quarta-feira, 5 de junho de 2013

Epicuro, pensador da existência

Nunca devemos esquecer de que o futuro, que certamente não se acha em nosso poder, muito menos se encontra totalmente além dele; desse modo, certamente, nunca contaremos que aconteça algo que esperamos, e não ficaremos desesperados com a ideia de que venha a acontecer.

Estas célebres palavras de Epicuro (341-270 a.C) foram retiradas de sua Carta a Meneceu. Com estas palavras de Epicuro iniciamos um breve diálogo com o pensamento, um diálogo do espírito consigo mesmo, através do dito dos pensadores, e compartilhamos isso com os leitores. Que estes, porém, ao praticarem suas leituras descompromissadas e sem as obrigatoriedades boçais dos protocolos acadêmico-científicos e dos editores-chefes de jornais, não se esqueçam de que, antes de Epicuro, Heráclito (540-470 a.C) já havia proclamado: se não se espera, não se encontra o inesperado, sendo sem caminhos de encontro nem vias de acesso (fragmento 18, tradução de Emanuel Carneiro Leão).
Heráclito, esse que, segundo Heidegger, era denominado o Obscuro exatamente porque se questionava e, assim, pensava no sentido da luz de clareira. Epicuro, esse que se apaziguava na ataraxia, na serena ausência de perturbações da alma feliz e plena de regozijo da vida, sem temer a morte. Pensadores que estavam acordados diante do clarear que funda uma aparência e um sentido para o mundo e, na experiência primordial do simples enunciar, apreendiam e concebiam de maneira diversa a pura emergência do ente na totalidade. As palavras destes pensadores permanecem atuais e fornecem, a nosso ver, uma perspectiva de iluminação de si mesmo diante do hodierno rebuliço fomentado pelas discussões sobre “salvação do planeta” e possíveis resoluções de crises econômico-políticas e sociais.
A reunião do todo que emerge no elemento puro do simples dizer repercute no âmago do palavrório mundial de todas as línguas e culturas, à procura da simplicidade que vige oculta em dispersão constante na temporalidade extática de nossa sujeito-objetivação comum cotidiana: o rumar para a morte e o temor desse rumo inevitável. Isso acarreta somente uma vida que morre e uma morte que vive em auto-aniquilação perpétua, na vida do trabalho, da exigência de eficácia e desempenho produtivo, e do desperdício do consumo até a baboseira extremamente necessária da sustentabilidade da totalidade reciclável, reprodutível e reutilizável para o autoconsumo da autossustentabilidade da natureza em seu ciclo de vida e morte, transformação da matéria etc.
Sem esperanças, portanto sem desespero, dialogamos com Epicuro. E para a grande maioria que se deixa levar pelo hedonismo destrutivo fomentado pelo autoconsumismo projetado em produções culturais disponibilizadas pelos meios de comunicação e seu incentivo ao entretenimento, Epicuro logo enfatiza: Se aquilo que ocasiona prazer aos libertinos eliminasse os receios do espírito, dos fenômenos da natureza, da morte e das dores, e se ainda ensinasse o conhecimento da limitação das ânsias, nada teríamos a desaprovar nessas pessoas.
E se essas discussões mundiais sobre economia sustentável requisitam um necessário conhecimento da natureza e um livre autoconhecimento do homem, o velho dilema entre necessidade e liberdade permanece no fundamento do drama histórico da humanidade. E se, como afirma Epicuro, a necessidade é um mal, a liberdade talvez seja o bem a que aspiramos sem, contudo, podermos pegá-lo e agarrá-lo como se fosse algo de determinado (uma substância): a necessidade é um mal. Não existe, porém, a necessidade de viver com essa necessidade.
Alguns religiosos esperam o Juízo Final, e por isso muitos têm fomentado o desespero ao longo dos séculos. A ciência insiste em negar o sagrado ou Deus porque simplesmente não lhe convém, não convém a seus instrumentos de experimentação e de demonstração e, sobretudo, à posição existencial pessoal dos cientistas, que só protegem sua profissão e sua eminência oficial, por isso agem de maneira fria e fomentam uma mentalidade intelectualista maquinal e vaidosa, que se esconde sob os protocolos e metodologias cerceadoras de âmbitos delimitados de discursividade permitida, sobretudo porque só deixam falar o que querem ouvir, assim como desligamos o rádio quando a música não agrada; e isso deveria ser um direito inalienável do homem, a saber, não ouvir e não ver o que não quer.
