Nunca
devemos esquecer de que o futuro, que certamente não se acha em nosso poder,
muito menos se encontra totalmente além dele; desse modo, certamente, nunca
contaremos que aconteça algo que esperamos, e não ficaremos desesperados com a
ideia de que venha a acontecer.
Estas célebres palavras
de Epicuro (341-270 a.C) foram retiradas de sua Carta a Meneceu. Com estas palavras de Epicuro iniciamos um breve
diálogo com o pensamento, um diálogo do espírito consigo mesmo, através do dito
dos pensadores, e compartilhamos isso com os leitores. Que estes, porém, ao
praticarem suas leituras descompromissadas e sem as obrigatoriedades boçais dos
protocolos acadêmico-científicos e dos editores-chefes de jornais, não se
esqueçam de que, antes de Epicuro, Heráclito (540-470 a.C) já havia proclamado:
se não se espera, não se encontra o
inesperado, sendo sem caminhos de encontro nem vias de acesso (fragmento
18, tradução de Emanuel Carneiro Leão).
Heráclito, esse que,
segundo Heidegger, era denominado o
Obscuro exatamente porque se questionava e, assim, pensava no sentido da
luz de clareira. Epicuro, esse que se apaziguava na ataraxia, na serena ausência de perturbações da alma feliz e plena
de regozijo da vida, sem temer a morte. Pensadores que estavam acordados diante
do clarear que funda uma aparência e um sentido para o mundo e, na experiência
primordial do simples enunciar, apreendiam e concebiam de maneira diversa a
pura emergência do ente na totalidade. As palavras destes pensadores permanecem
atuais e fornecem, a nosso ver, uma perspectiva de iluminação de si mesmo
diante do hodierno rebuliço fomentado pelas discussões sobre “salvação do
planeta” e possíveis resoluções de crises econômico-políticas e sociais.
A reunião do todo que
emerge no elemento puro do simples dizer repercute no âmago do palavrório
mundial de todas as línguas e culturas, à procura da simplicidade que vige
oculta em dispersão constante na temporalidade extática de nossa
sujeito-objetivação comum cotidiana: o rumar para a morte e o temor desse rumo
inevitável. Isso acarreta somente uma vida que morre e uma morte que vive em
auto-aniquilação perpétua, na vida do trabalho, da exigência de eficácia e
desempenho produtivo, e do desperdício do consumo até a baboseira extremamente
necessária da sustentabilidade da totalidade reciclável, reprodutível e
reutilizável para o autoconsumo da autossustentabilidade da natureza em seu
ciclo de vida e morte, transformação da matéria etc.
Sem esperanças,
portanto sem desespero, dialogamos com Epicuro. E para a grande maioria que se
deixa levar pelo hedonismo destrutivo fomentado pelo autoconsumismo projetado
em produções culturais disponibilizadas pelos meios de comunicação e seu
incentivo ao entretenimento, Epicuro logo enfatiza: Se aquilo que ocasiona prazer aos libertinos eliminasse os receios do
espírito, dos fenômenos da natureza, da morte e das dores, e se ainda ensinasse
o conhecimento da limitação das ânsias, nada teríamos a desaprovar nessas
pessoas.
E se essas discussões
mundiais sobre economia sustentável requisitam um necessário conhecimento da
natureza e um livre autoconhecimento do homem, o velho dilema entre necessidade
e liberdade permanece no fundamento do drama histórico da humanidade. E se, como
afirma Epicuro, a necessidade é um mal, a liberdade talvez seja o bem a que
aspiramos sem, contudo, podermos pegá-lo e agarrá-lo como se fosse algo de
determinado (uma substância): a
necessidade é um mal. Não existe, porém, a necessidade de viver com essa
necessidade.
Alguns religiosos
esperam o Juízo Final, e por isso muitos têm fomentado o desespero ao longo dos
séculos. A ciência insiste em negar o sagrado ou Deus porque simplesmente não lhe convém, não convém a seus
instrumentos de experimentação e de demonstração e, sobretudo, à posição
existencial pessoal dos cientistas, que só protegem sua profissão e sua
eminência oficial, por isso agem de maneira fria e fomentam uma mentalidade
intelectualista maquinal e vaidosa, que se esconde sob os protocolos e
metodologias cerceadoras de âmbitos delimitados de discursividade permitida,
sobretudo porque só deixam falar o que querem ouvir, assim como desligamos o
rádio quando a música não agrada; e isso deveria ser um direito inalienável do
homem, a saber, não ouvir e não ver o que não quer.
