quarta-feira, 26 de junho de 2013

Minha Monografia de Licenciatura


O tema a ser tratado neste trabalho é a “verdade”. Explicita-se o tema de modo introdutório pela consideração das três fontes distintas de nossa concepção de verdade, intimamente ligadas à nossa representação do tempo em: passado, presente e futuro. Então, o tema da verdade tem também relação fundamental com o questionamento do tempo e da temporalidade do ente para o qual a verdade (do ser) se torna uma questão, o homem ou o existente (Dasein), o ente que é sendo aí. Assim, o tema se justifica mediante o reconhecimento de sua relevância para o aluno do Ensino Médio, na medida em que este seja inserido em um determinado encaminhamento do questionamento filosófico que lhe (ao aluno) possibilite a imersão em um vocabulário técnico (jargão) da filosofia de cunho eminentemente existencial. E isso de modo que o encaminhamento existencial assuma também a configuração de uma perspectiva prática de concepção pedagógica do ensino de filosofia como exercício do filosofar.

Os objetivos específicos a serem atingidos acompanham o desenvolvimento histórico-filosófico da problematização do tema, na medida em que se pretende que sejam compreendidos em sua importância fundamental existencial para o ser homem em sua constituição, portanto para o aluno ou ser humano em formação. Assim, as questões ou os problemas se resumem aos diferentes modos da verdade (o tema) em pensadores de épocas distintas em face às três significações de verdade, quais sejam: a verdade como alétheia ou negação do encobrimento ou esquecimento, verdade como veritas e verdade como emunah. Com isso, o tema da verdade se liga ao tema do tempo e seus modos correspondentes a cada uma das considerações de verdade referidas: alétheia (presente ou atualidade), veritas (passado ou o fato como ele foi e vigora ainda em sua rememoração) e emunah (futuro ou expectativa do que há de vir, projeção existencial na escolha de si mesmo em porvir). O que é o real, aquilo que se dá imediatamente aos sentidos ou o questionamento que se eleva à contemplação do inteligível? A elevação ao inteligível nos apresenta a realidade do pensamento conceitual como uma presença eterna ou como um movimento do conceito, que se desencobre na história? Como superar a dicotomia entre sujeito (alma) e objeto (corpo) que daí decorre? O sentido da existência humana é conhecer o real para dominá-lo e tornar-se maquinação do real, portanto do homem instrumentalizado pela racionalidade calculadora e lógica, ou caminhar serenamente pela constante invenção de si mesmo mediante o pensamento que pensa o sentido e a poesia que entoa a melodia do espanto gratuito com o simples fenômeno do haver?

A problematização teórica do tema (verdade) delimita-o historicamente e nos apresenta os pensadores em que nos baseamos para apresentá-lo no desenvolvimento histórico-filosófico de sua destinação.  A verdade é a rememoração e a pura presentação do ente nele mesmo, o desencobrimento do ente em seu ser como pura presença à vista, a visibilidade do intelecto como tal; o tema pode ser problematizado mediante a oposição entre verdade e aparência, pois o que aparenta ser e não é como parece ser instaura o conflito da pura presentação desencobridora com o encobrimento ou a dissimulação do que é (o ser do ente). Desse modo, o encobrimento ou a dissimulação da verdade (esta como desencobrimento e pura presentação da realidade) ocorre como destinação ou determinação histórica da verdade mesma, posto que ela se converte em presentação ao intelecto e se desdobra fatidicamente em adequação entre a manifestação do ente na inteligência e as coisas fora da inteligência, a oposição entre mundo ideal inteligível e mundo real (ilusório) sensível como cópia do primeiro; assim, o problema da verdade se instaura como pergunta por “o que é o real”; até aqui o tema pode ser desenvolvido com base em Parmênides/Platão, sobretudo este último.
