INTRODUÇÃO
Já nos introduzimos no tema da
filosofia pré-socrática conscientes de nossa limitação e inaptidão para tal,
uma vez que desconhecemos a língua grega e a antiga cultura na qual se inserem
os primeiros pensadores. No entanto, dispomos de um material a nosso ver
suficiente e legítimo para reivindicar aos primeiros pensadores um rótulo mais
adequado, considerando-os em sua autenticidade e vigor de pensar e de poematizar
a physis, a natureza ou brotação em seu vigor de ser.
Isso os caracteriza como aventureiros a inaugurar o pensamento e, assim,
pensando a totalidade do ser em sua força originária de surgimento, eles mesmos
são os principiadores, os arcontes do pensamento e do destino do homem
ocidental, que através da história caminha nas sendas da destinação de suas
origens, sem, contudo, atingir-lhe a essência, perdendo-se no ser da errância,
do qual faz parte, como sua compreensão, a distinção entre filosofia e
pensamento, bem como o processo de especificação das disciplinas filosóficas em
divisões do ser em diversas regiões particulares de disciplinas isoladas e de
ciências discursivas acerca dos entes.
Esse processo de disciplinarização
do saber faz que o ser já apareça como um objeto a ser aprisionado pelas leis
lógicas do pensamento racionalizado numa estrutura formal de cálculo do real, de
modo que a natureza se torne um mero ente-objeto, servindo de fundo de reserva
para a operacionalidade da técnica, culminância hodierna do processo de
degeneração do pensamento em seus primórdios, grande feito iniciado por Platão
e Aristóteles, os pais da filosofia metafísica e da perspectiva
historiográfica.
A historiografia deslegitima a legitimidade do pensar em seus primórdios,
des-autentificando a autenticidade originária do pensar iniciado (e por que não
ali mesmo finalizado?) pelos arcontes do ser, que não são nem pré-socráticos,
nem pré-platônicos ou pré-aristotélicos, mas tão-somente os pensadores
originários.
Declaramos que partimos aqui do
texto o pensamento originário de Carneiro Leão, cuja perspectiva é
claramente heideggeriana, e nos perguntamos agora: como o pensamento vem a ser?
Como se dá seu processo de brotação ou florescimento? Não nos esqueçamos que
nos dados biográficos a respeito destes primeiros pensadores, os ditos pré-socráticos,
as datas são expostas sob a perspectiva do florescimento de seu pensamento, por
exemplo: Melisso de Samos floresceu cerca de 444/1 A.C.[1] A
desconsideração é tanta que Melisso é considerado historiograficamente como uma
personagem histórica precedente a Cristo, o que não passa de uma referência
para localização temporal irrelevante para a compreensão correta do pensar por
ele inaugurado, pois ele mesmo nem sequer sabia quem era Cristo, ignorância que
não o livra de ser colocado no Inferno da Divina Comédia de Dante, junto a
outros antigos que desconheciam a palavra de Cristo.
Há casos em que alguns pensadores são quase contemporâneos a Sócrates ou
mesmo Platão. Que injustiça classificá-los como predecessores num processo
histórico de desenvolvimento necessário do pensamento, cuja culminância devesse
ser a filosofia de Sócrates, Platão ou Aristóteles! Nietzsche[2]
considera-os pré-platônicos somente enquanto desconsidera Platão como um
misto de pensamentos anteriores, a partir do que enaltece a originalidade e
personalidade de Tales, Anaximandro, Heráclito etc. Enfim, é dito que o pensamento
dos primeiros pensadores floresceu porque é só a partir deles que
universalmente é possível haver florescimento de pensamento e surgimento do
ente como fenômeno originário do ser na palavra, pois é só pensando o ser em
sua brotação que o pensar e o ser se originam, como diz Parmênides: pois o
mesmo é a pensar e a ser[3].
