre a Revolução Industrial

Pequena introdução: A Revolução Industrial, seus desdobramentos e consequências.

No primeiro dia de apresentação, foi marcante a frase citada por uma integrante de um grupo sobre uma indagação de um índio frente a um homem ocidental. Este pretendia destruir uma montanha para extrair petróleo como possibilidade de viabilização da sociedade industrial inaugurada pelo advento do capitalismo moderno no mundo ocidental, que hoje já se instala como o fenômeno denominado globalização ou neoliberalismo. A frase dizia, como fala do índio, o seguinte: “não vou destruir a montanha para extrair petróleo porque o petróleo é o sangue da montanha”. Não lembramos ao certo o modo como essa história foi contada nem de seus detalhes, mas o que é marcante é exatamente uma mentalidade presente na fala do indígena e que foi sufocada pelo advento da expansão do modo europeu de pensar e de se relacionar com a manifestação do mundo como reunião de uma totalidade de coisas que podem ser utilizadas ou mesmo transformadas, pela produção e pelo trabalho, em instrumentos de uso. No uso já se deixa aparecer o mundo ou a natureza como substrato para a ação de extração de suas forças vivas a fim de viabilizar a maquinação produtora de coisas consumíveis. Contudo, não podemos nos furtar a reconhecer que mesmo o índio vive dessa extração das forças vivas da natureza para sua subsistência. O que delimita sua diferença face ao ocidental é a visão de mundo que manifesta a natureza como um ente vivo e que, como tal, deve ser respeitado; e essa visão de mundo por si só já implica em uma mentalidade que orienta uma relação tal com o que se mostra como mundo ou natureza, para o índio, em que o sentimento de integração e harmonia com essa vitalidade natural configura um ethos holístico que não permite uma conduta coisificadora da natureza, portanto também do homem que nela se encontra inserido.

Ao que nos parece, a organização social da civilização ocidental se transforma em vários aspectos com o advento das ciências positivas da natureza que, ao longo desse processo histórico, vão sendo associadas à produção tecnológica, o que gera novas formas de organização da produção e da divisão do trabalho e preenche a necessidade de circulação de coisas a serem compradas e vendidas, ou seja, consumidas em meio à organização da civilização industrial determinada por uma economia política centrada na produção e circulação de mercadorias. O que se mantém oculto e fundamentalmente vigente em tal processo é que a própria natureza se mostra como a reunião das forças vivas que são esgotadas, isto é, consumidas para a manutenção desse estado de coisas; em suma, a natureza é coisificada para a produção maquinal de um mundo de coisas em que o próprio homem se vê coisificado, na medida em que se insere no mundo do trabalho em geral [ou assalariado em particular]. E antes que algum ocidental possa dizer que o índio é um preguiçoso e que não serve ao trabalho, podemos nos perguntar qual o tipo de revolução mundial poderá advir do fato de o homem euro-ocidental haver se erguido à condição de patrão do globo terrestre e convertido a totalidade da natureza à condição de trabalhadora, nem sequer assalariada, em um escravagismo que a coisifica e mortifica a fim de sustentar a opulência da riqueza e do consumo dos artigos de “alta cultura”, “cultura superior”, “belas artes”, “produções do espírito” e coisas afins.

Muito além do que Marx vislumbrou na forma do trabalho assalariado como causa do fenômeno da coisificação do homem, poderíamos nos perguntar em que medida a coisificação está intimamente ligada à exploração da força de trabalho humano e das forças vivas da natureza igualmente instrumentalizadas em qualquer modo de produção histórico, na medida em que desde que o homem é homem há divisão do trabalho, exploração do trabalho, luta pelo poderio (dialética entre senhor e escravo, antagonismo entre liberdade e necessidade, entre autonomia e alienação nas relações de propriedade dos meios e dos fins da produção), e na medida em que a proposta socialista visa à supressão da luta de classes e à felicidade humana do ponto de vista estritamente material na consumação do comunismo, visto que o espírito é reflexo das relações materiais, poderíamos nos perguntar em que medida o socialismo, sendo um produto interno que emerge no seio do modo de produção capitalista como sua contraposição igualmente necessária, não se apresenta como solução efetiva para a coisificação do homem visto que força o espírito a uma auto-interpretação da história puramente materialista, isto é, como história das coisas e mais propriamente da coisificação, a qual se iniciou desde a primeira vez em que um povo se lançou à dominação do outro e o escravizou, de modo a estabelecer privilégios de uma classe que vive de ócio, embora sustentada por toda uma infra-estrutura que só funciona ao modo de negócio. E se às vezes perguntamos: “que negócio é esse?” Isto significa que já é da essência do negócio ser uma coisa; assim, a palavra pode ser substituída por um sinônimo e a pergunta permanece a mesma: “que coisa é essa?”. Ao que responderíamos: “essa coisa que nos negocia, esse negócio que nos coisifica não é só a economia de mercado capitalista, mas sim o destino histórico de um ser vivo, o homem, que não pode furtar-se ao fato de ter de produzir e consumir e de, pelo trabalho, ter de forçar a produção espontânea da natureza a submeter-se à maquinação da produção do artificial, cuja forma de governo sempre imperou como tecnocracia.” 
  