Como a pergunta por “o que é o real” se desdobra na referida oposição, que assume na teoria do conhecimento moderna a configuração da oposição entre um dentro (o sujeito lógico) e um fora (o mundo exterior dos fatos físicos e objetivos), como a verdade como veritas é a verdade dos fatos ocorridos e da correspondência destes aos enunciados em consonância às suas regras lógicas de validade, sendo estas o fator preponderante, então se percebe já aí a constituição do sujeito lógico ou transcendental proposto pela filosofia crítica de Kant e toda a problemática que envolve a distinção entre coisas em si (númenos ou ideias) e fenômenos (experiência da objetividade exterior segundo a forma lógica das estruturas transcendentais da subjetividade). Contudo, não adotaremos Kant, e sim Hegel, para falarmos da verdade como o movimento de autoformação do espírito em seu devir histórico até ser ciente de si mesmo como absoluto (superação da dicotomia entre ideal e real, sujeito e objeto, interior e exterior, essência e aparência); com isso, atinge-se a compreensão da verdade como processo, como devir e experiência autoformadora da consciência de si, cuja verdade não se reduz nem ao sujeito e nem ao objeto, mas sim reside no mover-se a si mesmo da substância espiritual que se forma mediante a alteração da relação entre sujeito e objeto; uma alteração na verdade mesma do espírito que sabe e do próprio saber que se desdobra, no devir, em unidade da identidade e da diferença entre sujeito e objeto; em suma, a verdade é o processo do saber como desencobrimento da unidade dialética do espírito que sabe e do que, no saber, é sabido como objeto de si mesmo: a consciência humana no processo revelador de autoconhecimento.
Assim, depois de Platão e Hegel, adotamos o pensador Heidegger. A verdade como emunah (confiança) tem um sentido de expectativa do futuro. Ora, se adotarmos a perspectiva existencial de Heidegger, então essa expectativa do porvir se mostra como a verdade do ser que brilha (se desvela) no ser-aí como ser de projeto, como liberdade para a escolha de si mesmo em sua facticidade e historicidade; assim, o tempo originário é o do acontecimento da existência em sua propriedade, em sua finitude própria como ser-para-a-morte e como a singularização da caminhada serena do homem se fazendo o seu próprio destino.


1 - A primeira proposta de problematização se refere à pergunta ou indagação por “o que é real”.
O material a ser usado nesta problematização é o filme Matrix, o primeiro da trilogia; o objetivo é mostrar ao aluno a experiência da disposição de humor originária do filosofar, o espanto, que nos impulsiona à pergunta por “o que é o real”.
A desconfiança e insatisfação pela vida cotidiana e programada segundo regras e a curiosidade de Neo por saber o que é Matrix nos indicam a disposição afetiva para a indagação pelos fundamentos ocultos ou suprassensíveis da realidade; desse modo, sua tomada de decisão em tomar a pílula e todo o processo de busca por conhecer a Matrix é uma escolha livre e, ao mesmo tempo, uma destinação do homem ao filosofar; todo esse processo é o lento desencobrimento do real a si mesmo, através do destino histórico do ser homem em sua facticidade e historicidade, portanto é o acontecimento da verdade no mundo. Ao escolher-se a pílula vermelha, em vez de manter-se no sonho da ignorância quanto ao que é Matrix, Morpheus diz a Neo: lembre-se, tudo que ofereço é a verdade, nada mais. Com isso, o professor deve saber mover e interpretar o filme encaminhando-o para o tema da verdade em sua íntima conexão com a busca indagadora por o que é real.
O professor pode associar a definição de nosso corpo na Matrix como autoimagem residual ou projeção mental do “eu” digital à dualidade entre corpo e alma, mundo sensível e mundo inteligível, de modo que o aprendizado ou a aquisição teórica de conhecimento e sua execução prática sejam vislumbradas pelo modelo da máquina a partir do fato de os personagens aprenderem tudo por meio de inserção de programas em suas mentes, que são executados ao entrarem na Matrix; assim, é possível entender a ideia da Matrix como sendo o mundo sensível em que nosso corpo está inserido como imagem residual (cópia) de nosso eu digital (pensamento), de modo que a verdade seja entendida como o processo de desencobrimento (não-esquecimento) do que sempre foi.
Neo tomando a pílula vermelha e todos os que são libertados da Matrix passam pelo processo de despertar do sono que é ser bateria a sustentar a vida das máquinas. O professor pode, então, encaminhar o tema da verdade pelas vias da pergunta por o que é o real como um processo de despertar do homem para o destino do conhecimento; destino que determina o homem como sujeito e o real como objeto desse processo de conhecer, o qual equivale ao movimento mesmo do real (objetivo) e do ideal (subjetivo) em conjunto desvelamento no devir fenomenológico da experiência da consciência até sua autoafirmação existencial como ser-no-mundo.
