quinta-feira, 27 de junho de 2013

Nietzsche-Dostoeivski

A coincidência de idéias desenvolvidas entre dois pensadores da literatura e da filosofia, contemporâneos entre si e de reconhecimento universal, a respeito de uma minuciosa análise da consciência humana, aparece a nós como uma conversa amistosa entre dois espíritos de semelhante índole, que não tiveram a oportunidade de encontrarem-se fisicamente, senão talvez metafisicamente em um plano superior, supra-sensível, o plano das idéias e da atividade viva e pulsante do pensamento.   
Uma análise da profundidade formativa da consciência e dos modos que definem certas afeições ou estados afetivos do sujeito em vista de experiências pessoais, e ainda uma crítica da própria subjetividade consciente como a priori, isto é, anterior a determinações de ordem puramente fisiológica no processo de formação da mente humana.
 Isso e muito mais constituem o conteúdo das obras que pretendemos comparar neste trabalho, as quais, partindo do reconhecimento de que a singularidade idiossincrásica da vida e da existência é determinante para todo o ser, ainda assim enunciam pontos de vista particulares que não deixam de assumir verdadeiro valor universal, embora pontos de vista completamente distintos não deixem também de ser valiosos pronunciamentos sobre a sempre possível e passível de novas avaliações, esta que é o objeto único dos grandes pensadores, a misteriosa e ainda não totalmente conhecida e explorada natureza humana; ou como diria Nietzsche o homem como natureza.
Sim, na procura pela compreensão teórica da natureza humana, vemos estes dois exemplares da referida espécie descobrindo nada mais nada menos que o próprio homem como natureza. E quando pretendem falar algo a respeito do humano em geral, esses dois filósofos só podem falar da humanidade a partir de suas experiências pessoais.
Dostoievski através de um outro, a personagem a narrar o conto memórias do subsolo, se por acaso considera a si mesmo um homem decente, reconhece que só fala de si: “Dizei-me: de que pode falar um homem decente, com o máximo prazer? Resposta: de si mesmo. Pois bem, hei de falar de mim, também!”[1]
E Nietzsche ao criticar com tanta raiva e aspereza o ideal de vida do sacerdote ascético como determinação da vida dos filósofos até ele, apenas faz, a nosso ver, uma auto-análise catártica a fim de purificar-se de elementos que o incomodavam no subsolo mais profundo de sua consciência, as determinações psíquicas da cultura cristã e da tradição filosófica moral na qual foi educado, à procura de um eu mais original no paganismo por ele interpretado sob a ótica da afirmação da vida ontologicamente definida como vontade de poder.
 Quando Nietzsche fala dos filósofos, a nosso ver, não se exclui dessa categoria de seres humanos, a dos filósofos, partindo-se do pressuposto de que o objeto central de preocupação dos filósofos é a humanidade, um sentido geral do humano no qual espelham a universalidade de sua própria experiência vital: “(...) Que significa então o ideal ascético para um filósofo? (...) [pereça o mundo, faça-se a filosofia, faça-se o filósofo, faça-se eu!” ][2]
Analisaremos agora a Parte I do referido texto de Dostoievski e tentaremos fazer algumas menções a temas desenvolvidos no também referido texto de Nietzsche, a fim de estabelecermos uma conexão entre os pensamentos de ambos a respeito da análise da consciência humana e do surgimento nesta de estados afetivos, talvez patológicos, como ressentimento, culpa, desejo não realizado de vingança, rancor etc.
Em sua narrativa, a personagem do conto de Dostoievski faz um explícito elogio do que lá se denomina homens de ação, talvez algo semelhante ao homem nobre do qual Nietzsche nos fala em sua obra. No conto, a consciência em demasia é vista como uma doença, um entrave para a ação e um tormento para a própria pessoa.
Particularmente o Capítulo 3 desta parte 1 de memórias do subsolo é bem explícito e direto. Ali o homem de ação é visto como um homem natural, ao qual o sentimento de vingança responde diretamente como uma ação objetiva e imediata no sentido da justiça ou da justificação da própria ação, ao passo que o homem de pensamento permanece num estado de inanição que cada vez mais se afunda para dentro numa consciência hipertrofiada a reduzir sua existência, metaforicamente falando, à de um camundongo.
As semelhanças com Nietzsche são evidentes, pois o homem de ação identifica seu sentimento de vingança ao de justiça, enquanto o homem de pensamento, o camundongo, é incapaz de vingar-se e acumula as ofensas que sofre numa consciência hipertrofiada a gerar mais e mais rancor, um rancor interior de ordem sempiterna que mais e mais se internaliza numa existência auto-humilhante a rastejar no subsolo da própria inanição da vida; um estado certamente patológico da mente humana e altamente insalubre para os princípios vitais ativos do corpo humano, pois instaura uma consciência de culpa, uma má consciência, que se multiplica em ressentimentos sem fim para com a vida e a existência em geral a partir da própria incapacidade para a ação.     