Em certo período, quando o homem ocidental se lançou em busca de ouro e demais metais preciosos expandindo-se para além dos Oceanos em uma política mercantilista, quando afirmou que o negro não tinha alma e que isso justificava sua posição de escravo, ele roubou todo o ouro e preciosidade mais sagrada que morava no coração das culturas nativas que devastou, ele coisificou o negro a fim de garantir o porvir industrial do fetiche da mercadoria e da massificação dos fenômenos naturais como forças de trabalho alienadas de si mesmas e como entes vivos mortificados pelas fórmulas simbólicas de raciocínio e objetivação padronizadora dos eventos naturais em leis gerais... e hoje permanece, com sua Copa do Mundo, suas Olímpiadas, com suas corridas de Fórmula 1 e com toda indústria automobilística, permanece o homem ocidental europeu com seu nariz empinado e modos de comportamento requintado, com seu sotaque anglo-saxônico oferecendo benefícios financeiros e oportunidades de emprego no prostíbulo mundial da economia liberal, permanece esse vampiro zumbi sugando o sangue das montanhas e aniquilando a alma de quem não quer se meter em suas barganhas. É desse processo que falaremos um pouco com liberdade interpretativa e retórica própria ao falarmos da revolução Industrial e de seus desdobramentos.

Contudo, não poderíamos deixar de reconhecer que o acontecimento de porvir que força a facticidade histórica a um modo específico de concretização de sua efetividade na estrutura social, econômica e política não é efeito de um sujeito humano absoluto do mundo, pelo que não intentamos culpar o homem ocidental pelo processo que descrevemos, mas sim vislumbrar como o porvir histórico libera seu acontecimento a partir de tais ou quais atitudes e fatos que se instalam em tais ou quais lugares, através de tais ou quais povos ou culturas. Assim, não poderíamos culpar o povo inglês porque o porvir histórico determinou que a partir dali acontecesse o fato Revolução Industrial, do mesmo modo como não podemos culpar o povo alemão porque através dele se destinou o nazismo como evento histórico igualmente necessário; porém, não podemos deixar de reconhecer que somente em determinada circunstância e determinada localidade e tempo específico é que o porvir se torna presente histórico, fato vivido e coletivamente compartilhado de tal maneira que o puro presentar do tempo convoca o porvir ao seu advento. É assim que, como desdobramentos e consequências da Revolução Industrial, os fatos subsequentes se dão e, após acontecerem, são refletidos pelo espírito que se forma no rebuliço do palavrório dos homens de ciência que se crêem sabichões da realidade natural e histórica, material e espiritual. Também nós, ao escrevermos, figuramos como sabichões.                   
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A importância histórica que vislumbramos na assim chamada Revolução Industrial é o advento de uma prática econômica que visa ao lucro, o chamado capitalismo moderno em seus primórdios, fato que acompanha o movimento de “fechamento dos campos” na Inglaterra do século XVIII e promove um acontecimento que hoje se repete em diversos países; este acontecimento é a migração de população do campo a procura de melhores condições de vida e trabalho, formando assim uma massa de pessoas sem propriedade fadadas a vender sua força de trabalho às fábricas ou indústrias que se instalam nas cidades junto à crescente efervescência da economia de mercado. Nos campos, prevalece o latifúndio a fim de promover a produção agrícola em larga escala assim viabilizando comércio de mercadorias básicas para abastecer as cidades e dar alimento à máquina que vai se formando, a própria estrutura de funcionamento da economia de mercado que se instaura com a ruína gradativa do modo de produção feudal. A contrapartida disso é que a revolução socialista, tão esperada na industrializada Inglaterra, ocorre na Rússia de população ainda predominantemente rural, cujo campesinato formava a base do exército e se encontrava em situação difícil devido à organização latifundiária. Em vez de migração para as cidades e formação de mão-de-obra assalariada, barata e desempregada nos centros urbanos, a revolução promove nos campos a tão discutida “reforma agrária”; e é assim também que prevalece o pensamento revolucionário no Brasil atual, como coletivização da terra, o que é exatamente o contrário do “fechamento dos campos” e da expulsão da população camponesa para as cidades. 

