quarta-feira, 5 de junho de 2013

Heidegger pedagôgo.

Introdução:

Martin Heidegger é um filósofo alemão que viveu entre 1889-1976 e atravessou os eventos da Segunda Guerra Mundial. Ele procura refletir a respeito do sentido da existência humana e das origens da metafísica e da conexão desta com a constituição do pensamento ocidental ao longo das épocas (retrações) historiais do ser; e para realizar tal empreitada, ele submete a determinação do sentido da existência à revisão da questão historial da metafísica, o sentido do ser, a qual historicamente se converteu na metafísica moderna da subjetividade, assumindo a forma da fundamentação de um conhecimento seguro sobre a realidade (teoria do conhecimento).

Segundo ele, a metafísica tem um destino historial, sua degeneração nas ciências positivas (ciências da história e ciências do espírito ou do homem); isso significa que a história da metafísica é a história do esquecimento do ser. Enquanto Heidegger rememorava essa história da correspondência entre ser e pensar, sob a ótica da leitura da verdade como desvelamento, a segunda guerra explodia a totalidade do ente (mundo como ente intramundano), porque a humanidade é, em seu ser, sem fundamento: com o anúncio da Morte de Deus consuma-se também a derrocada do projeto da modernidade de constituição do homem sob o ponto de vista da racionalidade; com a morte de Deus, morre o animal racional, e este se converte em pulsão (animalidade) de calcular (racionalidade).

O que é calculado é a totalidade do ente (natureza como fundo de reserva para usufruto da produção humana, que é um modo de o ser se retrair (epoché ou suspensão) em sua verdade como manifestação da dominação técnica e científica do homem sobre a terra). A forma histórica de uma disputa pelo poder dessa atividade de calcular (dominar) o mundo, entre as nações, (explosões de bombas atômicas, guerras pelo poder, corrida armamentista) é somente a materialização da ausência de fundamentos para a existência humana. Habermas acredita poder resolver esses problemas mediante sua noção de Razão Comunicativa, retomando assim o problema da razão e da dialética da intersubjetividade em um sentido ético-político. Mas para Heidegger, que influenciará o existencialismo ateu de Sartre, a derrocada da determinação metafísica do homem como animal racional exige a interpretação da existência a partir do abandono da noção de substancialidade. Assim ele precisa empreender uma analítica do Dasein (ser-aí).


A essência do ser-aí é sua existência

1º momento

Derelição - Sentimento de abandono, estar jogado no mundo e abandonado à própria sorte e à responsabilidade de si mesmo; o ser-aí é um ente que, sendo ou existindo, está na situação de jogado no mundo, ou seja, a sua existência está sempre em jogo, projetando-se para além de si mesma (transcendência) e escolhendo suas possibilidades fáticas.

Ser-aí - modo de ser da existência (homem), ente aberto para o ser (presentação, fenômeno) ou para a compreensão de ser; o ser-aí é o ente que pode compreender o ser. Ser-aí é ser-no-mundo ou cuidado, cura (Sorge). Ser-no-mundo é a estrutura do ente cuja existência está sempre em jogo no mundo que o cerca, no cotidiano, na ocupação com as coisas dentro do mundo e na preocupação com as outras existências (homens) (preocupação - estrutura de ser-uns-com-os-outros).

Cura – Constituição do ser (ontológica) do ser-aí como cuidado consigo mesmo e com o mundo ao seu redor (situação do ser-aí em meio às realizações e à dinâmica da vida como um todo).

Desse modo, entende-se que o ser-aí é um ente de projeto, uma constante relação instável consigo mesmo, em existindo, seu ser está posto em jogo na mundanização, na constituição de mundo em que se abre o sentido do ser para o homem; este é sempre jogado, enquanto existe, em uma dinâmica temporal de realizações e de escolhas de sua possibilidade de ser; seu fundamento (substância) é seu poder-ser enquanto realização de sua finitude no mundo. Assim, a existência humana ou o ser-aí é livre; sua liberdade constitui o movimento para transcender a si mesmo e conquistar seu próprio ser (ser-para-a-morte – a antecipação da única possibilidade irremissível do ser-aí, a possibilidade que anula todas as outras possibilidades do projeto existencial; a antecipação ou presentação da morte se manifesta como angústia).