O professor pode encaminhar a discussão sobre o conhecimento como dominação do real pelo ideal, do objeto pelo sujeito, do corpo pelo intelecto; Neo é a vontade de saber que deve chegar a ser o saber de si mesmo da vontade, devir em que o conflito entre humanos e máquinas apenas revela o destino histórico e factual da humanidade fundada na razão ocidental e no modo como, pela filosofia, se instaura o conhecimento e a ciência como maquinação e instrumentação da realidade para a sustentação da (re)produção da humanidade, processo que equivale à maquinação da humanidade e à absorção da vida humana pela autossustentação da vida da máquina.

2 – A segunda proposta de problematização se refere ao sentido existencial do tema da verdade, que está subjacente à pergunta pelo real e ao problema do conhecimento.
Como propusemos acima, Neo representa a vontade de saber que deve saber a si mesmo como vontade (de vontade, nada). Em conexão ao dito do Oráculo de Delfos “conhece a ti mesmo”, propomos a problematização da verdade como movimento da revelação de si mesmo a si mesmo do espírito humano, de modo que a pergunta por o que é o real, logo o problema do conhecimento, nos encaminhe para uma autocompreensão do homem e do sentido existencial de sua situação no mundo.
O professor deve perceber isso no diálogo de Neo com o Oráculo, cena de Matrix Reloaded que é a figuração de um diálogo do homem com seu destino no sentido de buscar compreender sua situação no mundo (duelo entre a liberdade do espírito e a necessidade objetiva das coisas, das leis da natureza e da sociedade). Assim, O Oráculo diz a Neo que não cabe perguntar sobre a possibilidade ou não da escolha (liberdade), posto que tudo é pré-determinado, mas sim saber por que se escolheu o que já se destinou desde sempre (desde agora, desde que a presença é presente e se lança ao porvir, em existindo). A preocupação do Oráculo com o futuro indica o caráter de nossa presença no mundo como ser de projeto, como fado da liberdade.
Na sequência, diz-se que um programa que não funciona como deve é assimilado pela Matrix, é deletado e retorna à Fonte de todas as máquinas. O professor deve encaminhar o aluno para a compreensão de que Neo é esse tipo de programa, tentando libertar-se de todas as regras e almejando a Fonte (Lei) de toda a Matrix. Assim também é a situação humana no mundo, almejando o conhecimento último da realidade e buscando o controle dos processos objetivos da natureza e da vida em sociedade. Neo deve escolher por salvar Trinity ou ir à Fonte de Matrix e pôr fim à guerra entre máquinas e homens; mais importante que isso é entender ou saber a escolha, de tal modo que o fado da escolha nunca seja negado (má-fé), posto que seja negar nossa existência enquanto ser de projeto, lançamento do jogo de dados do tempo em que já nos encontramos situados em existindo, apenas restando escolhermos nosso próprio ser no jogo do porvir, fazendo-nos assim nosso próprio destino como o lugar mesmo do acontecimento da verdade.
Quando o Oráculo se retira, imediatamente chega o agente Smith; o professor deve orientar a problematização em sentido existencial a partir da consideração do agente Smith como contraparte do ser de Neo (a oposição mutuamente complementar, o caráter oculto da esperança de renovação da Matrix em seu ser-outro, a antítese necessária instaurada pela ânsia libertária da errância singular da existência). O agente Smith desplugado perde o propósito de sua existência, é uma existência sem finalidade, sem causalidade e sem efetividade; a questão da causalidade e do poder do conhecimento como controle da causalidade e da geração de efeitos ou da produção de efetividades está figurada no Merovíngio, por isso Neo precisa pegar o chaveiro, prisioneiro do Merovíngio, a fim de abrir as portas que levam à Fonte ou causa originária da realidade (Matrix), que já perdeu o seu propósito ou a sua razão de ser; assim, orienta-se a problematização do tema da verdade pela indagação sobre o real pelas vias da busca pelo conhecimento e pelo consequente controle da causalidade (efetividade) do real, de modo que isso revele ao aluno a nulidade da própria existência.
Contudo, essa mesma busca que é posta por Neo, pelo espanto, pela libertação da necessidade das regras que quer saber o real, essa busca traz consigo toda a sua negatividade (niilismo). Assim, o conflito entre Neo e agente Smith é a luta entre a liberdade do sujeito individual e a necessidade objetiva do mundo natural e social, a luta entre o homem vivo e a maquinação civilizatória do cotidiano do trabalho e do homem moderno escravo da produção e do consumo. Smith desplugado tem o poder de transformar todos os programas da Matrix em imagens de si mesmo; ele é a anulação da realidade instaurada pela desfuncionalização de Neo que, ao querer saber o que é o real em sua Fonte originária, projeta sua destinação autorreveladora como aniquilação de tudo em si mesmo e de si mesmo em tudo. A incapacidade de andar conforme as regras, de ser um elemento funcional no todo, gera a oposição de si mesma alienada como anulação do todo que se encaminha até o fim da existência de Neo reabsorvido pela máquina originária, quando a Matrix é destruída e uma nova deve ser iniciada.