            O processo de maquinação, ou de industrialização, da produção junto à prática econômica que visa ao lucro vai formando as condições materiais da sociedade na constituição de uma estrutura de relações mercantis e de propriedade que vão se formando de modo a estabelecer o modelo de produção de mercadorias. Isso promove uma reformulação do trabalho escravo e servil nos campos para a forma do trabalho assalariado nas fábricas ou indústrias e nas cidades de modo geral. Como a introdução de máquinas nas fábricas, fenômeno da Revolução Industrial, promove a alienação do trabalho, na medida em que o trabalhador vende sua força de trabalho por um salário do qual se retira um excedente da produção que sustenta a mais-valia, portanto o lucro e o consequente reinvestimento do capital na repetição multiplicadora do processo de geração do lucro, e como o trabalhador se vê alienado do processo inteiro de produção, portanto também do produto de seu trabalho, de tal modo que a mercadoria ganha vida e o ser homem sofre uma coisificação, uma espécie singular de materialismo vai se instalando no âmago da organização social e da civilização de modo geral.

O Capitalismo e a Revolução Industrial são adventos que abrem a possibilidade de interpretação meramente “materialista” do todo da história humana, e só a partir desse evento são possíveis uma interpretação socialista da organização do Estado e uma visão materialista histórico-dialética supostamente governada por uma lei teleológica de seu movimento interno a culminar em algo assim como o “comunismo”; para dizer em termos simples, “materialismo gera materialismo”; e o socialismo é uma alternativa idealizada a partir das condições materiais e espirituais criadas pelo próprio liberalismo econômico, passando pelos socialismos utópicos, alguns dos quais considerados por Marx “pequeno-burgueses”, até a pretensão de um “socialismo científico”.

Reconhecemos na Revolução Industrial a instauração da produção capitalista como tal, centrada na fabricação de mercadorias e no abuso do consumo pela formação de uma massa populacional assalariada que, sob o império atual do capital financeiro promovido pela estrutura bancária, está sempre endividada; ou se não endividada, de qualquer modo coisificada, na medida em que vive para o consumo, em relações sociais que mais se assemelham a negociações, compra e venda, oferta e procura, consumo, desperdício e reciclagem de mercadorias. Quem quer que seja otimista quanto ao avanço tecnológico, ao progresso social da educação, da medicina e da profissionalização já não pode escapar de toda uma estrutura de produção planejada de acordo com metas de menos custo e máximo de qualidade, máximo de quantidade em menos tempo, pois “tempo é dinheiro”. Com efeito, tudo se move como consequência e desdobramento da Revolução Industrial.

O caráter político da Revolução Francesa, o projeto de uma nação, de um Estado Laico de direitos, somente revela que no continente europeu havia uma (supra)estrutura de organização jurídica, a divisão das classes sociais por estamentos, a insistência na manutenção de privilégios obtidos por títulos de nobreza, as influências políticas da Igreja, a manutenção de uma classe ociosa por cobrança de impostos à atividade de uma economia liberal que se move pela “mão livre do mercado”, havia ali uma organização política, uma forma de governo que entravava a atividade que visa ao lucro tal qual ela já havia sido instaurada pela Revolução Industrial na Inglaterra. Somente a revolução política dessas condições pode desentravar o que já se dava na prática: o processo de instauração da prática econômica que visa ao lucro, a prática capitalista. E isso de tal maneira que a formação de nações independentes seja um fator importante de disseminação do capitalismo (materialismo da economia liberal) pelo mundo, cuja contrapartida é o socialismo (materialismo da política social de intervenção estatal) como produto da contradição interna do modo de produção capitalista.