2º momento

Existência inautêntica - três aspectos: facticidade, existencialidade ou transcendência e ruína ou decadência.

Facticidade – Fato de estar jogado no mundo em meio a condicionamentos geográficos, históricos, sociais e econômicos. O fato de estar-lançado no mundo indica o já ser-em-um-mundo e mostra o fenômeno do mundo radicado na estrutura ontológico-existencial de ser-no-mundo, pela qual a espacialidade do ser-aí não mais se compreende como um sujeito (eu) destituído de mundo, isto é, como uma substância (ser-simplesmente-dado) pensante pré-existente à situação de existir de fato.

Existencialidade ou transcendência – Existência interior pessoal, considerando o homem como ser que se projeta para fora (existe), sem ultrapassar os limites de si mesmo e do mundo em que está inserido, isto é, do mundo que o circunda e constitui o mundo de sua circunstância ou situação (mundo circundante; onde ocorrem as dinâmicas de realização das possibilidades e das escolhas de si mesmo do existente). Caracteriza a existência como projeto de ser, como projeção temporal de seu ser nas possibilidades de escolha de si mesmo.

Ruína ou Decadência – Perda de si-mesmo na ocupação (ser-junto-a) com o ente intramundano (manual, instrumento, coisa simplesmente dada) e na preocupação (ser-com) com os outros entes dotados do caráter de pre-sença ou ser-aí. O ser-aí se perde no mundo das ocupações e se desvia de seu projeto essencial em prol do cotidiano, da distração e da perturbação, confundindo-se ao anonimato da massa social e da opinião pública. O ser-si-mesmo do ser-aí se perde no modo como as coisas são feitas por todos, assim cai no impessoal ou impróprio que se expressa na partícula “se” em ditos que indicam um sujeito indeterminado, por exemplo: faz-se assim, faz-se assado, costuma-se fazer assim. Essa indeterminação do sujeito ou do si-mesmo do ser-aí objetiva a existência humana e lhe empurra para um estado de indiferença quanto a si mesmo e quanto a tudo; a existência se comporta como coisa ou objeto, objeto da opinião pública e da objetivação de tudo para todos. Assim, a existência se perde de si mesma e decai na impessoalidade do discurso para justificar a não-escolha de si mesma. Assim, Heidegger diz no §6 de Ser e Tempo:

“A pre-sença [ser-aí] não tem somente a tendência de de-cair no mundo em que é e está, e de interpretar a si mesma pela luz que dele emana. Juntamente com isso, a pre-sença também de-cai em sua tradição, apreendida de modo mais ou menos explícito. A tradição lhe retira a capacidade de se guiar por si mesma, de questionar e escolher a si mesma.”


Existência autêntica – O homem é apropriado de tal modo pelo ser mesmo que o ser-homem acontece em sua propriedade (ipseidade, finitude, singularidade, solidão). Assim, o homem emerge da própria angústia (presença do nada) em seu poder-ser mais próprio (ser-para-a-morte) como o ser-aí que ele é, em existindo, a saber: como abertura para a presentação do ser/nada. Assim, o homem pode reconduzir-se a si mesmo como o lugar da irrupção de uma totalidade de sentido autossignificativa, juntando os fragmentos de si dispersos na monotonia e na indiferença da vida cotidiana. É assim que o homem pode converter sua angústia em serenidade, e compreender sua existência como uma caminhada pelos bosques solitários do pensar, pois o permanente em um pensamento é o caminho. Heidegger, como Aristóteles, era um peripatético.