Assim, os pensadores conhecidos como pré-socráticos aparecem a nós
como os príncipes do ser e do pensar, aqueles aos quais se deu a irrupção do
pensar como uma indagação pelo sentido originário do ente na totalidade, o que
é enunciado na forma de sentenças, aforismos ou poemas que expressam a força
primordial do pensar na indagação pela origem do ser tomado universalmente como
physis, a saber: a
emersão e submersão constante e incessante em plena vigência do real enquanto
tal, o que simultaneamente faz surgir a própria linguagem em todo seu vigor
primordial de unificação do múltiplo através da nomeação do ser como princípio,
a arché, o sentido pleno do ser que vige, permitindo sua compreensão
unitária pela atividade essencial do pensamento ocidental em suas origens.
*
Ao iniciar este trabalho sobre os
pensadores mais antigos, gostaríamos de ouvir falar um pensador recente, cujo
pensamento não é simples, mas que quer nos evocar exatamente para a questão do pensamento
ocidental em sua origem e destinação na história, o que teria sido esquecido
pelo desenvolvimento da filosofia como metafísica, e desta em disciplinas
filosóficas e ciências específicas de regiões ou setores distintos de
abarcamento do ente.
Como consequência dessa destinação, perdeu-se a ausculta do ser no
imperar de sua verdade, de seu não-esquecimento a partir do sentido da palavra
grega a-létheia, bem como se
perdeu o sentido original do que Heráclito denominava logos, e, nesse
esquecimento do ser, iniciou-se o rumar na errância do logos como
desenvolvimento da disciplina da lógica, da physis como elemento
fundamental a partir do qual se constitui a ciência sobre os objetos físicos, a
física propriamente dita como modelo de todas as posteriores ciências empíricas
do ocidente, e ainda o desenvolvimento do ethos humano como elemento
fundador da disciplina específica da ética, na qual se trata de estabelecer uma
ciência sobre as volições e ações humanas a partir do estabelecimento dos
valores norteadores do agir e querer humanos.
Trata-se da vigência da
diferença ontológica no despontar histórico do pensar ocidental, cujo
esquecimento ainda em vigor marca a errância em que o homem se vê na sua
destinação através da história considerada sob a perspectiva da historia do
ser, o que acompanha o problema da disciplinarização do saber e do ente tornado
um objeto para um sujeito, a partir da metafísica chafurdada no preconceito
gramatical que assola os fundamentos de toda gnosiologia moderna até a perdição
total na aplicabilidade técnica do saber como disciplinas específicas e
ciências setoriais. Entretanto, buscamos em Heidegger o sentido originário do
pensar como poematização do ser:
“A sentença do pensar só
se deixa traduzir no diálogo do pensar com o que nele é pronunciado. O pensar,
contudo, é poematizar, e não somente no sentido da poesia e do canto. O pensar
do ser é a maneira originária do poematizar. Somente, nele antes de tudo, a
linguagem se torna a linguagem, isto é, atinge a sua essência. O pensar diz o
ditado da verdade do ser. O pensar é o dictare
originário. O pensar é o poematizar originário que precede toda a poesia, mas
também o elemento poético da arte, na medida em que se torna obra, no seio do
âmbito da linguagem. Todo o poematizar, (...), é, no fundo, um pensar. A
essência poemática do pensar guarda o imperar da verdade do ser. (...)” (p.29,
§5).[4]
Heidegger fala a respeito da tradução
de tà ónta (literalmente “os entes”)
por “as coisas”. O filósofo critica a tradução da tradição de Aristóteles e
Teofrasto para a expressão tà ónta
como “as coisas da natureza” meramente e julga-a insuficiente para atingir a
palavra na sentença. Se não se fala de “as coisas da natureza”, descarta-se a
hipótese de que a sentença se refira a alguma disciplina científica em
particular (física, ética, lógica etc.). “(...) Pelo contrário, a estrutura
própria da questão puramente pensada, mantida longe e fora de toda incorporação
numa disciplina, pode manifestar-se na palavra.” (pp.30-31).