Desse modo, o mesmo fenômeno se desdobra na formação da classe operária, a mão-de-obra assalariada, de tal modo que essas condições viabilizam uma Crítica da Economia Política com intuitos revolucionários, uma vez que a própria Revolução Francesa instaura o modelo e o projeto formativo de uma mentalidade revolucionária, influenciando outras nações; inclusive, a origem da dicotomia política “esquerda e direita” está fundada na oposição entre “radicais e moderados” da Assembléia Nacional Francesa; e só quando esse ímpeto revolucionário se dá em variadas nações (1815-1848), é que o brado seguinte pode ser ouvido em uníssono: “proletários de todos os países, uni-vos”. Com isso, o advento do Manifesto do Partido Comunista em 1848, já é vislumbrado em sua conexão com a Revolução Industrial, o mesmo sendo possível com todo resto de eventos históricos posteriores que foram ideologicamente influenciados por seu projeto de sociedade livre, igualitária e fraterna. Importa ressaltar que esses lemas (liberdade, igualdade, fraternidade) tanto podem ser considerados meramente “burgueses”, com um sentido de liberdade de mercado e supressão do intervencionismo de Estado na economia, igualdade de condições para competição de mercados entre os capitalistas e fraternidade entre os ricos e os que vivem de lucro e investimento de seus capitais, ou então: a liberdade da sociedade como ideal da supressão da dominação do homem pelo homem, igualdade como supressão da luta de classes pela coletivização da propriedade e das riquezas socialmente produzidas, e fraternidade como ausência de conflitos e guerras, sejam civis ou entre povos e nações distintos. O que queremos dizer com isso é que a Revolução Francesa como revolução burguesa, política e ideológica, em conexão com a Revolução Industrial, abre as condições históricas de radicalização do acontecimento global “revolução”, de modo que só a partir daí se instala realmente o ideal revolucionário como tal, assim também preparando o evento do ideal das revoluções socialistas e da própria compreensão crítica teórico-prática do sistema capitalista a partir de suas contradições internas, que o movem, o sustentam e o levam à dissolução até o surgimento de um modo de produção subsequente. Só a partir daí entra em cena a alternativa revolucionária socialista.  
   
A revolução tão esperada lá onde as condições aparentemente eram mais vívidas, as condições das contradições internas do sistema capitalista na Inglaterra, acontece em 1917 na Rússia. É a partir daí que o marxismo-leninismo chega à China, e a Revolução (mais uma, e esse termo virou moda) Cultural neste país destroça definitivamente uma cultura milenar, orientada pelo taoísmo e pelo budismo, que lá se introduzira historicamente advindo da Índia, fato que se reflete na intensa e sorrateira perseguição ao Falun Gong (http://www.youtube.com/watch?v=Zknjy5jiyuo&feature=relmfu) por parte do PCCh (Partido Comunista Chinês) em fins dos anos 90 até os dias atuais (do mesmo modo como a Revolução Industrial e suas consequências “des-espiritualizam” o ocidente judaico-cristão, imprimindo aí uma “revolução cultural” que forja uma mentalidade materialista, positivista, economicista, historicista, cientificista, ateísta e anti-tradicionalista ou “revolucionária”). Contudo, antes disso, a Inglaterra lá (na China) já havia se intrometido produzindo a Guerra do Ópio, artifício pelo qual o ocidente realiza seus objetivos de expansão do materialismo (Revolução Industrial, capitalismo, nacionalismo, socialismo, internacionalismo, Revolução...); mas não só a China, como toda Ásia, América e África são, cada uma à sua maneira, tomadas pelo movimento de expansão imperialista da Inglaterra e da França no século XIX, nações onde se dão respectivamente a Revolução Industrial e a Revolução Francesa, pelo que consideramos isso um aspecto relevante de compreensão dos desdobramentos da Revolução Industrial no mundo atual até os fenômenos hodiernos do neoliberalismo, da globalização e da ampla difusão da discussão sobre a democracia na sociedade contemporânea.

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Caracterização crítica da economia de mercado capitalista como desdobramento e consequência da Revolução Industrial no âmago da facticidade da existência humana em sua destinação para a desgraça:

            A fim de caracterizarmos a Revolução Industrial em sua força de propulsão da economia de mercado capitalista, partimos de algumas considerações de Hobsbawn. Segundo este historiador, no capítulo sobre a Revolução Industrial em sua obra A Era das Revoluções, apenas no século XIX se inicia uma ampla caracterização da sociedade capitalista pelas obras de arte em geral, de tal modo que se exprima conscientemente a dissolução dos laços sociais, com exceção dos laços entre ouro e papel moeda.

A partir da consideração da Revolução Industrial como sendo um episódio sem início ou fim, que dá um sentido à mudança revolucionária como norma, já se pode vislumbrar em que sentido os fatos históricos posteriores são desdobramentos da revolução industrial, como expusemos acima, na medida em que a ilusão da constante mudança na aceleração do tempo se efetiva como realidade sensível e incontrolável no efêmero fenômeno da ausência de sentido de viver que assola a humanidade em suas aspirações revolucionárias que ainda hoje não cessam e nas guerras mundiais que os desdobramentos da industrialização processam como formas de maquinação progressiva do homem, assim constituindo sua desgraça.

