A
coincidência de idéias desenvolvidas entre dois pensadores da literatura e da
filosofia, contemporâneos entre si e de reconhecimento universal, a respeito de
uma minuciosa análise da consciência humana, aparece a nós como uma conversa
amistosa entre dois espíritos de semelhante índole, que não tiveram a
oportunidade de encontrarem-se fisicamente, senão talvez metafisicamente em um plano superior, supra-sensível, o plano das
idéias e da atividade viva e pulsante do pensamento.
Uma
análise da profundidade formativa da consciência e dos modos que definem certas
afeições ou estados afetivos do sujeito
em vista de experiências pessoais, e ainda uma crítica da própria subjetividade
consciente como a priori, isto é,
anterior a determinações de ordem puramente fisiológica no processo de formação
da mente humana.
Isso e muito mais constituem o conteúdo das
obras que pretendemos comparar neste trabalho, as quais, partindo do
reconhecimento de que a singularidade idiossincrásica da vida e da existência é
determinante para todo o ser, ainda assim enunciam pontos de vista particulares
que não deixam de assumir verdadeiro valor universal, embora pontos de vista
completamente distintos não deixem também de ser valiosos pronunciamentos sobre
a sempre possível e passível de novas avaliações, esta que é o objeto único dos
grandes pensadores, a misteriosa e ainda não totalmente conhecida e explorada
natureza humana; ou como diria Nietzsche o
homem como natureza.
Sim,
na procura pela compreensão teórica da natureza humana, vemos estes dois
exemplares da referida espécie descobrindo nada mais nada menos que o próprio
homem como natureza. E quando
pretendem falar algo a respeito do humano em geral, esses dois filósofos só
podem falar da humanidade a partir de suas experiências pessoais.
Dostoievski
através de um outro, a personagem a narrar o conto memórias do subsolo, se por acaso considera a si mesmo um homem
decente, reconhece que só fala de si: “Dizei-me:
de que pode falar um homem decente, com o máximo prazer? Resposta: de si mesmo.
Pois bem, hei de falar de mim, também!”[1]
E
Nietzsche ao criticar com tanta raiva e aspereza o ideal de vida do sacerdote
ascético como determinação da vida dos filósofos até ele, apenas faz, a nosso
ver, uma auto-análise catártica a fim de purificar-se de elementos que o
incomodavam no subsolo mais profundo de sua consciência, as determinações
psíquicas da cultura cristã e da tradição filosófica moral na qual foi educado,
à procura de um eu mais original no
paganismo por ele interpretado sob a ótica da afirmação da vida ontologicamente
definida como vontade de poder.
Quando Nietzsche fala dos filósofos, a nosso
ver, não se exclui dessa categoria de seres humanos, a dos filósofos,
partindo-se do pressuposto de que o objeto central de preocupação dos filósofos
é a humanidade, um sentido geral do humano no qual espelham a universalidade de
sua própria experiência vital: “(...) Que
significa então o ideal ascético para um filósofo? (...) [pereça o mundo,
faça-se a filosofia, faça-se o filósofo, faça-se eu!” ][2]
Analisaremos
agora a Parte I do referido texto de Dostoievski e tentaremos fazer algumas
menções a temas desenvolvidos no também referido texto de Nietzsche, a fim de
estabelecermos uma conexão entre os pensamentos de ambos a respeito da análise
da consciência humana e do surgimento nesta de estados afetivos, talvez patológicos,
como ressentimento, culpa, desejo não realizado de vingança, rancor etc.
Em
sua narrativa, a personagem do conto de Dostoievski faz um explícito elogio do
que lá se denomina homens de ação,
talvez algo semelhante ao homem nobre
do qual Nietzsche nos fala em sua obra. No conto, a consciência em demasia é
vista como uma doença, um entrave para a ação e um tormento para a própria
pessoa.
Particularmente
o Capítulo 3 desta parte 1 de memórias do
subsolo é bem explícito e direto. Ali o homem de ação é visto como um homem
natural, ao qual o sentimento de vingança responde diretamente como uma ação
objetiva e imediata no sentido da justiça ou da justificação da própria ação,
ao passo que o homem de pensamento permanece num estado de inanição que cada
vez mais se afunda para dentro numa consciência hipertrofiada a reduzir sua
existência, metaforicamente falando, à de um camundongo.
As
semelhanças com Nietzsche são evidentes, pois o homem de ação identifica seu
sentimento de vingança ao de justiça, enquanto o homem de pensamento, o
camundongo, é incapaz de vingar-se e acumula as ofensas que sofre numa
consciência hipertrofiada a gerar mais e mais rancor, um rancor interior de
ordem sempiterna que mais e mais se internaliza numa existência auto-humilhante
a rastejar no subsolo da própria inanição da vida; um estado certamente
patológico da mente humana e altamente insalubre para os princípios vitais
ativos do corpo humano, pois instaura uma consciência de culpa, uma má
consciência, que se multiplica em ressentimentos sem fim para com a vida e a
existência em geral a partir da própria incapacidade para a ação.