Mas onde há o drama da
liberdade e da necessidade, há sofrimento, oposição, vida fragmentada,
infelicidade e desejo de unificação consigo mesmo, aspiração pela felicidade e
sentimento de plenitude da vida, ainda que o fenômeno da vida nas formas
orgânicas não seja necessariamente a vida,
assim como a morte não é
necessariamente o fato atualizado fisicamente ou meramente pensado de que eu morro.
Assim, eu ousaria dizer
que Epicuro é severo como um estóico, livre como a natureza no reconhecimento
de que ser é necessidade e positividade de si mesmo do ente naquilo que ele é: Um ser ditoso e eterno (a divindade) não
conhece penas e nem as transfere para um outro ser. Por isso, não conhece ira
nem benevolência. Tais sentimentos existem apenas nos seres fracos. E em
seguida: A morte nada é para nós, pois
aquilo que já foi dissolvido não possui mais sentimentos. Aquilo, porém, que
não possui mais sentimentos, não nos importa. Muito mais do que significar
uma indiferença do homem em relação a Deus(es)
e vice-versa, como sustentam os ateus e materialistas corriqueiros que
querem sustentar suas posições em Epicuro, este parece mostrar a diferença
absoluta que Heráclito enuncia em seu fragmento 102: para o deus tudo é bom, belo e justo; os homens, contudo, julgam umas
coisas injustas e outras justas. O que mostra tão somente a determinação da
finitude humana em sua situação de condicionalidade e limitação, face ao
absoluto, infinito, incondicionado ou Deus,
como representam as crenças religiosas.
Por isso, Epicuro
reconhece a situação de nossa época atual, pois é a condição humana, o drama da
liberdade e da necessidade, cujo conflito interno é a vida humana como alma
(princípio de movimento) da história: nada
adianta construirmos nossa segurança perene os homens, enquanto os
acontecimentos no céu e na terra, isto é, no universo infinito, possam
causar-nos algum receio.
A Justiça, então, é
convencionada pelas discussões sobre os rumos da coletividade (pólis). O palavrório não consegue alcançar
a essencialidade do dizer em seu elemento simples e fundante, por isso não
percebe que filosofa a todo instante, quando é chamado, pela necessidade, a
deliberar sobre os rumos do mundo e a exercer sua liberdade, ainda que a morte
seja inevitável e esteja presente a cada momento de nossa existência incompleta
por causa de seu caráter de projeto. A
justiça, em conformidade com a natureza, é uma convenção proveitosa para que
não causemos danos uns aos outros e nem tenhamos de os sofrer uns dos outros.
Assim, o estóico Epicuro reconhece que: fundamentalmente,
o direito é o mesmo para todos, pois significa algo de proveitoso dentro da
nossa comunidade edificada sobre a reciprocidade. Porém, por causa das
particularidades de cada país ou outros motivos provocados pelas
circunstâncias, não pode ser igual para todos, em todas as partes.
A justiça, essa imagem-ideia do bem que Platão procurava rememorar
em-si e para-si mesma, em meio aos deuses, para trazê-la à luz do fenômeno
acessível aos mortais. A justiça, que
para Epicuro é fundamentalmente a mesma por ser um proveito da convenção da
comunidade, cuja base de construção é a reciprocidade, mas que varia segundo
particularidades e circunstâncias. O bom, o belo e o justo, esse ideal clássico
socrático-platônico do homem orientado, em sua formação (paideia), pela sapiência máxima ou filosofia, na medida em que reside no âmago de seu ser, em sua
alma, o desejo erótico (amor) pelo saber, que o alça das sombras do sentidos à
inteligibilidade pura e simples do ente plenamente manifesto (presente) em seu
ser, enfim, Epicuro, embora não metafísico-platônico em seus pensamentos,
reconhece que: se não podemos ver-nos,
trocar ideias, nem estar em companhia um do outro, o sentimento do amor
evaporar-se-á em pouco tempo. Sobre a amabilidade desse amor, sob a forma
de reunião dos mortais sobre a terra e sob os céus, Epicuro diz que: Toda amizade, por mais desejável que seja
por si mesma, é, no fim de contas, construída sobre o proveito.
Cabe a cada um
(indivíduo ou povo), porém, saber o que lhe é verdadeiramente proveitoso.