Apesar de a Revolução Industrial efetivar novas técnicas de produção e introduzir o uso de máquinas na produção fabril, Hobsbawn não aceita que se explique seu advento na Inglaterra a partir de inovações tecnológicas ou pelo progresso das ciências positivas naturais, visto que isto já acontecia, em maior grau até, no continente europeu, cujo centro sabemos ser a França, cuja revolução política vem a acontecer exatamente no intuito de efetivar o processo histórico, que tende a globalizar-se, e concretizar a economia de mercado pela revolução de estruturas de organização social e política, as do Antigo Regime, que preservavam um modelo ainda ligado ao modo de produção feudal em suas últimas formas de autoproteção até sua ruína definitiva. As condições adequadas para a Revolução Industrial acontecer na Inglaterra são o julgamento e a execução do rei pelo povo e a instauração do lucro privado e do progresso da economia liberal como finalidades insignes da política de governo. A caracterização da política em sua ligação à atividade que visa ao lucro nos permite reconhecer os fundamentos das teorias liberais do progresso da economia de mercado em sua suposta autoregulação e de sua contraposição teórica no projeto de uma Crítica da Economia Política de Marx, que pode, apesar de ser o título de uma de suas muitas obras, ser interpretado como título do projeto de usa obra como um todo.

Segundo Marx, toda produção é uma apropriação da natureza em uma dada forma de sociedade. Isso está no fundamento da interpretação das distintas relações de propriedade em conformidade aos modos de produção vigentes em cada era histórica, sustentados por conflitos e relações de dominação (contradições internas da sociedade) que se resolvem em transformações sociais infra e supra-estruturais. Todo modo de produção é, portanto, um modo de apropriação da natureza e da humanidade. Resta-nos caracterizar o modo de produção capitalista, ou seja, o modo da economia centrada na produção de mercadorias, como conclusivo objetivo de mostrar a essência dos desdobramentos da Revolução Industrial, a fim de interpretarmos o fado mundial da existência humana em sua facticidade desgraçada.

Evidentemente, qualquer um que tenha uma experiência singular afetiva poderá discordar de nossa interpretação acerca da facticidade cotidiana em que vivemos como destinação da desgraça; porém, uma verdadeira autocrítica se perguntaria em que medida tal afetividade se insere na vivência como um elemento fictício de auto-alienação em face da verdade histórica. Do mesmo modo, a mesma consciência autocrítica nos faz aceitar a posição de cada um, e nossa experiência própria nos permite aceitar a graça da desgraça em que nos vemos chafurdados, sem pensarmos que um pouco mais de carisma e simpatia poderia fazer de nós um pouco mais humanos, um pouco menos coisificados, mesmo quando toda nossa afetividade só é possível se mantida pelos padrões de relações sociais estabelecidos pelas trocas e reciprocidades entre mercadorias, e quando todo nosso afeto, na verdade e em sua essência, se dirige fundamentalmente ao consumo.

Assim, todo pensamento que se orienta por uma consciência de classe não pode se furtar a determinar, segundo seu afeto, o outro como amigável na medida em que faz parte da classe e, assim, é objeto da simpatia que conjuga as subjetividades em uma comunidade de consumo recíproco; ao contrário, no seio da ação de classificar, o sujeito que não se orienta pela homogeneidade subjetivo-afetiva da classe, ainda que a diferença de classes se explique segundo condições objetivas socialmente compartilhadas de exploração, tal sujeito não pode deixar de considerar sempre o outro como uma coisa da qual deva antipaticamente se afastar, na medida em que não pertença à sua classe; e isso é um fado de que a consciência classificatória não pode escapar, a saber, que tanto a simpatia quanto a antipatia se orientam pela classificação do sujeito como objeto, portanto pela coisificação do homem, assim fundando uma dialética que se configura como luta pela dominação, pelo que a ação exploratória só pode ser abandonada pela atitude, também discriminatória, de desprezo, menosprezo em que toda possibilidade de apreço nem sequer fornece um preço (valor) para a compra e venda da relação social, e a coisa, antes homem, perde a graça e se converte em não-coisa que se deixa largada na sub-sociedade de consumo da mendicância... por isso, gentileza gera gentileza... só-mente enquanto pobreza.  

