CASTORIADIS: O PROJETO CRÍTICO DO
CICLO DA LÓGICA CONÍDICA E DA ONTOLOGIA UNITÁRIA EM SOBRE O POLÍTICO DE PLATÃO.
Reconhecemos a imensidão dos
conteúdos discutidos na obra sobre o político de Platão de Cornelius
Castoriadis. Por isso, tentaremos identificar e desenvolver nesta obra uma
questão principal que envolva a discussão de seus muitos temas e referências no
seio da totalidade da cultura filosófica ocidental ao longo de sua história.
Não que sejamos aptos para tal empreendimento, não que estejamos no nível de
uma compreensão global dessa imensidão, mas o desenvolvimento da filosofia,
portanto da ciência e do mundo por ela construído, perpassa as questões ali
discutidas como elementos fundamentais de constituição do arcabouço de
significações pelas quais se dá a criação do ser, especialmente do ser humano,
cuja essência enquanto humanidade e deliberação constante e incessante a
respeito dessa essência ao longo da sua história é também um produto desse
proceder criativo no âmbito singular da cultura filosófica ocidental enraizada
na grecidade.
E em nossa colocação já se percebe
algo de que não se pode escapar e que talvez constitua a questão principal que
pretendemos abordar. Com efeito, nós dissemos anteriormente: tentaremos
identificar... E é exatamente essa tentativa de identificar que constitui a
questão primordial, a saber, a necessidade de identidade que subjaz a todo
significar próprio da linguagem e do fazer humano, pelo qual este se constrói
no seio da cultura, da cidade, de sua morada, de sua habitação, de seu ethos
próprio, somente no interior e na acolhida do qual o humano vem a ser o que
é, autocriação do ser pela prática deliberativa através da dialética constante
entre o esquema imaginário social instituído, que molda a psique humana
coletiva e individualmente, e a atividade da imaginação criadora e instituinte,
que como fluxo representativo a absorver o instituído sai de sua onipotência
originária no imaginário radical para o movimento de socialização, a fim de
constituir-se como projeto de autonomia em meio à heteronomia em que se
determina a ser.
*
Importa recordar que a principal
questão é a antropológica e perpassa a indagação pela redução do humano ao mero
cognitivismo. Trabalhar com as idéias da repetição e do hábito, já execradas da
educação, é um tema que encontra sua positividade em Aristóteles. A
determinação da capacidade cognitiva de aprendizagem envolve fatores sociais e
históricos, bem como circunstâncias de ordem até mesmo afetiva. Então, tenha-se
em vista que o hábito é o que se adquire no habitat da coletividade, no
contexto grego a pólis ou cidade, e é a habitação onde o homem reside
enquanto humano; fora desse habitar não há humanidade.
Partindo do esquecimento das
reflexões dos pensadores antigos nas teorias contemporâneas da educação, temos
Werner Jaeger como exemplo de reflexão filosófica sobre a educação,
reconhecendo-o, antes de tudo, como investigador filosófico, e não somente
histórico.
Ele analisa a Paidéia grega
como formação humana no seio da cultura. Paidéia designa a cultura como
formação do indivíduo humano no seio da comunidade social. Ao estudar
Aristóteles, Jaeger procura organizar a obra aristotélica conforme certo
desenvolvimento temporal. Os primeiros escritos do estagirita seriam mais
próximos do idealismo, ou realismo das idéias, sob influência platônica.
Segundo Castoriadis, a
periodização da obra de um autor corresponde aos interesses teóricos de quem a
organiza e é determinada por fatores social-históricos. A teoria do
hilemorfismo de Aristóteles se desenvolveu a partir de sua crítica a Platão, da
relação entre a idéia inteligível e o que a manifesta sensivelmente, entre o
universal e o particular. E isso tudo estará ali no texto em questão: Sobre
o Político de Platão; a questão do antigrecismo de Platão pela subordinação
do fazer político ao saber teórico da política figurado na pessoa do epistemon;
um saber que é régio e legitima o poder do monarca que é seu portador, uma
idéia que mais se assemelha à realeza dos Persas que à democracia dos gregos
(p.193).
Por isso, Castoriadis percebe um
antigrecismo ou uma reconstrução do esquema imaginário dos gregos em Platão e
explica isso quando trata do Mito de Cronos, pondo a visão de mundo de Platão
face à de Demócrito, Tucídides, Heródoto e Hesíodo. Na Cosmologia grega do
século V há uma autoformação espontânea do universo, bem como espontâneo é seu
processo de autodeformação: é a idéia da gênesis e da phtorá, da
criação e da destruição; do mesmo modo, e lembrando a citação do Protágoras,
o processo histórico de constituição da civilização humana é um processo de
autoconstituição do humano, idéia da qual Castoriadis parece partilhar.
Ao contrário disso, Platão formula
uma cosmologia distinta a partir da formação do mundo pela atividade do
demiurgo, cujo sentido nos foi dado nas aulas como demos-urgos =
trabalhador do demos, distrito ou cidade, sendo o urgos
procedente de ergon, obra; o demiurgo é o obreiro ou trabalhador da
cidade. Essa imagem nos mostra a natureza do verdadeiro político como sendo
aquele portador do saber real capaz de tecer a estrutura da cidade e governá-la
em sua ordem sem a lei escrita, que é um mal menor e necessário na ausência do
sábio régio, o político. Do mesmo modo que o político tece a cidade, o demiurgo
tece o universo atribuindo o ser das formas ao devir cambiante da matéria, com
a qual o Cosmos é produzido e, por conta da matéria de que se constitui, tende
à destruição, à perda das formas.
Aqui estamos já introduzindo o
tema que Castoriadis reconhece como de suma importância para o desenvolvimento
da filosofia ocidental ao longo da história e das sociedades no seio do mundo
construído pelo esquema imaginário de mundo do ocidente, a saber, a articulação
entre psicologia, cosmologia e ontologia. E já que falamos de ontologia, falamos
também de lógica, pois a busca pelo ser é a busca pela identidade do que é e
está sendo, e o princípio de identidade é o axioma fundamental e indemonstrável
da lógica. E já que falamos de psicologia, falamos de uma noção de psique
que modernamente se converte em subjetividade cognoscente determinada pela
atividade operacional do cálculo do que é e está sendo e se reduz a máquina
produtora de conhecimentos. E já que falamos de cosmologia, falamos da própria
totalidade do que é e está sendo, o ser, a physis, a ordem ou Cosmos, ou
a desordem a que se atribui ordem pela capacidade formadora da subjetividade
humana, que é a ação autoconstitutiva do humano que perpassa também a criação
de mundo e de significação pela linguagem, no qual o humano possa habitar e se
constituir como animal deliberante nas vias do projeto de autonomia.
*
Esclareçamos um pouco a idéia do ethos
humano, do habitat, da habitação ou morada, somente no seio do quê o
humano adquire o hábito de ser humano e se refaz enquanto hábito de deliberar e
questionar o habitual de seu habitar, a fim de constituir-se nos rumos do
projeto de autonomia.
Recorremos a Aristóteles para tal
empreitada e aproveitamos para indicar a plausibilidade do que estamos tentando
fazer, um simples texto baseado em sobre o político de Platão, pois
Castoriadis mesmo é que procede a uma determinada leitura de Platão que parece
preparar o terreno para a filosofia de Aristóteles e, assim, semear a terra na
qual se desenvolvem a planta e todos os frutos do saber ocidental em geral ao
longo da história.
Basta ler o primeiro parágrafo do
Seminário de 26 de março de 1986, no qual se fala do diálogo platônico O
Político como pertencente a um período de passagem de uma posse do saber
teórico epistêmico, somente a partir do qual se elabora o modelo perfeito da
cidade, para o período do misto entre matéria e forma, hylè e eidos,
que não admite mais a redução do ser real à idéia do ser, fertilizando assim o
terreno do saber para Aristóteles. Em sua fase final, segundo Castoriadis,
Platão introduz a questão da mistura do mesmo e do outro através da compreensão
do ser total como partícipe da matéria; o eidos necessariamente se
confunde à hylè.
Além disso, o Seminário de 5 de
março é claro ao apresentar a tríade cosmologia/psicologia/ontologia como
determinações importantes do pensar ocidental e das sociedades ao longo das
eras, sendo esta tríade pensada por Castoriadis no interior da filosofia
clássica composta pela dupla Platão/Aristóteles. Nesses termos de compreensão,
compreende-se o que Castoriadis denomina pensamento herdado da tradição,
cujo ciclo se fecha em Heidegger, o qual somente constata o fechamento do ciclo
da ontologia unitária sem apresentar-lhe alternativa.
Em Aristóteles, pensar o humano é
pensar o vivente, e isso inclui a animalidade. Mas o que difere o humano de
outros viventes é que ele estabelece princípios morais (éticos). O interesse de
Aristóteles é a ação humana do ponto de vista ético, pois somente o animal
capaz de deliberar é um vivente ético; e mesmo sendo capazes de instrução e memória,
os animais não são capazes de reminiscência.
Isso que se chama instrução será
denominado aprendizagem por Castoriadis. A aquisição de um comportamento, de um
sentido, e a capacidade de cálculo são elementos da aprendizagem, o que não se
exclui da animalidade em geral. Mas o projeto de autonomia, de autocriação pela
capacidade de deliberação é próprio do humano. Isso envolve a diferença entre
memória e reminiscência, em cujos detalhes não entraremos aqui, apenas
ressaltando a importância da reminiscência na teoria da anamnese na gnosiologia
platônica. O essencial nessa diferença é que a reminiscência é intencional e
consciente, um tipo de raciocínio deliberado, enquanto a memória está ligada à
sensação imediata da coisa e à sua imagem correspondente; essa diferença deve
ser compreendida pela teoria da alma de Aristóteles, que recusa a imortalidade
da alma da psicologia de Platão, atribuindo um novo sentido ao termo
reminiscência.
Retornemos sem nos perder ao ethos
humano a fim de determinarmos bem qual é o ambiente em que se institui seu
habitar, e no habitar o hábito de instituir através do deliberar que recria os
hábitos instituídos e seus esquemas de instituição no interior de um operar
sistemático da lógica conjuntista-identitária e da ontologia unitária, que a
tudo pretendem conjuntificar no conjunto do logos identitário, no seio do qual reside o
ser como ciclo que evolve na circunferência e no fechamento de si, posto que se
determina na determinidade de si como identidade. Aristóteles é quem nos fala:
“(...)Somente o homem, entre todos os animais, possui
o dom da palavra; a voz indica dor e prazer, e por essa razão é que ela foi
outorgada aos outros animais. Eles chegam a sentir sensações de dor e prazer, e
fazerem-se entender entre si. A palavra, contudo, tem a finalidade de fazer
entender o que é útil ou prejudicial, e consequentemente, o que é justo e o
injusto. O que, especificamente, diferencia o homem é que ele sabe distinguir o
bem do mal, o justo do que não é, e assim todos os sentimentos dessa ordem cuja
comunicação forma exatamente a família do Estado.”[1]
Ora, o homem se difere por possuir
o dom da palavra, somente pelo qual delibera e institui valores e
sentimentos ético-morais. A comunicação desses valores e sentimentos constitui
ou dá forma à família do Estado, isto é, à cidade, a pólis. Esse é o habitat
do homem, no qual seu ethos é possível no logos, na enunciação de
valor e sentido. O logos traz o sentido (ser) do mundo, e o próprio
mundo vem a ser e, com isso, é criado como mundo do homem, mundo que faz
sentido para o homem e que permite a existência humana. A abertura de sentido e
de mundo para o homem no seio do logos aconteceu originalmente como physis;
essa abertura é a própria physis, a brotação do ser pela palavra (logos).
O ethos humano é pois o logos, somente pelo qual é possível
instituir valores e constituir a cidade, a pólis, a habitação do homem
na qual este é o politikós, o cidadão do demos cujo governo (cracia)
é a democracia, que delibera sobre
esse governo em sua constituição (politeia) e no deliberar se recria à
luz do projeto de autonomia.
O termo physis designava
esse surgimento e vigência do mundo como ente múltiplo em sua
totalidade, o ser-total pensado na cosmologia. Esse surgimento e essa
vigência se dão somente na palavra, no logos que reúne e conjuntifica o
múltiplo na unidade identitária, o ser do que é e está sendo; e nisso o ethos
humano. A separação dessas três instâncias em disciplinas específicas
configura a especialização do saber e a delimitação das regiões distintas de
entes a serem pensados como objetos de uma ciência: a ética, a lógica e
a física.
Assim vai se constituindo o saber
do ser dos entes como metafísica, e esta como a raiz do saber do ser no
ocidente, determinando o modo ocidental de se fazer ciência e delineando o
fundamento da gnosiologia moderna a partir da relação de conhecimento entre um sujeito
e um objeto; o primeiro como executor da ação de conhecer, o segundo
como o que é conhecido e cognoscível, ou seja, passível de sujeitar-se à
atividade cognoscente de um sujeito, cuja enérgeia é, no interior da
essência volitiva da vontade de vontade, operação e processamento de dados,
informações, fenômenos, representações ou conhecimentos, culminância do imperar
da técnica na consumação da metafísica.
Essa é resumidamente a visão de
Heidegger, aquele que constata o fechamento do ciclo da ontologia unitária e da
lógica conjuntista-identitária do ocidente sem sair dele. Julgamos importantes
essas questões porque temos em vista as últimas duas páginas do Seminário de 5
de março da obra de Castoriadis que ora é nosso material elementar de estudo.
Ali Platão é visto como ponto de
delimitação de uma segunda criação da filosofia, cujo ciclo se fecha em
Heidegger. Este pensador alemão é exatamente quem diz que a especificação do
saber nas três disciplinas da ética, lógica e física cria a escolarização e
ramificação do saber nas ciências e determina o morrer do pensamento originário,
ao destinar-se a técnica do pensar no surgir da filosofia como metafísica,
destinando a metafísica do ocidente como história do ser esquecido, ou do ser
velado, o tema do esquecimento do ser, assim estruturando as formas de conhecer
hoje dispostas de maneira regulamentada nas academias como saber oficial de regiões
específicas do saber sobre os entes (ciências), saber este compartimentado em
disciplinas específicas no interior de uma mesma ciência.
Segundo Heidegger, é com Platão e
Aristóteles que se dá essa destinação do ocidente nos rumos da metafísica, cuja
consumação, desde seus primórdios já destinada, acontece no imperar da técnica.
E já que chegamos ao império da técnica, ao fechamento do ciclo da lógica conjuntista-identitária
e da ontologia unitária, e já que isso tem relação com o logos,
passaremos agora ao que Castoriadis nos diz acerca do legein e do teukhein.
E precisamente agora nos
situaremos rapidamente na obra A Instituição Imaginária da Sociedade, mais
precisamente na Segunda Parte onde se trata de o imaginário social e a
instituição, apenas para termos uma rápida compreensão do legein e
do teukhein, os quais, se não são também o ethos do homem, são no
mínimo elementos fundamentais de constituição desse ethos, no qual se dá
o ser como autocriação no seio de sua compreensão como criação social-histórica.
*
A
questão da sociedade e da história é uma única e a mesma, a do
social-histórico. O pensamento herdado está limitado a uma visão fragmentária
dessa questão. A lógica e a ontologia tradicionais apenas pensam a história e a
sociedade sob a questão identitária do ser, isto é, enquanto entes que são;
nisso, a questão do ser, ontologia, pressupõe a determinidade que lhe acompanha
a partir da lógica como sua determinação, pois o sentido do ser é o do algo
determinado e uno, desde a metafísica de Aristóteles, somente a partir do quê
todo ente é passível de categorização e de ser entendido em sua “realidade” ou
“objetividade”.
Castoriadis
também empreende uma crítica da visão teleológica (causalista e finalista) da
história: Hegel e Marx; a história como evolver do Espírito ou da Razão, ou
como produção e trabalho sobre a natureza e evolver materialista.
As
noções de imaginário radical e social-histórico, porém, implicam profunda
problematização das significações proporcionadas pela tradição do ser como
determinidade e da lógica como determinação. Só o conceito de imaginário
radical é capaz de alcançar o significado de ser e pensar em uma instância mais
originária, como indeterminação, pois a indeterminação originária dos conceitos
fundamentais desde Aristóteles, passando por Kant, Hegel, Marx e Freud, como
instituição imaginária social-histórica, é o que permanece velado em todas
essas teorias.
Identifica-se
essa lógica-ontologia tradicional com o seu enraizamento na instituição da vida
social-histórica, como uma necessidade que não pode ser eliminada. Essa lógica
tem como núcleo o que Castoriadis denomina “identitário” ou “conjuntista”, a
própria determinação dessa lógica, a partir das instituições básicas da vida
social, a saber: o legein e o teukhein.
O legein
é o que permite o surgimento do logos, da lógica: o
representar/dizer social em sua dimensão identitária é o legein e
significa escolher-pôr-juntar-contar-dizer; o componente que o representa é o
“código”. O teukhein é a dimensão identitária do fazer social como
elemento funcional ou instrumental; deste termo vem techné, técnica, a
significar o juntar-ajustar-fabricar-construir. Sem esses dois elementos da
lógica identitária-conjuntista não há instituição da vida social.
A
lógica-ontologia tradicional se encontra em uma antinomia, pois não esgota seu
modo de ser e simultaneamente possui uma exigência interna de esgotamento de
todos os seus estratos possíveis, pelo que se reconhece sua natureza de lógica
da determinação a partir de suas especificações e de seus esquemas estendidos à
sociedade e à história nas formas de fisicalismo, logicismo, causalismo e
finalismo, nas relações de causa e efeito, de meio a fim, ou de implicação
lógica.
O modo
de operar dessa lógica é tal que põe essas relações como elementos de um
conjunto, somente a partir do que se podem determinar, a partir de tais
posições, as oposições referentes ao saber do que é verdadeiro e plenamente
determinado; além de qualificar esses elementos como entes físicos ou termos
lógicos. Daí chamar-se lógica identitária ou conjuntista.
Por
isso, uma oposição entre saber absoluto e absoluto não-saber, Hegel-Górgias,
permanece ainda como dialética operacional no interior da lógica identitária do
ser como determinidade, pois se algo existisse, seria determinado; ora, se nada
é, se não há ser, essa indeterminidade gorgiana ainda reside no mesmo âmbito do
ser ou da existência sob o critério da determinidade, ou seja, que para ser
(existir), tem que haver determinação.
E aqui
chegamos onde queríamos para entrarmos mais especificamente no tema central que
retiramos de Sobre o Político de Platão
de Castoriadis, localizado mais precisamente no Seminário do dia 5 de março de
1986. Acima se falou a respeito da lógica herdada pela tradição como
determinação do ser, e deste como determinidade na ontologia unitária da mesma
tradição, e sua referência ao legein e
ao teukhein, a partir dos quais se
institui a vida social-histórica. Mas queremos abordar aqui essa
lógica-ontologia do pensamento herdado enquanto esquema imaginário pelo qual o
ocidental se permitiu categorizar o real e dispô-lo em formas determinadas do
ente-total como o que se pode ou se deixa conhecer, formar, representar, criar;
nisso, compreende-se toda a questão sobre indução e dedução, apriorismo
inatista e empirismo, e a questão dos paradigmas e do proceder analógico ou
metafórico no qual o particular e o universal se dão simultaneamente.
A
categorização do real sob a categoria primordial do ser como determinidade é
algo que está compreendido no referido seminário, quando lá se discute sobre a
questão da melhor maneira de definição, de divisão segundo as formas, as eidè, somente a partir das quais a
matéria se deixa conhecer e o mundo se permite formar sob a ordem da divisão em
gêneros e espécies pela identificação das formas de cada ente; operação
semelhante, no processo humano de conhecer, à que o demiurgo opera ao criar o ente múltiplo em sua totalidade como
ordem, ou seja, cosmos.
Aqui
fazemos uma nova referência a Heidegger, relativamente à operação demiúrgica de
imprimir as formas na matéria, cuja natureza é uma tendência e possibilidade de
receber as formas [com efeito, a matéria é o substrato de indeterminação do ser-em-potência de toda natureza (physis) como movimento de geração e
corrupção; a forma é a substância de determinação do ser-em-ato de toda natureza (physis),
como momento intermédio do movimento do gerar ao corromper, na perfeição da
junção hilemórfica de matéria e forma entre o princípio de geração (gênesis) e o de destruição (phtorá) no plano das substâncias
sub-lunares, que, por força da própria matéria, assim como tendem à perfeição e
plena atividade da forma pela geração, também tendem à imperfeição pela
destruição da forma; isso não por culpa do demiurgo, mas por causa da matéria e
da lei da necessidade, ananké]. O que
queremos dizer é que o logos que
conjuntifica o real, o faz como uma ação de imprimir ao que é devir o caráter
de ser, e isso conforme o uso e a necessidade do humano, no dito aristotélico;
e em referência ao dito de Anaximandro, que muito nos teria a dizer sobre essa
noção de mundo e de matéria como tendência a gerar-se e a assumir forma na
mesma medida em que tende a corromper-se e perder forma, segundo as leis
inexoráveis da necessidade (ananké) e
do tempo (cronos), Heidegger diz:
“A sentença fala do ente múltiplo em sua totalidade
(...). No cume da consumação da filosofia ocidental pronuncia-se a palavra:
“Imprimir ao devir o caráter de ser – eis a suprema vontade de poder.” É a isto
que Nietzsche escreve, numa observação intitulada: Recapitulação”. (...) “O
ser” que Nietzsche aqui pensa é o “eterno retorno do mesmo”. Este eterno
retorno é o modo da constância, na qual a vontade de poder se quer ela mesma e
assegura sua própria presença como ser do devir. Na extrema consumação da metafísica,
emerge da palavra o ser do ente.”[2].
A essas reflexões que temos feito
acrescentaríamos outras mais detalhadas sobre os problemas levantados no
Seminário do dia 5 de março: a questão da melhor divisão, dos gêneros e das
espécies, das relações entre parte e todo, uno e múltiplo, particular e
universal e de sua simultaneidade, o que a nosso ver anula uma pergunta pelo
raciocínio mais adequado como lógica das ciências, a indução ou a dedução, o
apriorismo e o inatismo ou o extremo empirismo; a discussão com Chomsky sobre a
estrutura a priori da gramática na
mente humana; a articulação da tríade cosmologia/ontologia/psicologia em Platão
e Aristóteles como pensamento herdado; a discussão da teoria da anamnese e da
imortalidade da alma em Platão e sua relação com a cosmologia da criação do
mundo pelo demiurgo, bem como sua relação com a ontologia das formas impressas
na matéria; a rejeição de Aristóteles da imortalidade da alma, e sua teoria
hilemórfica da imanência das essências (ousiai)
ou formas (èide) na matéria; a
questão de Platão referente ao conhecimento do sensível–material como cópia a
partir dos modelos e dos paradigmas para aqueles objetos que não possuem
materialidade e a partir dos quais se dá a organização ou conjuntificação dos
entes sob a determinação da Idéias supremas, bem como a questão de como
conhecer se já não conhecemos previamente.
E depois de uma detalhada
discussão sobre os problemas fundamentais da história da filosofia expostos no
Seminário do dia 5, sob a articulação entre psicologia, cosmologia e ontologia
em Platão e Aristóteles, como determinação de todo pensamento herdado cujo
ciclo se fecha em Heidegger, o arauto da consumação da metafísica no imperar da
técnica como vigência mais que velada do esquecimento do ser na diferença entre
ser e ente a fundamentar a metafísica ocidental ao longo das eras,
concluiríamos junto com Castoriadis acerca da necessidade da retomada da
questão do ser a partir da tripla partição já mencionada.
Castoriadis requer que essa
retomada não constate somente o fechamento do ciclo no reconhecimento de que o
ser se autocria, como temporalidade, e de que nisso o sujeito se reconhece como
capacidade de conhecer o ser, mas sim de que essa capacidade de se autocriar
como subjetividade psíquica social-histórica e individual recria novamente as matrizes originárias nas e pelas quais se
fez a autocriação do ser. [3] Pois Castoriadis pretende que seja possível
sair do ciclo do pensamento a partir do reconhecimento de que a subjetividade
humana reinventa para si todo um esquema imaginário que vem a ser congruente a
um estrato do ser dado.
E aqui já nos encontramos nas
esclarecedoras primeiras páginas do seminário de 12 de março de 1986. Ali se
reconhece essa articulação triádica já mencionada, a saber, a unidade de uma
cosmologia, de uma psicologia e de uma ontologia em Platão determinando os
rumos de toda filosofia ocidental até Heidegger. Reconhece-se a necessidade de
ordenamento do conhecimento, do que se reconhece a alma (psique), que na modernidade se torna sujeito transcendental, como
faculdade à qual se refere o ser mais abstrato (ontologia) e o ser como
totalidade do ente (cosmologia), a totalidade do que é está sendo, o Cosmos, o
mundo.
Em
Platão a alma conhece o que já conhecera antes em um nível de imaterialidade,
porque contemplara as essências, ou melhor, as Formas (èide) com as quais o demiurgo criou o Cosmos na matéria cambiante,
imprimindo ao devir o caráter de ser. Assim, o próprio Cosmos participa dessas
Formas projetadas na matéria, o que possibilita à alma recordar-se do que havia
contemplado antes de ser presa neste corpo também sujeito à geração e à
corrupção do mundo sub-lunar. Mas aqui cairíamos no processo dedutivo que
subordina o particular ao universal, os entes materiais da sensibilidade às
formas imateriais da inteligibilidade.