Enquanto os líderes de nações pensam, em meio à crise, tudo resolver com
doações de alguns milhões de dólares; enquanto os movimentos sociais pensam
tudo resolver com suas aspirações socialistas e sua oposição niilista ao
fantasma do capitalismo que devora inclusive o capital e seus lacaios
principais, os capitalistas, enquanto isso, Epicuro, como pensador, está
acordado para auscultar o ser: Medida
pelas intenções da natureza, a pobreza
é uma grande riqueza; pelo contrário, a riqueza sem limites é uma grande
pobreza. A seguir, mais dois aforismos de Epicuro para encerrar:
Prefiro
proclamar abertamente aos homens, baseando-me no meu conhecimento da natureza, aquilo
que lhes seja útil, ainda que ninguém o compreenda, a dar, sob caloroso aplauso
da multidão, o meu acordo em tolices.
A
voz da carne diz: não passar fome, não passar sede, não sofrer frio! – Aquele,
porém, que não é condenado a esses padecimentos, ou que pode contar com certeza
de que não venham a acontecer, pode comparar a sua ventura à do próprio Zeus.
Um adendo:
Contudo, ao encerrarmos
este diálogo com Epicuro, não encerramos nosso diálogo com o pensamento, o que
não significa fazer comentários a filósofos da tradição ocidental, mas também
com os ditos populares, com doutrinas religiosas e com as almas e pensamentos
que flutuam pelo ar. Pois o Nous é
sempre como Pneuma Ápeiron, e está aí
silencioso enquanto passa o estrondo da história, drama da Humanidade a nascer
e morrer em individuações epocais, culturais e pessoais.
Neste adendo a nosso
diálogo com Epicuro, gostaríamos de apresentar nossa percepção da sapiência
como ciência dos primeiros princípios e das causas fundamentais do ente em
geral; pois a metafísica é o estabelecimento, por parte do pensador, do sistema
do saber em geral, que tudo deve abarcar, sem exceção. Porém, se somos cada um
de nós uma mônada absolutamente singular, um espelho a refletir uma
possibilidade atualizada do universo individuado, então o todo que abarcamos só
pode ser nós mesmos. Por isso, no §7 da Terceira
Dissertação de sua Genealogia da
Moral, Nietzsche diz a respeito da autoafirmação da existência do filósofo:
pereça o mundo, faça-se a filosofia,
faça-se o filósofo, faça-se eu. Sim, mas o mundo como exterioridade ao
espírito livre do filósofo não precisa perecer, basta que o filósofo entenda
que ele mesmo é o mundo, que ele deve tornar-se o que é e conhecer-se a si
mesmo enquanto ser-no-mundo...
Só assim, reconhecendo
sua finitude como ser-no-mundo (o que
não exclui a existência de Deus ou deuses e a imortalidade da alma), o pensador
pode estabelecer para si mesmo um sistema da totalidade do saber e da
possibilidade de apreensão do ente enquanto ente, mediante uma experiência
única e radical, o absorto espanto, que redunda em júbilo e gratidão a
expressar-se em poesia e canto (um exemplo disso é a obra de Hesíodo, que canta
a unidade de deuses imortais e homens mortais como totalidade cósmica e
prescreve modos de comportamento para o homem existir virtuosamente segundo a
justa medida de Céu e Terra...). Mas quando essa experiência primordial se
perde e inicia a de-cadência da manifestação do mundo, a linguagem se torna um
meio, um instrumento, os deuses se escondem, e o homem sofre do abandono à
própria sorte e à responsabilidade de si mesmo. Só assim, no princípio da
decadência (que é muito melhor que o final ou a consumação da decadência do princípio),
surge a sistematização do saber em geral, fundando a cultura e a civilização
mediante um projeto crítico da tradição e da formação humana (paideia), que inclui todos os âmbitos de
atuação humana e de reflexão teórica e prática (A República de Platão, na qual se fala de mitos, deuses, homens,
valores ético-morais, virtude, possibilidade de apreensão do ente nele mesmo
como conhecimento das formas ou ideias, arte, poesia, ciência, educação,
conhecimento, ética, alma, coletividade ou cidade ou sociedade, política... do
que não se fala ali?) E contudo, Platão só fala do homem, da alma e da
felicidade diante dos deuses, mostra a existência em sua finitude diante da
vida e da morte [ler as últimas palavras de Platão ao encerrar o Livro X de A República]).