Mas onde há o drama da liberdade e da necessidade, há sofrimento, oposição, vida fragmentada, infelicidade e desejo de unificação consigo mesmo, aspiração pela felicidade e sentimento de plenitude da vida, ainda que o fenômeno da vida nas formas orgânicas não seja necessariamente a vida, assim como a morte não é necessariamente o fato atualizado fisicamente ou meramente pensado de que eu morro.
Assim, eu ousaria dizer que Epicuro é severo como um estóico, livre como a natureza no reconhecimento de que ser é necessidade e positividade de si mesmo do ente naquilo que ele é: Um ser ditoso e eterno (a divindade) não conhece penas e nem as transfere para um outro ser. Por isso, não conhece ira nem benevolência. Tais sentimentos existem apenas nos seres fracos. E em seguida: A morte nada é para nós, pois aquilo que já foi dissolvido não possui mais sentimentos. Aquilo, porém, que não possui mais sentimentos, não nos importa. Muito mais do que significar uma indiferença do homem em relação a Deus(es) e vice-versa, como sustentam os ateus e materialistas corriqueiros que querem sustentar suas posições em Epicuro, este parece mostrar a diferença absoluta que Heráclito enuncia em seu fragmento 102: para o deus tudo é bom, belo e justo; os homens, contudo, julgam umas coisas injustas e outras justas. O que mostra tão somente a determinação da finitude humana em sua situação de condicionalidade e limitação, face ao absoluto, infinito, incondicionado ou Deus, como representam as crenças religiosas.
Por isso, Epicuro reconhece a situação de nossa época atual, pois é a condição humana, o drama da liberdade e da necessidade, cujo conflito interno é a vida humana como alma (princípio de movimento) da história: nada adianta construirmos nossa segurança perene os homens, enquanto os acontecimentos no céu e na terra, isto é, no universo infinito, possam causar-nos algum receio.    
A Justiça, então, é convencionada pelas discussões sobre os rumos da coletividade (pólis). O palavrório não consegue alcançar a essencialidade do dizer em seu elemento simples e fundante, por isso não percebe que filosofa a todo instante, quando é chamado, pela necessidade, a deliberar sobre os rumos do mundo e a exercer sua liberdade, ainda que a morte seja inevitável e esteja presente a cada momento de nossa existência incompleta por causa de seu caráter de projeto. A justiça, em conformidade com a natureza, é uma convenção proveitosa para que não causemos danos uns aos outros e nem tenhamos de os sofrer uns dos outros. Assim, o estóico Epicuro reconhece que: fundamentalmente, o direito é o mesmo para todos, pois significa algo de proveitoso dentro da nossa comunidade edificada sobre a reciprocidade. Porém, por causa das particularidades de cada país ou outros motivos provocados pelas circunstâncias, não pode ser igual para todos, em todas as partes.
A justiça, essa imagem-ideia do bem que Platão procurava rememorar em-si e para-si mesma, em meio aos deuses, para trazê-la à luz do fenômeno acessível aos mortais. A justiça, que para Epicuro é fundamentalmente a mesma por ser um proveito da convenção da comunidade, cuja base de construção é a reciprocidade, mas que varia segundo particularidades e circunstâncias. O bom, o belo e o justo, esse ideal clássico socrático-platônico do homem orientado, em sua formação (paideia), pela sapiência máxima ou filosofia, na medida em que reside no âmago de seu ser, em sua alma, o desejo erótico (amor) pelo saber, que o alça das sombras do sentidos à inteligibilidade pura e simples do ente plenamente manifesto (presente) em seu ser, enfim, Epicuro, embora não metafísico-platônico em seus pensamentos, reconhece que: se não podemos ver-nos, trocar ideias, nem estar em companhia um do outro, o sentimento do amor evaporar-se-á em pouco tempo. Sobre a amabilidade desse amor, sob a forma de reunião dos mortais sobre a terra e sob os céus, Epicuro diz que: Toda amizade, por mais desejável que seja por si mesma, é, no fim de contas, construída sobre o proveito.