Com isso, o professor deve encaminhar a problematização da pergunta por “o que é o real” e do “conhecimento” no sentido de fazer ver o tema “verdade” como o movimento de autorrevelação do ser humano e de sua situação no mundo.

3 – A terceira problematização se refere à verdade mesma como o processo ou movimento do real como espírito no modo do saber universal como ciência de si enquanto ser-no-mundo.
O professor deve encaminhar o tema da verdade como o movimento em que toda diferença se suprime na unidade nadificadora da negatividade da consciência, cuja presentação ou temporalização na existência fática é a angústia quanto à nulidade de si mesma e de todos os seus projetos no ser-para-a-morte. Por isso, escolhemos a cena do filme Matrix Revolutions em que a Matrix já está anulada ou aniquilada, completamente tomada pelo Smith desconectado da Fonte ou do sistema, sem propósito; como o Smith é o ser-outro objetivo e necessário da subjetividade libertária de Neo, o conflito entre ambos revela o sem sentido da oposição entre um mundo objetivo de fenômenos e um mundo subjetivo de regras lógico-transcendentais para o conhecimento acerca do real. A busca pelo conhecimento da Fonte originária do real como sistema da Matrix leva Neo ao saber de si mesmo como fonte da anulação do sentido do sistema, posto que ele é o desejo de libertação do sonho (Morpheus) e está destinado para ser o lugar de desencobrimento do mistério (ocultação do real, esquecimento do ser). Assim, em vez de um desejo de saber que opõe uma realidade objetiva externa a fim de controlá-la, a cena em que Neo se deixa penetrar pelo niilismo de Smith mostra a síntese dialética em que o saber chega à ciência de si como fonte das oposições e centro de reintegração das posições em composições; assim Neo sabe de si mesmo enquanto negatividade negadora e se deixa penetrar pela morte aniquiladora, em que toda dualidade e conflito se integram como unidade da identidade e da diferença entre o sujeito e o objeto, o ideal e o real, a causa e o efeito, o saber como verdade do ser e o que é sabido como aparência do ente. Assim, a Matrix nulificada acaba e o propósito pode ser renovado na criação de uma nova Matrix, o sonho (Morpheus) atinge a sua liberdade (salvação da humanidade perante o domínio das máquinas)... O professor deve interpretar o fim da oposição entre saber (verdade) e aparência no duelo final entre Neo e Smith e, assim, mover a compreensão do aluno de algo filosófico mediante o filme. Com isso, a negatividade pura e simples da consciência se mostra em sua verdade, e esta mesma se revela em sua realidade como o processo mesmo do saber que sabe a si mesmo e é a vida que pulsa em história e movimento dialético. Com isso, a verdade já se mostra como a temporalidade do homem e de sua situação no mundo (facticidade), encaminhando-nos para o reconhecimento existencial (não existencialista) da verdade.
Etapa V
Explicitar o que acontece no âmago da verdade ao haver a indagação por “o que é o real”
- O aluno deve demonstrar o entendimento de que a verdade se desdobra na oposição entre o saber do real e aparência deste como cópia ilusória no fenômeno (Matrix); assim ele apreende a ideia de que a verdade se oculta na aparência e gera uma oposição entre ideal e real, sujeito e objeto.
Explicitar o processo de conhecer como domínio da causalidade ou da efetividade do real e sua relação com o acontecimento da verdade como saber que sabe a sua escolha (destino)
- O aluno deve demonstrar que entendeu o conhecimento como domínio da lei de causalidade e efetividade do real, a partir da busca pela Fonte (causa primeira) de toda aparência efetiva; ele deve demonstrar ainda que entendeu a conexão da busca pelo conhecimento da causa (metafísica) com a situação fática do homem (sujeito de conhecimento) no mundo, deve entender que essa situação é a da escolha de seu próprio ser e de saber isso como sendo a manifestação da verdade mesma como destinação da existência, como estar fadado a escolher as suas possibilidades e, em tal destinação da verdade, chegar a compreender a si mesmo no mundo. Assim, compreende-se o sentido existencial da tematização da verdade e se atinge o objetivo primordial.