[Hesíodo não fala de
outra coisa em Teogonia e Os Trabalhos e os Dias; os seguidores de
doutrinas religiosas não fazem outra coisa ao se esforçarem em seguirem seus
preceitos na execução dos ritos e cultos; os filósofos ateus, existencialistas
e materialistas, os cientistas descrentes ocupados e totalmente absorvidos pelo
objeto-objetivo de seu intenso labor não fazem outra coisa... todos estão aí no
mundo, habitando e formando modos de estar ou habitar no mundo, atentos ou
desatentos para a ausculta do que sempre vige, embora encoberto, e se desdobra
na diferença, na multiplicidade e na dispersão espacial/temporal da vida e da
morte.]
Platão enuncia, como
dissemos, todas as possibilidades em sua República,
pois se a tradição metafísica com ele inicia, com ele acaba (por isso,
Nietzsche é o crítico da cultura judaico-cristã e de seus fundamentos
platônicos, por isso Heidegger vislumbra neste pensador a consumação da
metafísica segundo as possibilidades de desdobramento histórico-ontológico da
essência da verdade do ser como desvelamento que encobre o ser e velamento
[segredo, mistério, retração, acontecimento-apropriação, clareira...] que
desencobre o ente, fundando assim o que é próprio ao ser-aí em sua
historicidade e temporalidade extática, uma sucessão de tentativas fracassadas
de apreensão do ente enquanto ente, do ente em seu ser ou do ser do ente. Por
isso o pensamento de Hegel aparece também, a Heidegger, como consumação da
metafísica, pois o Absoluto ou Infinito só é possível enquanto se finitiza e se
temporaliza na história e na autoconsciência do espírito como autor de suas
produções no seio da cultura universal, que se processa em devir
dialético-fenomenal (o fenômeno do ente nele mesmo só é possível como
exteriorização de si que se opõe e compõe uma totalidade de relações, assim o
ente é o conceito que apreende o ser ou a ideia em sua concretude real). De
modo que a apreensão do espírito como vida eterna que nasce e morre na história, mediante o devir de sua
figurações, seja também o aprendizado ou a formação de si mesmo do saber
autoconsciente em suas transfigurações epocais.
Assim, Nietsche fala do
sacerdote ascético como Hegel fala do
Espírito; mas ambos falam, na
verdade, da vida... a vida do espírito na história e na cultura, a vontade de
poder insaciável do desejo de anelo e no amor
fati em meio ao pensamento abissal do eterno
retorno (seja lido de maneira mítico-religiosa como ciclo de renascimentos
da totalidade do mundo e das almas que nele e com ele nascem e morrem, seja
lido como pensamento-imagem especulativo da sã consciência que não se ressente
do tempo e seu já passou e, assim, se
mantém em certa ataraxia salubre que reconhece a mera transcendência de uma
existência finita que se projeta no tempo e é livre para suas escolhas). Ambos
falam do mesmo, do sacerdote ascético e
da vida do espírito: O Não que ele diz à vida traz à luz, como
por mágica, uma profusão de sins mais delicados; sim, quando ele se fere, esse
mestre da destruição, da autodestruição – é a própria ferida que em
seguida o faz viver (§ 13, Terceira
Dissertação). E em algum lugar do Prefácio
à Fenomenologia do Espírito, Hegel
canta e poetiza: (...) O que há de mais
temível é a morte (...) e sustentar o que está morto é o que exige a maior
força (...) Mas a vida do Espírito não é a vida que se atemoriza em face da
morte e em face da devastação, mas sim a vida que suporta a morte e nela se
conserva (...) O Espírito é esse poder somente quando contempla o negativo face
a face e junto dele permanece. Esse permanecer é a força mágica que converte o
negativo em ser (aqui Hegel expressa a verdade do ente como sujeito
absoluto, no qual sua imediatidade é e conserva a sua própria mediação,
negatividade).
Esse curto diálogo com
Epicuro se reconheceu um diálogo do pensamento consigo mesmo; não fazemos
exposições acadêmicas de teses ou conceitos filosóficos, mas sim poetizamos
nosso estar-no-mundo atual e suportamos nossa angústia, esforçando-nos em
cultivar o reto amor pelo que é bom, belo e justo. O ideal clássico
socrático-platônico é o último suspiro a partir do qual inicia o homem de hoje,
que já nada é; Hesíodo é o poeta que cantou a lembrança dos deuses, que
esqueceram os homens; Sócrates enunciou a necessidade de rememoração dos deuses
e do sagrado por uma atitude singular diante do saber, que ficou esquecida na
cicuta, por causa do esquecimento geral que reinava na mentalidade dos homens
de sua época e cidade em face da abertura do ente e do modo como essa abertura
deve com-portar-se diante de si mesma, quando repercute no ser-aí histórico e
funda uma absorção inicial da existência humana em sua temporalidade extática
(ou ec-stática). O comportamento é um portar-se de si mesmo da existência que
acontece com, ou seja, é coletivamente com-partilhado, é partilhado em conjunto
em cada presença pessoal no seio da pólis
(cidade); por isso se faz hábito e habitação, pois onde moramos é nossa morada
a constituir uma moralidade (costume).