Cabe a cada um (indivíduo ou povo), porém, saber o que lhe é verdadeiramente proveitoso. Enquanto os líderes de nações pensam, em meio à crise, tudo resolver com doações de alguns milhões de dólares; enquanto os movimentos sociais pensam tudo resolver com suas aspirações socialistas e sua oposição niilista ao fantasma do capitalismo que devora inclusive o capital e seus lacaios principais, os capitalistas, enquanto isso, Epicuro, como pensador, está acordado para auscultar o ser: Medida pelas intenções da natureza, a pobreza é uma grande riqueza; pelo contrário, a riqueza sem limites é uma grande pobreza. A seguir, mais dois aforismos de Epicuro para encerrar:
Prefiro proclamar abertamente aos homens, baseando-me no meu conhecimento da natureza, aquilo que lhes seja útil, ainda que ninguém o compreenda, a dar, sob caloroso aplauso da multidão, o meu acordo em tolices.
A voz da carne diz: não passar fome, não passar sede, não sofrer frio! – Aquele, porém, que não é condenado a esses padecimentos, ou que pode contar com certeza de que não venham a acontecer, pode comparar a sua ventura à do próprio Zeus.
Um adendo:
Contudo, ao encerrarmos este diálogo com Epicuro, não encerramos nosso diálogo com o pensamento, o que não significa fazer comentários a filósofos da tradição ocidental, mas também com os ditos populares, com doutrinas religiosas e com as almas e pensamentos que flutuam pelo ar. Pois o Nous é sempre como Pneuma Ápeiron, e está aí silencioso enquanto passa o estrondo da história, drama da Humanidade a nascer e morrer em individuações epocais, culturais e pessoais.
Neste adendo a nosso diálogo com Epicuro, gostaríamos de apresentar nossa percepção da sapiência como ciência dos primeiros princípios e das causas fundamentais do ente em geral; pois a metafísica é o estabelecimento, por parte do pensador, do sistema do saber em geral, que tudo deve abarcar, sem exceção. Porém, se somos cada um de nós uma mônada absolutamente singular, um espelho a refletir uma possibilidade atualizada do universo individuado, então o todo que abarcamos só pode ser nós mesmos. Por isso, no §7 da Terceira Dissertação de sua Genealogia da Moral, Nietzsche diz a respeito da autoafirmação da existência do filósofo: pereça o mundo, faça-se a filosofia, faça-se o filósofo, faça-se eu. Sim, mas o mundo como exterioridade ao espírito livre do filósofo não precisa perecer, basta que o filósofo entenda que ele mesmo é o mundo, que ele deve tornar-se o que é e conhecer-se a si mesmo enquanto ser-no-mundo...
Só assim, reconhecendo sua finitude como ser-no-mundo (o que não exclui a existência de Deus ou deuses e a imortalidade da alma), o pensador pode estabelecer para si mesmo um sistema da totalidade do saber e da possibilidade de apreensão do ente enquanto ente, mediante uma experiência única e radical, o absorto espanto, que redunda em júbilo e gratidão a expressar-se em poesia e canto (um exemplo disso é a obra de Hesíodo, que canta a unidade de deuses imortais e homens mortais como totalidade cósmica e prescreve modos de comportamento para o homem existir virtuosamente segundo a justa medida de Céu e Terra...). Mas quando essa experiência primordial se perde e inicia a de-cadência da manifestação do mundo, a linguagem se torna um meio, um instrumento, os deuses se escondem, e o homem sofre do abandono à própria sorte e à responsabilidade de si mesmo. Só assim, no princípio da decadência (que é muito melhor que o final ou a consumação da decadência do princípio), surge a sistematização do saber em geral, fundando a cultura e a civilização mediante um projeto crítico da tradição e da formação humana (paideia), que inclui todos os âmbitos de atuação humana e de reflexão teórica e prática (A República de Platão, na qual se fala de mitos, deuses, homens, valores ético-morais, virtude, possibilidade de apreensão do ente nele mesmo como conhecimento das formas ou ideias, arte, poesia, ciência, educação, conhecimento, ética, alma, coletividade ou cidade ou sociedade, política... do que não se fala ali?) E contudo, Platão só fala do homem, da alma e da felicidade diante dos deuses, mostra a existência em sua finitude diante da vida e da morte [ler as últimas palavras de Platão ao encerrar o Livro X de A República]). 