Em
Aristóteles a alma não é imortal, ela é uma capacidade ou faculdade de
apreensão dos sentidos, cujo engano se dá no logos que quer dizer algo de outro algo, atribuindo algo a algo num
raciocinar operante sobre as complexões dos sentidos e das significações. O
conhecimento dos entes materiais é assegurado pela imanência da forma na
matéria, do que se extrai a possibilidade da indução e do conhecimento
empírico; aqui não se trata evidentemente de uma matéria informe, mas de uma
realidade material na qual as essências (ousiai)
estão imanentes, uma realidade material em relação à qual as formas são
inerentes.
Assim,
Castoriadis pensa legitimar de certo modo o reconhecimento da existência do
conhecimento empírico e atesta que o problema da indução fora mal colocado pela
tradição. Os pensadores modernos não escaparam a essa articulação do real
presente na herança tradicional do pensamento de Platão e Aristóteles, cujo
ciclo se fecha em Heidegger no reconhecimento da destinação histórica do
ocidente nos rumos da cientificidade e do imperar da técnica. O aprisionamento
nesse ciclo se reconhece no pensamento de Heidegger como retração historial do ser.
Castoriadis pensa que seja
possível sair do ciclo fechado de uma lógica identitária-conjuntista e de uma
ontologia unitária do ser como determinação-determinidade, revendo o ser, a
psique e o social-histórico como criações, o que já compreende os aspectos da
cosmologia e da psicologia, as reflexões sobre o mundo e a mente humana. A
experiência sensorial não pode ser negada, mas dela não se podem retirar
exclusivamente, nem como idéias a priori
e nem como pura sensorialidade, as formas da intuição, da espaço-temporalidade
do real, e das categorias pelas quais o real é conjuntificado e disposto na
forma do juízo como produto do operar do logos
na psique. Castoriadis se vê
então obrigado a reconhecer que os indivíduos humanos recriam o que é formável
de modo imanente, e isso o fazem enquanto sujeitos social-históricos, conforme
a necessidade e ao uso, no fazer deliberativo das práticas democráticas no seio
do ideal da liberdade humana, à luz do projeto de autonomia, somente a partir
do qual o humano pode se livrar das determinações de ordem epistêmica, que
processaram, sob o império da cientificidade e do reinar do saber teórico e
técnico, a redução do ser do humano ao mero operar do cognitivismo.
Aquilo que é então é o conjuntificável (ensidisable). Essa conjuntificação se dá
acessando-se os distintos estratos do ser-ente-total
ou do ente múltiplo em sua totalidade
mediante a recriação do que já está aí como elemento a partir do qual o ente
mesmo se deixa pensar. Esse acesso aos estratos do ente se dá na dialética
entre a imaginação criadora dos indivíduos e o imaginário criador das
sociedades. Esses estratos do ente, ou seja, daquilo que é, que são
reinventados pela recriação de novos esquemas sob os quais o ente e seus
estratos sejam novamente pensáveis, são como emergências, brotações,
surgimentos (por que não physis, e
com esta o logos e o ethos?) do ser-ente total, ou seja, do
ente múltiplo na totalidade.
Assim
sendo, o homem pode constatar que ser é sempre a ser, que o ser é criação (em
todos os níveis do saber humano, Física, Lógica e Ética, e em tudo que daí se
deriva como saber específico sobre uma região delimitada de entes-objetos no
ocidente; a Estética fundada por Baumgarten, por exemplo, até que a
especialização efetive de vez o império da técnica humana e do total isolamento
do humano em face do não-humano). Com isso, a idéia da verdade como adequação
ou da correspondência entre o pensamento e o que é (o real), a co-pertença
entre pensar e ser enunciada em Parmênides é percebida sob o paradoxo de sua
invenção pelo próprio humano. E aqui fechamos nosso trabalho com a citação de
um poeta, William Blake, em O casamento
entre o céu e o inferno, onde se enuncia o que Castoriadis pensa a respeito
da precedência da imaginação criadora em relação à razão demonstrativa e
calculadora; esse dizer poético enuncia que primeiro o ente surge como
imaginado na psique, e depois como
racionalmente demonstrado no logos
discursivo, querendo dizer que não se demonstra o que antes não tenha sido
imaginado como possível de demonstração: “What
is now proved was once only imagined”[4].
É
somente reconhecendo-se como capacidade criadora de seu próprio ser, que o
humano pode se libertar das amarras de sua redução cognitivista a mera
subjetividade processadora de dados pelo operar tecnicista da mente reduzida a
faculdade de conhecimento. O humano não se reduz a máquina calculadora e
processadora de informações, como se fosse um computador. O humano é um ser
criador de si e dos esquemas fundamentais pelos quais pensa tudo que é ao seu
redor e, com isso, cria seu mundo de significações sem perder de vista o ideal
da liberdade na prática constante da deliberação sobre o que já está aí criado
pelo próprio humano como pensamento herdado pela tradição, como herança
cultural dos ancestrais na história. Esse é o modo do habitar do homem no
mundo, seu ser-no-mundo como ethos-logos-physis e como psique a socializar-se e, assim,
autocriar-se na dialética entre o imaginário radical instituinte e o social
instituído, entre a heteronomia das sociedades e o projeto de autonomia do
humano enquanto individualidade.
*
O QUE
PENSAR A PARTIR DISSO?
Como nos foi pedido
também elaborar o que pode ser pensado a partir da leitura da obra em questão,
a saber, Sobre o Político de Platão,
exporemos aqui um esboço de pensamento. Esta obra nos levou a uma consideração
da tradição do pensamento herdado e talvez a uma incompreensão acerca do
projeto de Castoriadis, já que não conseguimos ver o que escape à herança
Greco-ocidental, européia, ou como quiserem chamar, no seu modo de fazer
ciência, de situar-se frente ao mundo e de constituir-se politicamente,
socialmente, psiquicamente, enfim, culturalmente.
E isso porque
compreendemos que na esteira do que Castoriadis compreende como fechamento do
ciclo da ontologia unitária em Heidegger, o que este pensador pensa como
deserto da desolação da terra, lembrando o dito de Nietzsche[5] “O deserto cresce”, é nada mais nada
menos que o imperar da tecnicidade e da cientificidade que se expande para o
mundo como incondicional dominação planetária do modo de pensar europeu sobre
todos os povos da Terra.
Isso acontece, a meu
ver, como efetivação do projeto de ciência ocidental inaugurado por Galileu,
Copérnico, Newton e pela gnosiologia moderna desde Descartes, passando pelo
empirismo britânico, por Kant, pelo idealismo alemão, por Schopenhauer e
Nietzsche, pelo positivismo, o darwinismo, a psicanálise, o socialismo marxista
ou anarquista, a fenomenologia, o existencialismo, e toda ciência, literatura e
filosofia produzidas no contexto cultural do ocidente europeu, universalizando-se
através de renovados modos de política imperialista industrial cultural sobre
os povos da Terra. Junto a isso a expansão do mundo capitalista com seu
companheiro crítico, o ideal socialista, e as alternâncias beligerantes entre
estados ditatoriais e democráticos no século XX.
Trata-se da
dominação da natureza e do homem pelo homem através da ciência e da técnica, no
interior do acontecimento da morte de
Deus e do niilismo. Não me recordo em que lugar de seu Zaratustra Nietzsche diz “correndo
atrás do saber como o leão faminto atrás do alimento”, ou qualquer coisa
parecida. Mas é interessante em Da
Ciência, no quarto livro do Zaratustra,
como o consciencioso fala a
Zaratustra do seu temor da ciência. E Zaratustra retruca dizendo que este temor
é a exceção que elevou o homem à condição humana. Depois, em Entre as filhas do Deserto, a sombra de
Zaratustra canta a Zaratustra:
“(...) as
minhas narinas aprenderam
a
examinar e a apreciar ares múltiplos; mas onde elas experimentam o seu maior deleite é a teu lado.
A não ser ... a não ser... Ó! perdoa-me uma antiga recordação! Perdoa-me um
antigo canto de sobremesa que compus em tempos às filhas do deserto.”
“Que lá também
havia ar puro e límpido de Oriente; foi onde estive mais longe da velha Europa,
nebulosa, úmida e melancólica. Então amava eu as filhas do Oriente e doutros
reinos do céu azulado onde se não chocam nuvens nem pensamentos.”[6]
Depois disso, o
viandante, dito a sombra de Zaratustra, entoa um salmo que é exatamente O Deserto cresce. Ai Daquele que Oculta
Desertos. Este salmo começa: Solene!
Digno princípio! Princípio de solenidade africana! Além desta alusão à
África, fala-se de oásis e mostram-se
figuras poéticas sensuais e enigmáticas, o que é típico do modo europeu
considerar o não-europeu, ou do sujeito
de conhecimento considerar o a ser
conhecido (objeto) como o oposto ao sujeito; essas imagens poéticas lembram
muito o caráter de exótico que tudo que
é estranho e a ser conhecido assume para o europeu e seu enfadonho conhecimento
científico acerca dos entes.
Ainda neste salmo,
há um trecho que pensamos ser referência ao capítulo II do livro do profeta
Jonas na Bíblia, onde Jonas é engolido por um peixe, faz uma bela oração ao Senhor Deus, depois da qual o Senhor
liberta a Jonas de dentro do peixe. Vejamos um trecho do versículo 6 até o 9,
para não transcrevermos todo o salmo, e depois vejamos mais um trecho do canto
da sombra de Zaratustra, como resposta:
“Desci até os
fundamentos dos montes, desci até a terra, cujos ferrolhos se correram sobre
mim, para sempre; contudo, fizeste subir da sepultura a minha vida, ó SENHOR,
meu Deus! Quando dentro de mim, desfalecia a minha alma, eu me lembrei do SENHOR;
e subiu a ti a minha oração, no teu santo templo. Os que se entregam à
idolatria vã abandonam aquele que lhes é misericordioso. Mas, com a voz do
agradecimento, eu te oferecerei sacrifício; o que votei pagarei. Ao SENHOR
pertence a salvação!”[7]
“Bendita,
bendita aquela baleia, que tão bondosa quis ser para o seu hóspede!
Compreendeis a minha douta alusão?... Bendito o seu ventre, se foi tão grave
vento de oásis como este. Coisa de que duvido, no entanto; porque venho da
Europa, que é a mais incrédula de todas as esposas. Deus a melhore! Amém!”
“(...) Que os
alaridos da virtude, arrebatadoras jovens, são, principalmente, a paixão
ardente, a fome voraz do europeu. E vede já em mim o europeu: não posso
remediá-lo. Deus me valha! Amém! O deserto cresce. Ai daquele que oculta
desertos!”[8]
Este
canto é pronunciado pela sombra de Zaratustra. Este é a figuração do
Europeu-Ocidental no tempo que se instaura a partir de Nietzsche, cuja
filosofia anuncia a morte de Deus, a transvaloração dos valores da tradição
cristã ocidental. O deserto da desolação
da Terra, como fechamento do ciclo do pensamento herdado, é pensado em
Heidegger como a consumação da metafísica no imperar da técnica e da ciência
ocidentais em uma dominação planetária possivelmente aniquiladora.
Zaratustra
é a figura do Europeu-Ocidental sem o Deus cristão, o autêntico pagão, o arauto
da criação e destruição que acompanha a sempre criação de novos valores. A
tentativa de Nietzsche foi a de fugir do ser como determinidade por uma fuga no
puro devir, figurado em Dioniso, mas
aí Heidegger constata a consumação da metafísica, a permanência no e o
fechamento do ciclo, do ciclo que Castoriadis denomina da lógica
conjuntista-identitária e da ontologia unitária.
Todavia,
em o Escritor e a Democracia, Castoriadis
é claro em desconsiderar a produção literária que não seja proveniente do
contexto democrático. Ele cita o Bhagavad
Gita, o Livro de Jó, e outros da
tradição bíblica, apenas para falar que não têm relação com a tradição
democrática fundada pelos gregos no seio da cultura filosófica. De modo que o
autêntico escritor seja somente o cidadão democrático que reflete criticamente
os problemas concernentes ao contexto democrático, inaugurado pelos gregos,
pois só estes procedem ao abalo das certezas instituídas, e assim percorre os
séculos da história literária ocidental a fim de mostrar que somente seus
literatos são autênticos escritores. Mas não faz um histórico do vedantismo, do
budismo ou do taoísmo, ou das teologias cristãs, a fim de perceber que ali
também há contestação e transformação de significados e idéias, críticas,
rompimentos de certezas, demonstrando um mínimo de espírito democrático.
Em
a Filosofia na Idade Trágica dos Gregos,
Nietzsche divide a filosofia em pré-platônicos,
considerando a singularidade dos pensadores precedentes a Platão, e percebendo
neste certa falta de idiossincrasia, uma mistura de elementos presentes no
pensamento que lhe antecede. Heidegger chama os pré-socráticos de pensadores originários, evocando um pensamento perdido
e desconsiderado face à predominância historiográfica da filosofia dividida em
disciplinas escolares no âmbito da Academia platônica e do Liceu aristotélico.
Do mesmo modo, Castoriadis reconhece em Platão uma segunda criação da
filosofia, uma reformulação do esquema imaginário da sociedade grega em relação
a Tucídides, Heródoto, Protágoras, Demócrito e Hesíodo.
Logo
no início do seminário do dia 5 de março em Sobre
o Político de Platão, Castoriadis nos traz o problema da divisão
dicotômica, exemplificando-a pela divisão entre gregos e não-gregos. Ora, o que
vemos ao longo de sua argumentação em defesa da democracia é sempre esse método
classificatório dicotômico que separa em gregos (democráticos-europeus-ocidentais)
e não-gregos (o resto do mundo a ser dominado, democratizado, europeizado,
ocidentalizado), e isso como todo ocidente sempre fez, à luz do projeto
democrático de autonomia individual e coletiva. Então, perguntamos: 1) há realmente
escapatória do isolamento do eu e do deserto da desolação da Terra? 2) do alto
e auto pensar reflexivo que sempre retorna ao ego sum da res cogitans
do europeu, fazendo singularmente o que universalmente todo pensador ocidental
sempre fez, Castoriadis saiu realmente do ciclo lógico-conjuntista-identitário
e ontológico-unitário do modo de ser e pensar do europeu?
Se
não for democraticamente expulso do grupo, eu apresentaria o meu projeto
absurdo de uma co-incidência entre o isolamento
do eu e o deserto da desolação da
Terra, com base no que foi estudado no relatório
de pesquisa a ilusão cognitivista e no tratado
lockiano da identidade, tendo em vista a essência do projeto para além do sujeito isolado. Pois, para mim, o sujeito
isolado é o Homem Universal, particularmente o ideal de civilização européia na
sua hodierna vigência, plena de sua expansão e de seu projeto de dominação e
superioridade em relação a todos os povos da Terra, lançando-se para além da
Terra nos projetos espaciais.
Toda cultura produzida nos EUA atesta minha opinião. Estados Unidos significa a unificação de
todos os povos da Terra naquele país; com efeito, toda cultura é ali acolhida e
por ali absorvida como matéria de produção de cultura de entretenimento e de
informação de massa, e isso em consonância com o tema da arte na era de sua reprodutibilidade técnica, como nos diz o texto
de Benjamin, de modo que não é só a arte que se submete ao princípio industrial
de reprodutibilidade técnica, mas
tudo que é representável, calculável e utilizável pelo homem, na medida em que
o termo arte em sentido amplo designa
a técnica de produção humana em geral. É só que o mundo contemporâneo é marcado
pelo esquecimento do ser, como diz
Heidegger; esquecimento é velamento, o processo do ocultar-se. O ser para
Platão é a idéia, a forma do real, enquanto pura inteligibilidade e
possibilidade de configuração dos entes. Em A
República, vê-se que a sofística nos faz confundir justo e injusto; a
submersão no desejo de apropriar-se das coisas belas nos torna indiferentes ao
belo em si, mantendo-o velado para nós que estamos acorrentados no escuro da
caverna. O esquecimento do belo é o esquecimento do ser. Nosso momento
histórico é o do pleno esquecimento do ser em suas determinações primordiais
(como bom, belo e justo), vela-se a nós a possibilidade essencial da justa
medida de configuração de realidade; vivemos na total desconfiguração dos
entes. É possível hoje uma experiência como a descrita pela Alegoria da
Caverna, a experiência original do filosofar que busca a beleza em si, a beleza
nela mesma e na alma do homem, na medida em que a pura vivência do intelecto
desvela à alma humana a essência do ser como Bem e residência próxima ao(s)
deus(es)? É possível ao homem hodierno o Bem, a eudaimonia (felicidade) verdadeira e suprema? Não era essa a
questão de Platão em sua República,
não havia ele já constatado o esquecimento do ser (belo, justo, sábio, bom), na
medida em que o humano se bestializa no afastamento do deus, ec-sistindo na in-sistência histórico-ontológica do
ser-quadratura (deuses e homens, céu e terra) a viger em ocultamento? E se isso
é a doença da humanidade, não à toa é o fato de a compreensão pré-ontológica do
ser-aí como cura aparecer-nos em uma
Fábula de Higino narrada por Heidegger em Ser
e Tempo e figurar-nos como o modo mais originário de existir (habitar) a
terra como ser-aí mítico.
*
ESCLARECIMENTO: pretendemos clarificar um pouco mais
as idéias que vimos desenvolvendo ao longo dos estudos no Grupo Sujeito
Isolado. Concebemos que levamos ao limite a compreensão do fenômeno do
isolamento do eu e de sua redução a aparelho cognitivo ao estudarmos esse
processo no seio da história da filosofia, ou do evolver do saber ocidental no
tempo. E isso está em consonância com o projeto de Castoriadis de compreensão
do esquema de pensamento da lógica conídica e da ontologia unitária no seio dos
problemas fundamentais da filosofia ocidental inaugurada em Platão e
Aristóteles, e tendo fechado seu ciclo em Heidegger.
O
que temos percebido é que Castoriadis pretende recuperar o conceito de
imaginação, em Aristóteles chamado de phantasia,
e dar-lhe um novo significado não alcançado pelos filósofos. A imaginação
radical na psique singular é vista
como fluxo representativo de intenções, afetos, desejos, num âmbito
inconsciente cujo funcionamento não obedece aos princípios de conjuntificação
do real fornecidos pela lógica conídica. O indivíduo social é fabricado pela
sua inserção no mundo de representações da lógica conjuntista-identitária da
sociedade; esta, porém, é também autocriação e resguarda também um imaginário
instituinte; em sua autocriação a sociedade é um coletivo anônimo e oculta seu
poder de criação no já instituído, fundando o estado de heteronomia que frustra
o projeto de autonomia de todo indivíduo humano. A autocriação de formas
ontológicas de instituição é também auto-alteração processual da sociedade no
tempo; assim, o aspecto social-histórico e o psíquico são identificados como
modos de compreensão do ser humano, de como o humano se comporta no mundo, o ethos humano.
O
que acontece é que a compreensão de Castoriadis de que o ciclo do pensamento
herdado da lógica conídica e da ontologia unitária do ser como
determinação-determinidade em sobre o
Político de Platão nos levou a uma consideração talvez teoricamente
insustentável a respeito da co-incidência do isolamento do eu e do que Heidegger denomina o deserto da desolação da Terra, o que Castoriadis percebe como mera
constatação do fechamento do ciclo da lógica conjuntista, e que é o que
Heidegger denomina a consumação da
metafísica no império da técnica.
Pois isolamento do eu significa para nós, de maneira abrangente, o
completo isolamento do humano no mundo humano, pensando somente a essência
humana, e fazendo ciência de tudo para, a partir dos conhecimentos produzidos
ou social-historicamente recriados, processar cada vez mais o insulamento do
homem em relação à totalidade dos entes, a natureza,
de modo que esta somente lhe sirva enquanto material disponível para produção
de utensílios humanos, assim garantindo a subsistência abastada de uma
civilização que a todo instante precisa prover o incessante investimento
libidinal de seus indivíduos em uma multiplicidade de objetos de desejo
(consumo) e processar a ilusão do progresso
e da novidade no campo crítico do saber, no qual o mundo humano se faz e se pensa
a si mesmo se fazendo, e isso no interior do que Hegel já havia identificado
como o momento efetivo do saber absoluto de si do espírito e do que Nietzsche havia constatado como acontecimento da morte de Deus e do niilismo europeu,
somente em conseqüência dos quais toda ciência e pensamento contemporâneos se
instalam no tempo (história) e no espaço (sociedade), configurando o humano
como elemento principal da existência em geral e como criador de si mesmo, após
a morte de Deus, isto é, a morte do criador
do homem e da totalidade dos entes no esquema imaginário de significação do
ocidental judaico-cristão.
Sustentamos
que isso está de acordo com o problema do isolamento do eu e remetemos ao
tópico presente a si, ausente do mundo
no projeto para além do sujeito isolado,
no qual o mentalismo moderno é visto pela determinação da consciência como
certeza da presença do espírito a si mesmo. Essa certeza assegura o poder do
entendimento como faculdade de conhecimento, no que consiste o cognitivismo,
cuja efetiva cognição é assegurada como operação mental, na qual toda
experiência possível é vista como conhecimento da experiência no interior da
consciência. Assim, a presença a si do sujeito realiza um afastamento do mundo;
o mentalismo não dá conta da ação humana em seus vários sentidos e,
fundamentando o cognitivismo, instaura o império do conhecimento teórico,
reduzindo a prática humana às leis gerais estabelecidas pelo conhecimento. Isso
está figurado no Político de Platão
na pessoa do epistemon, o
Filósofo-Rei de A República, e
manifesta o conflito entre o conhecedor das leis e o aplicador das leis no
interior da consciência, do sujeito transcendental cognoscente, que se torna
mero executor de ordens, de cálculos, de operações mentais.
Recordamos
a leitura do relatório de pesquisa sobre a ilusão
cognitivista e do tratado lockiano da
identidade de Balibar. Nesses textos percebemos um histórico do conceito de
consciência, passando pelo ego cogito
de Descartes, pela instauração da potência do entendimento em Locke até a
formalização da subjetividade
transcendental em Kant, que assegura a certeza da objetividade dos objetos de conhecimento da faculdade do
entendimento do sujeito humano, este reduzido a mero ente cognoscente frente a
uma realidade cognoscível de experiências possibilitadas pela estrutura a priori da subjetividade
transcendental, que põe em proposições a realidade como objeto, como o que se opõe ao sujeito.
Então, no seio da história da
filosofia, ou do pensamento herdado, fomos levados até Hegel, que pensa a
subjetividade, a consciência, o espírito, como manifestação de si mesmo e
desdobramento de si na história. O estudo ou discurso do fenômeno do espírito
no tempo é a fenomenologia do espírito.
Ali a consciência se desenvolve até a certeza máxima de si mesma na figura do
saber absoluto. Ao longo de seu fenômeno na história, a consciência chega a ser
consciência de si através da luta pela dominação e pelo reconhecimento na
dialética entre senhor e escravo. Essa consciência não é só uma certeza do sujeito
enquanto legislador dos fenômenos da natureza pelo entendimento ou como agente
sob as leis morais dadas a priori
pela razão; essa consciência é espírito vivo que se dilacera no tempo,
subsistindo à morte nas transformações de suas figuras nas eras históricas até
atingir a máxima consciência de si no saber absoluto, no qual a ciência do
espírito já não é mais amor pelo saber, mas saber consciente de si enquanto
espírito que subsiste à sua própria alienação e objetivação na história e no
mundo produzido pela cultura e se reconhece como realidade suprema e
subsistente na essência evanescente do tempo.
Ora, é dessa máxima
conscientização e universalização de si no saber absoluto que brotará a máxima
inconscientização e relativização de si; a reivindicação pela singularidade da
existência em Kierkegaard; a revirada metafísica de Schopenhauer colocando a vontade como coisa-em-si da qual a
consciência e razão humanas surgem como fenômenos capazes de representar a
realidade enquanto fenômeno para este em-si
numênico, que é a vontade reconhecida enquanto tal na consciência de si do
mundo no humano, efetivando o perfeito reconhecimento do ser-para-si; a loucura do em-si-para-si
da humanidade no seu processo de assumir o lugar de Deus como criador da realidade e de si mesmo.
A inversão de Marx fundando o
materialismo histórico e reduzindo o homem a animal produtor e trabalhador que
luta pela propriedade dos meios de produção, organizando-se social e
politicamente como consciência de classe em vista das relações de produção
infra-estruturais da sociedade, no que já se pressupõe a ação humana sobre a
natureza em vista da utilização dos recursos naturais objetivados para a
produção incessante de material e utensílio humano no seio da cultura; a
transvaloração dos valores morais da metafísica em Nietzsche, anulando o
supra-sensível no sensível, e colocando a vontade de poder no cerne da essência
humana, de modo a operar o querer da vontade na pulsação do poder que apodera o
homem e o insere no pulsar inconsciente da vontade de querer.
Assim inserido em tal querer que
não admite nem mais o controle da consciência e da razão, o homem se perde no
império da técnica e na consumação da metafísica na destinação do esquecimento
do ser, consolidando o completo isolamento do eu no operar da ciência e das
técnicas de produção do uso e abuso do consumo dos entes. Nisso, a essência
pulsante da volição impulsiona a atividade do poder na essência apoderadora dos
apoderamentos, pelos quais se forjam líderes políticos como instituições dessa
vontade de calcular e objetivar os entes para o uso e abuso da técnica de
reprodução humana; a diferença entre guerra e paz se marginaliza na
globalização do pensamento, assim cunhando o mundo do internacionalismo;
guerras pelo domínio incondicional do uso e abuso da natureza e do material
humano sob a forma do trabalho, a fim de concretizar a todo instante o fazer-se
a si mesmo do mundo da técnica (arte universal de toda produção e engenharia
sob a vigência do esquecimento do belo, do bom e do justo).
Aqui o completo isolamento do eu
se desdobra no individualismo humano mais extremo a ponto de ser capaz de gerar
uma nova ciência, a análise da psique
humana no pressuposto da existência do inconsciente.