Com isso, Heidegger descarta a
possibilidade de se ver algo na sentença como, por exemplo, uma filosofia da
natureza que abrange questões jurídicas, ou algo como um pensar meramente
primitivo cheio de antropomorfismos e metáforas poéticas. Ele procura um
sentido da sentença, a sentença mesma em seu significado, como emersão da
palavra, porque esta traz em si uma amplidão tal que resguarda “a múltipla
totalidade no acontecer de sua harmoniosa unidade”, a physis, cuja possibilidade se dá como experimentação pura no
pensamento e no ser que se desvelam na palavra. (p.31, §1). Assim, o filósofo
pretende dialogar com o pensamento primordial dos gregos ouvindo diretamente de
suas palavras o sentido que elas expressam:
“A sentença fala do ente
múltiplo em sua totalidade. Fala-se do ente, pronunciando, no entanto, o ser do
ente. O ser emerge da palavra como o ser do ente. Mas do ente não fazem parte
apenas as coisas. De maneira alguma são as coisas apenas coisas da natureza.
Também os homens e as coisas produzidas pelo homem e os estados produzidos pelo
agir e não agir humano e as circunstâncias provocadas fazem parte do ente.
Também as coisas demoníacas e divinas fazem parte do ente. Tudo isto não apenas
é também, mas é mais ente que as simples coisas. (...)” (p.30, §6).
“(...) Segundo seus
próprios termos, a sentença fala dos ónta.
Ela expressa o que há com eles e qual a sua situação. No cume da consumação da
filosofia ocidental pronuncia-se a palavra: “Imprimir ao devir o caráter de ser
– eis a suprema vontade de poder.” É a isto que Nietzsche se refere quando
escreve, numa observação intitulada: Recapitulação”. (...) “O ser” que
Nietzsche aqui pensa é o “eterno retorno do mesmo”. Este eterno retorno é o
modo da constância, na qual a vontade de poder se quer ela mesma e assegura sua
própria presença como ser do devir. Na extrema consumação da metafísica, emerge
da palavra o ser do ente.” (p.31, §4).
O
filósofo procede a uma questão a respeito dos termos gregos: einai “ser”, éstin “é”, ón “ente” e tà ónta “o ente”. Para ele, nem sequer
compreendemos a fundo o que significam “ente” e “ser” em nossas línguas
originais e muito menos se correspondem ao que os gregos pensavam com os termos
ón e einai. Em tal questão se dá a confusão que perdurou ao longo da
história, na qual o ocidental se viu essencialmente preso ao mundo grego do
pensamento sem o compreender em sua essência. O grego não é só um elemento
histórico de referência para o homem ocidental. No diálogo com o pensamento
primordial dos gregos, o Ocidente busca sua própria essência pela noção que
atribui ao pensamento daquele povo considerado originalmente instaurador tanto
do ser, como do pensamento e de tudo que disso procede e serve de elemento
básico para a construção do ser do homem atual a buscar um fundamento para si
no novo contato com as origens.
E é exatamente essa confusão que possibilita a errância do homem ao longo
da história, esta também sendo possível como caminho pelo qual o homem traça
seu destino sob a luz providencial do ser, que nunca é atingida pelo fato de o
ser subtrair-se no seu processo de desocultamento, que é simultaneamente um
obscurecimento de sua claridade no ente, partindo da já dita diferença ontológica.
Importa reconhecer que a mesma força originária que faz o ente brotar ou
florescer da e na palavra o faz murchar, o desvelamento vem acompanhado do
velamento do ser; isso de denomina a retração ou retenção do ser. Mas se tais
palavras parecem obscuras demais, deixemos o próprio ser desvelar-se e velar-se
novamente para nós na palavra mesma do autor:
“Grego não significa, em
nossa maneira de falar, uma propriedade étnica, nacional, cultural ou
antropológica; grego são os primórdios do destino sob cuja figura o ser mesmo
se clarifica no seio do ente, apelando para a essência do homem que, enquanto
destinada, tem seu curso histórico nos diferentes modos, segundo os quais ela é
mantida no ser ou por ele abandonada (dele emanada), sem, entretanto, jamais
dele ser separada.