[Hesíodo não fala de outra coisa em Teogonia e Os Trabalhos e os Dias; os seguidores de doutrinas religiosas não fazem outra coisa ao se esforçarem em seguirem seus preceitos na execução dos ritos e cultos; os filósofos ateus, existencialistas e materialistas, os cientistas descrentes ocupados e totalmente absorvidos pelo objeto-objetivo de seu intenso labor não fazem outra coisa... todos estão aí no mundo, habitando e formando modos de estar ou habitar no mundo, atentos ou desatentos para a ausculta do que sempre vige, embora encoberto, e se desdobra na diferença, na multiplicidade e na dispersão espacial/temporal da vida e da morte.]
Platão enuncia, como dissemos, todas as possibilidades em sua República, pois se a tradição metafísica com ele inicia, com ele acaba (por isso, Nietzsche é o crítico da cultura judaico-cristã e de seus fundamentos platônicos, por isso Heidegger vislumbra neste pensador a consumação da metafísica segundo as possibilidades de desdobramento histórico-ontológico da essência da verdade do ser como desvelamento que encobre o ser e velamento [segredo, mistério, retração, acontecimento-apropriação, clareira...] que desencobre o ente, fundando assim o que é próprio ao ser-aí em sua historicidade e temporalidade extática, uma sucessão de tentativas fracassadas de apreensão do ente enquanto ente, do ente em seu ser ou do ser do ente. Por isso o pensamento de Hegel aparece também, a Heidegger, como consumação da metafísica, pois o Absoluto ou Infinito só é possível enquanto se finitiza e se temporaliza na história e na autoconsciência do espírito como autor de suas produções no seio da cultura universal, que se processa em devir dialético-fenomenal (o fenômeno do ente nele mesmo só é possível como exteriorização de si que se opõe e compõe uma totalidade de relações, assim o ente é o conceito que apreende o ser ou a ideia em sua concretude real). De modo que a apreensão do espírito como vida eterna      que nasce e morre na história, mediante o devir de sua figurações, seja também o aprendizado ou a formação de si mesmo do saber autoconsciente em suas transfigurações epocais.
Assim, Nietsche fala do sacerdote ascético como Hegel fala do Espírito; mas ambos falam, na verdade, da vida... a vida do espírito na história e na cultura, a vontade de poder insaciável do desejo de anelo e no amor fati em meio ao pensamento abissal do eterno retorno (seja lido de maneira mítico-religiosa como ciclo de renascimentos da totalidade do mundo e das almas que nele e com ele nascem e morrem, seja lido como pensamento-imagem especulativo da sã consciência que não se ressente do tempo e seu já passou e, assim, se mantém em certa ataraxia salubre que reconhece a mera transcendência de uma existência finita que se projeta no tempo e é livre para suas escolhas). Ambos falam do mesmo, do sacerdote ascético e da vida do espírito: O Não que ele diz à vida traz à luz, como por mágica, uma profusão de sins mais delicados; sim, quando ele se fere, esse mestre da destruição, da autodestruiçãoé a própria ferida que em seguida o faz viver (§ 13, Terceira Dissertação). E em algum lugar do Prefácio à Fenomenologia do Espírito, Hegel canta e poetiza: (...) O que há de mais temível é a morte (...) e sustentar o que está morto é o que exige a maior força (...) Mas a vida do Espírito não é a vida que se atemoriza em face da morte e em face da devastação, mas sim a vida que suporta a morte e nela se conserva (...) O Espírito é esse poder somente quando contempla o negativo face a face e junto dele permanece. Esse permanecer é a força mágica que converte o negativo em ser (aqui Hegel expressa a verdade do ente como sujeito absoluto, no qual sua imediatidade é e conserva a sua própria mediação, negatividade).   