O homem pensa, agora, desvendar seus segredos mais recônditos e resolver pela
análise os problemas insolúveis de uma mente atordoada e de uma vida cheia das
vertigens do mundo contemporâneo, pois o mundo contemporâneo conhece tudo e
nada sabe, até que na consumação do consumo tudo que é e está sendo se acabe.
Nesse mundo efetivado no interior
do niilismo e da morte de Deus, a
psicanálise entra como solução para os problemas do indivíduo isolado, e o
engajamento nos problemas sociais e políticos entra como efusão catártica de
intelectuais, sociólogos, antropólogos, economistas, enfim, de cientistas que
conhecem tudo no seio do mundo acadêmico, no qual reina a técnica no vigor de
seu acontecimento destinal-historial como acabamento da filosofia ocidental e
do modo de pensar europeu expandido por todo o globo terrestre. Talvez os
cientistas e pesquisadores profissionais devessem reconhecer a atualidade da Apologia de Sócrates de Platão, pois
aqueles que pensam tudo saber sem reconhecer que nada sabem...
Assim, ao homem resta somente
pensar o humano, demasiado humano, e
como há muita libido pela política e pelos humanismos, marcadamente de herança
de pensamento dos primórdios da civilização ocidental na Grécia antiga, o
humanismo existencialista de Sartre talvez não seja diferente do pensamento de
Castoriadis, no que diz respeito à determinação humana como projeto de autonomia, ou de existência,
engajamento, investimento da psique
singular no mundo social e histórico, ou da consciência (ser-para-si) existencialista e humanista, existindo meramente
enquanto humano no mundo humano do insulamento humano face à natureza e à
totalidade dos entes, a despeito dos conflitos entre fenomenólogos e
psicanalistas.
A psique humana em sua fase triádica, o sujeito, o outro e o objeto,
o seu processo de socialização e o investimento de sua imaginação radical
socializada em um objeto do mundo social-histórico, a fim de realizar o projeto
de autonomia em meio à situação de heteronomia e alienação da sociedade; em
suma, o conflito entre o absolutamente singular e a lei universal do conídico, lógico-conjuntista-identitário/ontológico-unitário,
nas significações social e historicamente instituídas. A noção de práxis retirada daquelas práticas ditas
impossíveis (a política, a psicanálise e outra que não lembro), a fim de
retirar das teorias sobre o humano o poder de determiná-lo a priori; a práxis como atividade que tem finalidade
em si mesma; o modo de ser do humano como não determinável por teorias; o
humano no âmbito psicanalítico e político nas vias do projeto de autonomia e de
deliberação democrática, atividades caracterizadas como práxis, e o caráter dessas atividades e do modo específico de ser
do humano como possível de elucidação, e não de demonstração teórica acabada
como as leis objetivas dos fenômenos naturais e do método das ciências teóricas
em geral...
No texto abaixo, o mesmo é, para Sartre, o projeto pessoal
humano não definível por conceitos e, para Castoriadis, o projeto de autonomia
do humano singular, cuja existência não é possível fora da sociedade, e esta
fora da história, sendo a temporalidade a marca do ser como criação ex nihilo na auto-alteração e autoconstituição
das sociedades. O ser como criação do novo ex
nihilo é o ser que procede do nada
e se projeta no mundo como projeto existencial de autonomia, fado humano da
liberdade.
Embora estejamos cientes da junção
de marxismo e humanismo existencialista de Sartre, da rejeição deste à
psicanálise em prol da fenomenologia no capítulo II de Esboço para uma Teoria das Emoções, e da crítica veemente de
Castoriadis ao marxismo na primeira parte de a Instituição Imaginária da Sociedade, bem como de sua leitura
singular da psicanálise e da política e de sua não aceitação da fenomenologia
em Imaginação, Imaginário, Reflexão
em Feito e a ser feito - Encruzilhadas do Labirinto V, percebemos
uma semelhança entre ambos, que na verdade é uma semelhança que estará sempre
vigente no pensar de todo grande pensador ocidental, pressuposta na sua
megalomania de pretender tudo conhecer, recriar e transformar em um novíssimo e
revolucionário saber, a fim de provocar os ânimos críticos e insuflar o flatus vocis espiritual da
intelectualidade.
A respeito da antropologia no seio
da contradição entre a impossibilidade de uma determinação comum entre os
indivíduos humanos e a sempre possibilidade de comunicação, Sartre nos fala da
suscetibilidade de uma ideologia da existência:
“Esta, com efeito, considera que a realidade humana,
na medida em que se faz, escapa ao saber direto. As determinações da pessoa só
aparecem numa sociedade que se constrói sem cessar designando a cada um de seus
membros um trabalho, uma relação com o produto de seu trabalho e das relações
de produção com os outros membros, tudo num incessante movimento e totalização.
Mas tais determinações, por seu turno, são sustentadas, interiorizadas e vividas
(na aceitação ou na recusa) por um projeto
pessoal que tem dois caracteres fundamentais: ele não pode em caso algum
definir-se por conceitos; enquanto projeto humano,
é sempre compreensível (de direito,
senão de fato). Explicitar esta
compreensão não conduz de maneira alguma a encontrar as noções abstratas cuja
combinação poderia restituí-la no Saber conceptual, mas reproduzir por si mesma
o movimento dialético que parte dos dados recebidos e se eleva à atividade
significante. Esta compreensão que não se distingue da práxis é ao mesmo tempo a existência imediata (já que ela se produz
como movimento da ação) e o fundamento de um conhecimento indireto da
existência (já que compreende a existência do outro).”[9]
É que a dialética era o arcabouço
conceitual do modo de interpretação histórica da transformação, da autocriação
e auto-alteração da sociedade de que Sartre dispunha. Castoriadis veria isso,
talvez, como um esquema de pensamento herdado da tradição, que mal compreendeu
o social-histórico, e arranjaria um meio discursivo erudito qualquer para
demonstrar argumentativamente que seu pensamento é distinto de todo outro e novíssimo,
apenas para gozar da megalomania vaidosa universal e comum a todo intelectual.
De todo modo, o isolamento do eu ainda
vige no humano apartado do mundo e na preocupação atual com a vida do planeta, ameaçada
pelo que Heidegger denominou o deserto da
desolação da Terra.
E talvez a esperança de uma verdadeira
integração do homem com o não-humano, do homem não só no mundo humano,
social-histórico e psíquico singular, mas no Cosmos, o ser-ente total, seja que o ethos não esteja apartado da
physis, e junto a ambos o logos,
numa experiência do homem com o ser em geral no interior de seu habitar na
linguagem, que já não mais retorna ao seio acolhedor do legein e do logos não
como criações humanas, mas como dádivas da origem do mundo e dos seres na totalidade
do que é. Uma experiência como a do poema de Heidegger Da experiência do pensar, uma experiência original com a poiésis originária da linguagem no poetar-pensante e no canto; o canto
originário das Musas que entoa a origem das essências cósmicas divinas, a Teogonia de Hesíodo...
Essa esperança que remonta para além e antes
da época contemporânea, destinada pela filosofia como metafísica ao longo das
eras na história do mundo ocidental, hoje ainda no vigor de seu imperar no
globo terrestre como dominação incondicional da técnica e da cientificidade;
uma experiência anterior a Platão e Aristóteles, que não tenha separado aqueles
três elementos em ciências distintas e especializadas em um discurso analítico
bem concatenado, assim fundando o modo ocidental de fazer ciência sobre
objetos: a ciência ética, a ciência lógica, a ciência física; e por que não
também a ciência política, a ciência psíquica e a ciência estética, visto que
Aristóteles escreveu uma obra para cada região distinta dos entes (objetos)
correspondentes a uma disciplina específica: a Ética a Nicômaco, a Ética a
Eudemo, o Organon dos tratados
analíticos sobre lógica, a Política,
o De Anima e a Poética?
Pois não seria a não separação do
saber em disciplinas da ética, da física e da lógica no interior das escolas,
como propõe Heidegger, semelhante à não separação entre
psicologia/cosmologia/ontologia, embora estejam articuladas em um todo
sistemático? Um discurso desse tipo é um discurso originário e, mais longe
ainda do que Heidegger, que vê o pensamento originário em Anaximandro,
Parmênides e Heráclito, nós o veríamos, bem antes da filosofia e da polis, na Teogonia de Hesíodo, a palavra que diz a origem dos deuses, ou dos entes na totalidade do Cosmos, visto que é uma cosmogonia. E nesse originar-se da
totalidade dos entes, insere-se este ente que é só mais um entre outros, que se
considera muito especial porque vive na especificidade de seu próprio viver e
considerar o que é, o homem.
E se temos que associar isso à
educação, diríamos que essa era a Paidéia
grega original, a educação que não ensinava o mundo fragmentado das ciências
contemporâneas para um sujeito psíquico isolado na absoluta singularidade
relativa de uma imaginação radical, situada no problemático mundo
social-histórico e político da sociedade globalizada fundada no isolamento do
eu-humano em meio à sua total aniquilação no deserto da desolação da Terra. Uma
educação que desconhecia pólis,
Platão e Aristóteles, e tampouco viria a conhecer Hegel, Marx, Nietzsche,
Freud, Heidegger, Sartre, Castoriadis, isto é, toda modernidade e
contemporaneidade chafurdadas no isolamento do eu, no esquecimento do ser e no
deserto da desolação da terra.
“A terra, porém, permanece abrigada na lei inaparente
do seu possível. A vontade impinge o impossível como meta do possível. O
apoderamento que instaura essa exigência e a mantém em vigor provém da essência
da técnica, palavra aqui idêntica ao conceito da metafísica em sua superação. A
uniformidade incondicionada de todos os povos sob a dominação da vontade de
querer evidencia a insensatez da ação humana colocada como absoluto.”
“A devastação da terra começa como processo voluntário
mas que, em sua essência, não é e nem pode ser sabido. Começa no momento em que
a essência da verdade se circunscreve como certeza na qual a re-presentação e a
produção humanas asseguram-se de si mesmas. Hegel concebe esse momento da
história da metafísica como o momento em que a consciência absoluta de si
torna-se princípio do pensamento.”[10]
A solução do isolamento da
subjetividade humana e de sua redução a mero trabalho de conhecer, a redução
cognitivista, seria a compreensão da autonomia humana a partir da psique como mônada originária e fluxo
espontâneo de investimento em afetos, desejos e criação de representações para
si, assim constituindo seu mundo próprio, inserindo-se no mundo
social-historicamente instituído, engajando-se no projeto de autonomia no seio
de uma sociedade democrática, o ideal da pólis
grega (pensamento herdado e habitual do ocidente em que este reside e crê se
autocriar como seta apontada para a liberdade), de modo que o recalque do
indivíduo seja diminuído em uma ampla galeria de diversos produtos a serem
consumidos e, na consumação do consumo, garantirem o investimento libidinal e o
prazer de viver na dor do morrer do humano no mundo histórico e social?
É a isso que se reduz o ethos do homem contemporâneo? Que o
homem conhece tudo e processa a natureza para usufruto técnico do seu mundo
cultural de múltiplas possibilidades de investimento libidinal, rindo de Deus morto, e chacoalhando a mente no
divã, achando que vasculhou o mais recôndito do ser por descobrir o
inconsciente psíquico, este agora consciente de si e desvelado por Castoriadis
numa nova figura da consciência de si ocidental universalizada como saber
absoluto do espírito humano? Pois
quanto mais a megalomania dos intelectuais ocidentais, fabricados em
universidades, pensa ter alcançado um novo nível de visão abarcadora do real,
pensando ter uma visão global da tradição histórica e identificando nela algo
que pensa poder superar com um novíssimo modo de pensar, mais se interioriza na
circularidade e mais preso fica na sua pretensão de saber tudo, formando
grupinhos de pesquisa e estudo teórico, reproduzindo os gases poluentes do
saber no flatus vocis acadêmico das
solenes solapadas recíprocas entre narcisistas livrescos.
E perguntamos ainda! As
neurociências e a mera troca de sinapses no cérebro explicam o funcionamento da
mente, esta reduzida a fenômenos de produção de substâncias ou enzimas químicas
no cérebro, que despertam áreas e funções de atividades cerebrais efetivadas e
ligadas por neurotransmissores de mensagens, que circulam pelo corpo como
impulsos ou choques elétricos, assim constituindo o sistema orgânico do vivente
humano, que é vítima de um distúrbio excepcionalmente singularíssimo em vista
da ação dessa monstruosa novidade ainda não vista na história da evolução
biológica dos organismos vivos, a imaginação radical na psique singular?
Essa imaginação radical
inconsciente da mônada psíquica originária, que cria imagens ex nihilo como fluxo representativo, não
teria sido descoberta inconscientemente (numa época em que o inconsciente não
havia sido desvelado à humanidade pelo avatar da psicanálise) por Hegel no
texto que se segue abaixo? É só que ele não conhecia o inconsciente de Freud, e
nem se chamava Castoriadis.
“O homem é essa noite, esse nada vazio, que contém
tudo em sua simplicidade indivisa (Einfachheit):
uma variedade de um número infinito de representações, de imagens, das quais
nenhuma lhe vem à mente com clareza, ou [ainda] que não estão como
realmente-presentes [gegenwartig]. É
a noite, a interioridade-ou-intimidade (Inneres)
da natureza, que existe aqui: [o] Eu-pessoal puro. Em representações
fantasmagóricas, tudo ao redor está escuro: surge então uma cabeça
ensangüentada aqui, mais adiante outra aparição (Gestalt) branca; e elas desaparecem também de repente. É essa
escuridão que se percebe quando se olha bem nos olhos de um homem: [mergulha-se
o olhar] numa noite que se torna terrível (furchtbar);
é a noite do mundo que se apresenta (häng
entgegen) [então] a nós.”
“Força (Macht)
de tirar dessa noite as imagens ou de deixá-las cair nela: posição-autônoma (Selbstsetzen) [isto é, criação livre],
consciência interior, ação (Tun). É
nessa noite que se retirou a entidade-existente-como-um-ser-dado (das Seiende); mas o movimento
[dialético] dessa força está igualmente afirmado.”[11]
O PROBLEMA DA DOMINAÇÃO DA CIÊNCIA SOBRE A TERRA
Colocamo-nos
aqui e agora diante de um texto chamado A
Sentença de Anaximandro de Martin Heidegger. Fazemos isso em vista de nele
apreciarmos alguns elementos que contribuem para pensarmos o mundo hodierno a
partir da dominação da técnica e do saber científico. Isto nada mais indica que
dominação e controle sobre a natureza.
Daí a pertinência, assim cremos, de nossas reflexões quanto à matéria tratada
na filosofia da natureza.
Pois concebemos o império da
técnica e do modo de pensar ocidental, hoje predominante em todo o globo
terrestre como modelo de ser e de comportar-se para toda a humanidade,
concebemo-lo como aquilo que deve ser objeto de deliberação por todos os
homens, os que habitam especialmente esta Terra e deveriam guardá-la e
cultivá-la num modo de comportamento e habitação mais harmonioso, menos
violento e destrutivo.
Os homens estão em situação de
repensar e deliberar conjuntamente o seu ethos
para com a natureza (physis),
liberando-a do domínio que sobre ela exercem pelo seu fazer teórico a partir do
lógos como cálculo de proposições
metafísicas e experimentações científicas tecnicamente aplicadas na fabricação
de tecnologias e utensílios para usufruto humano. Ainda se deve compreender que
tudo que o humano faz é metafísica, a despeito das pretensões do positivismo
lógico e da filosofia analítica da linguagem de analisarem logicamente o
funcionamento da linguagem, retirando o valor de verdade das proposições
metafísicas e delimitando a área do que seja uma proposição de valor lógico e
outra de possível valor empírico (científico), separando lógica de ontologia,
de psicologia etc., como se tudo o que reina no âmbito da representação dos
entes para o homem através da linguagem não fosse em si mesmo metafísico (se adotássemos a perspectiva
de Castoriadis, tudo seria a partir do psíquico
e do social-histórico como
pseudo-substancialidades flutuantes do devir de um flatus vocis vaidoso que não se cansa de peidar).
Com isso não propomos que o homem
deixe de ser humano, mas que repense sua humanidade a partir de uma perspectiva
de integração com a totalidade dos entes, tendo por finalidade a manutenção do
equilíbrio ecológico na harmonização da totalidade dos entes, a integração total
de todo ser (Céu e Terra, deuses e homens). Efetivamente, nós não caímos numa
obtusidade que deixa de reconhecer que a preocupação da preservação do planeta
seja uma preocupação com a preservação do próprio homem. Porém, não permitimos
que tal reconhecimento permaneça na inconsciência e na ignorância em que o
homem esteve existindo em face da preservação da vida para realizar interesses
egoístas de ordem econômica, política, nacional e internacional, a fim de
assegurar para si a sensação megalomaníaca do exercício do controle e da
dominação sobre tudo que é e está sendo.
O império da técnica na consumação
da metafísica instala a vigência permanentemente duradoura da desolação da
Terra e da contínua aniquilação da humanidade, manifesta a desarmonia na relação,
mediante a tékhne ou o teukhein, entre o lógos-legein humano e a physis, esta sendo o movimento interno
de geração e corrupção da totalidade da natureza e dos entes singulares nela
inseridos.
Quando se fala em aniquilação da
humanidade, não se pretende dizer necessariamente que ela será dizimada, mas
que a cada instante ela passa a viver desde então em um modo de ser aniquilador
de sua essência esquecida e por ela mesma desprezada, que o homem não pode
conhecer sua essência e nem a essência de qualquer ente porque vive agora no
interior de um modo de existência inessencial.
A técnica como vontade de domínio
dos entes pelas ciências e determinada como o modo de comportamento e habitação
(ethos) do homem frente à totalidade
do que se gera e se corrompe condiciona o isolamento do eu (humano) em uma
humanidade aniquiladora da Terra e, provavelmente, pode levar a desumanidade ao interior da essência
humana e assim determinar o comportamento do homem em face de si mesmo e da
natureza. Como pretendemos sustentar, o isolamento
do eu e a desolação da terra co-incidem:
“Caracterizou-se
o pensamento, por um lado, do ponto de vista da reflexão, e por outro na
referência à sua própria profundidade. Nós, os hodiernos, só conhecemos a
reflexão na configuração da reflexão da subjetividade. Uma vez que costumamos
justapor a subjetividade com a egoidade do eu isolado, vemo-nos sempre no temor
de que a reflexão constitua o solo fermentador do individualismo e do egoísmo.
Todavia, deve-se advertir que nessa essência da reflexão, assumida como egoísmo
egocentrado, não somente o homem singular, mas também grupos e ligas inteiras,
nações e povos, toda a humanidade da Terra pode vir a ser desolada e
aniquilada. A remissão reflexiva não precisa, necessariamente, limitar-se ao “eu”
isolado. Precisa, porém, referir-se sempre a um si-mesmo. O eu e o si-mesmo não
são o mesmo. Não existe apenas o eu-mesmo. Existem também o você-mesmo, o
nós-mesmos, o vocês-mesmos. Para cada essência da reflexão é decisivo o modo de
determinação da mesmidade do mesmo, e vice-versa.”[12]
Todavia retornamos
agora ao texto base deste trabalho, A
Sentença de Anaximandro, pois a discussão sobre a tradução[13]
da sentença de Anaximandro nos traz à compreensão dos rumos que o pensamento
ocidental foi levado a traçar como destino historial da errância do homem na
epopéia metafísica do esquecimento do ser.
Em Nietzsche temos a
denominação de pré-platônicos, em Diels
temos pré-socráticos e em Teofrasto e
Hegel, a partir do primeiro livro da Metafísica
de Aristóteles, temos o rótulo de pré-aristotélicos para os pensadores da
aurora do pensamento grego antigo. Esses pensadores são chamados de physiólogoi, aqueles cujo dizer e se dá
em torno aos e sobre os phýsei ónta
(entes físicos).
Heidegger vê em
Platão e Aristóteles uma delimitação do que é designado pela palavra physis em face do ethos e do lógos. Segundo
ele, na Física, Aristóteles faz uma
delimitação entre as regiões distintas dos phýsei
ónta e dos tékhne ónta: “Os primeiros são aquilo que no seu emergir
se produz a partir de si mesmo; os outros são aquilo que é produzido através da
representação e do fazer humanos”[14].
Essa é a
oportunidade para expormos o que pensamos a partir de Heidegger, pois não é uma
análise minuciosa e erudita do pensamento dele ou de qualquer outro autor que
almejamos fazer, antes sim, como a partir da questão do acabamento da filosofia
como metafísica na instalação do controle incondicional do que é e está sendo
sob a forma de fundo de reserva enumerável (ou calculável), como a partir disso
compreendemos filosoficamente o domínio do que é produzido pelo fazer e
representar humanos nas ciências sobre a natureza, isto é, sobre o que se movimenta
em um gerar (gênesis) e corromper (phtorá) a partir de si mesmo, os phýsei ónta e a totalidade que os
constitui e abarca.
O império da técnica devastou a Terra,
uniformizou os povos e culturas no modo europeu de dizer o ser dos entes e com
os entes se relacionar nas significações e operações da linguagem, como a
concebem os europeus, projetando uma humanidade aniquiladora e isolada num
egoísmo ontológico chafurdado no niilismo procedente do acontecimento da morte de Deus no Ocidente.
Instituiu-se assim
um modo de ser e se comportar face ao mundo internacionalizado, um materialista
ser-no-mundo globalizado e vigente em
todos os níveis, propagado pelos modos e modas de ser vendidos pela opinião
pública forjada pelos meios de telecomunicação, através dos quais falam
especialistas e técnicos nas diversas áreas de atuação humana, esportes,
medicina, indústria, economia, educação, comunicação, artes, entretenimento e
outras.
Introduzimos agora a
contribuição dos estudos que vimos fazendo sobre Castoriadis. Retiramos deste
pensador precisamente a distinção entre physis
(ou phusis) e nomos, caracterizando o ambiente humano da criação do novo, de fuga
dos determinismos da natureza e,
talvez, do predomínio das teorias e das metodologias das ciências da natureza
sobre o discurso a respeito do ser humano e do que a ele diz respeito, a saber,
sua compreensão a partir do âmbito social-histórico e da imaginação radical no
âmago da psique singular.
Na physis não há esta criação do novo, há
somente a determinação das leis internas do movimento natural de gerar e
corromper da própria natureza e do que nela se insere; e nesse movimento a
própria natureza é sua finalidade. Mas nós não concordamos que o homem esteja
fora disso. Pensamos ainda que todo projeto humano de domínio do real através
do legein (o lógos do discurso técnico da ciência e da lógica) e do teukhein (a própria técnica humana e
aplicação daquela lógica nas metodologias do fazer e da instrumentação do mundo
humano, a tékhne) consiste nessa
tentativa de dominar o que nasce e morre, uma tentativa frustrada de aspirar à
superação da mortalidade, embora esta seja reconhecida como inelutável. E isso
se vê na atual medicina ocidental, com seus transplantes de órgãos, suas
tentativas de substituir membros humanos por membros artificiais coordenados
por computadores e mecanismos cibernéticos, as próteses de metal que substituem
estruturas ósseas danificadas por fraturas etc.
Assim como na Idade Média a ontologia e
metafísica fundamentais deviam sustentar a idéia de Deus, após a morte de Deus enunciada e constatada por
Nietzsche, mas efetivada por toda a cultura materialista e cientificista
ocidental, todo discurso científico deve forjar algum construto teórico que
legitime o ateísmo e o materialismo. Com isso, não queremos defender
religiosidade alguma, mas somente deliberar sobre o ethos humano no mundo.
Não conceber o homem
fora da natureza, como senhor dela, é o aspecto que queremos ressaltar com a
contribuição do pensamento de Heidegger a respeito do domínio da técnica e das
ciências, que extrapola o uso e o abuso da natureza como fundo de reserva de
matéria para o processamento incessante da produção humana.
O que acontece é que
o homem, reduzido animal trabalhador,
também se torna matéria desse processo e, na plena vigência da técnica em todos
os setores de atuação humana, o próprio homem perde o controle e se vê obrigado
a repensar sua conduta, seu modo de estar-ser-no-mundo
e de nele habitar.
Se o homem é capaz
de criar novas instâncias ontológicas, de recriar as matrizes originárias pelas
quais o ente se deixa pensar e assumir novas formas, então ele deve antes de
tudo recriar sua conduta frente à totalidade do que é e está sendo em seu
simples movimento de gerar e corromper como auto-finalidade da natureza, já que
“a uniformidade incondicionada de todos
os povos da terra sob a dominação da vontade de querer evidencia a insensatez
da ação humana colocada como absoluto.”[15]
O que nós temos em
vista como foco central de reflexão filosófica é o problema do meio ambiente,
que hoje assola a humanidade, frente à preservação da Terra e, com isso, a
segurança possível da preservação do próprio ser humano. Percebemos ser
pertinente o assunto do modo de comportamento humano face à natureza, e aos
seres humanos em geral nas relações e transações político-econômicas que decidem os destinos da humanidade, como
foco principal de deliberação no estado atual da civilização mundial. Por isso,
referimo-nos agora ao conceito de nomos.[16]
O nomos é a lei ou convenção instituída
pelo homem no seu fazer-se a si mesmo no campo de deliberação política da
sociedade democrática. E essa lei é criada pela própria deliberação humana,
levando Castoriadis a pensar o humano como um ser de autocriação e
auto-alteração no campo social e histórico, no qual se faz à luz do projeto de
autonomia social e coletiva.
Castoriadis
identifica no humano a irrupção de um elemento disfuncional, a imaginação
radical da psique singular, caracterizando-a como fluxo representativo,
propulsão de intenções, afetos, desejos e tendência indeterminada a instituir
determinações ou formas, sentidos ou significados, para todos os domínios ou
regiões distintas do ser. O problema é que o elemento da criação tem sido
ocultado e alienado pela heteronomia das sociedades e sua tendência ao
fechamento nas significações instituídas.