A economia de mercado capitalista é o modo de produção cuja finalidade é produzir mercadorias, e é assim que se apropria da natureza de tal modo que o homem é, também, apropriado e determinado quanto à sua natureza como um produto de tal modo de produção. A mercadoria é unidade imediata de valor de uso e valor de troca e, como tal, só se efetiva na relação com outras mercadorias em seu processo de troca. Em tal processo o homem entra como portador de mercadorias, em que os indivíduos humanos se correlacionam multilateralmente, aparecendo um para o outro, como portadores de mercadoria. As relações sociais se dão entre mercadorias enquanto o homem circula por aí como coisa; é assim que um sujeito menospreza o outro por não usar a mesma mercadoria, pelo que não pode haver troca de mercadorias e relações sociais entre coisas; por exemplo: um estudante universitário marxista e revolucionário despreza um estudante de lógica porque este não quer se sentar ao bar e consumir cerveja e falar de futebol, coisas ou produtos capitalistas de cujo uso o estudante revolucionário não quer abdicar em suas relações coisificadas de socialização, ao passo que o estudante de lógica só quer ir para casa se divertir com alguns exercícios de cálculo proposicional, o que também não deixa de ser uma atividade de consumo de coisas que viabiliza o estabelecimento de algumas relações sociais entre mercadorias através de portadores de mercadorias ou entes humanos coisificados. Mas é somente pela compreensão da ontologia do dinheiro que podemos entender a desgraça destinada pela facticidade histórica de nosso ser-aí (da-sein ou existência) em sua cotidianidade histórico-dialeticamente determinada por uma civilização des-humana terminada mediante a exploração da natureza, pela produção do consumo, na coisificação do homem ex-terminada, terminantemente se terminando para fora de si, exteriorizando-se nos termos da coisa do trabalho, que é o negócio da exploração.

Antes de falarmos da ontologia ou metafísica do dinheiro, cuja culminância é a compreensão da determinação de uma existência humana des-graçada, precisamos entender o fenômeno da coisificação do homem pela alienação do trabalho, tal qual se dá na instalação da forma industrial do capitalismo, inaugurada pela Revolução Industrial. Trata-se de entender o fenômeno da mais-valia como produto da exploração do trabalho por parte do proprietário dos meios de produção. Como a força de trabalho dos operários é a única forma de valor de uso capaz de multiplicar valor, a exploração do trabalho força o trabalhador a vender sua força de trabalho em troca de um salário, assim tornando-se um valor de troca, ou seja, uma mercadoria como qualquer outra. Como o valor do trabalho se determina pela quantidade de trabalho necessária à produção, o capitalista prolonga ao máximo a duração do trabalho, produzindo assim um sobretrabalho que gera um sobreproduto, isto é, uma mais-valia não paga ao trabalhador que é reinvestida no processo de produção de mercadorias baseado em tal forma de exploração do trabalho. Além disso, a inserção de máquinas e a atribuição de uma única função ao trabalhador no todo do processo de produção retira do trabalhador o conhecimento do processo e a liberdade ou o domínio sobre o produto como obra de sua atividade consciente. Assim, a mercadoria ganha vida própria, o fetiche da mercadoria correspondendo à coisificação do homem; a alienação material correspondendo a uma alienação espiritual, posto que o trabalhador não é visto como consciência, mas como instrumento (e quem está livre disso hoje! Por acaso os capitalistas ou burgueses também não são coisas no interior do negócio, assim como os senhores são escravos da relação dialética em que aparecem como dominantes!? Quem pode estar acima do lógos que tudo rege e que é o todo do repousar movente de si mesmo ciente como ente que vem a ser para si efetivamente existente, seja como Universo, Natureza, História, Substância Infinita que se finitiza, devir do espírito ou metrô lotado da matéria bruta do trabalho assalariado!).