O grego, o cristão, o
moderno, o planetário e o hespérico, no sentido a que aludimos, nós o pensamos
a partir de um traço fundamental do ser o qual ela antes oculta, como a Alétheia na Léthe que desvela. Contudo, este velar de sua essência e de sua
origem essencial é o traço no qual o ser primordialmente se clarifica; mas de
tal maneira que o pensamento justamente não o segue. O ente mesmo não entra
nesta luz do ser. O desvelamento do ente, a claridade que lhe é garantida,
obscurece a luz do ser.
O ser se subtrai enquanto
se desoculta no ente.
Desta maneira o ser
carrega o ente com a errância, clarificando-o. O ente é transpropriado para o
ser da errância. Este império é o espaço essencial da história. Nele erra o que
é historialmente essencial, errando o que lhe é semelhante. Por isto é mal
interpretado o que historialmente advém. É através de toda esta falsa
interpretação que o destino espera para ver o que acontece com sua
semeadura. Ela traz aqueles que aborda
para o seio da possibilidade de serem ou não serem dóceis ao destino. O
enganar-se do homem corresponde ao ocultar-se da clarificação do ser.
Sem esta errância não
haveria relação de destino a destino, não haveria a História. (...). Nós não
estamos, se realmente formos historiais, inseridos nem numa grande nem numa
pequena distância do elemento grego. Nós estamos errando em direção a ele.
O ser se subtrai enquanto
se desoculta no ente.
Desta maneira, o ser se
retém com sua verdade. Este reter-se é o primeiro modo de seu desvelar-se. O signo
primordial do reter-se é a A-létheia.
Somente enquanto ela traz desvelamento do ente, funda o velamento do ser. O
velamento, porém, permanece no processo da recusa que retém.” (pp. 33-34).
O filósofo designará esta retenção
clarificadora como a época (epokhé)
do ser, na qual a verdade de sua essência se conserva. O termo é usado em
sentido estóico, e não husserliano, designando a pertença do ser a si mesmo
como portador de sua época, a qual “é pensada a partir da experiência do
esquecimento do ser”, no dito do filósofo.
Segundo ele, a verdadeira história universal acontece na dimensão da
essência epocal do destino do ser. Assim, ele concebe o mundo como
acontecimento súbito e imprevisível dessa atividade de retenção própria do ser:
“(...) Cada época da
história do mundo é uma época de errância. A essência epocal do ser faz parte do oculto
caráter temporal do ser e caracteriza a essência do tempo pensada no ser.
Outras coisas representadas sob este nome são apenas o vazio da aparência do
tempo extraído do ente pensado objetivamente.
O caráter estático do
ser-aí, contudo, é, para nós, primeiro a correspondência que pode ser
experimentada com o caráter epocal do ser. A essência epocal do ser faz
acontecer e manifestar-se a essência ec-stática, guardando assim o epocal do
ser, ao qual pertence a essência do aí e assim do ser-aí.” (p.34, §5 e §6).
Essa
atividade de retenção do ser nos parece o que Carneiro Leão designa pelo termo mistério
na sua atividade de retração que nos atrai e arrasta para o vigor e plenitude
do pensar originário, pois “as palavras e os textos são função do pensamento,
como este é função do que, provocando a pensar, o torna possível como
pensamento.”[5] Ora, o que nos provoca a pensar é exatamente
o mistério do ser, ou do ente múltiplo em sua totalidade, que os primeiros
pensadores denominaram physis. O mistério que nos evoca necessariamente
à aventura do pensar é proposto nas primeiras palavras de Heidegger em sua obra
Introdução à Metafísica sob a forma de uma indagação fundamental: “por
que há ente e não antes o nada?”
É assim, portanto, que se pretende
na sequência do texto de Carneiro Leão diferenciar os primeiros pensadores
enquanto tais dos filósofos a partir da rejeição de uma historiografia
filosófica, ou de uma filosofia historiográfica, pelo que se estabelece uma
nítida distinção entre pensamento e filosofia, na qual o pensamento originário
é considerado sob a determinação intrínseca de seu vigor de instauração, e não
de uma extrínseca objetividade de seus conhecimentos.