Explicitar a negatividade do saber de si da consciência
O aluno deve mostrar que entendeu a verdade como movimento e processo que ocorre na facticidade da existência humana como fado da escolha de si mesma enquanto ser de projeto (lançado no tempo), cujo fundamento é a nulidade em que se dissolve toda oposição entre sujeito e objeto. Assim a verdade não é mais vista fundamentalmente como problema do conhecimento teórico-prático do real maquinado e instrumentalizado, mas sim o problema do conhecimento é visto como um modo derivado da verdade como escolha de si mesmo ciente de si enquanto lugar de irrupção do sentido existencial do mundo para o homem em sua presença fática e histórica. O aluno deve entender isso pela superação dialética da dicotomia entre verdade e aparência, entre o saber subjetivo do ser e o que é sabido como verdade objetiva do ente, de modo que a verdade seja entendida como a destinação de nossa liberdade.

Pensamos que agora devemos tratar dos mesmos problemas levantados a partir da interpretação que fizemos acerca do conjunto da trilogia do filme Matrix no Bloco anterior e que já vínhamos expondo desde o Bloco 1, recorrendo aos pensadores escolhidos: Platão, Hegel e Heidegger. Parece-nos que nossa exposição anterior sobre o tema já foi feita em certo nível de abstração elevado para o aluno de Ensino Médio; e isso porque não pudemos prescindir da referência aos conceitos básicos, a fim de nos fazermos compreender quanto ao uso dos meios auxiliares de problematização.
O primeiro pensador com que trabalhamos o tema da verdade é Platão. A importância deste pensador para a compreensão do tema da verdade é fundamental, pois ele inaugura a investigação metafísica propriamente dita e toda problemática epistemológica e ou gnosiológica daí advinda e projetada como destinação histórica da humanidade ocidental, à luz de sua experiência com o saber como processo de autodesencobrimento do espírito (como saber absoluto) ou do Dasein (autocompreendido como ser-no-mundo e ser-para-a-morte).
Com efeito, Platão (428-348 a.C.) é considerado o primeiro a realizar a chamada dicotomia dos dois mundos (sensível e inteligível) e a inaugurar um pensamento que investiga a realidade em seus fundamentos suprassensíveis. A pergunta pré-socrática pela causa originária (arché) da totalidade da natureza (physis) ainda não havia encontrado uma resposta que não estivesse localizada no plano imanente da própria natureza enquanto entidade material (sensível), embora a especulação de um Parmênides, por exemplo, já houvesse alcançado elevado nível de abstração na consideração da verdade como única via do pensar e do ser, que unifica ambos na mesmidade do fenômeno da atividade pura de percepção (pensar) e do que é percebido nessa atividade (ser). Aqui, de certo modo, a cisão sujeito/objeto já irrompe no interior da consciência e no filosofar sobre o que é o real, embora essa interpretação da realidade só ganhe forma plena na teoria moderna do conhecimento pela dualidade cartesiana de substâncias (res cogitans / res extensa).
Então o tema da verdade em Platão é abordado a partir do próprio questionamento platônico quanto ao que é o real. O movimento dialético de ascensão das sensações da aparência às intelecções da essência e de descensão destas àquelas constitui o movimento da verdade como processo do desvelamento da realidade como fenômeno e do fundamento puramente inteligível (ideal) da manifestação sensível da realidade, na qual esta mesma se oculta (se sombreia), posto que a realidade em si mesma e por si mesma é a idealidade do pensamento que, como tal, é suprassensível. Assim, a dicotomia platônica entre o mundo sensível da aparência e o mundo inteligível das formas como fundamentos de possibilidade das aparências inaugura a oposição entre essência (verdade) e aparência, oposição na qual a verdade equivale à apreensão da essência pelo intelecto, apreensão à qual toda aparência possível deve se conformar como cópia de seu modelo suprassensível.
Com isso, o reino da aparência mesma é considerado como mera cópia ilusória do real inteligível, cuja verdade (desencobrimento) reside na ideia; a aparência sensível como cópia é o reino no qual a verdade simultaneamente se mostra e se oculta, ao passo que a elevação ao reino inteligível constitui o processo mesmo do desencobrimento da verdade em que o real se mostra em sua plenitude como pura inteligibilidade na dissolução da oposição entre aparência e verdade, entre ser (objeto da percepção) e pensar (o ato de perceber como tal). Curiosamente aqui a verdade já se mostra como Alétheia, isto é, como o jogo do encobrimento e do desencobrimento. A descensão do inteligível (causa originária) ao sensível (efeito ilusório) promove o encobrimento do puro manifestar-se de toda realidade possível como ato puro do pensar (conceber), por isso o conhecimento do real enquanto fenômeno só pode ser efetivo na medida em que o desencobrimento-encobrimento (verdade como Alétheia) se mantém encoberto na operação do entendimento que calcula objetos e produz juízos sobre objetos.