Ainda
neste capítulo, a referência feita à descendência humana em relação aos símios
indica a animalidade como determinação para a humanidade; isso é um enunciado
presente no darwinismo e típico do século XIX, que permanece formando
mentalidades atualmente; apesar de Nietzsche rejeitar o darwinismo no §7 do
prólogo à genealogia, compartilha, no
entanto, da idéia comum daquele século de que o homem é animal, ou um ente natural, e deve ser considerado a
partir de determinações bio-fisiológicas, somente para as quais a consciência e
a inteligência em geral assumem um sentido negativo ou positivo conforme afirmem
ou neguem a vitalidade.
Esses
aspectos demonstram-nos como havia na época a pretensão de transvaloração dos
valores que até então haviam formado a mentalidade européia e humana em geral,
os valores religiosos e morais são desbancados por uma fria cientificidade da
natureza, por uma historicidade das idéias e do homem, destituindo de Deus e de tudo que se pretende eterno e
supra-sensível o poder de determinação do real.
Em
seu prólogo, Nietzsche é claro ao nos falar de suas intenções, o questionamento
do valor dos valores no que diz respeito aos conceitos de bem e mal, bom e mau,
bom e ruim, a separação de preconceitos teológicos e de uma origem moral desses
valores em uma instância sobre-natural e sobre-humana a determinar o mundo da
natureza e o da humanidade. Aqui nos isentamos de apresentar nossa visão
pessoal sobre o assunto; apenas temos em mente o que dizem Dostoievski e
Nietzsche.
Nietzsche
se vê levado a investigar as condições originárias do ajuizamento moral humano
a respeito do que se considera bom ou mau de duas perspectivas distintas, a do
homem nobre e a do escravo, assim como Dostoievski nos apresenta os exemplos do
homem de ação e do homem de pensamento, este último o camundongo a rastejar no
esgoto do subsolo da própria consciência ressentida.
No
§10 da primeira dissertação é bem perceptível a comparação, já que ali os bem
nascidos da estirpe dos nobres são claramente postos como homens de força,
plenamente ativos, para os quais a inteligência constitui mero refinamento, ao
passo que para o homem do ressentimento a inteligência assumirá importância
maior em vista de seu entrave para ação e de sua submissão física aos mais
fortes.
Posteriormente
e por causa de tal situação, os submetidos desenvolverão uma consciência maior
e até gregária, serão mais perspicazes e menos impulsivos, pelo que fomentarão
uma revolta contra as raças nobres, invertendo seus valores e estabelecendo uma
regra sacerdotal e moral para a vida a partir de conceitos como culpa, pecado
etc. a fim de abrandar os instintos animais e ativos primordiais e afogá-los no
subsolo de uma consciência hipertrofiada, a má consciência.
É
assim que Nietzsche determinará nesta primeira dissertação uma guerra constante
de valores na consciência humana, os valores plenamente afirmativos da vida
como vontade de poder presentes na
antiga aristocracia guerreira romana e grega contra os valores sacerdotais de
moral ascética presentes na religiosidade judaica e que fundamentam o
cristianismo como elemento formador da mentalidade do europeu moderno; enfim,
os homens de ação e os de inteligência, os homens do agir imediato e impulsivo
e os do agir calculado mediado por expectativas futuras e pautado em esperanças
de além-vida sob a vigilância de um Deus
punitivo.
No
capítulo 5 de memórias do subsolo,
Dostoievski fala reiteradamente dos homens ativos como parvos e limitados que
tomam as causas mais próximas como causas primeiras, encontrando assim o
fundamento de suas ações e a rápida justiça em sua vingança. Ao contrário, o
homem inteligente se mantém inerte e se afoga em múltiplas dúvidas na procura
por causas encadeadas sobre causas, no que consiste a natureza da consciência
ela mesma e do ato do pensar como entrave da ação. Disso, ele conclui que a
vingança de um homem excessivamente consciente é mais vil, pois não encontra a
imediata noção de justiça honesta no sentimento de retribuição, pelo que se
ressente e exerce a vingança por mera maldade, e não por reta justiça.
Essas
reflexões são importantes porque nelas subjaz uma profunda análise da formação
humana no âmbito da cultura, que é o lugar próprio em que o homem vem a ser
enquanto tal; a consciência é um conceito forjado pela cultura a fim de
determinar o humano para a fundamentação da civilização em detrimento da
afirmação da vida. Assim, Dostoievski diz no capítulo 7, mais precisamente nas
páginas 160 e 161, que o homem é
suavizado pela civilização e que antes era sanguinário sem peso de
consciência, ao passo que hodiernamente considera o ser sanguinário uma
ignomínia e ainda assim não se limita a fazê-lo de modo pior, mais cruel. E
Nietzsche nos fala:
“Supondo
que fosse verdadeiro o que agora se crê como “verdade”, ou seja, que o sentido de toda cultura é amestrar o
animal de rapina “homem”, reduzi-lo a um animal manso e civilizado, doméstico, então deveríamos sem dúvida
tomar aqueles instintos de reação e ressentimento (...) como os autênticos instrumentos da cultura; (...)”[3]
Tendo
isso em vista, a ideia da crueldade como substrato da cultura, presente na
origem dos valores morais religiosos e da justiça, bem como de todo sistema
jurídico punitivo a carregar a ideia de castigo, aparece nos dois pensadores e
expressa claramente nas palavras de Nietzsche no parágrafo 5 da segunda
dissertação:
“(...)