A despeito dos limites que nos são impostos para a configuração deste
texto, não podemos resistir a uma citação do referido autor, que muito nos
esclarece a obscuridade do modo como Heidegger trata do retorno aos gregos como
uma destinação do ser do homem ocidental nos rumos da errância, a partir do que
o homem da contemporaneidade pode compreender-se a si mesmo a partir de seus
primórdios, podendo também fazer algo que há muito não se faz, a saber, viver o
vigor da atividade do pensamento, familiarizando-se com a estranheza dos
pensadores.
“No horizonte deste
questionamento o pensamento dos primeiros pensadores gregos revela uma
profundidade atual em que as questões arroladas e as preocupações acenam para o
mistério vigente de sua verdade, de outro modo imperceptível. (...) É então que
nos sentimos conosco quando estamos com eles. Pensar o pensamento dos primeiros
pensadores (...) Será experienciar a decadência planetária em que hoje nos
debatemos. (...)
(...)
O pensamento está sempre
em tensão: com a consciência, a filosofia, a ciência, a técnica, o bom senso, a
ideologia, o mito, a religião, a arte, consigo mesmo. Em todas as situações o
pensamento, sendo um apelo e um desafio de libertação, é logo desprezado. Pois
comparado com a moda, nunca está em voga.
Para o desenvolvimento econômico só contribui com o Nada. No mundo dos
negócios é um ócio de outro mundo. Na vida do trabalho não serve para bater um
prego. De fato com todos esses propósitos não se poderia dar melhor
demonstração da inutilidade do pensamento. Realmente pensar é inútil.
Realmente, o pensamento é imprestável caso já esteja estabelecido que tijolo e
cimento armado são mais reais que o mistério de ser. Realmente, o pensamento é
indesejável, caso já esteja acertado que crescer é aumentar de tamanho ou subir
as séries de uma escala. Realmente, pensar é alienante, caso já esteja
descontado o que é o homem. Realmente, pensar é contraproducente, caso já
esteja resolvido que o coração é apenas uma bomba e o homem, um tubo digestivo
com entrada e saída.”[6]
Com isso, já compreendemos o valor do pensamento e, apesar da diferença
entre pensamento e filosofia, não perdendo de vista que, todavia, é o irromper
do pensar que possibilitará a filosofia, e esta possibilitará as ulteriores
formas disciplinares do saber e da objetivação do ente em regiões de
circunscrição das disciplinas científicas específicas e de sua consequente
aplicabilidade técnica através de um aprisionamento do ente sob a rigidez do
cálculo das operações lógicas e das estruturas categorias do entendimento, que
o disponibilizam para a atividade de representar o-que-é através de proposições encadeadas entre si num exercício
puramente raciocinante, que visa ao aprisionamento do real, enfim, passamos à
consideração de alguns dos príncipes ou arcontes do pensar e do ser.
CONCLUSÃO
Tales surge como o primeiro pensador
a pensar a totalidade do ente como uma unidade de ser, referindo-se à unidade
da natureza a partir do seu fenômeno em plena vigência e força de aparecimento,
para dessa experiência originária enunciar o princípio elementar do pensamento,
isto é, que tudo é um, que a múltipla totalidade se constitui como uma unidade.
Isso ele fez pela imagem da água, afirmando que tudo é água, querendo dizer não
que todas as coisas vêm da água e a ela se reduzam, mas que a água
figurativamente representa o sempre principiar da totalidade, cuja compreensão
unitária e universal é dada na atividade originária do pensamento.
O imediato, o particular, nos
convida à compreensão de seu sentido originário, do qual procede como
manifestação e do qual recebe seu ser. O sentido originário é vigência e vigor
de força instauradora de realidade, pela qual o imediato, o ente singular e
finito espaço-temporalmente configurado vem a ser e se torna inteligibilidade,
quando nomeado pela atividade originária do pensamento na poematização do ser
pela palavra instauradora de sentido. Eis a inauguração do pensamento, o
sentido originário do real compreendido como princípio e unidade da múltipla
totalidade.