Aqui a verdade se torna a verdade da proposição (1º - adequação do pensamento consigo mesmo em conformidade às regras da lógica, isto é, do Lógos como faculdade dos juízos: princípio de identidade, de não-contradição e do terceiro excluído / e  2º adequação da aparência sensível ou da experiência possível de fenômenos ao próprio juízo ou à proposição na constituição da objetividade do objeto como representação conceitual do mundo exterior e das coisas dentro deste mundo para o sujeito lógico). Desse modo, em Platão vislumbramos o tema da verdade em conexão ao problema do conhecimento como pergunta por o que é o real, fato que inaugura a possibilidade de cisão entre um mundo objetivo de fenômenos e um mundo inteligível subjetivo de formas lógicas categoriais ou transcendentais para a constituição da aparência como mundo da experiência.
Assim, a oposição entre verdade e aparência está no fundamento da oposição moderna entre o subjetivo e o objetivo. Por isso, escolhemos Hegel (1770-1831), nosso segundo pensador, pois ele pensa a verdade como o movimento dialético em que a oposição entre o subjetivo e o objetivo se dissolve, ou melhor, se resolve na unidade do saber ciente de si (espírito), figura da consciência em que esta supera, historicamente, a cisão engendrada nela mesma entre verdade e aparência, coisa em si e fenômeno.
Com Hegel pretendemos chegar à compreensão do em si objetivo como verdade, mas esta não mais como o inteligível que paira como mundo ideal eterno e imutável acima do sensível aparente mediante uma dicotomia a-histórica a sustentar uma metafísica transcendente. A consideração do saber como aparência nos leva à compreensão da cisão entre o em si objetivo e o para-a-consciência (o para-si subjetivo) como sendo uma dicotomia que ocorre no interior da consciência mesma. A Fenomenologia do Espírito é a ciência da experiência da consciência e, como tal, equivale à descrição do processo ou do devir da consciência em sua imediata universalidade abstrata até a concreção de sua realidade ideal no conceito, isto é, no saber de si como figuração do absoluto (o verdadeiro como tal).
Essa experiência ocorre na história e mostra a temporalidade do saber, posto que cada época equivale a uma determinação da consciência no processo de sua fenomenalidade (aparência). Assim, a oposição entre verdade (essência) e aparência se anula (negatividade) pela autocompreensão da consciência como unidade da relação entre sujeito e objeto; a alteração desta relação promove uma alteração do saber sobre o objeto (sujeito que o representa para si) e do objeto mesmo que é sabido (o em si verdadeiro como tal). Com isso, a distinção entre inteligível (ideal ou subjetivo) e sensível (aparência do objeto ou representação) aparece para a consciência como unidade da relação de sujeito e de objeto. Essa unidade se mostra como saber de si da consciência, pois esta é a totalização mesma da relação na fenomenalidade do saber de si, que reúne verdade e aparência no Absoluto.
Ocorre que a distinção entre o em si do objeto e o saber desse em si como representação do objeto para a consciência fica presa na cisão interna de uma subjetividade transcendental desgarrada do movimento especulativo da ideia que se mostra na história (Kant). Assim, toda objetividade é dada a priori na subjetividade desgarrada da historicidade, isto é, da temporalidade e da facticidade da consciência enquanto vida do espírito. Esse pulsar do espírito é a negatividade como tal, que em seu elemento puramente nadificante promove a passagem de uma ontologia da substância para uma fenomenalidade do sujeito que surge para si mesmo como unidade do real e do racional (ideal). De modo que o que irrompe para a consciência transcendental como objeto da representação é, na verdade, devir e movimento da realidade efetiva, isto é, transcendência do existente como vida do espírito. Essa vida é a existência mesma que vem a ser Dasein; é a efetividade mesma do que existe em sua temporalidade, facticidade e historicidade.