Ainda neste capítulo, a referência feita à descendência humana em relação aos símios indica a animalidade como determinação para a humanidade; isso é um enunciado presente no darwinismo e típico do século XIX, que permanece formando mentalidades atualmente; apesar de Nietzsche rejeitar o darwinismo no §7 do prólogo à genealogia, compartilha, no entanto, da idéia comum daquele século de que o homem é animal, ou um ente natural, e deve ser considerado a partir de determinações bio-fisiológicas, somente para as quais a consciência e a inteligência em geral assumem um sentido negativo ou positivo conforme afirmem ou neguem a vitalidade.
Esses aspectos demonstram-nos como havia na época a pretensão de transvaloração dos valores que até então haviam formado a mentalidade européia e humana em geral, os valores religiosos e morais são desbancados por uma fria cientificidade da natureza, por uma historicidade das idéias e do homem, destituindo de Deus e de tudo que se pretende eterno e supra-sensível o poder de determinação do real.
Em seu prólogo, Nietzsche é claro ao nos falar de suas intenções, o questionamento do valor dos valores no que diz respeito aos conceitos de bem e mal, bom e mau, bom e ruim, a separação de preconceitos teológicos e de uma origem moral desses valores em uma instância sobre-natural e sobre-humana a determinar o mundo da natureza e o da humanidade. Aqui nos isentamos de apresentar nossa visão pessoal sobre o assunto; apenas temos em mente o que dizem Dostoievski e Nietzsche.
Nietzsche se vê levado a investigar as condições originárias do ajuizamento moral humano a respeito do que se considera bom ou mau de duas perspectivas distintas, a do homem nobre e a do escravo, assim como Dostoievski nos apresenta os exemplos do homem de ação e do homem de pensamento, este último o camundongo a rastejar no esgoto do subsolo da própria consciência ressentida.
No §10 da primeira dissertação é bem perceptível a comparação, já que ali os bem nascidos da estirpe dos nobres são claramente postos como homens de força, plenamente ativos, para os quais a inteligência constitui mero refinamento, ao passo que para o homem do ressentimento a inteligência assumirá importância maior em vista de seu entrave para ação e de sua submissão física aos mais fortes.
Posteriormente e por causa de tal situação, os submetidos desenvolverão uma consciência maior e até gregária, serão mais perspicazes e menos impulsivos, pelo que fomentarão uma revolta contra as raças nobres, invertendo seus valores e estabelecendo uma regra sacerdotal e moral para a vida a partir de conceitos como culpa, pecado etc. a fim de abrandar os instintos animais e ativos primordiais e afogá-los no subsolo de uma consciência hipertrofiada, a má consciência.
É assim que Nietzsche determinará nesta primeira dissertação uma guerra constante de valores na consciência humana, os valores plenamente afirmativos da vida como vontade de poder presentes na antiga aristocracia guerreira romana e grega contra os valores sacerdotais de moral ascética presentes na religiosidade judaica e que fundamentam o cristianismo como elemento formador da mentalidade do europeu moderno; enfim, os homens de ação e os de inteligência, os homens do agir imediato e impulsivo e os do agir calculado mediado por expectativas futuras e pautado em esperanças de além-vida sob a vigilância de um Deus punitivo.
No capítulo 5 de memórias do subsolo, Dostoievski fala reiteradamente dos homens ativos como parvos e limitados que tomam as causas mais próximas como causas primeiras, encontrando assim o fundamento de suas ações e a rápida justiça em sua vingança. Ao contrário, o homem inteligente se mantém inerte e se afoga em múltiplas dúvidas na procura por causas encadeadas sobre causas, no que consiste a natureza da consciência ela mesma e do ato do pensar como entrave da ação. Disso, ele conclui que a vingança de um homem excessivamente consciente é mais vil, pois não encontra a imediata noção de justiça honesta no sentimento de retribuição, pelo que se ressente e exerce a vingança por mera maldade, e não por reta justiça. 
Essas reflexões são importantes porque nelas subjaz uma profunda análise da formação humana no âmbito da cultura, que é o lugar próprio em que o homem vem a ser enquanto tal; a consciência é um conceito forjado pela cultura a fim de determinar o humano para a fundamentação da civilização em detrimento da afirmação da vida. Assim, Dostoievski diz no capítulo 7, mais precisamente nas páginas 160 e 161, que o homem é suavizado pela civilização e que antes era sanguinário sem peso de consciência, ao passo que hodiernamente considera o ser sanguinário uma ignomínia e ainda assim não se limita a fazê-lo de modo pior, mais cruel. E Nietzsche nos fala:
“Supondo que fosse verdadeiro o que agora se crê como “verdade”, ou seja, que o sentido de toda cultura é amestrar o animal de rapina “homem”, reduzi-lo a um animal manso e civilizado, doméstico, então deveríamos sem dúvida tomar aqueles instintos de reação e ressentimento (...) como os autênticos instrumentos da cultura; (...)”[3]