A unidade como universalidade é a
abertura de sentido da realidade, pois dela derivam as particularidades
inseridas na totalidade compreendida pelo pensamento, por exemplo, o logos do
primeiro fragmento de Heráclito que perpassa as diversas possibilidades de
compreensão global de todos os seus fragmentos numa unidade sintética e
interpretativa de sentido de pensamento.
A água é um elemento sem forma, não
é uma coisa particular, permanece transformando-se[7], é
sempre a mesma, embora assuma manifestações em configurações distintas,
conforme o recipiente em que penetra ou o estado físico em que está ou vige,
enquanto essência do que aparece e se configura como sua manifestação
particular espaço-temporalmente delimitada (líquido, vaporoso ou sólido). Dessa
imagem, depreende-se que a realidade é vir a ser outro sem deixar de ser ela
mesma; pela imagem da água Tales enuncia este princípio da múltipla totalidade
como unidade. Essa unidade é o próprio vigor de ser, a physis, ou o logos de
Heráclito que a tudo acolhe e dispõe na multiplicidade como guerra de opostos e
re-colhe na unidade do Um, o saber.
Do mesmo modo, Anaximandro nomeia o
ser da physis como princípio (arché) ilimitado pela palavra grega
ápeiron, designando o ser da realidade total como o sem limite do
processo de geração ou brotação do ente, que tem o seu fim lá donde surge, no
ilimitado ser da geração constante e sem fim, a physis. O ilimitado não é ente singular ou imediato algum, é o
vigor de ser do surgimento a compreender em sua dinâmica o desaparecimento da
particular configuração que vem a ser, é o próprio realizar desarticulação e
des-realizar articulação, bem como articular realização e des-articular
des-realização, pleno vigor da natureza em seu movimento e constância de ser, somente
pelo pensamento captável em sua unidade universal como ente múltiplo em sua
totalidade, physis. Eis a grandiosa
herança destes que ficaram conhecidos na história como pré-socráticos e que
pode ser resumida pelo fragmento 41 de Heráclito: “Um, o saber: compreender que
o pensamento, em qualquer tempo, dirige tudo através de tudo”.
BIBLIOGRAFIA:
Da Natureza,
O Poema de Parmênides; edição do texto grego, tradução e comentários por
Fernando Santoro. Laboratório OUSIA – Departamento de Filosofia da Universidade
Federal do Rio de Janeiro.
HEIDEGGER,
Martin. A sentença de Anaximandro. IN
Os pré-socráticos. São Paulo: Abril
Cultural, 1973.
____________. Introdução
à metafísica.; tradução e notas de Emmanuel Carneiro Leão. Rio de Janeiro:
tempo brasileiro, 1969.
NIETZSCHE,
Friedrich. A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos; tradução Maria Inês
Madeira de Andrade; revisão de Artur Morão. Rio de Janeiro: Elfos Ed; Lisboa:
Edições 70, 1995.
Os Pensadores
Originários: Anaximandro, Parmênides, Heráclito / introdução Emmanuel
Carneiro Leão; tradução de Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski. -
Petrópolis, RJ: Vozes, 1991.
[1] Os pré-socráticos. São Paulo: Abril
Cultural, 1973.
[2] A filosofia na idade trágica dos gregos;
capítulo II.
[3] Da Natureza, O Poema de Parmênides; edição
do texto grego, tradução e comentários por Fernando Santoro: Laboratório Ousia
– Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
[4] HEIDEGGER,
Martin. A sentença de Anaximandro. IN
Os pré-socráticos. São Paulo: Abril
Cultural, 1973.
[5] O pensamento originário IN os
pensadores originários: Anaximandro, Parmênides e Heráclito / introdução
Emmanuel Carneiro Leão; tradução Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski –
Petrópolis, RJ: Vozes, 1991. p.8
[6] Idem. pp. 9 e 10.
[7] Aqui inconscientemente enunciamos o
fragmento 84 de Heráclito.
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