Assim entendido o devir do saber da consciência até sua autocompreensão como transcendência (negatividade), passamos ao terceiro pensador, Heidegger (1889-1976). A retomada do sentido do ser mediante uma analítica existencial ou uma hermenêutica da facticidade conflitará com a tradição substancialista da metafísica. A análise da existência em sua facticidade substitui as categorias do ente simplesmente dado pensado como substância pela descrição fenomenológica dos existenciais do Dasein (ser-aí): ser-no-mundo como o transcender mesmo que atravessa o ente na totalidade a fim de apreendê-lo em seu ser e mostra o sentido (unidade) que irrompe do abismo da existência enquanto um estar suspenso dentro do nada, isto é, enquanto pura abertura (aí) do ser (presentação).
O ser-no-mundo configura o estar-lançado no jogo da temporalização do projeto de ser ou das possibilidades do existir como tal; não comporta mais uma cisão, dele mesmo derivada e não ciente de si, entre uma substância pensante que calcula objetos e um mundo das coisas extensas que são calculadas mediante as formas lógicas do pensamento. Aqui a verdade como adequação ou conformidade dos juízos (conceito) e da experiência de objetos (aparência sensível) se mostra também como derivada e secundária. A verdade eminentemente ontológica do ser é o desencobrimento como tal, que irrompe como abismo (ausência de fundamento) da existência fática, cujo modo próprio de ser é ser-aí (abertura para a presentação). Como a existência sempre se move em uma compreensão de ser, a questão do sentido do ser, consequentemente da verdade do ser, deve ser posta mediante uma análise existencial do ente cujo ser mesmo é posto em questão; essa análise mostra as estruturas ontológicas da existência fática na medida em que ela é a pura abertura para a apresentação da realidade.
Como o ser-aí é pura abertura do ser, sem substancialidade suprassensível ou mesmo sensível (ideal-subjetiva ou real-objetiva), a verdade do ser como desencobrimento oculta em seu acontecimento próprio o caráter temporal do próprio ser. O desencobrimento (verdade) do ser equivale à temporalização do ser-aí, de tal modo que a reflexão sobre o tempo deve substituir os caracteres da representação corrente do tempo “passado”, “presente” e “futuro” pelos modos extáticos do tempo originário, isto é, da temporalização extática da existência, quais sejam: o vigor-de-ter-sido, a vigência como tal ou atualidade e o porvir, os quais equivalem aos três sentidos de nossa noção de verdade: alétheia (presente ou atualidade), veritas (passado ou o fato como ele foi e vigora ainda em sua rememoração) e emunah (futuro ou expectativa do que há de vir, projeção existencial na escolha de si mesmo em porvir.
Assim descoberta a temporalidade do ser como abertura (presentação) do ser ao pensar (homem), na medida em que este se compreende como lugar da abertura do ser (ser-aí), a finitude se mostra como o caráter próprio do ser-aí em seu poder-ser como ser-para-a-morte, estrutura ontológica da singularidade do existente e possibilidade extrema do projeto de ser que anula todas as possibilidades do projeto de ser, isto é, do próprio ser-aí. O ser-para-a-morte se faz perceber como tal como disposição de humor fundamental, a angústia, que é a pura apresentação do nada ou da nulidade da existência. A decaída ou a fuga de si mesma da presença-no-mundo (ser-aí como ser-no-mundo) na ocupação com as coisas cotidianas e na impessoalidade do mundo público é também uma perda da singularidade irrevogável e irremissível do ser-para-a-morte. Assim, assumir a própria morte em sentido ontológico é retomar o projeto de ser próprio e escolher o seu próprio ser, enquanto se vive, isto é, em existindo. Com isso, da indagação por o que é o real e de sua instauração como problema do conhecimento chegamos ao desencobrimento da verdade mesma, nosso tema, em um sentido eminentemente existencial.                       

3 fragmentos de textos filosóficos de contextos históricos diferenciados:
1 – Platão
"(...) O método da dialética é o único que procede, por meio da destruição das hipóteses, a caminho do autêntico princípio, a fim de tornar seguros os seus resultados, e que realmente arrasta aos poucos os olhos da alma da espécie de lodo bárbaro em que está atolada e eleva-os às alturas (...)"  (533a-e)
"(...) chamemos ciência à primeira divisão, entendimento à segunda, fé à terceira, e suposição à quarta, e opinião às duas últimas, inteligência às duas primeiras, sendo a opinião relativa à mutabilidade, e a inteligência à essência. "  (534a-e)
(A República, 2008, pp. 230-231)
2 – Hegel
"(...) O saber é o lado determinado dessa relação ou do ser de alguma coisa para uma consciência. No entanto, distinguimos desse ser para um outro o ser-em-si. O que é relacionado com o saber é, por sua vez, distinto dele e é posto como sendo mesmo fora dessa relação; o lado desse em-si é chamado verdade."