Tendo isso em vista, a ideia da crueldade como substrato da cultura, presente na origem dos valores morais religiosos e da justiça, bem como de todo sistema jurídico punitivo a carregar a ideia de castigo, aparece nos dois pensadores e expressa claramente nas palavras de Nietzsche no parágrafo 5 da segunda dissertação:
“(...) Através da “punição” ao devedor, o credor participa de um direito dos senhores; experimenta enfim a sensação exaltada de poder desprezar e maltratar alguém como “inferior” – ou então, no caso em que o poder de execução da pena já passou à autoridade, poder ao menos vê-lo desprezado e maltratado. A compensação consiste, portanto, em um convite e um direito à crueldade.”[4]    
                A questão da origem do sentimento de culpa na relação credor/devedor é muito bem exposta no parágrafo 8 da segunda dissertação da genealogia da moral. É que somente esses homens de ação, os nobres, estariam em uma condição favorável, mais próximos da reta noção de justiça, para eles mesmos estabelecerem valores para as ações, as coisas, as relações, a vida, a humanidade... e assim executarem a lei sem entraves e valores de ressentimentos oriundos de uma má consciência, a consciência de culpa.
            Do mesmo modo, ao longo dos capítulos 8 e 9 de memórias do subsolo, Dostoievski argumentará que a razão não pode sobrepor-se ao ato do querer, que manifesta a própria vida, para Nietzsche a vontade de poder em sentido ontológico e orgânico, e que, se fosse possível unirem-se razão e vontade, não seria possível querer algo nocivo a si mesmo, como o querem os sacerdotes ascéticos tão criticados na terceira dissertação da genealogia, pois é preferível ainda querer o nada a nada querer[5], o que expressa a vontade como elemento fundamental da vida.
            Bem ao início do capítulo 9, Dostoievski se pergunta pela necessidade de correção da vontade humana, no sentido de que esta quer o processar-se da busca pelo objetivo e não o alcance final deste, que resultaria na morte do pulsar da vitalidade volitiva. Mas essa correção dada pela moral ascética, diria Nietzsche, é o elemento da cultura moderna, judaico-cristã, que configura o humano sob o rígido racionalismo e logicismo da metafísica da consciência e do sujeito calcada na gramática da linguagem, cuja crítica Nietzsche exprime claramente no parágrafo número 13 da primeira dissertação, no qual é negado o ser (sujeito/consciência) por trás do fazer, do agir, do devir. E, junto com o que já foi exposto sobre os homens de ação e os homens de consciência, segundo Dostoievski, concluímos este trabalho com uma fala de Nietzsche, e outra de Heidegger:
“(...) O homem ativo, violento, excessivo, está sempre bem mais próximo da justiça que o reativo; pois ele não necessita em absoluto avaliar seu objeto de modo falso e parcial, como faz, como tem que fazer o homem reativo. Efetivamente por isso o homem agressivo(...) em todas as épocas possui o olho mais livre, a consciência melhor: inversamente, já se sabe quem carrega na consciência a invenção da “má consciência” – o homem do ressentimento!” [6]
            Ora, parece certo que o homem mais propício para ajuizar e valorar o real seria este homem sem ressentimento, para o qual a ação não é entravada por um impulso repressor e formador de uma consciência calculista e acumuladora de experiências negativas, que só depois de não mais suportar seu escuro interior, em que rasteja como camundongo de seu subsolo, lança-se odiosamente a uma ação vingativa repleta de culpabilidade, gerando assim remorso na consciência. Este tema é tão essencial para a compreensão da existência humana que Heidegger toca no assunto, ao falar da morte como reivindicação do da-sein (pre-sença) para sua própria singularidade, assumindo a possibilidade irremissível e constitutiva de si mesmo no ser-para-a-morte como o poder-ser essencial que aniquila todas as possibilidades da pre-sença como ser-no-mundo:“(...) Antecipando, a pre-sença evita recuar para trás de si mesma e da compreensão de seu poder-ser, evitando “tornar-se velha demais para suas vitórias” (Nietzsche). (HEIDEGGER, 1989, p. 48).
    

BIBLIOGRAFIA:

DOSTOIEVSKI, Fiódor. Memórias do Subterrâneo. Obra Completa, Volume II. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2008.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral; tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. – São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo; parte II, § 53. Petrópolis: Vozes, 1989, p. 48.









[1] DOSTOIEVSKI, Fiódor. Memórias do Subsolo. 2008,  p. 145.
[2] NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral; terceira dissertação, §7, 1998, p. 97.
[3] Idem. Primeira dissertação §11.
[4] Idem. Segunda dissertação §5.
[5] Idem. Terceira Dissertação, §1.
[6] Idem. Segunda Dissertação, §11.

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