Caracteriza-se o movimento do capital em seu processo de produção e em seu processo de circulação como retorno do dinheiro ou da mercadoria ao capitalista. A forma acabada do capital é o capital a juros como unidade do processo de circulação e do processo de produção, em que se completa o fetiche automático de um valor que se valoriza a si mesmo, fenômeno em que o empréstimo a juros nunca alienará o dinheiro que sai das mãos do capitalista, visto que circulará como mercadoria e produzirá mais dinheiro, isto é, multiplicar-se-á e retornará à sua fonte, o capitalista. No entanto, Marx reconhece que o capital a juros é só um resultado da produção capitalista efetiva, pelo que um ataque reformista a ele não toca sua estrutura fundamental de funcionamento. Importa somente reconhecer a fórmula (D – M – D’) do dinheiro ou da mercadoria vendidos não como tais, mas como capital, em que ambos retornam da circulação ao capitalista não como dinheiro, mas como capital, visto que o dinheiro nunca fora alienado de fato como mercadoria, senão somente nas mãos de quem ele circula como capital produtivo ou industrial, cujo lucro deverá ser repassado, ao menos uma porcentagem dele, ao capitalista inicial como conservação e multiplicação do capital vendido para a circulação e reprodução. Assim, o dinheiro do capitalista é uma mercadoria que é vendida não como mercadoria, mas como valor de mercadoria ou dinheiro que se incrementa e retorna ao vendedor inicial como lucro do capital. O juro, porém, não é lucro, ele é o valor da mera propriedade do capital que transforma a propriedade do dinheiro em si na propriedade do capital, ou seja, no dinheiro ou mercadoria para si como valor que se autovaloriza. As condições de trabalho só se convertem, pois, em capital se seu funcionamento for uma não-propriedade para o trabalhador, uma propriedade alheia.

E é assim, como forma assalariada do trabalho no capitalismo moderno, que a existência humana é desgraçada pelas graças do dinheiro. Pois este é o objeto por excelência na medida em que possui a propriedade de apropriar-se de todos os objetos, constituindo-se como a realidade efetiva do mundo em sua objetividade (assim aberto como totalidade do ente intramundano ao ser-aí em sua facticidade desgraçada na circulação e produção de coisas, em uma intratemporalidade extasiada sempre atualizante de um porvir que se esquece de todo vigor-de-ter-sido essencialmente originário). Uma ontologia ou metafísica do dinheiro é possível por meio do capitalismo industrial, da indústria desenvolvida; daí advir a desgraça humana como consequência e desdobramento da Revolução Industrial. Pois é na sociedade industrial que a propriedade privada realiza a mediação da essência ontológica do desejo e das paixões humanas, conforme o verbete intitulado dinheiro dos Manuscritos-Econômico-Filosóficos de Karl Marx. A universalidade da qualidade do dinheiro como essência apropriadora da natureza humana em geral na sociedade industrial expressa sua onipotência na suprema impotência humana frente à dominação do homem pelo homem, na medida em que o dinheiro aparece como o bem supremo que converte em posse aquilo que não posso possuir senão através da compra.

O dinheiro é o poder onipotente de conversão da mera representação pensada em efetividade sensível para a fruição do desejo incoercível da paixão humana impotente inserida na sociedade de consumo e produção de mercadorias. O dinheiro realiza a mediação das relações sociais como relações entre coisas e comércio de paixões humanas. Marx o define como poder alienado da humanidade, visto que converte forças efetivas e essenciais em quimeras de puras representações abstratas e imaginárias, de tal maneira que estas, verdadeiramente impotentes, sejam transformadas em efetividades essenciais com poder real. O poder de inversão do dinheiro destrói os laços sociais essenciais: inverte a fidelidade em infidelidade, o amor em ódio, a virtude em vício... e vice-versa, de tal maneira que pesquisas científicas financiadas por agências de fomento (e eu sou bolsista porque não tenho dinheiro, o qual pode comprar minha ascensão social pela diplomacia e burocracia dos títulos acadêmicos) sejam somente a difusão de um flatus vocis comercial que esquece o saber fundamental como estar ciente (ciência) de que nada se sabe, esperando a morte como morte em um ser-para-a-morte próprio, autêntico-existencial, sob a tutela dos deuses no silencio do corpo que fala a transfigurar-se em alma alada que se cala, na luz do saber de que nada se sabe, e ascende espírito sem matéria até o brilho da aurora da demora repentina do começo, em que propriamente tudo se acabe, e eu desapareço (permanecendo ainda o mundo como vontade, e morrendo o mundo que eu sou como representação).

Todavia, embora o dinheiro inverta as qualidades humanas naturais, produzindo uma confusão geral que leva o homem à total aniquilação e impotência no fenômeno da coisificação de si, da natureza e de suas relações consigo mesmo e com os outros, se o homem não é visto como coisa e sua relação com o mundo não se transforma em mera maquinação, industrialização ou produção e consumo, a fim de torná-lo impotente diante da carência de uma vontade nunca saciada na catarse consumista do entretenimento e da busca por prazer que visa ao esquecimento da dor e da alheação do mundo do trabalho, se ainda é possível, como o índio, afirmar que não vai remover o petróleo porque este é o sangue da montanha, então talvez a potência do amor possa renascer no coração do homem-máquina coisificado pela economia capitalista de mercado. Assim, o índio, sem pegar em armas e pouco se importando com o devir indústria que o capitalista ocidental projetava como morte da montanha e extração de seu sangue, o índio pacificamente diria as seguintes palavras e seguiria tranquilo para o interior da floresta aguardando a dizimação de sua tribo com serenidade:

Se se pressupõe o homem como homem e sua relação com o mundo como uma relação humana, só se pode trocar amor por amor, confiança por confiança, etc. (...) Cada uma das relações com o homem – e com a natureza – deve ser uma exteriorização determinada da vida individual efetiva que se corresponda com o objeto da vontade. Se amas sem despertar amor, isto é, se teu amor, enquanto amor, não produz amor recíproco, se mediante tua exteriorização de vida como amante não te convertes em homem amado, teu amor é impotente, uma desgraça.[1]

            Por fim, estas palavras de Marx parecem expressar uma afirmação plena da liberdade do indivíduo em sua exteriorização espontânea, e não sua sujeição forçada ao rebuliço de discursos categóricos baseados em preceitos politiqueiros de classe, a não ser que isto seja de fato o objeto da vontade da pessoa. Isso serve de exemplo para marxistas que despotencializam a vontade alheia com sua propaganda ideológica forçada, sem antes perguntarem se o objeto de desejo ou amor da pessoa a que se dirigem é, de fato, uma revolução proletária ou uma visão materialista histórico-dialética da história, portanto da humanidade (e isso serve também para evolucionistas carrancudos que se autoconcebem como um tipo de transformação da matéria que vai assumindo gradativamente forma de macacos até chegar a essa porcaria de homem definhado sentado diante de uma máquina de computação digitando em teclados asneiras pseudofilosófico-científicas). De qualquer modo, a desgraça e o amor impotente do homem nascem com a máxima potenciação de si mesmo do dinheiro, a saber, com a Revolução Industrial operada na Grã-Bretanha (god save the queen! E não é a rainha uma figuração da terra? Pode o deus morto no ocultamento do ser (quadratura como unidade originária entre céu e terra, deuses e homens) no coração dos mortais ainda brilhar e des-bestializar a visão que o homem formou de si mesmo través do devir do espírito em matéria técno-digitalizada?). A Revolução Industrial promove a propulsão avassaladora do capitalismo moderno. Somente de sua contradição interna surge a oposição dialética do socialismo; a onda revolucionária sem freios desemboca sempre em surfistas reacionários ou poderes totalitários que se aproveitam do movimento para despencarem da crista da onda, e normalmente a humanidade inteira se afoga em caixotes e maremotos como guerras frias, corridas armamentistas, quedas de ditaduras e instauração de democracias liberais que incutem na mente das pessoas atitudes completamente amorais por meio de materialismos, cientificismos, positivismos, niilismos, evolucionismos, revolucionismos e coisas afins. Perguntamo-nos, pois: onde e quando a potência do homem? O índio já entra em extinção, e o sangue da montanha se esgota na diversão de alunos universitários que gostam de brincar de revolução, sentados em bares assistindo à Copa do Mundo e consumindo cerveja industrializada com rótulos que figuram em propagandas de televisão como roupagem de personalidades e ídolos exemplares para homens coisificados. O índio se extingue na não-extração do sangue da montanha, mendiga por aí uma afetividade sincera e sem barganha na solidão infinita da natureza que não estranha uma força de vontade que vige como vida eterna da montanha. O índio que não é força de trabalho também não é mercadoria na relação social do dinheiro com o dinheiro, do fetiche com o fetiche, na circulação de coisas ambulantes, pelo cotidiano cinza citadino, que se identificam pela moda de consumo em que potencializam suas paixões invertidas. O índio não sabe o que é dinheiro, mas sabe que petróleo é o sangue da montanha; por quanto tempo mais a montanha, a terra, a água, o ar, as almas em transmigração... suportam essa crucificação sacrificial em prol de uma vontade de poder simiesca que nada sabe quanto a nada saber sobre a vida, enquanto morre?                                                        



Bibliografia:
Hobsbawm, Eric J. A Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
_______________. A Era das Revoluções, 1789 - 1848. São Paulo: Paz e Terra. 2009.
Marx, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos - dinheiro. São Paulo, Abril Cultural. 1980.
_________. Para a Crítica da Economia PolíticaDo CapitalO rendimento e suas fontes. São Paulo, Abril Cultural. 2005. p.29, p.69, p. 187-196.  






    
             




[1] Marx, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos  - dinheiro. São Paulo, Abril Cultural. 1980. (p. 32).

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