Ele identifica esse
fechamento na lógica conjuntista-identitária e na ontologia unitária, que
prezam pelo ocultamento do elemento da criação presente na psique singular e no
campo social-histórico. Heidegger teria somente constatado o fechamento do
ciclo dessa lógica e dessa ontologia desencadeado desde Platão e não teria
saído dele, segundo Castoriadis.
Aqui chamamos a
atenção do leitor para um aspecto interessante da tradução que Heidegger faz do
fragmento 50 de Heráclito. Situamo-nos agora no texto Logos (fragmento 50), para daí constatarmos o início e o fechamento
do ciclo da lógica que dispõe os entes em um conjunto e os unifica sob a forma
da unidade, já que só pode pensar o ser dos entes como determinação e o próprio
ser como o elemento fundamental de
determinidade, de modo que o real possa ser disponível à classificação e à
enunciação humanas através do estabelecimento de gêneros e espécies, bem como
da formalização dos modos possíveis de ser mediante o uso de categorias e
classificações diversas dos entes.
Com efeito, citamos
a seguir o sentido do Lógos de
Heráclito, para Heidegger, e esse sentido dá a entender o que Castoriadis
denomina lógica conjuntista-identitária
e ontologia unitária. No entanto, nos
primórdios do pensamento ocidental, não nos esqueçamos que o lógos de Heráclito nada tem a ver com
uma ciência analítica das leis formais do pensamento, das estruturas formais do
discursar humano e da capacidade intelectual da subjetividade formadora de
juízos, pois “a boa disposição do dizer o
ser enquanto o destino da verdade é a primeira lei do pensar, e não as regras
da lógica que apenas se tornam regras a partir da lei do ser”[17]
““Não escuteis
a mim, o mortal, que vos fala; mas sede, em vossa escuta, obedientes à postura
recolhedora; se lhe pertencerdes, escutareis, em sentido próprio; uma tal
escuta se dá (ist), quando acontece um deixar-disponível-num-conjunto, a que se
dis-põe o conjunto de tudo, a postura recolhedora, o deixar pôr-se que acolhe;
quando acontece que o deixar dispor-se se põe, dá-se, em sua propriedade um
envio sábio, pois o envio sábio, propriamente dito, o único destino, é: o um
único unindo tudo.””[18]
Estas
palavras que Heidegger pôs na boca de Heráclito, como sentido de seu fragmento
50, soam como uma visão profética do que perduraria ao longo da história da
metafísica e do pensamento ocidental até sua consumação na constatação do
fechamento do ciclo da lógica conjuntista-identitária e da ontologia unitária,
conforme nos diz Castoriadis no seminário de 5 de março em Sobre o Político de Platão. Senão leiamos o que Heidegger nos diz
em seguida:
“(...) Desde o
início do pensamento ocidental, o ser dos entes se desdobrou, como a única
coisa digna de ser pensada. Se pensarmos pelo destino histórico do Ocidente
esta constatação historiográfica, veremos, então, em que se planta o início do
pensamento ocidental: no fato de, na
época dos gregos, o ser dos entes ter se tornado a coisa digna de ser pensada,
esse fato é o início do Ocidente, é a
fonte escondida de seu destino. Se este início não preservasse o vigor desta
vigência, isto é, o recolhimento do que ainda vigora, o ser dos entes não
dominaria nossa época, a partir da essência da técnica moderna. Hoje em dia, esta
essência maneja todo o globo e, fixa ao ser tal, como o Ocidente o experimenta
e representa na forma que a metafísica e a ciência européia dão à verdade.”[19]
Isso
dito, compreende-se que no fechamento do ciclo da lógica
conjuntista-identitária e da ontologia unitária em Heidegger instalou-se a
consumação do que já havia sido destinado nos primórdios da filosofia como
metafísica desde Platão e Aristóteles, em que vige a diferença entre ser e
ente, determinando assim o modo de pensar ocidental e o seu fazer ciência
sobres regiões delimitadas do ser. O perfeito acabamento das possibilidades da
metafísica como ciência do ente (ser) enquanto ente (ser) instaura o domínio
das ciências particulares sobre as partes e características das partes do ente;
leiam-se as primeiras palavras do quarto livro da Metafísica de Aristóteles.
Essas
ciências sobre os entes configuram o mundo sob o modo da dominação sobre o que
é e está sendo no movimento de seu ser (a physis).
A certeza da objetividade dos entes configura a gnosiologia moderna e se
assegura na certeza primeira do ego
cogito da filosofia de Descartes. A certeza da objetividade primeira da
subjetividade humana fundamenta o operar do conhecimento e prepara o terreno
para as ciências da natureza, cujo exemplo maior é a Física de Galileu e a de
Newton, e sua metodologia apoiada na linguagem matemática instala o projeto
moderno de dominação da natureza pela mensuração e pelo cálculo do espaço e do
tempo e de tudo que é passível de espacializar-se e de temporalizar-se como
possibilidade a priori da
sensibilidade e da intuição de objetos de uma experiência possível (Kant). No
século XIX, o positivismo de Comte se apoiará no modelo das ciências naturais
para elaborar sua física social, do que nasce o projeto de uma sociologia.
O
homem é fadado ao exercício maquinal de representar o mundo em proposições,
instituindo o domínio dos setores distintos de objetos como modos específicos
de controle dos entes, e, pela redução do sentido do lógos à ciência da lógica e à análise lógica e neopositivista da
linguagem, a fim de finalizar a metafísica para instalar o domínio efetivo das
ciências e disciplinas tecnicamente especializadas, o que se efetiva é o
domínio científico da funcionalidade e dos efeitos. A ciência assim se efetiva
como legítimo discursar veritativamente sobre o ser dos entes na esteira da
pulsão de calcular e de produzir um mundo funcional de efetividades e
utilidades.
O
lógos é reduzido a mero cálculo de
proposições, e a physis a mero fundo
de reservas naturais para a vontade incondicionada de calcular, cuja aplicação
nas técnicas de discursar se legitima a si mesma como fazer científico no
interior das fábricas produtoras de saber, as academias e universidades; em
meio a isso, um modo de comportamento do homem em face da totalidade dos entes,
um modo de habitação sobre a Terra, um ethos
desprovido de ética, embora não faltem volumes de teorias e discursos
repletos de erudição e de termos técnicos acerca da ética dos valores nas
bibliotecas.
Retornamos
aqui, então, àqueles três aspectos fundamentais da filosofia que se tornaram, a
partir das escolas procedentes da Academia platônica e do Liceu aristotélico,
disciplinas distintas com delimitações específicas bem determinadas de âmbitos
isolados de abarcamento e investigação de objetos (entes): a ética, a lógica e
a física.
Assim
delimitadas as regiões de objetos a serem sistematicamente estudadas, a fim de
que se estabeleça o fazer humano pelo fazer a si mesmo das ciências através do
labor humano, o modo de assegurar o domínio do sujeito (ego cogito) sobre o-que-é,
o domínio sobre objetos através do conhecimento, vai se configurando no
ocidente como projeto de constituição da civilização otimizada pela crença na
eficácia da ciência e da técnica, a crença no domínio teórico dos especialistas
em certa área do saber.
As citações
seguintes de um importante filósofo moderno ilustram nossas reflexões, pois
atestam o que vimos pensando sobre o pensamento ocidental. Chamamos a atenção
para o modo como se considera o conceito de matéria, extensão... sem vida, que na experiência do ato de conhecer servirá
somente de coisa formável, passível
de ser intuída e pensada por conceitos por um ser pensante. Isso nos leva a
crer que o domínio técnico-científico é ele mesmo uma mortificação da natureza, já que esta serve de matéria para o fazer e o representar humanos:
“(...) não
tomamos mais da experiência do que o necessário para nos dar um objeto, seja do
sentido externo, seja do sentido interno. O primeiro caso acontece pelo simples
conceito de matéria – extensão impenetrável e sem vida. O segundo, pelo
conceito de um ser pensante – na representação empírica interna “eu penso”.”[20]
E o mesmo filósofo
nos diz mais ainda em outro lugar:
“Dividia-se a
antiga filosofia grega em três ciências: a física, a ética, e a lógica. Essa
divisão é perfeitamente adequada à natureza das coisas, e nela nada há a
corrigir. Mas conviria, quem sabe, acrescentar o princípio em que se baseia
para, desse modo, por um lado nos assegurarmos da sua perfeição e, por outro,
podermos determinar exatamente as subdivisões necessárias.”[21]
O
parágrafo seguinte a este, na Fundamentação
da Metafísica dos Costumes, classifica e divide a filosofia em formal e material. A primeira corresponde à disciplina da ciência da lógica,
que legisla sobre as leis do pensar em geral. A filosofia material distingue
seus objetos e os determina, legislando ou sobre a natureza ou sobre a
liberdade. A ciência das leis da natureza é a física, a das leis da liberdade é
a ética.
Sob essa
classificação, pressupõe-se o otimismo da soberana Razão humana e de seu poder
de legislar a priori sobre os
princípios fundamentais das ciências e, assim, constituir e delimitar setores
específicos de objetos. Desse modo, a divisão do trabalho é também otimizada
por proporcionar a especialização do saber e dos ofícios, assim configurando o
acabamento da metafísica no imperar da técnica e constituindo a civilização
moderna e contemporânea pautada na autoridade dos oficiais e técnicos do saber.
Mas isso somente
oculta a categoria do trabalho elevada a uma determinação ontológica tal que
condiciona o homem sob o ser da produtividade incessante e massificada. Como
base desse processo de produção da civilização e do homem reside a dominação
técnica da natureza, de tudo que e está sendo, na consumação da metafísica e no
projeto de apropriação do ser dos entes pela linguagem e representação humanas
sob o modo da subjetividade absoluta da
vontade incondicionada. Antes de explicarmos isto, leiamos o otimismo de
Kant em face da razão legisladora e do domínio técnico-científico que ela
instaura:
“Todas as
indústrias, artes e ofícios ganharam muito com a divisão do trabalho.
Necessariamente, à medida que cada um, em lugar de tudo fazer, limita-se a
certo trabalho – que pela sua técnica se distingue de outros – pode executá-lo
com a maior perfeição e com mais facilidade. Tem-se daí que, onde o trabalho
não está assim diferenciado e repartido, onde cada homem é um artífice
universal, reina ali, em seus ofícios, um estado de absoluta barbárie.”[22]
Após
a universalização desse modo de pensar poderíamos constatar que não há barbárie
em nossa civilização de perfeita divisão do trabalho e de um perfeito mundo
criado pela técnica e ciência? Em seguida no século XIX, surgiria mais uma ciência, e não só uma como muitas outras
ramificadas, especialmente a do materialismo histórico e dialético, o
socialismo científico, que projetava uma sociedade da igualdade absoluta em
meio a uma crescente e expansiva divisão do trabalho e especialização das
ciências, o que por si só já torna mais complexa ainda a hierarquização das
funções e das camadas sociais, mais ou menos valorizadas no mundo de O Capital conforme sua qualificação
técnica, no que reina vigente a categoria trabalho
como uma determinação do homem no mundo contemporâneo.
Mas
agora retornamos ao nosso foco central na questão da constatação do fechamento
da lógica conjuntista-identitária e da ontologia unitária em Heidegger, mais
precisamente a questão do acabamento da metafísica no reinado da técnica a
partir da perspectiva da história do ser, delineada naquele texto com o qual
iniciamos este trabalho, A sentença de
Anaximandro.
Pois o que
questionamos é o domínio humano sobre a natureza através da ciência e da
tecnologia, a fim de processar a produção da civilização, sem que se questione
como o homem pode se harmonizar com a natureza e, nessa harmonia, equilibrar-se
em meio à crescente deliberação comum entre as nações do mundo civilizado a
respeito de como pode haver uma ação humana que não danifique tanto o Planeta e
nem deixe de produzir o mundo do nomos,
o mundo da autonomia humana.
Mas não caberia um
pouco de humildade do homem frente à totalidade do que é e está sendo e
reconhecer que não é tão autônomo quanto pensa, a ponto de suas criações não
serem capazes de submeter para si o ser do que é em-si e para-si, além e
independentemente de haver ou não humanidade?
O projeto científico
de dominação da natureza, incluindo a natureza humana, seja como for que o
homem a considere e a convencione por deliberação, o projeto de dominação de
objetos por parte de um sujeito, ainda que certas filosofias contemporâneas não
creiam mais na subjetividade, como
não crêem em coisa alguma senão em uma humanidade sem crenças, enfim, o domínio da ciência e da técnica é bem
conforme ao sentido da citação de Nietzsche feita por Heidegger: “imprimir ao devir o caráter de ser – eis a
suprema vontade de poder”[23],
onde “ser” é pensado sob a forma do “eterno retorno do mesmo”, sob cuja
constância a vontade de poder quer a si mesma no interior do querer da vontade,
assegurando “sua própria presença como ser do devir”.
Entretanto, essa
vontade incondicionada, que configura a pulsão de calcular no modo humano de
representar objetos em proposições logicamente encadeadas, em juízos sob a
forma do pensar em geral, como diria Kant, não se objetiva completamente como
manifestação do ser antes da História do ser revelada na Fenomenologia do Espírito, obra filosófica na qual a subjetividade
humana alcança a total objetivação e reconhecimento de si como princípio de
objetivação do real na figura do saber absoluto, o saber que sabe a si mesmo.
Isso é o extremo de um esquema imaginário baseado em uma lógica conjuntista e
identitária fundada em uma ontologia unitária para compreender o real, que não
se difere do que é ideal ou racional.
Na filosofia de
Hegel, a metafísica se consuma como uma fase do que Heidegger denomina
“escatologia do ser”, somente na qual este é contemplado sob a perspectiva de
sua destinação na história do ocidente; essa consumação manifesta o ser dos
entes como subjetividade absoluta da
vontade incondicionada.
Essa vontade
incondicionada apropria o homem para a essência do poder, somente sob a qual se
instalam as lutas pelo poder e se institucionalizam os líderes no âmbito
político. Esse desejo de poder e de assenhorear-se de tudo, por parte do homem,
somente mostra como a humanidade é apropriada pela essência do poder e da
vontade e demonstra a total falta de controle do sujeito sobre a objetividade do
real.
Aqui acontece
propriamente o completo isolamento da subjetividade humana até perder-se na
vontade (ser), postulada como princípio absoluto na filosofia de Schopenhauer,
a qual manifesta o princípio de conhecimento ou consciência somente no homem. A
vontade antecede à consciência ontologicamente e gera no organismo humano a
potência representadora de fenômenos (aparecer das formas), no que ela pode
aparecer para si mesma e tomar consciência de si como princípio absoluto do
real. Esse pensamento, porém, não se origina em Schopenhauer. (Basta ler o
texto Quem é o Zaratustra de Nietzsche,
publicado em Ensaios e Conferências
de Heidegger páginas 98 e 99, cuja edição citamos neste trabalho; ali a vontade já é reconhecida como essência do real desde a mônada de Leibniz, esta definida como unidade de perceptio e appetitus; isto já está presente também em Spinoza e sua teoria da
substância única e absoluta que conjuga em si pensamento e extensão (veja-se a
proposição 49 da segunda parte da Ética
e seu corolário: a vontade e o intelecto
são uma só e mesma coisa); segundo Heidegger, aquele pensamento de Leibniz
passa por Kant, Fichte, Schelling e Hegel como vontade da razão, permanecendo
vigente em Schopenhauer e Nietzsche. Em seus Fragmentos para a História da Filosofia, Schopenhauer interpreta a
história do pensamento em prol de seu sistema, e o modo como ele concebe ali o
pensamento de Spinoza, o louvor deste à laetitia
(alegria) e seu amor intellectualis Dei
se assemelha ao amor fati de
Nietzsche, este tendo como ideal de deus
a figura, por sinal desfigurada, de Dioniso como princípio de transfiguração do
real pensado como devir-diferença absoluta sem causalidade ou finalidade.
Esse pensamento
prepara o terreno para a filosofia de Nietzsche que, concebendo a vida como
vontade de poder o mais elevado valor, já não mais aceita qualquer oposição e
diferenciação hierárquica entre ser e fenômeno, essência e aparência. Com
efeito, a constatação da morte de Deus,
em nível ontológico, anuncia o fim da metafísica e dos princípios e fundamentos
absolutos, por exemplo, o fundamento inconcusso de Descartes, o ego cogito, a consciência, o intelecto,
a subjetividade transcendental. Resta somente o fazer e produzir inconsciente do eros humano no domínio da ciência e da técnica a objetivar o mundo
do consumo até a autoconsumação da destrutividade corrosiva do des-vio.
Instala-se o reinado do materialismo e do ateísmo do mundo hodierno, no qual a
natureza é mero fundo de reservas para a produção de utensílios e experiências
científicas.
Nós propomos que o
foco atual de deliberação para essa sociedade aberta, a sociedade democrática,
deva ser a tomada de consciência, que já acontece, a respeito da inconsciência
dos modos humanos de produção frente às catástrofes naturais. Propomos como
objeto de deliberação a tomada de consciência universal, já que a globalização
dos modos de ser já é um fato inelutável, em face do vigente insulamento do eu
(humano) no deserto da desolação da Terra
sob o domínio da técnica na consumação da metafísica, segundo Heidegger.
O tema do aquecimento global, aqui filosoficamente
abordado, nos evidencia que as reservas naturais não são fontes inesgotáveis
para o domínio da aplicação do cálculo da ciência tecnológica e da
produtividade humana. Não que isso fosse preocupação de Heidegger ou de
Castoriadis, mas em face da vigente dominação técnica das ciências e da
internacionalização do modo europeu de conceber o mundo, concebemos que o
assunto aquecimento global se
constitui como importante objeto de deliberação e de pré-ocupação para
filósofos, educadores, cientistas, enfim, seres humanos. Além disso, o
enriquecimento de urânio, o perigo das armas nucleares, a corrida das nações
pelo crescimento econômico; em meio a isso, a natureza sendo mortificada pela
incessante volição humana manifestada na pulsão de calcular e de tudo objetivar
e planejar para garantir o domínio humano.
Retornamos agora ao
problema filosófico do fechamento do ciclo da lógica conídica e da ontologia
unitária em Heidegger para fecharmos a questão, evocando o poder de criação do
homem para pensar um projeto de autonomia individual e coletiva em face dos
problemas de ordem ambiental e política que hoje assolam todo o globo terrestre
e, por isso, constituem objeto pertinente de deliberação comum.
Heidegger percebe
que os pensadores antigos pensavam simplesmente o ser como presença (parousia). O ser como einai é presentar, e o ón (eón)
é o presente (ente). Parmênides não pensou o “é” (éstin) como cópula de uma proposição, mas como o estar presente do
que é presente.
Aristóteles pensou o
ser (presentar) do ente (presente) pela categoria, e nisso o ente já era “manifesto para a enunciação” sob o modo
do desvelamento (alétheia); a verdade
em sentido grego como o desvelar da presença do presente, o que não é ainda o
modo da adequação entre a coisa fora do
pensamento e a coisa pensada,
esta sendo a idéia ou representação no sentido moderno.
A essência da substância
(hypokeímenon) não era um sujeito da
proposição, já que se presentava manifestativamente como parousia (presença) da ousia
(substância, essência, o-que-é), sem
que houvesse qualquer distinção entre uma primeira e uma segunda substância,
isto é, entre essência e existência, como na filosofia escolástica medieval.
Somente em Platão
surge a linguagem conceitual, pois este pensa a idéa. As enunciações que são livres do conceito e de sua rigidez
proposicional encontram a manifestação da presença nas “palavras fundamentais do pensamento primordial: Physis e Lógos (...) Alétheia e Hén.”[24]
Ente e ser, presente
e presentar, eón e einai são palavras para tudo que se
presenta e para o próprio mostrar-se das coisas, mas isso só através do Hén (Um); disso advém o destino do ser
até a modernidade na Monadologia de
Leibniz e na Fenomenologia do Espírito de Hegel como substância plenamente
substanciada.
Segundo Heidegger, a
lógica não se origina em Parmênides, mas na metafísica originada pelos pósteros
que assim leram posteriormente as filosofias de Platão e Aristóteles de modo
historiográfico. Foi a metafísica que impôs o domínio da leitura do “ser” sob a
forma lógica, velando seu vigor essencial e original, tornando-o “conceito mais
vazio e mais geral”.
Isso também encobriu
com o véu do esquecimento o sentido originário do Lógos de Heráclito como légein,
colher, recolher para a unidade do Hén
(Um). Esse velamento encobriu o sentido do ser como o presente a desdobrar-se
na presença e na ausência, no desvelamento (alétheia)
que inclui o velamento, já que o esquecimento da diferença entre ente e ser
pertence ao enigma do ser, concernindo à sua retenção (retração) clarificadora,
cuja luz só permite ao homem perceber (ver) uma faísca de brilho, porque sua
visão, a capacidade de apercepção humana, não pode compreender a totalidade do
luzir do que é plenamente em seu vigor de ser, o raio fulgurante figurado na
mitologia grega como Zeus. (Lembre-se
que quando uma mortal pede-lhe que se manifeste em toda sua luz, em todo seu
ser, Zeus que é imortal, o ser, o mortal acaba incinerado pelo imortal (ápeiron?), o limitado e finito é
absorvido pela origem infinita e sem limites de todo ente a nascer e morrer, o
ser, a physis, o cosmos em-si-para-si.)
Essa faísca de
brilho é o que a nós aparece na demora repentina, transitória, na presentação
pelo desvelamento-velamento do ser, que mostra o ente. Assim é que o ser se
revela a nós como aparência, mostrando-nos um aspecto, uma forma. Daí o ente
aparecer em seu ser como Idea, esta
se revelando a Platão como o ser dos entes. Mas o ente como Physis também vale aqui como o surgido
de si mesmo e por si mesmo produzido, o ser que devém, que vem a ser a partir
de si e que tem em si mesmo o fim e o princípio de seu movimento; também há o
ente como Tékhne, ou seja, fabricado
pelo ser humano. Desvela-se o ente, então, como érgon (obra) no pensamento de Aristóteles, aquilo que foi
produzido, uma obra que veio a ser e surgiu de si mesma e presentou sua
finalidade, ou foi fabricada pelo homem. Heidegger, então, nos diz que
Aristóteles concebe o ser do ente como enérgeia.
Essas palavras
fundamentais são nomeações do mesmo. O mesmo nomeado por cada pensador é
pensado sob a unidade unificante do Hén (Um).
Por isso, não há sentido em diferenciar Parmênides e Heráclito, um como
doutrinador do ser, e ou outro como doutrinador do devir. Pois é igualmente
necessário que o ente se torne presente e ausente no desvelamento e no
velamento do ser. No entanto, vem o tempo da tradução de enérgeia por actualitas.
A tradução latina converte atualidade
em realidade, esta vem a ser objetividade na era moderna, pelo que a
vigência da presença é velada no ser pensado como representação. A objetividade
primeira e asseguradora de toda representação e entidade possíveis vem a
assumir o valor do fundamento inconcusso no ego
cogito de Descartes, inaugurando a gnosiologia moderna da relação
sujeito-objeto como fundamentação do conhecimento.
No século XIX, com o
positivismo e o avanço das ciências, prepara-se o terreno para o anúncio da morte de Deus, e o projeto de mensuração
da natureza da ciência moderna cada vez mais se instala como domínio técnico do
real a fim de assegurar a produção humana. Em tempos de discussão acerca das
ações humanas, positivas ou negativas, frente ao problema do clima no planeta,
do esgotamento das fontes de água potável e de reservas naturais em geral,
junto a problemas de ordem política, social e econômica, as palavras seguintes
soam atuais aos nossos ouvidos:
“O homem está a
ponto de atirar-se sobre a totalidade da terra e sua atmosfera [como já o fez],
de arrebatar para si o oculto imperar da natureza na forma de forças e de
submeter o processo da história à planificação e ordenação de um governo
planetário.
(...) A totalidade do ente é o único objeto de
uma única vontade de conquista. A simplicidade do ser foi sepultada num único
esquecimento.
Que mortal
seria capaz de esgotar, pelo pensamento, o abismo desta confusão? Pode-se
tentar fechar os olhos diante deste abismo. (...) O abismo não se arreda.
As teorias da
Natureza, as doutrinas da História, não resolvem esta confusão. Elas confundem
tudo no incognoscível, porque elas mesmas se alimentam da confusão, que se
estende sobre a diferença entre ente e ser.[25]
O EU ISOLADO DE SI EM SI MESMO E O
DESERTO DA DESOLAÇÃO DA TERRA.
Este
trabalho procedeu do que me veio à mente numa primeira leitura parcial do tratado lockiano da identidade de
Balilar. Parece-me que há uma
confusão no seio da própria linguagem, no meio pelo qual discursamos e, assim,
construímos o mundo através das significações dos termos utilizados no ato
mesmo do discursar.
O
título deste trabalho é o eu isolado de
si em si mesmo. O eu é um modo
ser essencial do humano, que se isola de si na medida em que isola tudo o que
é, isola o mundo de si e os entes situados no mundo do insulamento humano. O eu se isola de si na medida em que se
aparta do mundo e deseja conhecê-lo sob a determinação da objetividade e da
representação do mundo e dos entes no mundo fragmentado pela vivissecção que o
homem científico e técnico empreende com seus cálculos proposicionais e suas
operações lógico-metodológico-instrumentais na aplicação das ciências atuariais,
isto é, nos setores de atuação do saber sobre
e do conhecer o(s) modo(s) de ser dos entes (objetos), a fim de que se
estabeleça e vigore o mundo da técnica e do cálculo, no qual hoje o homem
habita.