*

Partimos da ideia do aprender a aprender, a qual se fundamenta em uma concepção do saber como algo que está em devir. Como o homem é o ser pensante por excelência, e como o tema nos convoca à compreensão temporal da finitude e da ausência de fundamentos e de substancialidade para a existência humana, então incorporamos o espírito da coisa mesma tanto no processo de planejamento prévio como no ato mesmo de ensino-aprendizagem junto à turma. Assim, o lema o permanente em um pensamento é o caminho, frase do autor estudado, foi escolhido para significar pedagogicamente a aprendizagem como ensino e o ensino como aprendizagem; isto se traduz na fórmula aprender a aprender que exprime, pedagogicamente, o ideal do ser como o devir sereno de uma caminhada, assim como Aristóteles lecionava, no Liceu, passeando, caminhando.

Aristóteles e os peripatéticos caminhavam a contemplar acerca do motor imóvel, o que move sem ser movido; a permanência sempre diante de si mesma da inteligência cujo objeto é si mesma, como atividade de intelecção e reflexão; o pensamento permanente é o pensamento a caminho, a caminho do ser; disso só se pode conceber que, pedagogicamente, no âmbito da formação humana, resta tão somente aprender a aprender. Caminhamos permanentemente o pensamento do caminho, permanecemos a caminhar na permanência do pensar.

A Lógica do Caminho (método-logia) estratégico-procedimental consiste simplesmente em percorrer o caminho do lógos (do pensamento e da palavra), a fim de que o entendimento seja iluminado pela dádiva autodoadora da verdade do ser, que repercute no âmago da essência originária do homem como o ente que existe e, insistindo na abertura para a presentificação, transcende a si mesmo a cada vez e reinaugura o sentido de seu ser, sem extrapolar o seu poder-ser mais próprio: projeto de ser, angústia, solidão e finitude, ser-para-a-morte.

O pensamento de Martin Heidegger nos encaminha para uma compreensão contemporânea do sentido da existência humana (finita) no mundo, bem como sua ligação com o sentido da técnica ou ciência moderna como decadência da Razão. Contudo, nossos objetivos pedagógicos limitam-se somente a des-envolver, no alunato, a capacidade de apreender o sentido do aprendizado, segundo a pedagogia da dialética do ensino-aprendizagem em devir, a saber: aprender a aprender; e isso em muito contribui para que possamos reconhecer nossos próprios limites e nos sentirmos bem com isso, sem desespero ou angústia, permanecendo serenos em nossa existência temporal no mundo, uma serenidade que muito se assemelha ao ideal helênico de ataraxia.

 A presença é o ser-aí, o modo próprio de ser da existência, homem. O homem é o ente em que se dá apropriadamente o advento histórico do pensar; o homem é pensamento e pode muito bem afirmar: penso, logo existo ou existo, logo penso. Assim, a frase O permanente no pensamento é o caminho, de Heidegger, permite uma nova compreensão da existência humana enquanto ente que pensa, à luz da autodeterminação da presença humana no mundo como ser-aí, cuja essência é sua existência, face à tradição substancialista da metafísica moderna da subjetividade centrada na definição de homem como animal racional, a qual necessariamente redunda em psicologismos de cunho cognitivista, destinando assim a existência humana para o funcionamento maquinal das técnicas produtivas hauridas da degeneração da filosofia em mera teoria do conhecimento ou epistemologia (fundamentação do conhecimento veraz e seguro das ciências positivas; filosofia como mera lógica da investigação científica após o abandono da metafísica ao fracasso histórico da humanidade).

Do mesmo modo, o pensar enquanto caminhada pela palavra inaugura novamente o sentido de lecionar, que vem do Liceu de Aristóteles, como um passeio tranquilo pelas veredas do pensamento, o saber certo de si mesmo enquanto devir e promoção do movimento do advento (desvelamento) do ser ao pensar, e deste ao enunciar (lógos apophantikós) enquanto palavra que mostra o sentido, a ideia, a forma; assim pensamos o sentido da formação humana pelas vias do saber, pois este devém em amor pelo saber, desejo pelo que move sem ser movido, que repercute em nossas almas mortais como desejo de imortalidade e motor da história como vida do espírito, até a forma do saber que sabe a si mesmo, a forma do Absoluto como síntese dialética do sujeito lógico transcendental e do objeto (natureza como fenômeno); essa síntese é a Razão.     
 


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