Esse curto diálogo com Epicuro se reconheceu um diálogo do pensamento consigo mesmo; não fazemos exposições acadêmicas de teses ou conceitos filosóficos, mas sim poetizamos nosso estar-no-mundo atual e suportamos nossa angústia, esforçando-nos em cultivar o reto amor pelo que é bom, belo e justo. O ideal clássico socrático-platônico é o último suspiro a partir do qual inicia o homem de hoje, que já nada é; Hesíodo é o poeta que cantou a lembrança dos deuses, que esqueceram os homens; Sócrates enunciou a necessidade de rememoração dos deuses e do sagrado por uma atitude singular diante do saber, que ficou esquecida na cicuta, por causa do esquecimento geral que reinava na mentalidade dos homens de sua época e cidade em face da abertura do ente e do modo como essa abertura deve com-portar-se diante de si mesma, quando repercute no ser-aí histórico e funda uma absorção inicial da existência humana em sua temporalidade extática (ou ec-stática). O comportamento é um portar-se de si mesmo da existência que acontece com, ou seja, é coletivamente com-partilhado, é partilhado em conjunto em cada presença pessoal no seio da pólis (cidade); por isso se faz hábito e habitação, pois onde moramos é nossa morada a constituir uma moralidade (costume).
Não é à toa o fato de Nietzsche empreender uma crítica da metafísica como moral e uma transvaloração dos valores enraizados no platonismo e no judaico-cristianismo, porém sua proposta permaneceu meramente destrutiva, embora afirme que só o destruidor pode estabelecer o chão vazio no qual se assentem novos valores criados; do mesmo modo Platão, em a República, realiza uma crítica da cultura tragediográfica e comediográfica de sua época assentada na tradição homérico-hesiódica, apresenta um modelo de cidade ideal como meio para fundar valores formativos e normativos para a constituição de uma coletividade e da educação correspondente ao cidadão que nela habite, passando por temas éticos, lógico-ontológicos e gnosiológicos e fazendo referências de cunho órfico-pitagórico.
O Rei-Filósofo idealizado por Platão, na verdade, não quer saber de governar a cidade, pois antes procura o governo de si (frente aos deuses), enquanto a cidade anda em desgoverno, des-governada por cidadãos que não procuram governar a si mesmos, mas tão somente usufruir dos privilégios dos cargos públicos. Qual seria, então, o saber concernente ao sábio, o saber filosófico que marca no peito da pessoa a insígnia filosófica, de modo a sabermos verdadeiramente quem é e quem não é verdadeiro filósofo e autêntico rei dos reis? Se esse saber é a filosofia e se sua prática é pura e simplesmente o filosofar, se é que isso já está bem definido, então que dizer da determinação da filosofia como “preparação para a morte”, no Fédon de Platão, e do viver sabiamente como sendo o filosofar como tal, cujo exemplo Platão nos apresenta pela tranquilidade socrática diante da morte, tranquilidade advinda de uma existência orientada pela reta sabedoria do que é bom, belo e justo? Coragem, temperança, justiça, verdade, beleza, amor, sabedoria... por acaso não vale a pena sucumbir a própria vida e existência por tal projeto de ser? Pois nossa presença no mundo, localizada temporalmente na abertura (entre a... e a...) da vida e da morte se compreende a si mesma como teísta ou ateísta e, por isso, constitui um modo de habitar mundo e fazer ciência assim ou assado, desse ou daquele jeito.
Desse modo, Heidegger pode afirmar que: (...) De fato, a pre-sença só existe nascendo e é nascendo que ela já morre, no sentido de ser-para-a-morte. (...) na unidade do estar-lançado [a transcendência do ser-aí e seu caráter de projeto] e do ser-para-a-morte (...) é que nascimento e morte formam um contexto dotado do caráter de pre-sença [ser-aí]. Enquanto cura, a pre-sença é oentre. (Heidegger, p. 179, 1989;§72 de Ser e Tempo). Ora, por acaso essa ontologia da presença em sua existência fática apenas se aplicaria a ateus, conforme leitura sartreana? Por acaso, não se aplica à existência cristã ou budista, ou mesmo umbandista no mundo, ou seja o que for? Por acaso não se aplica ao Sócrates do Fédon de Platão e ao rebelde Nietzsche em sua livre escolha de vida e de pensamento? Quem garante, com palavrório conceitual sistemático ou com instrumental técnico-científico, a existência ou não de Deus(es), carma, pecado... como elementos da matéria e do espírito concomitantemente, senão por uma livre escolha rabugenta que só admite o que lhe convém? Porém, como dissemos acima, deveria ser direito inalienável do homem ouvir e ver só o que lhe convém, e tudo seria uma maravilha, pois tudo seria espelhamento da mônada universal que eu sou, que tu és, que ele é, que nós somos, que vós sois e que eles são.