O
insulamento do homem no eu tem como
desdobramento e abertura manifestativa de seu modo de ser o aprofundamento no
subconsciente do eu e gera uma
análise e descrição dos fenômenos psíquicos a partir não mais somente do
conceito e determinação da consciência. Com isso não nos posicionamos a favor
de coisa alguma, apenas constatamos um fenômeno no âmbito do homem se cons-des-truindo
na história e na cultura, que são outros modos de seu habitar e de seu ser no
mundo, pelo quê seu modo de lidar e interagir com o ente em geral e com os
entes em particular se determina e passa a vigorar enquanto momento de vigência
do fenômeno do ser no tempo, e deste naquele.
O
eu se isola de si e se perde no ser
da objetividade do ente, a fim de que
o ser da ciência se instaure no mundo humano, e este seja reduzido a mero
operador da função do fazer-se a si mesmo do conhecimento em sua elaboração
autocrítica, cuja finalidade é reavivar seus próprios mecanismos internos de
funcionamento. Isso tudo, porém, acontece no mundo do homem, o isolamento de si
do humano acontece em si no humano, e se aprofunda mais conforme o homem queira
se isolar do não-humano, a fim de que
vigore no modo de ser da humanidade
como um ser-para-si egoíco, que agora
passa a preocupar-se com o Globo Terrestre porque vê na preservação da Terra a
sua própria preservação, o mesmo valendo para a sua destruição.
O isolamento do eu e o deserto da desolação da Terra se
manifestam como co-incidências dos diversos modos de ser do humano nos seus
muitos modos de lidar com o ente em geral na multiplicidade de áreas
específicas de saber. Hegel descreve fenomenologicamente o vir a ser do
espírito até o modo da consciência de si como o saber que sabe a si mesmo, a
figura do absoluto como estágio final
do evolver do espírito; este evolve no tempo, mas não só no tempo, e sim em um
ente especial jogado no jogo do tempo, o homem. Isso é Ciência Absoluta porque
é Saber do Absoluto. Talvez Castoriadis considerasse isso um elevadíssimo
estado megalomaníaco da lógica conjuntista-identitária da determinação do ente
em seu ser e da ontologia unitária do ser do ente como determinidade. Aqui então citamos algumas pérolas do idealismo
alemão, a título de ilustração elucidativa:
“(...) o
movimento dialético da Fenomenologia prossegue como aprofundamento dessa
situação histórico-dialética de um sujeito que é fenômeno para si mesmo no
próprio ato em que constrói o saber de um objeto que aparece no horizonte de
suas experiências. Assim, transfere para o próprio coração do sujeito – para o
seu saber – a condição de fenômeno que Kant cingira à esfera do objeto. (...)”
(nota do tradutor, p. 15)
“Na totalidade do movimento, compreendido como [estado
de] repouso, o que nele se diferencia e se dá um ser-aí em particular é
conservado como algo que se rememora, cujo ser-aí é o saber de si mesmo; como
esse saber é também imediatamente ser-aí.” (p.53, prefácio de Hegel)
“A consciência, ao abrir caminho rumo à sua verdadeira
existência, vai atingir um ponto onde se despojará de sua aparência: a de estar
presa a algo estranho, que é só para ela, e que é como um outro. Aqui a
aparência se torna igual à essência, de modo que sua exposição coincide
exatamente com esse ponto da ciência autêntica do espírito. E, finalmente, como
apreende sua verdadeira essência, a consciência mesma designará a natureza do
próprio saber absoluto.” (contracapa)
“(...) A meta –
o saber absoluto, ou o espírito que se sabe como espírito – tem por seu caminho
a rememoração dos espíritos como são neles mesmos, e como desempenham a
organização de seu reino. Sua conservação, segundo o lado de seu ser-aí livre
que se manifesta na forma da contingência, é a história; mas segundo o lado de
sua organização conceitual, é a ciência do saber que se manifesta. Os dois
lados conjuntamente – a história conceituada – formam a rememoração e o
calvário do espírito absoluto; a efetividade, a verdade e a certeza de seu
trono, sem o qual o espírito seria a solidão sem vida; somente
‘do cálice desse reino dos espíritos
Ora, para Fichte, em consonância ao
ecoar do ideal moderno da crença na cientificidade, saber e liberdade são
intrinsecamente unificados num todo; a liberdade é talvez o ideal mais caro à
humanidade; basta ler a doutrina da
ciência e do saber absoluto. Mas é na introdução
à teoria do Estado que Fichte declara:
“Conhecimento é imagem do ser de Deus: mas não o
conhecimento que põe outra vez um ser a partir de si mesmo, e sim o que põe um
vir-a-ser: a imagem da liberdade eternamente criadora, pairando acima, com suas
leis que se enunciam por toda eternidade em conceitos puros – este é o mundo
(...)”[27]
Tendo em vista essa colocação de Fichte, cuja preocupação central é o eu ou a subjetividade transcendental
como posição, citamos agora uma consideração de Schelling a respeito da
filosofia de Hegel, centrando o modo como ali Deus é considerado, o que não exclui uma consideração também a
respeito do humano, que também tem como modo de ser o estar-frente-ao-Divino. Leiamos Schelling:
“Hegel está tão pouco inclinado a reconhecer sua
filosofia como a meramente negativa,
que, pelo contrário, assegura: ela é a filosofia que não deixa absolutamente
nada fora de si; sua filosofia se atribui a mais objetiva significação e, em
particular, um conhecimento inteiramente perfeito de Deus e das coisas divinas
– o conhecimento que Kant negou à razão é alcançado por sua filosofia. (...) O
Deus-pai, antes da criação, é o conceito puramente lógico, que se desenrola nas
puras categorias do ser. Mas esse Deus, porque sua essência consiste em um
processo necessário, tem de revelar-se, e essa revelação ou exteriorização de
si mesmo é o mundo, e é o Deus-filho. Mas também essa exteriorização (...),
essa negação de seu ser meramente lógico, Deus tem, mais uma vez, de suprimir,
e tem de retornar a si, o que através do espírito humano, ocorre na arte, na
religião e, completamente, na filosofia, e esse espírito humano é ao mesmo
tempo o espírito-santo, somente através do qual Deus chega à perfeita
consciência de si mesmo.”[28]
Com isso, o desdobramento da
filosofia ocidental já alcança o momento do surgimento do pensamento de
Schopenhauer, o mestre de Nietzsche e figuração do cume da tradição filosófica
ocidental, preparando o terreno do pensar o ser para o enunciador do grande acontecimento
ontológico na história do ser, a morte de
Deus. Nietzsche empreende sua crítica do modo de valoração da tradição com
o intuito de sua transvaloração; a genealogia
da moral exprime sua crítica de modo sistemático e compreensível. A morte de Deus abre o espaço do tempo
mais propício para o acontecimento do declínio do pensamento na efetivação
aterradora do niilismo sobre a Terra. Quando se pensa matar a subjetividade para dar lugar à vitalidade[29],
inicia-se o mais terrível momento do processo do isolamento do eu e da desolação da Terra. Mas agora,
voltamos ao Tratado Lockiano da Identidade
de Étienne Balibar.
*
A
certeza exprimida na fórmula eu sou, eu
existo parece atestar que o eu é
o fundamento do mundo e da realidade enquanto o que primordialmente é, existe.
E disso advém certeza desse ente que é como um ser pensante, na medida em que o
eu é certo de si enquanto eu pensante; pois, se não pensasse, não
poderia estar certo de que é e existe. Daí a concomitância entre o eu sou e o eu penso.
Na
página 14 do tratado, o eu penso (eu sou) é multiplicado em suas modalidades, a saber: eu duvido, eu concebo, eu afirmo etc.
Mas quando se pergunta pelo pensado, concebido, duvidado, afirmado, isto
é, na interrogação: O quê eu penso? O
quê afirmo? O quê concebo? Acontece
que a resposta é: eu penso isto, eu
afirmo aquilo, eu concebo algo. Sim, e daí? E daí que o quê se
repete é sempre o eu como fundamento
do discursar e tecer a realidade no seio mesmo das significações da linguagem,
de modo que cada sujeito pensante se
constitua e constitua seu próprio mundo de isolamento, de modo que quando cada
alma se encontra e dialoga dá-se um encontro e diálogo entre mundos distintos,
que, todavia, permanecem unificados pela comunidade das significações no seio
da linguagem como instrumento de urdidura do real; metáfora usada por Platão em
seu diálogo Político:
“(...) a
verdadeira função dessa arte real de tecedura: jamais permitir o
estabelecimento do divórcio entre o caráter moderado e o caráter enérgico,
antes uni-los pela comunidade de opiniões, honras e glórias, pela troca de
promessas, para fazer deles um tecido flexível, e, como se diz, bem cerrado,
confiando-lhes sempre em comum as magistraturas nas cidades.”[30]
Deste
trecho da fala do Estrangeiro ao final do Político
de Platão queremos somente extrair a ideia de que por meio dessa arte real da tecedura se estabelece o casamento ou a conexão harmoniosa entre os entes distintos, na
citação o caráter moderado e o enérgico, e a disposição da diferença
entre os entes numa reunião unificante que permite a ordem, Cosmos, da cidade. A cidade é onde
habita o homem e onde é possível o ser homem
no mundo humano, o ser um eu pensante,
ou simplesmente ser (existir); a cidade é o mundo do homem e
o ser-no-mundo daquele que o habita e
nele se constrói mediante as significações da linguagem; a cidade é a linguagem
e o pensar-fazer do humano, onde moram e se avizinham numa relação de
co-pertença ser e pensar, mundo e homem.
Mas onde
primordialmente habita isolado este eu
sou, eu existo, eu penso, o Homem (Ocidental) moderno, aquele cujas raízes se tenta buscar na grecidade da filosofia e na filosofia da Grécia como renascimento daquilo que não pode ser
senão uma ressurreição da
interioridade ascética cristã no processo social-histórico de sincretismo entre
dois mundos na formação da modernidade: o pagão e o cristão, o greco-romano e o
judaico-cristão, embora este mesmo homem espiritual
queira o ateísmo e o materialismo das ciências empíricas modernas, do Estado
laico de Direitos Universais do Homem, do socialismo de Marx e do vitalismo de
Nietzsche, do evolucionismo de Darwin, do positivismo de Comte, do sexualismo
psicanalítico de Freud...?
O sexualismo psicanalítico de Freud, pela
indeterminação do modo de ser da sexualidade,
determina todas as formas e formações, bem como as deformações do ponto de
vista moral, dos diversos distúrbios de
sexualismos no modo de ser da sexualidade
hodierna: a discussão da liberação do sexo junto à liberação da mulher, o homossexualismo, o trans-sexualismo; junto a
isso a provocação do impulso ao consumo pela evocação exacerbada da pulsão do
prazer; e nisso todos se julgam livres e realizados enquanto humanos plenamente
humanizados no cotidiano humano,
demasiado humano da vida, ontologicamente determinada como vontade de poder, que se exprime como
querer a si mesmo do próprio querer-viver, em antítese a Schopenhauer, na afirmação
do eterno retorno no pathos afetivo do amor fati como sendo um tipo de
Carpe Diem. Como poderia uma moral que preconiza o sexo dentro do casamento
heterossexual e com vistas à procriação da espécie e preservação do princípio
de geração da natureza e de conservação de si nas futuras gerações ser
considerada como antinatureza? E
Nietzsche ainda intenta sustentar toda moral como antinatureza a fim de constituir seus valores pretensamente
aristocráticos de uma cultura superior baseada em uma ainda mais pretensiosa
estética da vida e da existência como arte;
o máximo que seu pensamento estético-existencial pagão pode promover, se
seguido à risca (e seu pensamento é muito claro), é a autodestruição da
humanidade, como ocorreu muito rápido, por sinal, na civilização greco-romana
antes do cristianismo, e não por culpa do ressentimento deste à uma suposta nobreza aristocrática dos fortes, mas
porque tudo que nasce, simplesmente, morre.
O eu-isolado
do Homem habita em si mesmo e esquece o ser
no sem mundo do que Heidegger denomina a desolação
da Terra; esquecendo-se o ser, esquece-se também o pensar; e se pensar e ser são
esquecidos, restam unicamente o eu-isolado
de si em si na sua Ilha, prestes a afundar-se no revoltoso Oceano que o
circunda em furiosos maremotos de desespero
humano kierkegaardiano, e o ser-desolado na Terra em angústia,
enfim, a Terra-desolada; o eu-isolado
do Homem e o ser-desolado da Terra
co-incidem.
Na
enunciação de Parmênides se dá a mesmidade ou identidade entre ser e pensar, mas é só no homem moderno judaico-cristão que advém com
toda sua força de interiorização e isolamento o eu sou, eu penso. Aqui a
co-pertinência entre ser e pensar tem o eu como elo de conexão identitária entre dois estados distintos do eu, que se vêem, assim, numa relação
equacional, cuja cópula é fundamentada no próprio eu: eu sou = eu penso. Mas Parmênides e Balibar não
vêem pensar e ser como o mesmo?
Aqui
colocamos o problema da linguagem a que nos referíamos, pois na resposta à
pergunta O que é este ente, a saber, o eu
sou? Eu sou algo (um ente ou uma coisa)
que pensa; em tal resposta há, a nosso ver, um processo de primeira
modalização do eu sou no eu penso, que somente se torna uma
relação equacional após a reflexão de si do próprio fundamento do pensar e do
ser, o eu a ser um se pensar em pleno
isolamento do autopensamento e da certeza de si.
Não adianta
perguntar: o pensamento pensa o eu,
ou este pensa o pensamento? Pois o eu sou já é, o eu existo já existe e,
sendo-existindo, põe como primeira representação de si o eu penso a fim de assegurar-se na certeza de si através da certeza
do pensamento de si, assim confundindo ser
e pensar na permanência do eu em seu ser isolamento na atividade de
autopensamento a refletir sobre o ser
do eu o pensamento do ser do eu, uma vez que o pensamento já pensa,
somente pelo que é possível ao eu que é
a percepção de si mesmo como eu que
pensa.
Assim, o gráfico na
página 14 do tratado lockiano nos
mostra primeiramente o eu sou e
ultimamente o eu sou no movimento de
ser do próprio eu-isolado a refletir-se na autopercepção de suas múltiplas
operações modais, uma das quais e a primeiríssima é o pensar, com o qual se
identifica; senão vejamos o esquema na página seguinte:
Etc.
|
Eu
Etc.
|
=
|
Isso nos parece uma
operação ou um movimento interno do sujeito rumo a si mesmo na certeza de ser
ele próprio um eu que é através da
certeza de pensar na afirmação eu sou,
eu existo, portanto eu penso. Essa certeza de pensar que é do eu é através dos pensamentos das atividades que realiza em
referência ao mundo exterior, o qual, no entanto, é uma projeção das
significações construídas mediante a linguagem e a disposição das ideias em
conceitos concatenados, em um processo de tecer o complexo de configurações do
mundo em uma totalidade que abrange a indeterminação da diversidade da matéria,
magma psíquico enquanto coisa ainda não convertida em um objeto, ou seja, um
ente cognoscível para a atividade construtora de mundo do sujeito-isolado,
assim reduzido a função mental operadora da atividade imperativa de conhecer;
sujeito-isolado que é o homem moderno, a saber, cada um de nós enquanto
determinados como meros trabalhadores e sujeitos de conhecimento. Assim,
Balibar nos fala que:
“A expressão :
«eu sou pensante »,
ou : «eu
sou uma coisa que
pensa » é, em
suma , um
equivalente geral
de todas as modalidades infinitamente diversas do pensamento ,
com seus
objetos e suas
referências próprias. Observe-se que o termo «coisa » não é, de forma alguma, uma maneira
de desnaturar a subjetividade, mas antes , para Descartes , a forma de nos fazer entender que é do ponto de vista de um sujeito que «pensamento »
e «existência » podem ser
imediatamente identificados[31]. Nessa meditação , o sujeito (ego ) se
reconhece como o autor
de todos os seus
pensamentos [32].”
E logo em seguida
Balibar nos apresenta um novo esquema, no qual relaciona as modalidades ao
pensar como pensamentos da atividade pura e simples do pensar do eu sou que é. Ora, o que dizemos é que
os pensamentos são pensamentos do eu que é e, sendo, realiza a operação sempre
constante de pensar; e o pensado da
atividade do pensar é a ideia, o conceito, o objeto, a representação
da coisa, mas nunca esta em si mesma, em sua realidade formal numênica, e sim em sua realidade objetiva e fenomênica, isto é, como algo qualquer de
magmático ou de matéria indeterminada a ser passível de tornar-se objeto determinado
para a operacionalidade cognitivista do pensar reflexivo do eu sou, que retorna a si e se reconhece
como consciência de si, enfim, como espírito,
já que se pensa a si mesmo e se percebe como o verdadeiro fenômeno na presença
a si do eu sou, que se auto-re-presenta no eu
penso e, assim, do mundo se ausenta, na desolação da Terra e no
esquecimento do ser, que ora se apresenta.
O que estamos tentando propor é o que não foi
pensado ainda por Parmênides, nem pela tradição a respeito da co-relação entre
pensar e ser. Estamos tentando problematizar o que Balibar afirma com a
tradição, a saber, que pensar e ser são o mesmo, tendo em vista que na modernidade esse mesmo é o eu, o sujeito isolado, somente para o qual o(s) pensamento(s) é (são), senão
vejamos o esquema da página 15:
ver
caminhar
etc.
|
= pensar (pensamentos)
|
Já sabemos que
Balibar parte da mesmidade identitária entre pensar e ser,
modernamente falando, entre eu sou, eu existo e eu penso, e que o pensar dos pensamentos é o pensar do eu-pensante.
Mas nós concebemos que o pensar é o primeiro modo em que o eu-isolado em seu
interior se converte, para, através do(s) pensamento(s), operar as representações
do mundo exterior como ideias ou pensamentos correspondentes às afecções ou
modificações da alma, na qual se dá a atividade pura e simples do pensar como
auto-referência e certeza de si do eu
que é e, assim, assegura seu ser-existir face à incidência dos entes, que
percebe como exteriores a si ou diferentes de si; pois mesmo a percepção de
sensações e de operações intelectuais internas da atividade do pensar do eu constitui
ideias dessas sensações e operações, que servem de matéria para a causa
eficiente do mundo e do ser do mundo e dos entes no mundo do sujeito isolado;
essa causa eficiente é o eu sou que,
ao refletir-se, se percebe como pensamento que, antes de pensar o outro, pensa a si mesmo e identifica seu
ser à atividade reflexiva do pensar, como projeção no eu sou que se exterioriza em si e retorna como certeza e saber de
si, enfim, como espírito. Ser e
pensar não são o mesmo, mas sim o eu que, sendo, é a mesmidade sempre
presente como unidade sintética da
apercepção transcendental.
Mais adiante, a alma
pensante será vista a partir da dupla relação entre ideia e objeto por ela
representado, permitindo a proposição do pensamento como reflexão e, daí, como
consciência, conforme Balibar nos fala a respeito de Arnauld na página 21 do tratado. As ideias modificam a alma, que se volta para elas e as percebe
(representa) como modos de seu ser-estar para o pensamento na atividade sempre
reflexiva do eu sou através do eu penso, assim constituindo a atividade
cognoscitiva do espírito, o qual se percebe em um sentimento interior, que posteriormente se denominará consciência.
Importa-nos agora
falar das idéias para chegarmos à subversão do pensamento herdado da tradição,
que não resolve a aporia da separação ou ligação entre corpo e alma, e nem
consegue escapar de uma limitada dicotomia de mútua exclusão entre matéria e espírito.
É Balibar quem nos
diz que as ideias são o meio termo de uma
dupla relação entre a alma que pensa, o
eu penso, e os objetos representados para a atividade de pensar do eu sou. Ora, se em tal atividade
pensante é somente o eu sou que se
reflete, quando pensa as puras formas do pensar como intelecções do espírito, e
mesmo quando pensa o sensível e exterior como afecções corporais ou coisa
extensa, só o pensa enquanto pensável, isto é, enquanto representável (objetivável)
ou perceptível para o eu penso do
isolado e fundamental eu sou, sempre
a projetar-se no mundo e construí-lo a seu bel prazer de conhecer mediante a
brincadeira das significações da linguagem, então o eu sou, ao assegurar-se como certeza de si através do pensar que
se certifica como eu penso, não pensa
o seu ser como pensamento e nem mesmo o pensar em seu ser em si formal, mas sim
a realidade objetiva do pensar, isto é, o pensamento pensa o pensamento como
objeto e representação para si, e não como coisa em si mesma ou como o ser
mesmo do pensar.
A confusão se
esclarece quando se entende que na distinção típica do século XVII entre
realidade objetiva e realidade formal da ideia já se pré-figura a distinção que
Kant faz entre númenos e fenômenos, pois realidade objetiva indica a representação
do objeto como coisa determinada pela sua representação no pensar do eu sou, ao passo que realidade formal
indica o que a coisa é em si mesma, o ser em si, que não é cognoscível e,
portanto, permanece no plano magmático da indeterminação ou da matéria não
pensável porque não passível de tornar-se objeto de conhecimento para a
constante atividade reflexiva do espírito.
Pois realidade
formal ou em si da coisa nada mais indica que o estado magmático da matéria sem
forma como ente-em-si incognoscível. O magma assume forma e determinação para a
consciência só enquanto experimentável e representável em cálculos
proposicionais, pois, no domínio incondicional da disciplina lógica sobre os
saberes, as leis formais do pensamento são o próprio conteúdo material do
pensar o real enquanto tal, embora os lógicos pretendam com fracasso distinguir
forma de conteúdo, forma de matéria, sem perceberem o hylemorfismo aristotélico velado, mas vigente em tal fracassada
distinção. Indicamos aqui o Heráclito de
Heidegger, para uma compreensão mais originária do pensar e do próprio lógos não pensado na ciência lógica.
A representação dos
fenômenos para a consciência é o acontecer do pensar pelo qual este converte o
magma-coisa indeterminado em ente-objeto determinado, assim possibilitando a
experiência do conhecimento. O eu sou indeterminado
pensa a si mesmo sob a determinação de si como eu penso e, assim, funda a possibilidade das muitas modalidades de
pensar e de experimentar da alma através de suas modificações ou afecções no eu afirmo, eu duvido, eu respiro...
A realidade formal mesma do eu sou não
lhe é dada a pensar, o que ele é como coisa em si, pois o ente-em-si é o nada, mas só enquanto se representa primordialmente
na objetividade do pensamento e fundamenta a objetividade do mundo dos entes
pensáveis para o eu que é; do mesmo
modo, o pensamento não pensa a si mesmo em seu ser, mas enquanto ideia ou
realidade objetiva do pensar, ou seja, enquanto o pensar já se tornou um objeto
determinado e deixou seu ser em si como coisa indeterminada. O que acontece é
uma confusão que identifica a ideia como realidade objetiva ou representação da
coisa com o próprio ser da coisa em si mesma, assim como pensar e ser são
identificados, pois o mesmo é a pensar e
a ser, pensamento de que é, onde o mesmo
que é para o pensamento e o ser é o eu-isolado, o sujeito moderno, ainda não
desvelado no tempo de Parmênides.
Isso nos permite
ainda pensar a respeito da dicotomia entre matéria e espírito, pois sempre se
tentou pensar a imortalidade da alma a partir de sua imaterialidade, como nos
fala Balibar sobre La Forge na página 22 de seu tratado. Mas como a alma é capaz de tornar-se objeto para si mesma,
conhecer-se e ter consciência de si como espírito e saber de si como puro pensar
reflexivo, já percebemos que o eu-isolado
no isolamento de sua reflexão se faz a própria matéria de seu pensar,
experimenta a si mesmo como sensação ou sentimento interior e se constitui como
espírito e consciência de si. No processo de instauração da matéria do pensar é
o próprio pensar que se faz a matéria mais importante e, como causa eficiente e
material, imprime o movimento rumo ao conhecimento de si como espírito,
fazendo-se causa final e formal da constituição da consciência de si do sujeito
isolado como eu sou, eu existo, eu penso que assegura pela certeza de si a certeza do ser-existir
do mundo e dos entes do e no mundo como o que é pensável e, portanto,
experimentável e cognoscível.
O eu-isolado se isola de si em si mesmo
como eu sou que na percepção de si
percebe que pensa a si mesmo e re-presenta o pensar como concomitância entre eu penso e eu sou, já que pensar e ser são o mesmo, conforme o fundamento da
lógica identitária que é base do significar e fazer do humano no seio mesmo de
seu habitar social-histórico no mundo da linguagem. Mas na mesmidade entre ser
e pensar jaz escondido o fundamento identitário, o eu-isolado que, na certeza de si do eu existo, pensa sua presença a si como uma representação de si em
si no pensar que se percebe como pensamento do eu penso. O eu sou pensa
a ideia de si mesmo como uma realidade objetiva achando que pensa sua realidade
formal; ele sai de sua presença como eu
sou e permanece em si quando se re-presenta na percepção de si como eu sou a pensar que sou, portanto eu penso o que em mim mesmo é,
uma mesmidade entre ser e pensar, que não passa de certeza da
presença a si do sujeito-isolado como fundamento da objetividade do fundamento
de tudo que é, a saber, a subjetividade ou o sujeito transcendental.
A consciência é gerada, assim, na
atividade do representar-se do que já está aí a sempre se apresentar como
presença, o eu do sou-existo e do penso, para os quais se dão as conseqüentes representações como
modalidades do pensar-ser do eu-isolado
na desolação da Terra; a consciência
é uma conseqüência do eu-presença em
sua atividade interior de isolar-se de si em si mesmo na re-presença da certeza
de si como ser-pensar, pelo que assegura a presença a si do primeiro objeto da
representação, o eu-mesmo, que se faz objeto, mas que só se percebe como
sujeito de todo possível objeto, de todo possível e passível de conhecer. Assim,
o eu (humano) se isola na reflexão de
si, na atividade de seu existir como pensar,
e a Terra (ser) se desola. Pois a Terra é a totalidade de mundo em que o homem
está, sob o céu, este também incluso nesta totalidade ordenada de seres, o
Cosmos, no qual habitam homens e deuses e se harmonizam Terra e Céu, mortais e
imortais, visíveis e invisíveis, entes sensíveis e inteligíveis. Mas a
fragmentação começa com o rompimento com o mito...