Não é à toa o fato de
Nietzsche empreender uma crítica da metafísica como moral e uma transvaloração
dos valores enraizados no platonismo e no judaico-cristianismo, porém sua
proposta permaneceu meramente destrutiva, embora afirme que só o destruidor
pode estabelecer o chão vazio no qual se assentem novos valores criados; do
mesmo modo Platão, em a República,
realiza uma crítica da cultura tragediográfica e comediográfica de sua época
assentada na tradição homérico-hesiódica, apresenta um modelo de cidade ideal
como meio para fundar valores formativos e normativos para a constituição de
uma coletividade e da educação correspondente ao cidadão que nela habite, passando
por temas éticos, lógico-ontológicos e gnosiológicos e fazendo referências de
cunho órfico-pitagórico.
O Rei-Filósofo
idealizado por Platão, na verdade, não quer saber de governar a cidade, pois
antes procura o governo de si (frente aos deuses), enquanto a cidade anda em
desgoverno, des-governada por cidadãos que não procuram governar a si mesmos,
mas tão somente usufruir dos privilégios dos cargos públicos. Qual seria,
então, o saber concernente ao sábio, o saber filosófico que marca no peito da
pessoa a insígnia filosófica, de modo a sabermos verdadeiramente quem é e quem
não é verdadeiro filósofo e autêntico rei dos reis? Se esse saber é a filosofia
e se sua prática é pura e simplesmente o filosofar, se é que isso já está bem
definido, então que dizer da determinação da filosofia como “preparação para a
morte”, no Fédon de Platão, e do
viver sabiamente como sendo o filosofar como tal, cujo exemplo Platão nos
apresenta pela tranquilidade socrática diante da morte, tranquilidade advinda
de uma existência orientada pela reta sabedoria do que é bom, belo e justo?
Coragem, temperança, justiça, verdade, beleza, amor, sabedoria... por acaso não
vale a pena sucumbir a própria vida e existência por tal projeto de ser? Pois
nossa presença no mundo, localizada temporalmente na abertura (entre a... e
a...) da vida e da morte se compreende a si mesma como teísta ou ateísta e, por
isso, constitui um modo de habitar mundo e fazer ciência assim ou assado, desse
ou daquele jeito.
Desse modo, Heidegger
pode afirmar que: (...) De fato, a
pre-sença só existe nascendo e é nascendo que ela já morre, no sentido de
ser-para-a-morte. (...) na unidade do estar-lançado [a transcendência do
ser-aí e seu caráter de projeto] e do
ser-para-a-morte (...) é que nascimento e morte formam um contexto dotado do
caráter de pre-sença [ser-aí]. Enquanto
cura, a pre-sença é o “entre”. (Heidegger, p. 179, 1989;§72 de Ser e Tempo). Ora, por acaso essa
ontologia da presença em sua existência fática apenas se aplicaria a ateus,
conforme leitura sartreana? Por acaso, não se aplica à existência cristã ou
budista, ou mesmo umbandista no mundo, ou seja o que for? Por acaso não se
aplica ao Sócrates do Fédon de Platão
e ao rebelde Nietzsche em sua livre escolha de vida e de pensamento? Quem
garante, com palavrório conceitual sistemático ou com instrumental
técnico-científico, a existência ou não de Deus(es), carma, pecado... como
elementos da matéria e do espírito concomitantemente, senão por uma livre
escolha rabugenta que só admite o que lhe convém? Porém, como dissemos acima, deveria
ser direito inalienável do homem ouvir e ver só o que lhe convém, e tudo seria
uma maravilha, pois tudo seria espelhamento da mônada universal que eu sou, que
tu és, que ele é, que nós somos, que vós sois e que eles são.