Não podemos nos eximir de que nós somos a cada instante o cuidado (cura) na ocupação com as coisas e na preocupação com os outros. Assim, estamos postados na clareira do aberto, na abertura pura e simples da apresentação (do tornar presentes as coisas no espaço-tempo do campo ôntico de manifestação e de apreensão do manifesto que a cada vez somos, a partir do que concebemos um mundo próprio e valoramos as coisas dentro desse mundo). Enquanto cura, a pre-sença é o entre. Pois é nesse “entre” que se entreabre o ser como mundo e como totalidade dos entes dentro do mundo, somos um campo ôntico-ontológico de espaço-temporalização do mundo e das coisas dentro do mundo, e escolhemos sim a qualidade do que se nos mostra como sendo em nosso mundo próprio monádico, enquanto estamos entre o nascimento (vida) e a morte.
A existência humana é poética enquanto habita entre Céu e Terra; daí a cura (ler fábula de Higino no §42 de Ser e Tempo) aparecer a Heidegger, posteriormente, como a existência que guarda na ocupação com as coisas e na preocupação com os outros a quadratura, o jogo do mundo e da physis (que ama esconder-se; Heráclito, frag. 123) como unidade originária entre deuses imortais e homens mortais, entre Céu e Terra (coisa que se vê em Hesíodo e, a nosso ver, nas demais tradições religiosas; judaico-cristianismo, budismo, taoísmo... e nas assim chamadas filosofias de vida ou nas filosofias do helenismo (epicurismo e estoicismo) como modos de bem viver, na fundação de um ethos (ética) comportamental para a vida humana individual e coletivamente).
Já a existência do pensador filosófico habita (forma hábito e morada), conforme Heidegger, entre a diferença do ser e do ente, na abertura conceptiva da diversidade una da totalidade múltipla em sua diferença ôntico-ontológica, e assim o amor pelo saber repercute de modo essencial no filosofar como ato do amar (da vontade de verdade e de saber a converter-se em domínio sobre a objetividade ou realidade efetiva do ente) que quer apreender o ente em seu ser (concepção da conceptualidade ou racionalidade como tal) fixando, assim, o ser do ente na forma do inteligível e forçando a compreensão da realidade ôntica, em sua estrutura ontológica, para dentro da forma pura do conceito (da consciência pura transcendental) e da linguagem árida e seca da racionalidade instrumental que impera em todo linguajar acadêmico-científico ocidental (hoje globalizado)!
Terminamos por aqui, mas ainda ficou por falar: sobre a simplicidade do ser-aí como ser-para-a-morte, quando rememora seu destino na terra em meio à profusão difusa e confusa de coisas e outros seres-aí com que tem que, publicamente ou não, se ocupar e preocupar; assim a desocupação de toda ocupação e preocupação se revela como um modo de ocupação e preocupação consigo mesmo originário e próprio da mônada imortal, a alma presa e limitada em um corpo, que quer retornar a si mesma e libertar-se de tudo e de todos. Do mesmo modo, deuses e homens estão presos ao destino, do qual se ocupam as Moiras; Zeus é o rei da geração Olímpica e, como tal, governa conforme ao destino, do qual depende a harmonia cósmica. Mas este Cosmos, como diz Heráclito em um de seus fragmentos, nenhum deus o criou, é fogo que acende e apaga segundo medidas. Sendo assim, o nascimento e a morte da totalidade e das almas é o eterno retorno, cuja qualidade devemos escolher a cada instante de nosso projeto existencial e pro-mover para as futuras gerações mediante a constituição de uma formação cultural integral do homem, pois os deuses imortais também estão aí postados diante da clareira do caos originário, conforme Hesíodo, do qual surgiu o drama da espaço-temporalização (individuação) da substância universal em vida, em matéria e em espírito.
Por enquanto, Nada Apofântico.

REFERÊNCIAS:
EPICURO. Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005.
O pensamento originário IN os pensadores originários: Anaximandro, Parmênides e Heráclito / introdução Emmanuel Carneiro Leão; tradução Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski – Petrópolis, RJ: Vozes, 1991.
HEGEL, Textos seletos. São Paulo, Abril Cultural, 1999.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo I e II. Trad. Marcia de Sá Cavalcante. Petrópolis: Vozes, 2005 (I) e 1989 (II).

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Nenhum comentário:

Postar um comentário