Em 3) Acerca do predomínio da reflexão e da
subjetividade. A questão da profundidade do pensamento puro e da re-virada
(Rilke, Hölderlin) na doutrina
heraclítica do lógos, obra de Heidegger, este pensador nos fala de uma
indicação do fim da subjetividade em um trecho de um poema de Rilke. Com
Hölderlin, pensa-se o pensamento na profundidade em que é cunhada a essência
mesma do pensamento puro, de modo a esclarecerem-se alguns equívocos sobre a
reflexão mesma, para que o aprofundar-se do pensamento o remeta à reflexão
originária, evocando o a-se-pensar, o
não pensado. Heidegger nos convoca para esse âmbito mais profundo do pensamento
por causa das indagações problemáticas relativas à subjetividade, em força da
qual o pensado se determina no modo da contraposição ao sujeito, o modo do
objeto, bem como o que pensa se determina como eu ou sujeito, pelo que a re-presentação
configura a posição sobre si mesmo do sujeito e dos objetos para si no modo da
captura dos entes pela atividade de apreensão de objetos em geral na apercepção
da consciência de si. Leiamos então as palavras do próprio pensador alemão:
“Caracterizou-se
o pensamento, por um lado, do ponto de vista da reflexão, e por outro na
referência à sua própria profundidade. Nós, os hodiernos, só conhecemos a
reflexão na configuração da reflexão da subjetividade. Uma vez que costumamos
justapor a subjetividade com a egoidade do eu isolado, vemo-nos sempre no temor
de que a reflexão constitua o solo fermentador do individualismo e do egoísmo.
Todavia, deve-se advertir que nessa essência da reflexão, assumida como egoísmo
egocentrado, não somente o homem singular, mas também grupos e ligas inteiras,
nações e povos, toda a humanidade da Terra pode vir a ser desolada e
aniquilada. A remissão reflexiva não precisa, necessariamente, limitar-se ao
“eu” isolado. Precisa, porém, referir-se sempre a um si-mesmo. O eu e o
si-mesmo não são o mesmo. Não existe apenas o eu-mesmo. Existem também o
você-mesmo, o nós-mesmos, o vocês-mesmos. Para cada essência da reflexão é
decisivo o modo de determinação da mesmidade do mesmo, e vice-versa.”[33]
É a Terra mesma que em seu sofrer enuncia a
catástrofe do mundo, da linguagem, da identidade e da humanidade; enquanto cada
vez mais o eu se isola, a Terra se desola: “- oh, existence tragique, je suis très désolé!”
*
No início deste
texto falamos de uma confusão própria ao instrumental humano, a linguagem. Seja
qual for tal confusão, acreditamos que em alguma experiência singular e
original com a linguagem não há confusão; essa experiência nós a concebemos
como poesia, e apontamos para a Teogonia de Hesíodo como a experiência
máxima e fundamental do poetar originário.
Portanto
acrescentamos a este trabalho nossa leitura de um curto texto intitulado O “Programa
Sistemático”, em torno de cuja autoria houve uma controvérsia. A nota do
tradutor nos informa sobre a discussão sobre este texto achado em 1917 por
Franz Rosenzweig. Não entraremos em detalhes do assunto, apenas ressaltamos que
a disputa pela autoria girou em torno de três nomes do idealismo e do
romantismo alemão do século XIX, a saber, Hölderlin, Schelling e Hegel.
Nossa pretensão com
este texto é reanimar o elogio da poesia, da recuperação de sua dignidade e da
reivindicação do caráter filosófico
do poetar. Aqui fazemos uma menção à Lógica
da Arte e do Poema de Baumgarten, sem termos muita clareza sobre o que
fazer com isso, apenas manifestando nosso desejo por estudá-la. Ali há uma bela
teoria sobre a alma humana, e uma expressão poético-filosófica do inconsciente
antes de Freud, de Schopenhauer, de Nietzsche, mas não antes da teoria dos afetos
e do esforço por perseverar em seu ser
de Spinoza.
Aproveitamos ainda
para indicar uma possibilidade de estudo e defesa do tema da poesia como
experiência originária com a linguagem, o ser e o mundo, a partir dos estudos
de Heidegger sobre a poesia de Hölderlin, mas somente com o intuito de preparar
o terreno para a consideração do poetar originário na Teogonia de Hesíodo. Eis o que seria nosso Programa Sistemático.
Pois bem, o texto O “programa sistemático”, disponível em
língua portuguesa no volume da coleção Os
Pensadores dedicado a Schelling e Fichte, inicia fragmentado e apresentando
o desembocar da metafísica na moral, constituindo uma ética que sistematize todas as Idéias como postulados práticos,
tema este não esgotado por Kant.
A primeira Ideia
indica o caráter absoluto da liberdade da consciência de si, do que o mundo
surge inteiramente do nada, como criação ex
nihilo. Isso nos lembra a noção de Castoriadis do ser como criação e da
subjetividade como capacidade de dar a si os esquemas formais pelos quais os
estratos da realidade emergem como entes conjuntificáveis, processo de criação ex nihilo mediado pela imaginação criadora
e radical dos indivíduos e pelo imaginário criador das sociedades. Isso, porém,
não é para o momento. Importa lembrar que Castoriadis trabalha com a noção
psicanalítica de inconsciente e da psique
como fluxo representativo de afetos e intenções (desejos). E o que se chama
aqui de consciência de si é uma referência ao humano pelas significações do
esquema imaginário social-histórico em que se situava o autor do texto
analisado; com a des-coberta do inconsciente não se exclui o modo de ser da
consciência de si com um existencial humano.
Mas a filosofia não
fornece só as Ideias, fornece também os dados da experiência, o que compreende
também a física, ciência natural. Esta, porém, é insatisfatória do ponto de
vista do espírito criador.
A natureza é, então,
abandonada para a consideração da obra
humana. A Idéia de humanidade exclui a de Estado, pois este reduz tudo à
mecanicidade da máquina. A Idéia perfeita é exclusivamente o que poder ser
objeto da Liberdade. Aqui a negação do Estado, de toda legislação e
constituição parece ecoar o barulho anárquico da Revolução Francesa. Enfim, a
Razão persegue as Idéias de imortalidade, divindade e moral no mundo; a física
ou ciência natural também não compreende um mundo moral.
A Idéia da beleza é, portanto, colocada como força
unificadora de todas as idéias, retomando o sentido dado por Platão. Aqui o ato
de unificar em um todo conjunto todas as idéias é um ato estético que co-liga
verdade e bondade na idéia do belo. Deixemos o autor desconhecido cantar e assim
fertilizemos o terreno para o poetar cantante e originário da Teogonia de Hesíodo:
“A poesia
adquire com isso uma dignidade superior, torna-se outra vez no fim o que era no
começo – mestra da humanidade; pois
não há mais filosofia, não há mais história, a arte poética sobreviverá a todas
as outras ciências e artes.”
“(...) a grande
massa precisa ter uma religião sensível.
Mas não só a grande massa, o filósofo também precisa dela. Monoteísmo da razão
e do coração, politeísmo da imaginação e da arte, é disso que precisamos.”
“(...) – temos
de ter uma nova mitologia, mas essa mitologia tem de estar a serviço das
Idéias, tem de se tornar uma mitologia da Razão”[34]
Ora, a nosso ver, a
poesia do começo, mestra da humanidade,
cuja dignidade é, foi e será superior; antes que houvesse filosofia, história
ou ciências, entoada pelo aeodo; a poesia da religião sensível, que cantava o hino que sensibilizava o povo
frente aos deuses, na contemplação das Idéias numênicas surgindo e formando o Cosmos sob o lógos mítico da Razão universal (Zeus), é a Teogonia de Hesíodo.
BIBLIOGRAFIA:
BALIBAR, Étienne. Tratado Lockiano da Identidade; trad.
Lílian do Valle.
FICHTE. Introdução à teoria do Estado. São
Paulo: Nova Cultural, col. Os Pensadores,
1989.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do espírito, tradução de
Paulo Menezes; com colaboração de Karl Heing Efken, e José Nogueira Machado.
Petrópolis, RJ: Vozes: Bragança Paulista: USF, 2002.
HEIDEGGER, Martin. Heráclito: A origem do pensamento ocidental: lógica: A doutrina heraclítica do lógos; tradução Márcia Sá Cavalcante
Schuback. – Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1998.
PLATÃO. Político. São Paulo: Abril Cultural,
col. Os
Pensadores.
SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. História da Filosofia
Moderna: Hegel;
seleção, tradução e notas Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Nova
Cultural, col. Os Pensadores, 1989.
A QUESTÃO DA IMAGINAÇÃO.
O nosso tema tomará
como base e objeto de estudo a teoria poética e estética de Paul Valéry. A
proposta consiste em pegar a filosofia estética de Valéry e identificar suas
relações com a faculdade humana denominada imaginação criadora, tomando-a por
oposição à razão operadora das ciências, sem, contudo, excluí-las
absolutamente, antes sim integrando ambas na totalidade da relação de
contradição que configura o fazer artístico e a ciência estética, com ênfase no
predomínio da imaginação e de seu poder criador, que transpassa os limites da
mera repetição da operação de raciocínios, sob os quais a realidade deve ser
identificada com base nos princípios lógicos de não-contradição, de identidade
e de terceiro excluído, assim constituindo um princípio de realidade objetivo
para a atividade discursiva lógico-argumentativa das ciências acadêmicas.
Ao contrário,
ver-se-á que a razão operadora deve submeter-se à imaginação criadora no
processo de criação artística da obra de arte, ou melhor, que até na
demonstração lógica por argumentos e operações de raciocínio há certa
ante-posição (posição anterior) da imaginação face à razão.
Como um poeta
interpreta a imaginação filosoficamente? O foco do tema incide sobre a
compreensão filosófica a respeito da imaginação criadora por parte de um
verdadeiro criador, o qual se vale, na construção de sua obra poética, desta
potência eminentemente criadora, a imaginação. A criação adequada deve exprimir
o belo ontológico, a fim de que não
se produza a aberração dos totalitarismos, como nos ensina João Ricardo
Moderno.
O homem contemporâneo e moderno, isolado em si
e na desolação da Terra, na vigência do que Heidegger denomina o império da
técnica na consumação da metafísica ocidental, é o homem do esquecimento do
ser, o homem da ausência do belo perdido no mundo do que Adorno denomina indústria
cultural.
As grandes teorias
estéticas são elaborações de subjetividades profundamente íntimas do fazer
artístico. Essas teorias, exatamente por serem teorias, não podem eximir-se da
tarefa especial da expressão pelo discurso conceitual, cujo nome mais adequado
é filosofia; daí chamarem-se também filosofia da arte. Filosofia é a
desinteressada busca pela verdade. É necessário ter isso em vista, pois o abuso
não-estético da imaginação na criação discursiva pode gerar um uso e desuso
instrumental desta faculdade para a obtenção de fins ideológicos através de aberrações
políticas.
Estaremos auxiliados
neste trabalho pela História da Estética
de Raymond Bayer e pela Estética da
Contradição de João Ricardo Moderno, tendo por base também o texto de
Valéry chamado Introduction a la methode
de Leonard de Vinci. No entanto ressaltamos que o estudo de Valéry é só um
artifício para identificarmos na Estética
da Contradição a questão da distinção entre uma ciência da arte e uma
ciência da lógica, e disso passarmos ao problema mesmo da ciência,
compreendendo a razão que demonstra por cálculos proposicionais como posterior
à imaginação que cria o ente analítica ou logicamente demonstrável.
Valéry representa
certa transição da arte, da literatura e da estética filosófica do século XIX
ao século XX. Ele nos leva ao conceito do gênio nas diversas áreas de atuação a
partir da atividade da criação. Isso não acontece somente na arte. Quando surge
efetivamente uma transformação e uma nova teoria na ciência em geral, ali se
manifesta o gênio sob a atividade da potência criadora da imaginação. Aqui
temos em vista o que nos diz Cornelius Castoriadis, citando a obra O casamento entre o céu e o inferno de
William Blake:
“What is now
proved was once only imagined.
O que agora
está demonstrado deve ter sido antes imaginado. Frase brilhante e ao mesmo
tempo banal, que diz uma verdade evidente: não se pode demonstrar nada se antes
isso não foi imaginado como possibilidade de enunciado a ser demonstrado.”[35]
E isso nos mostra
como esta faculdade criadora é elementar e fundamental, tendo precedência em
relação à razão, o que quer dizer que a criação
seja anterior à mera operação; a
imaginação é o a priori como
faculdade instauradora do ser, a razão é o a
posteriori do calcular sobre o ser criado e do que será feito materialmente
do ser no processo técnico de
produção dos entes como utensílios de consumo.
Lá onde impera o
mero operar da razão calculadora, quando a imaginação permanece adormecida, e o
homem destituído do seu poder de criar, a humanidade padece ao mero fazer-se da
técnica e da ciência, a arte se torna produção em massa de artigos de consumo
no seio do que Adorno denomina indústria cultural, e as relações humanas se
tornam também relações mercantis de barganha e utilização do outro como produto
descartável, tão logo tenha sido utilizado para a realização da ação do consumo
no uso e abuso dos entes.
Leonardo da Vinci
nos fala sobre o rigor. De todo modo, a ciência e a arte diferem em seu rigor
específico. No rigor científico impera a razão e o cálculo dos discursos objetivos
à procura de padrões repetitivos, nos quais se enquadre o real, a fim de que se
estabeleçam leis descritivas dos fenômenos naturais, psíquicos, e dos fatos
sociais e acontecimentos históricos e humanos.
Na arte, a
imaginação criadora se vale do rigor discursivo, ou de expressão, em prol da
liberdade da atividade mesma do criar, através da qual o novo, ou diferente, se
manifesta e por força de sua natureza interna e essencial impõe a regra para a
determinação de padrões e técnicas de procedimentos atuariais humanos e de
processamentos de dados a serem objetivados em todos os níveis de atuação do
fazer humano, seja artístico, científico ou filosófico.
A arte realiza o
deslocamento do campo racional consciente para o do imaginário inconsciente,
sendo assim capaz de propor-se e impor-se como atividade criadora a
manifestar-se como impulsividade do movimento mesmo do criar através da
produção de obras. A imaginação é capaz de sonhar e exercer-se como ficção
mental ou psíquica, mas só se torna criadora na medida em que produz obras e
manifesta física e sensivelmente, a partir desse produzir e fazer, o ente real
como atividade intelectivamente criadora do espírito. Sendo o poder criador do
espírito, a imaginação é o lugar em que se dá a impulsão do criar a fim de
possibilitar a experiência do real (ser) como arte. Nesse sentido, é possível
uma metafísica da arte ou uma arte metafísica, na medida em que na arte se
manifesta mais originariamente a atividade criadora do espírito, cuja criação
nada mais é do que o ser mesmo.
Assim, a arte é a atividade humana de
instauração primordial do ser como realidade; essa atividade é realizada pela
imaginação criadora; e nestes termos a estética se configura como uma ontologia
fundamental, pelo que o humano poder ser definido como animal artístico: nem o animal
trabalhador de Marx, nem o animal
racional da tradição metafísica, que ignorava a estética até sua fundação
por Baumgarten no século XVIII.
Todavia Baumgarten
só queria legitimar uma ciência específica. Mas nós não concebemos a estética
como mera ciência de um ente específico, o objeto artístico e as regras do
fazer obras de arte, e sim como compreensão da imaginação criadora em todos os
âmbitos de realização humana como o poder de dar ser ao que ainda não é e,
assim, criar o novo e impulsionar o movimento de renovação do operar humano
pela razão em todos os setores da atuação humana.
Assim, a estética, a
ética, a lógica, a política, a física, a psicologia e todas as ciências se
harmonizam e se integram somente quando o homem não se submete ao mero trabalho
técnico do fazer científico e assume conscientemente o controle sobre o mundo
que produz, e no qual habita, sem que assim precise exercer um domínio
incondicional e desbaratado sobre o que é indomável em sua vigência, a natureza
em todas as suas acepções possíveis.
Aqui, pretendemos
restaurar o valor e a dignidade da poesia, perdidos no pretenso rebuliço do
progresso da humanidade em vista do desenvolvimento científico e técnico e na
exigência boçal da formalidade dos discursos acadêmicos e do discursar em geral
enjaulado no zoológico instituto de adestramento do homem, que são as academias
de ensino superior, verdadeiras indústrias da pesquisa e da formação de
máquinas de calcular e produzir conhecimento pelo mero processamento de
informações, citações bibliográficas e um convulsivo desejo de tudo apreender
para demonstrar a vaidade dos que querem tudo parecer saber.
A idéia da poesia,
ou melhor, do poetar (poematizar) como experiência primordial do homem com a
linguagem, na qual o ser se desvela e acontece em seu desvelar mais próprio, e
a verdade vige no seu vigor mais originário, antes de ser convertida na verdade
como adequação sob o reinado dos princípios da lógica no destinar-se da
filosofia ocidental como metafísica, como queríamos dizer no início do
parágrafo, essa idéia é encontrada em alguns textos de Heidegger, como por
exemplo:
“A sentença do
pensar só se deixa traduzir no diálogo do pensar com o que nele é pronunciado.
O pensar, contudo, é poematizar, e não somente no sentido da poesia e do canto.
O pensar do ser é a maneira originária do poematizar. Somente, nele antes de
tudo, a linguagem se torna a linguagem, isto é, atinge a sua essência. O pensar
diz o ditado da verdade do ser. O pensar é o dictare originário. O pensar é o poematizar originário que precede
toda a poesia, mas também o elemento poético da arte, na medida em que se torna
obra, no seio do âmbito da linguagem. Todo o poematizar, (...), é, no fundo, um
pensar. A essência poemática do pensar guarda o imperar da verdade do ser.
(...)”[36]
No entanto, nós
somos obrigados a discordar em um aspecto elementar deste trecho citado de
Heidegger, porque gostaríamos de considerar o pensar como poematizar somente no
sentido da poesia e do canto, tendo como exemplo o antigo aedo.
Assim, poderíamos considerar
a declamação ou palavra cantada como experiência mais originária do pensar
humano com o ser em geral, com o ente múltiplo em sua totalidade, a partir do
estudo o mundo como função de musas
de Jaa Torrano, baseado na Teogonia de
Hesíodo, resgatando a dignidade e o valor da declamação e do canto sob a ótica
de que, mesmo no silêncio e na solidão em que vive o poeta no mundo hodierno,
apartado da não-poesia deste mundo podre, no ato de compor seus versos no seio
dessa imensa solidão e desse silêncio assustador, que cala até mesmo o rebuliço
do mundo produzido pela técnica no interior do espírito que canta na composição
da palavra, como dizíamos, gostaríamos de resgatar a dignidade da declamação e
do canto sob a ótica de que o poetar é a ação mesma em que a imaginação
criadora se faz em sua atividade como operar da ação de criar, assim
manifestando o surgimento do fenômeno da linguagem em sua origem, e
simultaneamente o co-pertencimento entre pensar e ser no interior da palavra
não só enunciada em proposições nas quais se dão posições de representações e
significações lingüísticas encadeadas em estruturas lógico-semânticas e
conexões de implicação lógica entre as proposições, a fim de apreender o real
como objeto para um sujeito, mas como palavra cantada que exprime a brotação
mesma da realidade e de tudo que existe no seu ato de emergência. Assim,
deixamos Torrano falar:
“O poeta,
portanto, tem na palavra cantada o poder de ultrapassar e superar todos os
bloqueios e distâncias espaciais e temporais, um poder que só lhe é conferido
pela Memória (Mnemosyne) através das
palavras cantadas (Musas) (...) O aeodo canta sem que ao exercício de seu canto
se contraponha outra modalidade artística do uso da palavra. Seus versos
hexâmetros nascem num fluxo contínuo, como a única forma própria para a palavra
mostrar-se em toda a sua plenitude e força ontofânicas, como a mais alta
revelação da vida, dos Deuses, do mundo e dos seres. De nenhum outro modo a
palavra libera toda a sua força, nenhuma outra forma poética se põe como
alternativa à em que o canto se configura.”[37]
Todavia, hoje o
poeta não é mais um aeodo, e, no que diz respeito ao seu poetar há certo
esquecimento no fazer-se do processo criador, a atividade criadora permanece
velada em sua essência, escondida na simplicidade do artista ao falar do
movimento de vir a ser da obra, da criação artística. A arte permite que se
manifeste a perfeição, a obra em seu acabamento, ainda que na imperfeição, o
artista enquanto humano, demasiado humano.
O poetar é como Heidegger
falou, e com o que agora concordamos no jogo da contradição estética sob o
princípio do terceiro incluso desvelado como princípio da arte na Estética da Contradição de Ricardo
Moderno, o poematizar como dictare originário
da essência do pensar, em que reside o ser na vigência de seu desvelar-se, no
imperar de sua verdade, é o enigma da obra de arte, não só na poesia e no
canto, mas em todo processo criador da imaginação humana realizado em toda obra
humana, em todo operear-criar e criar-operar humanos, em todos os âmbitos de
atuação do ser humano. Assim, operar-criar é a operação mesma da criatividade
da imaginação na atividade da razão, e, dialeticamente, criar-operar é o
impulsionar da imaginação para o exercício calculador-operador da racionalidade
humana.
Nas ciências e nas
disciplinas da lógica e da matemática há um mero processo de rigor de calcular
e repetição massiva do operar formal da racionalidade enquanto tal, que se
aplica nas matérias de cada uma das regiões específicas de abarcamento do ente
e da realidade, assim constituindo o fazer científico hoje muito bem
academicamente institucionalizado como poder de discursar veritativamente sobre
as coisas e sua efetiva existência, sob o pressuposto e a determinação da
delimitação do real fragmentado em áreas distintas de entes específicos para
viabilizar o cálculo dos entes como objetos do operar da razão no exercício da
produção de conhecimentos, das técnicas de discurso, das metodologias do fazer
técnico e da mera produção de utensílios e de tecnologia avançada.
Todavia, os grandes
gênios destas ciências e disciplinas são os criadores de novas teorias e
práticas nesses ramos específicos de saber. Por isso, eles podem adequadamente
ser considerados artífices e filósofos da ciência; aqueles que fazem e produzem
refletindo sobre o fazer e produzir, e, na medida em que são criadores de novos
padrões de fazer-produzir-refletir, são também artistas, pressupondo-se que artista
seja sinônimo para criador.
A divisão entre
ciências naturais (Naturwissenschaften)
e ciências do espírito (Geisteswissenschaften)
compreende consigo que na linguagem das primeiras reina a produção dos
conceitos, dos objetos e da própria natureza
a partir de elementos provenientes do próprio espírito humano em sua atividade
constante de inteligir, sentir e criar, enfim de vivenciar e apreciar, pelo que
a diminuição das ciências humanas, ou do espírito, em relação às ciências da
natureza constitui uma tolice do próprio espírito humano, ainda em estado de
certa ignorância quanto a si mesmo, já que também o humano reside na natureza
que quer conhecer pelo espírito, cuja atividade de inteligir-sentir-criar forja
para si o conceito e a representação da natureza como objeto de conhecimento em
suas leis padronizadas de funcionamento. Só assim é possível uma adequada
teoria da visão de mundo (Weltanschauung),
para não nos esquecermos de Dilthey.
“A
estética francesa no século XX” por Raymond Bayer:
Raymond
Bayer nos fala de um período racionalista até a Guerra, 1939-45. A partir de
1945 e do que se denomina Libertação
houve uma confusão entre gêneros artísticos em vez de uma manutenção do rigor
disciplinar. Divide-se a estética francesa do século XX em dois períodos: um
durante ou até a Guerra e outro que se sucede ao ano de término dela, marcado
pela Libertação.
Paul
Valéry faz parte do primeiro período e estabelece certa conexão entre estética
filosofia e até política; para ele, o indivíduo deve expressar-se como
universalidade egotista, não para afirmar seu ego somente, mas para que o poeta
se converta em pensador universal. Assim, constroem-se juntamente o eu e sua
cosmovisão, ou seja, sua visão de mundo. Aqui colocaríamos como exemplo máximo
do poeta como pensador universal o aeodo Hesíodo.
A
estética enquanto ciência, se existisse, aniquilaria as artes por sua essência,
já que estas existem propriamente nas obras e pelos artistas. Mas, como a
teoria estética é uma tentação do espírito, configura-se como ciência da arte,
de suas doutrinas e de seus métodos de consecução.
Consideram-se
três tipos de estética, a saber: a clássica, que fala das obras e de sua
linguagem; a histórica, cujos objetos são as influências e a origem das obras;
e a científica, que analisa as obras em seus procedimentos metodológicos e seus
processos técnicos. A estética deve, em geral, proporcionar o prazer nas obras
ou o ensino da arte de executá-las.
Em
Discours aux Esthéticiens, Valéry
considera a questão de uma ligação essencial entre sentir, querer e fazer, em
que o sentir oferece certo obscurecimento. O prazer e a dor confundem o
observador e o observado, inutilizando as especulações teóricas sobre o fazer
artístico.
Isso
leva Valéry a distinguir a Estética da Poiética. A primeira constitui o estudo
das sensações sem função fisiológica determinada; a segunda trata da ação
produtiva do humano em geral. Valéry convida a ciência física a um estudo mais
originário das sensações, que vê no belo e no seu saber o fenômeno originário
do aspecto mais elementar da sensação.