Não podemos nos eximir
de que nós somos a cada instante o cuidado (cura) na ocupação com as coisas e
na preocupação com os outros. Assim, estamos postados na clareira do aberto, na
abertura pura e simples da apresentação (do tornar presentes as coisas no espaço-tempo
do campo ôntico de manifestação e de apreensão do manifesto que a cada vez
somos, a partir do que concebemos um mundo próprio e valoramos as coisas dentro
desse mundo). Enquanto cura, a pre-sença
é o entre. Pois é nesse “entre” que se entreabre o ser como mundo e como
totalidade dos entes dentro do mundo, somos um campo ôntico-ontológico de
espaço-temporalização do mundo e das coisas dentro do mundo, e escolhemos sim a
qualidade do que se nos mostra como sendo em nosso mundo próprio monádico, enquanto
estamos entre o nascimento (vida) e a morte.
A existência humana é
poética enquanto habita entre Céu e Terra; daí a cura (ler fábula de Higino no
§42 de Ser e Tempo) aparecer a
Heidegger, posteriormente, como a existência que guarda na ocupação com as
coisas e na preocupação com os outros a quadratura,
o jogo do mundo e da physis (que ama
esconder-se; Heráclito, frag. 123) como unidade originária entre deuses
imortais e homens mortais, entre Céu e Terra (coisa que se vê em Hesíodo e, a
nosso ver, nas demais tradições religiosas; judaico-cristianismo, budismo,
taoísmo... e nas assim chamadas filosofias de vida ou nas filosofias do
helenismo (epicurismo e estoicismo) como modos de bem viver, na fundação de um ethos (ética) comportamental para a vida
humana individual e coletivamente).
Já a existência do
pensador filosófico habita (forma hábito e morada), conforme Heidegger, entre a
diferença do ser e do ente, na abertura conceptiva da diversidade una da
totalidade múltipla em sua diferença ôntico-ontológica, e assim o amor pelo
saber repercute de modo essencial no filosofar como ato do amar (da vontade de
verdade e de saber a converter-se em domínio sobre a objetividade ou realidade
efetiva do ente) que quer apreender o ente em seu ser (concepção da conceptualidade
ou racionalidade como tal) fixando, assim, o ser do ente na forma do
inteligível e forçando a compreensão da realidade ôntica, em sua estrutura
ontológica, para dentro da forma pura do conceito (da consciência pura
transcendental) e da linguagem árida e seca da racionalidade instrumental que
impera em todo linguajar acadêmico-científico ocidental (hoje globalizado)!
Terminamos por aqui,
mas ainda ficou por falar: sobre a simplicidade do ser-aí como
ser-para-a-morte, quando rememora seu destino na terra em meio à profusão
difusa e confusa de coisas e outros seres-aí com que tem que, publicamente ou
não, se ocupar e preocupar; assim a desocupação de toda ocupação e preocupação
se revela como um modo de ocupação e preocupação consigo mesmo originário e
próprio da mônada imortal, a alma presa e limitada em um corpo, que quer
retornar a si mesma e libertar-se de tudo e de todos. Do mesmo modo, deuses e
homens estão presos ao destino, do qual se ocupam as Moiras; Zeus é o rei da
geração Olímpica e, como tal, governa conforme ao destino, do qual depende a
harmonia cósmica. Mas este Cosmos,
como diz Heráclito em um de seus fragmentos, nenhum deus o criou, é fogo que
acende e apaga segundo medidas. Sendo assim, o nascimento e a morte da totalidade
e das almas é o eterno retorno, cuja qualidade devemos escolher a cada instante
de nosso projeto existencial e pro-mover para as futuras gerações mediante a
constituição de uma formação cultural integral do homem, pois os deuses
imortais também estão aí postados diante da clareira do caos originário,
conforme Hesíodo, do qual surgiu o drama da espaço-temporalização
(individuação) da substância universal em vida, em matéria e em espírito.
Por enquanto, Nada
Apofântico.
REFERÊNCIAS:
EPICURO. Pensamentos. São Paulo: Martin Claret,
2005.
O
pensamento originário IN os
pensadores originários: Anaximandro, Parmênides e Heráclito / introdução
Emmanuel Carneiro Leão; tradução Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski –
Petrópolis, RJ: Vozes, 1991.
HEGEL, Textos seletos. São Paulo, Abril
Cultural, 1999.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo I e II. Trad. Marcia de Sá
Cavalcante. Petrópolis: Vozes, 2005 (I) e 1989 (II).
NIETZSCHE, Friedrich
Wilhelm. Genealogia da Moral. São
Paulo: Companhia das Letras, 1998.
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