Através da “punição” ao devedor, o credor participa de um direito dos senhores; experimenta enfim a sensação exaltada de
poder desprezar e maltratar alguém como “inferior” – ou então, no caso em que o
poder de execução da pena já passou à autoridade, poder ao menos vê-lo desprezado e maltratado. A
compensação consiste, portanto, em um convite e um direito à crueldade.”[4]
A questão da
origem do sentimento de culpa na relação credor/devedor é muito bem exposta no
parágrafo 8 da segunda dissertação da genealogia
da moral. É que somente esses homens de ação, os nobres, estariam em uma
condição favorável, mais próximos da reta noção de justiça, para eles mesmos
estabelecerem valores para as ações, as coisas, as relações, a vida, a
humanidade... e assim executarem a lei sem entraves e valores de ressentimentos
oriundos de uma má consciência, a consciência de culpa.
Do mesmo modo, ao longo dos
capítulos 8 e 9 de memórias do subsolo,
Dostoievski argumentará que a razão não pode sobrepor-se ao ato do querer, que
manifesta a própria vida, para Nietzsche a vontade
de poder em sentido ontológico e orgânico, e que, se fosse possível
unirem-se razão e vontade, não seria possível querer algo nocivo a si mesmo,
como o querem os sacerdotes ascéticos tão criticados na terceira dissertação da
genealogia, pois é preferível ainda querer o nada a nada querer[5], o
que expressa a vontade como elemento fundamental da vida.
Bem ao início do capítulo 9,
Dostoievski se pergunta pela necessidade de correção da vontade humana, no
sentido de que esta quer o processar-se da busca pelo objetivo e não o alcance
final deste, que resultaria na morte do pulsar da vitalidade volitiva. Mas essa
correção dada pela moral ascética, diria Nietzsche, é o elemento da cultura
moderna, judaico-cristã, que configura o humano sob o rígido racionalismo e
logicismo da metafísica da consciência e do sujeito calcada na gramática da
linguagem, cuja crítica Nietzsche exprime claramente no parágrafo número 13 da
primeira dissertação, no qual é negado o ser (sujeito/consciência) por trás do
fazer, do agir, do devir. E, junto com o que já foi exposto sobre os homens de
ação e os homens de consciência, segundo Dostoievski, concluímos este trabalho
com uma fala de Nietzsche, e outra de Heidegger:
“(...)
O homem ativo, violento, excessivo, está sempre bem mais próximo da justiça que
o reativo; pois ele não necessita em absoluto avaliar seu objeto de modo falso
e parcial, como faz, como tem que fazer o homem reativo. Efetivamente por isso
o homem agressivo(...) em todas as épocas possui o olho mais livre, a consciência melhor:
inversamente, já se sabe quem carrega na consciência a invenção da “má
consciência” – o homem do ressentimento!” [6]
Ora, parece certo que o homem mais
propício para ajuizar e valorar o real seria este homem sem ressentimento, para
o qual a ação não é entravada por um impulso repressor e formador de uma
consciência calculista e acumuladora de experiências negativas, que só depois
de não mais suportar seu escuro interior, em que rasteja como camundongo de seu
subsolo, lança-se odiosamente a uma ação vingativa repleta de culpabilidade,
gerando assim remorso na consciência. Este tema é tão essencial para a
compreensão da existência humana que Heidegger toca no assunto, ao falar da
morte como reivindicação do da-sein
(pre-sença) para sua própria singularidade, assumindo a possibilidade
irremissível e constitutiva de si mesmo no ser-para-a-morte
como o poder-ser essencial que aniquila todas as possibilidades da pre-sença
como ser-no-mundo:“(...) Antecipando, a pre-sença evita recuar
para trás de si mesma e da compreensão de seu poder-ser, evitando “tornar-se
velha demais para suas vitórias” (Nietzsche). (HEIDEGGER, 1989, p. 48).
BIBLIOGRAFIA:
DOSTOIEVSKI,
Fiódor.
Memórias do Subterrâneo. Obra Completa, Volume II. Rio de Janeiro: Editora Nova
Aguilar, 2008.
NIETZSCHE,
Friedrich. Genealogia da Moral;
tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. – São Paulo: Companhia das
Letras, 1998.
HEIDEGGER,
Martin. Ser e Tempo; parte II, § 53.
Petrópolis: Vozes, 1989, p. 48.
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