Contudo, para nós a Poiética tem importância, sobretudo na
compreensão de Castoriadis acerca do ser como criação social-histórica, cuja
dimensão é dada pela poiética como
imaginário a partir do magma e da
historicidade, onde axiomas heterogêneos e princípios de alteridade coexistem
no mesmo[38],
impedindo a redução da coisa à operação de conjuntificação do real pela lógica
conídica, conjuntista-identitária, aliada à ontologia unitária do ser como
determinidade; e ainda no tema acima exposto do poetar ou poematizar da
linguagem como experimentação originária com o pensar e o ser no imperar da
verdade como a-létheia; ali o poetar
também assume outro importante sentido do poiético
na procedência da língua alemã dichten,
dichtung (como sinônimo para poesie), dichterisch, a saber: “compor, conceber, inventar, fingir,
projetar; composição, ficção, invenção, poema, poesia, projeção; poético,
inventivo, projetivo”[39],
significados que articulados entre si permitem uma interpretação do poematizar,
como dictare originário da linguagem
na essência da palavra e no domínio da verdade do ser, considerando a poesia
uma concepção projetiva que com-põe originariamente a linguagem e projeta o ser
como ficção do imaginário do poeta na palavra, no caso do aeodo Hesíodo, na
palavra cantada, na com-posição da poesia e do canto.
Após
esse parêntese sobre a Poiética em
Castoriadis e Heidegger, retornamos ao raciocínio de Valéry, para quem, tendo
em vista o que dizíamos, o esgotamento da retina na visão da cor vermelha cria
espontaneamente a cor verde, que poderia ser já conhecida pelo vermelho, caso
alguém nunca a tivesse visto. Essa criação espontânea e verdadeira mostra a
necessidade de completar uma lacuna, a partir da compreensão de uma relação de
complementaridade entre elementos que efetiva a criação.
Portanto,
essa ciência das sensações pede aos artistas que nos instruam a respeito do
belo e de sua criação pelo espírito. Pois este é o que deseja e age sobre a
matéria, atribuindo-lhe moldes e plasmando-lhe formas de configuração
manifestativa de acordo com as idéias que se lhe sobrevêm sem que o certifiquem
definitivamente do resultado do seu fazer, do seu operar. Tendo isso em vista,
nas diversas áreas do saber, o impulso à produção científica não pode acontecer
com propriedade sem uma instrução a respeito dos modos de criação do ser na
busca pela inovação do saber, pois o homem é responsável pela forma que dá ao
real, assim configurando um mundo de sentido e de realidade. Fazendo isso sem
responsabilidade e consciência, o homem desfigura o mundo e o real, em vez de
configurá-lo harmoniosamente sem afrontar o segredo do ser resguardado no véu
da verdade como o desvelamento, a retirada do véu em que se dá o ente no
vigorar do aparecimento ou surgimento, a physis
ou natureza.
*
Paul
Valéry vem nos trazer a importância de entender a essência da obra de arte,
fazendo uma ontologia da arte. Isso implica a compreensão da diferença entre
arte e ciência. A obra de arte pode ser entendida também sob perspectiva
histórica, no eixo da simultaneidade entre o sincrônico e o diacrônico da
história.
Mas o entendimento
da criação da obra de arte perpassa também a compreensão do talento a-histórico
do artista, uma qualidade singularíssima que independe de fatores externos,
sociais ou históricos, e que floresce na criação artística, revelando o artista
como gênio criador.
Uma visão diacrônica
sobre a obra de arte permite uma variedade de interpretações de seu sentido,
independentemente de determinações epocais e circunstanciais nas quais a obra
veio a ser. O eixo sincrônico dá uma dimensão de linearidade e progresso
histórico das épocas e estilos artísticos, enquanto a dimensão diacrônica
permite o diálogo de uma obra com todos os tempos, possibilitando uma
reinvenção de seu sentido.
Além disso,
retornado à já referida questão da diferença entre ciência e arte, vale
ressaltar que o processo criativo se dá na imaginação criadora e manifesta na
obra o sentido mesmo do criar, que se não explica de maneira demonstrativa e
rigorosa, como as leis pretensamente objetivas descritas pelas experimentações
dos fenômenos nas ciências naturais. Com isso, entretanto, não queremos dizer
que a arte não tenha seu rigor próprio para manifestar a existência sob o
delírio contemplativo-estético do belo ontológico.
Dizemos
pretensamente objetivas porque não compartilhamos da crença dogmática na
capacidade de penetração real da ciência no ser objetivo da natureza enquanto tal, mas sim de uma compreensão que
percebe o processo do fazer científico como certa violência exercida pelo
espírito, excessivamente racionalizado, sobre a natureza, forçando-a a
moldar-se nas estruturas de operacionalidade de cálculos e proposições da
linguagem humana sob a marca da representação de seu ser como objeto para o espírito, que assim se
reduz a sujeito da ação meramente cognoscente.
Como falamos acima,
a arte, e mais propriamente o poetar, é o elemento primordial do enunciar como
força criadora da imaginação pelo canto, em um tempo em que o fenômeno
originário da linguagem se dá sem recorrência à ainda inexistente prosa com
suas leis e processos analíticos, suas proposições conceituais e suas leis
racionais de operação lógica, o princípio da identidade, da contradição e do
terceiro excluído. Essa linguagem originária, que se valia do poder da
imaginação criadora no seu agir primordial em um tempo em que, por ainda não
conhecer a lógica e a metafísica da razão, desconhecia toda epistemé, isto é, toda ciência sobre os entes, também nem sequer
poderia conhecer o princípio do terceiro incluído como princípio da arte, esta
como um ente determinado (a arte) de uma ciência específica sobre esse ente determinado (a
estética). Por isso, mais uma vez ressaltamos a dignidade do poetar como
experiência primordial do pensar com a linguagem e com o ser em geral.
Valéry,
Leonardo e os filósofos:
O texto de Valéry sobre Leonardo e os filósofos partiu de
uma instigação de escrever sobre o pintor, relacionando-o à filosofia. Trata-se
de aproximar a filosofia e a arte mediante o estudo da estética, esta
denominada “ciência dos valores e das criações das emoções”. Valéry enfatiza o
conceito de arte como criação de emoções.
No fazer artístico,
no processo criativo da obra de arte o poder de calcular da razão deve se
submeter à criatividade da imaginação criadora artística. Por isso, um músico é
antes de tudo um músico, um artista dos sons, não um matemático, embora a
linguagem musical da partitura seja repleta de relações numéricas de cálculo.
Na poesia, a métrica
da palavra serve ao ritmo nas rimas da composição de versos, e a ordenação
lógico-formal e predicativa das proposições, bem como as significações das
palavras, se submete às criações das figuras de linguagem, à imagem e aos
símbolos da produção poética.
Agora já nos
introduzimos no assunto da relação entre filosofia e arte. O filósofo é um
especialista do universal, que só aparece sob a forma verbal e rigidamente
conceitual. Isso gera uma contradição dialética, o que não exclui, e sim inclui
o filósofo na qualidade de artista do discurso, mestre da palavra.
A filosofia se dá no
seio da contradição dialética entre o universal e o singular; este singular
configura a diferença entre os vários pensamentos dos filósofos; a
singularidade dá a dimensão pessoal e configura o paradoxo da existência ou do
ser em geral, assim guardando o lugar do elemento imaginário e criativo na
filosofia.
O universal é a
determinação rigorosa na expressão filosófica. Ambos, universal e singular, são
igualmente necessários no fazer filosófico. O universal dá o rigor formal do
discurso e o configura sob a determinação da autenticidade do saber legítimo; o
singular dá o elemento criativo e qualifica o poder de criação para uma nova
expressividade do saber.
Valéry preconiza,
assim, um reconhecimento da vitalidade do absurdo paradoxal e da fecundidade da
complementaridade na contradição dialética, pois esta reside no interior do
próprio espírito e na realidade enquanto tal, na relação de espírito a
espírito, nas relações intersubjetivas no seio do ambiente humano da cultura,
da sociedade e da história, da arte e da política, da filosofia e da ciência
etc.
Apesar dessa
comparação entre filosofia e arte, a contradição assume manifestações distintas
em cada âmbito específico. Porém, a contradição está primordialmente no real
enquanto tal, no espírito e na matéria, cuja relação efetua a produção de obra
em todos os níveis do fazer humano, pelo que todo obrar (operar) e produzir são
percebidos como efeitos da contradição fundamental do real.
A ética é a ciência
dos valores; a estética, ciência dos valores da expressão e da criação das
emoções na arte. As emoções se expressam segundo uma forma artística que as
embeleza, pois a mera expressividade emocional sem a forma da arte não é arte.
Esta se exprime em sua forma própria e manifesta o poder de criar e embelezar
as emoções singulares, para que estas se tornem expressões dignas de se
apresentarem como representações universais do sentimento humano.
Nisso, compreende-se
o belo como elemento ontológico no discurso artístico e a estética como uma
ontologia da arte. Só o produto da imaginação criadora exprime universalmente o
singular, trazendo-o às belas formas de expressão, porque a imaginação criadora
é o poder mesmo de universalizar a essência somente presente na singularidade
do artista, tomada pelo êxtase da universalidade do real contraditório e
enigmático enquanto tal.
A imaginação
criadora traz à expressão na obra a singularidade criativa, que resguarda
consigo a universalidade da condição da existência humana. Eis o paradoxo do real e da criação, a
condição do espírito, a contradição estética no fazer artístico, a arte do
criar que se manifesta na palavra como estética
da contradição de toda verdadeira e completa teoria acerca do espírito,
cuja ação elementar é a criação proporcionada pela faculdade da imaginação.
Tendo isso em vista,
podemos recorrer a uma explicitação mais clara, porém resumida, da questão do
princípio da arte como princípio do terceiro incluso, com base na Estética da Contradição de João Ricardo
Moderno. Com efeito, lá se diz com Valéry que:
“Não há
contradições lá onde não existe nada. Disso resulta que uma linguagem isenta de
contradições nada mais é que uma linguagem homogênea, ou tornada tal por uma
refundição que substitui definições explícitas convencionais em “sentidos” do
uso. Mas nada de mais quanto às coisas significadas.
(Valéry, 1973:695)”[40]
Com
isso, tem-se em vista a teoria estética da contradição considerando a essência
mesma da arte a partir da idéia da contradição estética inerente ao próprio ser
da realidade, humana e natural. Mas ali a dialética e contradição filosóficas
são analisadas no seio da história da estética em vista de problemas estéticos
e filosóficos e do próprio reconhecimento da contradição estética, assim
procedendo a uma monumental Estética da Contradição, na qual a própria Estética
se visse legitimada enquanto ciência e com um princípio de realidade próprio e
delimitado, a fim de conferir-lhe autonomia, a saber, o princípio do terceiro
incluso como princípio da arte.
Na
introdução da belíssima e admirável obra do professor João Ricardo Moderno,
mais precisamente a partir das páginas 22 e 23, vê-se que a intenção da obra
era reivindicar a autonomia da ciência estética como contradição estética face
à contradição lógica.
Com efeito, é no
âmbito da arte que a imaginação criadora se sobrepõe à razão operadora, e a
contradição ganha estatuto de princípio de realidade no âmbito do obrar ou
operar da arte, cuja teoria se reconhece legitimamente filosófica no seio da
investigação histórica da contradição estética, respeitando a dialética dos
eixos sincrônico e diacrônico da história, e assim viabilizando o projeto
monumental da Estética da Contradição.
O que se percebe é
que a Estética da Contradição
percorre o fio condutor do seguinte pensamento: a indicação da distinção entre
os objetos lógicos e os objetos estéticos por Baumgarten, a fim de reconhecer a
estética como ciência autônoma em relação à lógica e à ciência natural,
reconhecendo o princípio do terceiro excluso face ao princípio lógico de
não-contradição.
O princípio do
terceiro excluso, ou do meio excluso, não admite a existência de um meio termo
entre a afirmação ou negação de uma proposição e é considerado como autônomo em
relação ao princípio lógico de não-contradição na Metafísica de Baumgartem.
A tese de Moderno é que Theodor Adorno foi quem rompeu definitivamente com esse
princípio, assim possibilitando a criação do princípio de realidade da arte
como princípio do terceiro incluso.
Isso nos lembra a
jogada de Kant na Crítica da Faculdade do
Juízo, na qual a imaginação é ali inclusa como terceira faculdade intermediária
entre o entendimento e a razão. Ao entendimento cabe categorizar as intuições
dos dados sensíveis da experiência para assim formalizar os juízos conceituais
de conhecimento sobre a natureza; à razão cabe legislar a priori sobre a vontade, tendo como fim a liberdade sob a lei,
cujas regras são dadas como númenos
puramente racionais, sem correspondência com fenômenos naturais e leis
objetivas da experiência, a fim de formalizar os juízos morais e o imperativo
máximo da moral a legislar a volição e a ação humanas, o imperativo categórico;
à imaginação cabe o jogo livre entre estas faculdades a fim de produzir os
juízos estéticos acerca do belo. O entendimento e a razão não escapam às leis
lógicas do funcionamento formal do pensamento como operador e cálculo de
proposições ou juízos, mas a imaginação faz uso destas faculdades para emitir
um juízo que em si não traz a necessidade de respeito às leis lógicas do
pensamento, o juízo estético.
Há uma citação da Estética de Baumgarten na introdução da Estética da Contradição de Moderno,
precisamente nas páginas 25-26, onde se reconhece uma distinção clássica na
antiguidade e na idade medieval entre coisas sensíveis (aisthéta) e coisas inteligíveis (noéta). Os objetos da imaginação seriam as representações sensíveis
de objetos ausentes. As coisas inteligíveis são objetos para a Lógica, as
coisas sensíveis são objetos da ciência estética (epistemé aisthetiké). A partir disso, Moderno nos diz que o
princípio do terceiro excluído é inadequado para a teoria estética enquanto lei
formal e lógica do pensamento, a partir do que é possível reconhecer o
princípio do terceiro incluso como legítimo princípio de realidade da arte no
seio da contradição estética.
Então, somente agora
podemos clarificar um pouco mais o que pretendemos pessoalmente fazer com base
em Heidegger, pois essas considerações visam somente a legitimar uma ciência
entre outras a respeito de uma região do ente entre outras, visando à
legitimação dos objetos da estética face aos objetos da lógica, assim
legitimando a ciência estética face à ciência lógica.
E isso sem
reconhecer que essa distinção entre objetos inteligíveis e objetos sensíveis
transita no interior do círculo da metafísica ao longo da história do ser sob a
determinação do velamento vigente da diferença entre ser e ente, que se
destinou a partir de Platão e Aristóteles e da instauração das disciplinas
filosóficas como ciências distintas a respeito de regiões distintas do ente, a
saber, a ciência ética (epistemé ethiké),
a ciência física (epistemé physiké) e
a ciência lógica (epistemé logiké).
Nós não pretendemos
tratar da briga entre correntes de pensamento diferenciadas pela fragmentação
do mundo do saber empreendida pela destinação da filosofia como metafísica do
ser do ente em cada âmbito e delimitação específica de circunscrição de regiões
distintas dos entes como objetos de disciplinas escolares, que se convertem em
ciências teóricas sobre algo e, a
partir de algo, querem determinar a
totalidade do ser e aprisionar o homem na escravidão do mero fazer da ciência
como império da técnica do pensar, que mata o pensamento em seu ser. Não nos
importam esta ou aquela espitemé,
muito menos uma briga teórica entre cientistas, literatos, críticos e
acadêmicos, no seio da qual cada indivíduo humano só faz valer seu ego e
vaidade na calçada da fama universitária e publicitária, fazendo pela ciência e
produção acadêmicas a egocêntrica e existencial campanha publicitária de sua
própria imagem.
No início citamos um
trecho de Castoriadis que afirmava a precedência da imaginação face à
demonstração lógica; a precedência da criação da imaginação face à operação da
razão. O pensamento de Castoriadis é tal que se baseia de certo modo nas
descobertas da psicanálise, certa teoria da alma ou mente, certo discurso sobre a psyché, uma psicologia ou ciência psicológica (espistemé psyché), ainda que não obedeça à lógica dita conídica.
Castoriadis
empreende seu projeto de considerar as sociedades como instituições do
imaginário dos povos e, nisso, o pensamento instituído pelos povos organizados
em sociedade. Não se perde de vista em tal empreitada o sentido histórico das
sociedades, e aproveita-se para ressaltar que o pensamento herdado manteve em
separado a consideração da sociedade e do histórico. Assim, ele quer nos fazer
compreender o sentido social-histórico do que é instituído no confronto com o
que, socializando-se, se configura como imaginação criadora instituinte, o
imaginário radical da psyché no
conflito com as significações instituídas pelo imaginário social, no seio da
confrontação entre a heteronomia das sociedades e o projeto de autonomia do
humano como indivíduo.
O que se socializa é
a psyché compreendida como fluxo
representativo e impulso de criar para si as significações de seu mundo próprio.
No entanto, essa socialização é traumática, porque compreende o choque da psyché com as significações instituídas
pelo mundo social-histórico. A interiorização dessas significações e a
socialização do indivíduo o alienam da sua capacidade criadora intimamente
ligada com o projeto de autonomia do humano no interior da heteronomia social.
Mas o projeto de
autonomia pode ser reavivado na prática política democrática através da
constante deliberação que as sociedades livres processam no interior de uma ardente
pulsão coletiva produtora de críticas. Com isso, o imaginário radical
instituinte da psyché não é
completamente recalcado no processo de socialização.
O que Castoriadis
faz basicamente é recuperar em Aristóteles, no tratado sobre a alma, o conceito
de imaginação e renovar-lhe o sentido. Ele pretende sair do ciclo do pensamento
herdado da tradição filosófica da lógica conjuntista-identitária e da ontologia
unitária, vigente de Platão a Heidegger, retirando da ciência psicanalítica a
noção de psyché inconsciente, a noção
de libido, formulando sua teoria da mônada psíquica como fluxo representativo
indeterminado de desejos e afetos, pretendendo escavar na alma do humano uma
nova região específica do ente em que se o determine para fins de escapar da
herança lógico-ontológica do ser como determinidade.
Junto a isso, em A Instituição Imaginária da Sociedade,
empreende larga e fulminante crítica do marxismo e apresenta seus conceitos
renovadores e substanciais de psyché
e de sua inserção no mundo social-histórico. Em Complexidade, Magmas e História, texto situado em Feito a ser feito - encruzilhadas do
labirinto – V, compreende o fenômeno da complexidade sob a transitoriedade
do histórico presente nas sociedades a partir da noção do ser como magma, cujo caráter magmático o
configura no modo do não conidizável, do não conjuntificável, escapando aos
esquemas sistemáticos da lógica conídica (conjuntista-identitária), pelo que
reconhece o ser sob certa dimensão poiética,
ou seja, imaginária. O magmático se determina como tal na criação e
temporalidade na história; o ser sendo tempo e fora do horizonte do tempo.
Todavia, essa
articulação de uma teoria psicanalítica sobre
este ente, a alma humana como psyché
singular, e o social-histórico no seio da democracia e da política como
realização do homem enquanto habitante de uma pólis, uma coletividade, herança do pensamento herdado pela cultura
ocidental, ainda nos parece preso à preocupação com a ciência do ser dos entes e da articulação entre as ciências sobre os entes reduzidos à posição de
meros objetos no processo científico, cujo processar-se reduz o homem à ação
operacional de conhecer os entes-objetos sob a sua autodeterminação na forma do
sujeito cognoscente, ainda que este
tenha se reconhecido originariamente como fluxo representativo capaz de criar ex nihilo novas formas, assim
empreendendo a emergência de novos estratos do ente e criando o novo no seio do
fazer científico.
Enfim, epistemé psyché como determinação do ser
humano tomado individualmente pela psicanálise e epistemé politiké como determinação do ser humano tomado coletiva e
politicamente, embora saibamos do projeto de Castoriadis de fugir da rigidez da
determinação das teorias instituídas sobre as práticas instituintes.
Mas o que queremos
colocar é que ninguém é capaz de fazer isso, mesmo o discurso de Castoriadis é
analítico, lógico-demonstrativo-argumentativo, prosaico como todo discurso pós-socrático, para usar um termo nunca
usado frente ao tão arcaico e clássico termo pré-socrático. Talvez alguém tomado de um afeto tal e numa com-pulsão
do real que o arrebate além do tempo para a totalidade do que é, foi e será e
cante como um Oráculo a aurora do começo do mundo, do ser, do pensar e da
linguagem, antes que esta se torne teoria (epistemé
logiké) e mero discurso apofântico (logos apophantikós), um homem nascido
numa sociedade arcaica rural que cante também os trabalhos e os dias, que não tenha habitado uma polis e não conheça prática nem
teoreticamente uma epistemé politiké,
tal como a que seu irmão empreendeu contra ele, Hesíodo, o qual só pôde
repreender-lhe à sua maneira, cantando os
trabalhos e os dias.
E ainda, cada
ciência sempre faz uma ontologia do ser dos entes específicos que toma como
seus objetos a fim de legitimá-los onticamente como fenômenos reais existentes,
assim legitimando seu discurso específico sobre o ser de um ente específico no
interior mesmo de sua instrumentalidade discursiva e das metodologias de
aplicabilidade de seu arcabouço conceitual e de seus termos técnicos no
exercício e vigor de sua operação.
Por exemplo, como vimos, a estética delimita
seu campo de ação determinando os objetos (entes) estéticos, fazendo-se uma
ontologia ou metafísica da arte e assim fundamentando uma espistemé aisthetiké, uma ciência estética; o mesmo processo vale
para as demais ciências.
Assim, delimitamos
com clareza nossa pretensão e nosso objetivo no estudo de pesquisa, já que não
podemos escapar da estrutura acadêmica. Com base em Heidegger, identificamos
que não há discurso que tenha escapado à consumação
da metafísica no imperar da técnica.
Castoriadis pretende
superar o ciclo do pensamento herdado da lógica conjuntista-identitária e da
ontologia unitária. Isso, porém, é assunto demasiado complexo, e o que importa
a nós é preparar o pensamento para apresentar a questão da experiência mais originária
com o pensar e o ser no seio da linguagem a partir do canto de Hesíodo, a Teogonia.
Esta diz origem dos deuses e ao mesmo tempo é uma
cosmogonia, isto é, uma origem do
universo; origem dos deuses quer dizer origem dos seres ou entes e origem
do ente múltiplo na totalidade, do ser-ente-total, em uma época anterior à
filosofia, mesmo à pré-socrática, anterior à historiografia atual, à polis democrática e à experiência da
divisão do logos, do ethos e da physis em disciplinas filosóficas distintas no seio das escolas,
como nos mostra Heidegger em pontos específicos de sua obra.
Ali em Hesíodo residia, porém, uma unidade
dessas três dimensões em sentido originário pleno: a physis como irrupção de emergência dos entes no seio do emergir do
ente múltiplo em sua totalidade, que vigora no canto das Musas; o logos como enunciação das Musas, através
do canto, no emergir atual da totalidade dos entes e destes integrados no ser
da emergência; o ethos como morada e
comportamento humano face ao emergir do ente múltiplo na totalidade como canto
do aedo, que é ele próprio tomado pela força de irrupção da realidade total em
seu ser e em seu desvelar o ser dos entes como presença dos deuses e da
natureza, e nessa presença também está ali junto à totalidade o destino humano
na Terra.
Na origem do cosmos e dos deuses situou-se Hesíodo como veículo do canto das
Musas, que enunciava o princípio de toda a realidade na ação mesma do
principiar na presença dos seres como numes, entes numênicos por excelência, os
seres em si mesmos principiando-se e o ente múltiplo na totalidade vindo a ser
e se fazendo presença na articulação e equilíbrio entre os deuses, ordenando a
ordem olímpica do Cosmos sob o
governo de Zeus.
Naquela experiência originária com a palavra e
o ser não havia nada de representação do ente no processo lógico-analítico do logos apophantikós da epistemé logiké; o comportamento humano já se
dava em meio à totalidade emergente em sua harmonia presente sem re-presentar
para si intelecções de princípios éticos em uma epistemé ethiké; a natureza já estava ali presente em seu ser no
canto do poeta sem que se escravizasse como objeto a ser desvendado em suas
leis fenomênicas para uma consciência unitária, um ego cogito/ego sum, uma
subjetividade transcendental que calcula para si os entes físicos a fim de
imperar sobre a natureza através da epsitemé
physiké.
Tudo era animado por psychai sem que houvesse uma teoria ou tratado De Anima, uma epistemé psyché.
Assim, deixamos a questão: pode o homem escapar do isolamento da subjetividade
ou do eu, o que inclui o eu-inconsciente da psicanálise e de tudo que é
analisado como objeto de uma epistemé
theoretiké, ainda que se considere pura práxis
se fazendo na prática de seu próprio fazer, e da desolação da Terra no
império da técnica, que se consuma como acabamento perfeito da filosofia como
metafísica? Pode o homem escapar de sua redução cognitivista, de seu
esgotamento no trabalho e no modo do cálculo da vontade de querer, sem que
deixe as Musas cantarem a origem dos numes (seres-deuses) concomitantemente à
origem do ente múltiplo na totalidade, deixando a Terra ser e repousar em seu
ser no resguardo que mantém todo ente, tudo que é, no em-si-para-si enigmático do que se não mostra e, assim, permanece
no segredo e na vigência de sua própria verdade? Pode o homem contemporâneo,
como o velho Hesíodo, pastorear o ser, guardá-lo e protegê-lo com o escudo de Athená, a sabedoria que nasce da cabeça
de Zeus, a fim de que o ser mesmo vigore no âmbito da verdade de si, não no da
verdade do homem, de modo que o homem habite mais propriamente a Terra e se
avizinhe da clareira do ser, deixando-o vigorar como enigma e cantando-o numa
experiência primordial com a linguagem, a fim de poder habitar na proximidade
da origem na palavra poética e no canto?
REFERÊNCIAS
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Lisboa, 1995.
CASTORIADIS,
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Sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1982.
____________. Feito a ser feito: as encruzilhadas do labirinto V; tradução Lílian do Valle. – Rio de
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____________. Sobre o Político de Platão. São Paulo:
Edições Loyola, 2004.
INWOOD, Michael. Heidegger; coleção mestres do pensar.
São Paulo: Edições Loyola, 2004.
MACHADO, Marília
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política no pensamento de Cornelius Castoriadis. Psicologia Política, 2(4), 297-304.
MODERNO, João
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Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 1997.
HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências; tradução de
Emanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel, Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis,
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_____________. Os conceitos fundamentais da metafísica; mundo,
finitude, solidão; tradução Marco Antônio Casanova. – Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 2003.
HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses; estudo e
tradução de Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 2007.
ADENDO: O
SENTIDO EXISTENCIAL DO MITO
Ao lermos o trabalho “o lugar
do mito de Er em A República” da professora Izabela Bocayuva, bem como os
outros trabalhos sobre a anamnese, um elemento fundamental nos mitos de
Platão, nos sentimos inspirados para uma idéia do sentido existencial da
linguagem mítica em geral.
Entendemos o mito como linguagem,
discurso, enunciação (logos) em que o ser aparece num modo de relação e
co-pertinência com o homem que lhe permite vislumbrar a experiência do haver
mundo e do espanto com a percepção da totalidade a partir de uma inspiração
poética da própria linguagem originária do ser.
Na introdução de Os mitos
platônicos, Geneviève Droz nos coloca diante da oposição entre a narrativa
mítica, o mythos, e a racionalidade filosófica, o logos, e aponta
para a exclusão da narrativa ficcional do mito quando se trata de procurar a
razão ou o fundamento de ser dos entes, ou do que é em geral.
No entanto, a verdade é
reconhecida ali como não limitada ao discurso racional, ao logismós,
que, segundo Izabela Bocayuva, é o que permite ao homem ser capaz de ascender
da multiplicidade de sensações (parecer ser) à unidade inteligível da idéia
(ser). Essa operação do logismós é ali definida como “pensamento
articulado que calcula, que cuida da medida”[41],
ou seja, a racionalidade do discurso filosófico.
Segundo Geneviève Droz, Platão
reconhece essa ambigüidade entre mythos e
logos e, embora procure demonstrar
suas teses por argumentos racionais mediante a dialética, incrementa seu
pensamento com a linguagem do mito. Particularmente pensamos que isso se deva à
limitação mesma da linguagem e do homem em face do enigma do sentido do ser, do
espanto sempre vigente com o haver mundo, ente, totalidade, multiplicidade,
cores, formas, entes sensíveis, entes inteligíveis, sensibilidade, intelecção etc.
Geneviève chama nossa atenção para
a diferença que o uso do mito por Platão resguarda diante dos poetas da
tradição grega, tão criticados pelo próprio Platão, a saber, Homero, Hesíodo,
os poetas trágicos e os órficos. Mas nós talvez escapemos um pouco do tema
restrito aos mitos em Platão para evocar o caráter poético da linguagem e do
ser e a dimensão originária da linguagem mítica como experiência primordial com
o sentido da realidade, tendo como matéria o poema Teogonia de Hesíodo.
Ademais, essa idéia pode ser
extraída do estudo da própria temática do lugar dos mitos na obra de Platão, e
é o que fazemos, já que o mito é ali um modo da linguagem capaz de dar sentido
ao real, bem lá onde o raciocínio demonstrativo encontra seus limites de
significação e instauração de sentido de realidade.
Então, adentremos o assunto. O
mito de Er é analisado em sua relação com a problemática de A República, a questão do ser e do
parecer ser, do que é realmente e do que aparenta ser sem o ser realmente.
Quanto ao justo e ao belo, até se admite o parecer ser, mas isso não vale para
o bem.
Quanto ao bem, somente o ser em
sua verdade, a verdade de ser, tem seu valor e sentido de realidade. Além
disso, é só sob a perspectiva existencial do bem que cada qual escolhe como vida eterna figurada na imortalidade da
alma, sendo a eternidade a escolha que fazemos aqui e agora nesta vida para
nossa existência, como dizíamos, é só sob a iluminação do bem que o existir
humano escolhe a felicidade, a plenitude do ser, seja na justiça, seja na
beleza. Nisso reside a imbricação entre a ontologia do ser e do parecer ser com
a discussão ético-política de formação de caráter do guardião (cidadão?) capaz
de governar a cidade com justiça.
A escolha da vida futura é feita
com base na vida anterior e envolve o estado de serenidade em face da morte e
da vida. No Livro I de A República,
Céfalo põe a questão do ser sereno na vida diante da morte, e isso desencadeia
a discussão sobre o ser e parecer ser, a ontologia, tendo em vista o ser justo
ou parecer justo sem o ser. O mito de Er, após demonstração racional da
imortalidade da alma, conclui A República
colocando a questão da serenidade na morte diante da vida.
Ora, sereno em tais situações, a
nosso ver, somente pode ser aquele que escolheu (e escolhe agora e sempre a
todo instante de seu viver) o ser (justo), não se perdendo na ilusão de uma
existência inautêntica aprisionada às correntes do parecer ser das opiniões
correntes e corriqueiras. Daí o sentido existencial desse mito para nós: o
sentido da experiência do advento do ser ao homem e da escolha que o homem faz
em face de tal advento; se escolhe a aparência de ser ou a verdade de ser, ou
melhor, se escolhe um aparecer do ser em si mesmo nas ações de sua vida sem
velamentos de conduta, visto que verdade é o manifestar-se que desvela o que é,
ou se escolhe viver sob o véu das ações que fazem aparecer aos outros uma
manifestação exterior ou sensível não correspondente ao que é verdadeiramente,
sob o véu do invisível, no interior da realidade perfeita e imutável que é a
pura inteligibilidade de ser, a idéia, a justiça em si, o belo em si, a
sabedoria, a coragem e a temperança na alma, elevando-a ao sumo bem e à
verdadeira e suprema felicidade (eudaimonia).
E essa escolha envolve o ethos do homem porque quanto ao bem só vale o ser, e quem escolhe o ser
contempla o bem e é feliz em tal contemplação. Assim, pode ser também mais
verdadeiro quanto à justiça no trato com negócios públicos, a política, e
quanto à beleza no trato com coisas respeitantes à sensibilidade humana, a aisthésis. Nesse sentido as dimensões
estética, política e ética estão em perfeita comunhão umas com as outras e com
a chamada ontologia do ser e do parecer ser.
Essa existência bela, boa, justa,
verdadeira, autêntica e corajosa quanto a ser, também está vinculada ao
comportamento do homem em face da totalidade do que é. O modo desse
comportamento e dessa relação de co-pertinência ou de impertinência em face da
totalidade do ser determinará também todo fazer, representar e circunstanciar a
si mesmo do homem no mundo, o modo como o homem é no mundo, e como o
mundo é para o homem.
A relação do homem com o ser e a
verdade de ser, com o sentido de ser, tudo está em jogo na aventura perigosa da
linguagem e da doação de sentido à realidade. Essa aventura, esse perigo, é o
advento do ser e do mundo ao homem, determinando o ser do homem em face do ser
em geral e o ser-no-mundo do homem na
totalidade do mundo somente enquanto esta é circunstanciada para prover a
necessidade existencial do homem.
Por isso o perigo dessa
brincadeira ou aventura. Porque depois de iniciada não cessa de desdobrar-se em
seus modos complexos de configurar-se e instalar-se fenomenicamente como
instância de realidade, pois se a aventura se perde no parecer ser e no domínio
do pensamento que calcula e estabelece medidas (o lógismós) para esse parecer, a pura realidade fenomênica enquanto
tal (a natureza), na medida em que esse cálculo que estabelece medidas se torna
uma desmesura impulsiva, então o homem carece do sentido existencial que a
linguagem do mito conferia àquelas civilizações que não passaram pelo advento
da filosofia.
E ainda que Platão esteja nesse e
represente esse início da filosofia
como metafísica, preservando, embora em outro sentido que o dos poetas, a
linguagem poética do mito, um sentido poético para a existência humana em geral
já não é mais possível, e uma experiência originária com a totalidade dos entes
(deuses, homens, natureza, céu, terra...), como a do poema Teogonia de Hesíodo, já se encaminha para o completo esquecimento
em meio ao barulho do mundo construído pela linguagem técnica do pensamento
calculador, argumentativo, racionalmente demonstrativo, que hoje vige como
forma do enunciar veritativo da ciência oficial acadêmica.
Em meio ao barulho das teses,
discussões e opiniões fantasiadas de um parecer ser epistêmico, não há ouvidos
para a bela voz de uma fala cantante que exprime simplesmente o ser e nem
sequer tem em conta uma problemática tal como a diferença entre ser e parecer
ser, entre inteligível e sensível, ser e ente.
Desse modo, o mundo cunhado pela divisão e
especialização formal, técnica e sistematizada do saber em regiões distintas e
delimitadas de entes a se tornarem objetos de uma ciência específica e
disciplinar, o mundo cunhado por regras e parâmetros metodológicos calculados,
medidos e legislados pela Razão de uma subjetividade transcendental, o mundo
que re-presenta o ser do ente na forma do juízo e da verdade no sentido de
adequação e certeza, o mundo que reduz o sentido de ser à formalidade de
argumentos e evidências lógicas, análises de estrutura formal de discurso,
aplicação de métodos e subsunção do ser do real à forma do ser proveniente do
fazer a si mesmo da análise lógica e do cálculo proposicional, esse mundo perde
todo seu sentido na ausência de sentido de ser. Esse mundo, o nosso mundo
hodierno, é um sem sentido de mundo, uma vez que já perdeu de vista o sentido
do ser e se tornou surdo de espírito para auscultar o logos do sentido originariamente poético da linguagem.
No final do texto “O lugar do mito de Er em A República”,
Izabela Bocayuva nos diz que as almas se esquecem de algo atado a elas por
necessidade, a saber, a simplicidade de ser. Esse esquecimento restringe as
almas ao plano das misturas de ser e não ser, este plano sensível em que as
coisas precisam ser discernidas e calculadas, postas cada qual em seu lugar e
regradas pela razão justamente porque este plano é ilusório quanto à verdade de
ser.
É o plano do conflito entre o ser
e o parecer ser, condição em que devemos escolher um ou outro, tendo em vista
que quanto ao bem só vale o ser, e que na contemplação do bem a experiência da
justiça e da beleza são autênticas. É também o plano da confusão ocasionada no
pensamento pela diferença entre ser e ente, cujo destino histórico se desdobra
como o evolver da metafísica até sua consumação no completo esquecimento de ser
e na dominação técnica da ciência, na qual o homem se perde em seu fazer e
representar sobre a natureza,
perdendo-se em meio ao ente e em meio a uma dominação incondicional sobre todos
os entes por meio de sua objetivação em setores de aplicação de atividade
técnica de produção e reprodução de objetos de consumo, comércio, troca, venda,
oferta e procura, fruição e deleite, entretenimento e demais sentidos niilistas
de viver e existir do homem hodierno, sem tempo e espírito para se espantar com
reverência e gratidão pelo simples fato de que há mundo (cosmos).
Em meio a isso, não se acredita nem mais em natureza ou deuses, mas em criação humana de suas condições, o que só atesta a
desmesura da dominação humana sobre tudo que é e mostra o ethos atual do homem frente à totalidade, sua impertinência na
relação com o advento do ser na enunciação (logos).
Assim como os sofistas escolhem o
parecer ser, os técnicos do saber e cientistas acadêmicos se perdem em meio ao
ente e ao prosaísmo das opiniões epistêmicas, da doxa erudita e oficialmente científica. Do mesmo modo, assim como o
filósofo escolhe o ser e contempla o bem, realizando o máximo de experiência
existencial de que a vida humana é capaz, o poeta canta o ser e experimenta uma
relação harmônica com o ente e a enunciação do que é, pois ele canta as origens
da totalidade do Kosmos exatamente
como as Musas lhe inspiram a cantar conforme a melodia e o ritmo em que a
totalidade do que é veio a ser.
Portanto o sentido existencial do
mito traz consigo também o sentido mítico da linguagem do ser, cuja experiência
é dada como poesia e canto da aurora da totalidade do que é para aquele que
está tomado pelo espanto de haver realidade, natureza, universo, ente. Sobre a
escolha entre o ser e o parecer ser como serenidade em face da vida e da morte,
seja que tipo de existência cada qual escolhe para si diante da vida e da
morte, indicamos a título de reflexão o pensamento do Eterno Retorno de Nietzsche, precisamente o aforismo 341 de A Gaia Ciência intitulado O peso mais pesado, bem como os
aforismos 25 e 27 do texto O Eterno
Retorno de 1881.
A ANAMNESE E A VERDADE COMO NÃO-ESQUECIMENTO
Em
vista da fundamental importância da ananmnese
nos mitos platônicos, faremos uma relação deste conceito com o conceito de
verdade no sentido de alétheia. Esta
palavra grega assume para nós, sob influência de Heidegger, o sentido de
desencobrimento, desvelamento, ação da tirada do véu que oculta o ser, mas que,
na medida em que o desvela, vela o ser e mostra o ente no movimento de retração
próprio do ser em que este se mantém em seu resguardo puro e simples. O ser ao mostrar-se em sua verdade aparece,
pois, como o ser do ente, ou o ser do aparecer (fenômeno) do parecer ser.
Seria, então, a verdade de ser o fenômeno de parecer ser?
Não
temos resposta para esta pergunta, mas sabemos que o aparecer do parecer ser só
tem o seu sentido enquanto mantém uma relação de co-pertinência mútua com o
ser, ambos em uma unidade fragmentada de realidade, mas que, na conexão dos
fragmentos, reuni-os harmoniosamente no seio da totalidade que através deles é
percebida, primeiro como multiplicidade de particulares sensíveis e, depois,
como unidade no mesmo, este apenas
vislumbrado pelo pensamento como princípio de realidade no plano da pura
inteligibilidade do real.
Pensamos
concordar com o texto “O mito da
anamnesis no diálogo Mênon” de Izabela Bocayuva. Não querendo entrar nos
detalhes da problemática gnosiológica do diálogo entre Mênon e Sócrates,
queremos trazer à tona a noção de physis
sygennes para o entendimento da anamnese,
rememoração, recordação ou não-esquecimento (alétheia) do ser, assim vislumbrando um sentido de verdade do ser
não limitado à noção de adequação entre intelecto e coisa exprimida na
estrutura formal judicativa.
Portanto não cabe aqui pensar a
verdade como dominação do sujeito (intelecto) sobre a realidade do real como
coisa, dominação sobre o ser do ente, como representação e objeto de
conhecimento e estabelecimento de leis e padrões do fenômeno do conhecer
hodierno e do que é hodiernamente conhecido. Trata-se de uma experiência
originária com a palavra (logos), que
se exprime em figuras de linguagem e atesta o alcance do sentido de realidade
permitido pela linguagem mítico-poética.
Physis sygennes é uma expressão que designa a totalidade ou unidade
do que nasce com, a unidade de um mesmo nascimento do que é oposto como presente
e ausente no manifestar-se do real. Isso é também uma experiência de
conhecimento que a alma experimenta pela anamnese.
E
não nos furtamos em dizer que essa unidade ou totalidade de physis sygennes se aplica ao ser e
parecer ser e às demais oposições complementares.
A alma aprendeu tanto o que é na
Terra como no Hades, tanto na vida no corpo como na morte do corpo que é a vida
da alma; aqui a unidade de vida e morte é vislumbrada com o problema da alma
dos mortais como sendo imortal. Assim, physis
sygennes também se aplica a mortal e imortal, morte e vida, parecer ser e
ser, homem e deus, corpo e alma.
Essa anamnese ou recordação, esse não-esquecimnento não deixa de ser uma
alétheia, um desencobrimento que
preserva junto a si na totalidade do surgimento o encobrimento do que é
(presença), o ser. Assim, a emergência do parecer ser implica a do ser, o
emergir do presente se dá junto ao emergir do ausente no ser (presença) da
ausência.
A mesma brincadeira se aplica a
vida e morte, modernamente falando a orgânico e inorgânico, do que podemos
perceber que em qualquer presença do ente se presenta o seu contrário como
presença da ausência, de modo que se a natureza é concebida, em sua totalidade,
como morta, o movimento dos ciclos de
estações, os planetas, os sistemas solares, o universo, as matérias e os
fenômenos todos nele classificados pelo homem como orgânicos ou inorgânicos,
com vida ou sem vida, aparecem como natureza viva, natureza em sua totalidade no movimento de nascer e morrer,
de gerar e corromper (gênesis/phtorá).
Assim, como os modernos pensam, os
fenômenos naturais revelavam aos gregos a presença dos deuses. E estes, mais
que os homens, são a vitalidade da natureza. A natureza vela e desvela a
presença (visibilidade) do invisível (inteligível). E é claro que os olhos que
captam tal realidade são os olhos da alma, na verdade um olho só, o intelecto
que, liberto do corpo e do sensível, contempla o ser e aspira ao bem em suas
ações, em sua vida, em sua existência.
E já que no texto em questão se
fala do aprender e ensinar como experiência comum pela rememoração, será que
aos homens de hoje não caberia uma experiência comum de não-esquecimento
(verdade) do ser a partir da consideração da vitalidade e divindade da
natureza? Será que em meio ao esquecimento do esquecimento do ser não caberia à
humanidade globalizada pela técno-ciência uma experiência comum de
aprendizado-ensinamento, de modo que se instalasse um novo ethos humano menos destrutivo e fragmentado, menos dilacerado pelo
domínio da informação, da multimídia, do consumo e da tecnologia?
E se a diferença é aqui pensada
como unidade cindida em si mesma por necessidade, como se lê na nota número
dois do texto em questão, então não existe essa mesma necessidade unitária
entre a diferença entre mythos e logos, entre poesia e filosofia, figura
de linguagem e conceito? O que a Ciência, ou os seus representantes, os
cientistas especialistas, tem a dizer sobre o mundo construído pelo rigor da
experimentação e da regulamentação das leis objetivas da realidade enquanto
fenômeno para a capacidade representadora e formadora de juízos, a
subjetividade transcendental? Aqui nos vem à memória um texto chamado Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral
de Nietzsche. Talvez este texto seja pertinente para essa reflexão.
No entanto precisamos concluir com
uma breve indicação sobre a Teogonia
de Hesíodo como enunciação (logos) da
realidade pura e simples em seu fenômeno originário de surgimento. Numa época em que o logos não era a lógica, o logos
do mythos, o enunciar do
acontecimento narrado e cantado do nascimento do mundo e do ser total conforme
o ritmo e a melodia do próprio fenômeno originário do acontecer nos foi legado
pela herança cultural do ocidente, em um momento em que o enunciar não era uma
ação de dominar em cálculos o que dança segundo seu próprio tempo e
necessidade, a natureza, o universo, hoje mutilados pela vivissecção
empreendida pelos telescópios e microscópios, pelas naves espaciais e pelos
antibióticos, pelo vai e vem sem sentido do nosso cotidiano alimentado por esse
negócio do uso e abuso dos entes na era do consumo.
Concluindo nosso trabalho, não nos
esqueçamos que precisamos rememorar, isto é, estarmos dispostos a aprender, despojando-nos
de nossos conteúdos informativos, hoje abusivos no império da técnica e da
difusão de informações em massa pelas telecomunicações, a fim de que possamos
participar da comum-unidade do diverso que se origina do mesmo, universo. Não esqueçamos a physis como nascer simultâneo do aparente e do inaparente, do sim e
do não de nossas escolhas e de nosso ethos,
pois o canto do principiar do Kósmos
foi concedido a Hesíodo pela Memória
(Mnemosyne) através das palavras cantadas (Musas)[42].
[2] HEIDEGGER, Martin. A sentença de Anaximandro. IN Os pré-socráticos. São Paulo: Abril
Cultural, 1973. (p.31, §4).
[3] Castoriadis, Cornelius. Sobre
o Político de Platão.
Ed. Loyola, São Paulo, 2004. (p. 131).
[4] Idem. (P.140).
[5]
CASTORIADIS, Cornelius. Sobre o Político de Platão. Ed. Loyola:
São Paulo, 2004, p131.
[7]
A Bíblia Sagrada.
Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no
Brasil. 2 ed. Barueri – SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993, p.612.
[8] NIETZSCHE, Friedrich. Opus cit. pp –
230 e 231.
[9]
SARTRE, Jean-Paul. Questão de Método in col. Os Pensadores. São Paulo: Abril
Cultural, 1973, p.192.
[10]
HEIDEGGER, Martin. A superação da
metafísica in ensaios e conferências.
Petrópolis, RJ: Vozes 2001.
[11]
KOJÈVE, Alexandre. Introdução à leitura de Hegel. Rio de
Janeiro: Contraponto: EDUERJ, 2002, p.536.
[12] Heidegger, Martin. Heráclito. Rio de Janeiro: Relume
Dumará, 1998, p.230.
[13] Não nos importam os problemas de
erudição amplamente ali discutidos, mas sim o tema da história do destino do
ser no ocidente.
[15] HEIDEGGER, Martin. A superação da metafísica IN Ensaios e conferências. Petrópolis:
Vozes, 2001, p. 86.
[16] A nossa referência principal
para compreender este conceito é o texto Phusis,
Criação e Autonomia situado em Feito
e a ser feito – as encruzilhadas do
labirinto V; trad. Lílian do Valle – Rio de Janeiro: DP&A, 1999. pp.
211-221.
[17] Heidegger, Martin. Carta sobre o Humanismo. IN Os pensadores; Sartre e Heidegger. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p 373.
[18] Heidegger, Martin. Ensaios e conferências. Petrópolis:
Vozes, 2001, p. 199.
[19] Id. pp. 200-201.
[20] Kant, Immanuel. Crítica da Razão Pura; Apêndice à Dialética Transcendental –
Doutrina Transcendental do Método, Capítulo
III – Arquitetônica da Razão Pura. São Paulo: Martin Claret, 2004. p. 593.
[21] Kant, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes;
prólogo. São Paulo: Martin Claret, 2002. p.13.
[22] Id. p. 14.
[23] HEIDEGGER, A Sentença de Anaximandro: Abril Cultural, 1973, p.31.
[24] HEIDEGGER, A Sentença de Anaximandro: Abril Cultural, 1973, p. 41.
[26] HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do espírito, tradução de Paulo Menezes; com
colaboração de Karl Heing Efken, e José Nogueira Machado. Petrópolis, RJ:
Vozes:Bragança Paulista: USF,2002.
[27] Fichte. Introdução à teoria do Estado. São Paulo: Nova Cultural, col. Os Pensadores, contracapa.
[28] Schelling. História da Filosofia Moderna: Hegel. São Paulo: Nova Cultural.
1989, p.159.
[29] Vide: Nietzsche. A genealogia da moral, primeira dissertação,§13. No conceito de
vitalidade já estão o impulso e ação
como modos determinantes do ser da vida.
[30] Platão. Político. São Paulo: Abril Cultural, col. Os Pensadores; 311 a.
[31] Antes
de ser substituído pelo termo «substância », do qual Descartes
faz, aliás , um
uso profundamente
desviante, no que se refere à tradição , «coisa » é uma expressão oxímora, denotando, ao mesmo
tempo , a questão
que sua
coincidência coloca para
o sujeito e o suplemento
de singularidade que ego cogito ou
ego sum cogitans
comportam, em relação
à essência da cogitatio. Pode-se falar , neste sentido , de heceidade
do pensamento , que
é propriamente o sujeito cartesiano.
[32] O que
não quer
dizer , necessariamente, como
sua causa : na Meditação
III, Descartes operará esta distinção , mostrando que ,
entre todas as minhas
idéias , há pelo
menos uma (a idéia
de Deus ) de que
não posso ser
a causa , pois ela me supera infinitamente em
perfeição : mas
eu não
deixo de ser , «formalmente »,
seu autor ,
nesse sentido em
que sou de fato
eu que
a penso . Por
isto , a acuidade
da tensão entre
Ego
e Ille, Homem
e Deus , primeira
e terceira pessoa ,
que então
se cria , e o risco
a que ela
submete minha identidade . Cf.
E. Balibar, «Ego sum, ego existo», Descartes
au point d’hérésie, Bulletin de la
Société française de philosophie, nº 3, 1992.
[33] Heidegger. Heráclito. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998, p.230.
[34] Schelling. O “Programa Sistemático”; IN col. Os Pensadores. São Paulo: Nova
Cultural, 1989, p.43.
[35]
Castoriadis, Sobre o Político de Platão. São Paulo:
Edições Loyola, 2004, p. 140.
[36]
HEIDEGGER,
Martin. A sentença de Anaximandro. IN
Os pré-socráticos. São Paulo: Abril
Cultural, 1973. (p.29,§5)
[37]
Jaa Torrano, Teogonia – A origem dos deuses. São
Paulo: Iluminuras, 2007, pp. 16-17.
[38]
Castoriadis, Complexidade, Magmas, História IN Feito a ser feito. Rio de Janeiro:
DP&A, 1999, p.229.
[39]
Inwood, Michael. Heidegger; coleção mestres do pensar.
São Paulo: Edições Loyola, 2004, p. 162.
[40]
Moderno,
João Ricardo. Estética da Contradição.
Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 2006, p. 432.
[41]
“Um estudo do mito da
anamnese no diálogo Fedro”, p. 5.
[42]
Hesíodo. Teogonia: a origem dos
deuses. São Paulo: Iluminuras, 2007. (p.16).
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