"Se (...) pesquisamos a verdade do saber, pesquisamos (...) o que ele é em-si. Mas, nessa inquisição ele é nosso objeto, é para nós. O seu em-si que resultasse de tal inquisição seria, antes, seu ser para nós. O que afirmássemos como sua essência não seria a sua verdade mas o nosso saber a seu respeito. (...)"
Não obstante, a natureza do objeto que pesquisamos transcende essa separação ou essa aparência de separação (...)"   
(Fenomenologia do Espírito, 1999, pp. 337-338 )

3 – Heidegger
"(...) a definição tradicional da essência da verdade: Verdade é adequação da coisa com o conhecimento. Mas pode se entender também assim: Verdade é adequação do conhecimento com a coisa. (...) Se traduzimos a palavra alétheia por "desvelamento", em lugar de "verdade", esta tradução não é somente "literal", mas ela compreende a indicação de repensar mais originalmente a noção corrente de verdade como conformidade da enunciação, no sentido, ainda incompreendido, do caráter de ser desvelado e do desvelamento do ente. (...) a liberdade é o abandono do desvelamento do ente como tal. O caráter de ser desvelado do ente se encontra preservado pelo abandono ek-sistente; graças a este abandono, a abertura, isto é, a"presença" (o "aí"), é o que é.”      
(Sobre a Essência da Verdade, 1973, pp. 331-336)
Bibliografia:
PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Claret, 2008.
HEGEL, Friedrich Wilhelm. Obras seletas. São Paulo: Abril Cultural, 1999.
HEIDEGGER, Martin. Obras Seletas. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

OBS: Supõe-se que os alunos entrarão em contato com os fragmentos após receberem o material de slides e terem visualizado o mapa conceitual, cujo conteúdo tenha sido previamente explicado em aula, e só assim ser-lhes-á aplicada a tarefa lúdica ou os jogos sugeridos na Etapa IX, a seguir.

1º jogo, explicação: partindo da compreensão do movimento dialético como sendo o movimento da verdade, em Platão, como processo da ascensão (desvelamento) do sensível (opinião) ao inteligível (ciência) e descensão deste àquele (sombreamento ou ocultamento da verdade na aparência sensível), o aluno deverá associar cada uma das instâncias corporais sensíveis a seus equivalentes no âmbito da alma intelectiva; pressupõe-se que se entenda que o movimento ascensional de desvelamento se move do reino das imagens ou sombras até a intelecção das operações puramente ideais, que revelam a estrutura racional do entendimento como forma lógica dos juízos ou das proposições; acima o puro pensar (perceber) revela o caráter da verdade como alétheia (desvelamento), que se perde ou se oculta na transformação da verdade como desvelamento em verdade das proposições (adequação lógica do entendimento consigo mesmo e dos juízos com sua verificação empírica ou sua aparência sensível). O aluno deve chegar a compreender que na dicotomia aparência sensível/essência inteligível já reside a oposição entre o sujeito (ideal) e o objeto (real) na constituição da experiência da consciência, ou seja, do devir do saber (ciência); aqui o conhecimento é determinado como certeza da objetividade da experiência, pois o conhecimento se dá quando a objetividade (ser-em-si) do objeto se torna fenômeno para a consciência (representação do objeto ou o momento do ser-para-si da consciência, em terminologia hegeliana). Obtida essa compreensão, é possível estabelecer uma conexão com o pensador seguinte.
Enunciado: associe cada instância do mundo sensível (visível) a seu equivalente correto no mundo inteligível (alma).
Gabarito
Mundo Visível (sensível) = Mundo Inteligível
(1)     Sol = Ideia do Bem
(2)     Luz = Verdade
(3)     Objetos da visão (cores) = Objetos do conhecimento (ideias)
(4)     Sujeito que vê = Sujeito cognoscente
(5)     Órgão da visão (olhos) = Órgão do conhecimento
(6)     Faculdade da visão = Faculdade da razão
(7)     Exercício da visão = Exercício da razão
(8)     Aptidão para ver = Aptidão para conhecer
  






- Instâncias desordenadas para o aluno estabelecer as devidas associações equivalentes:
(1)     Sol = Órgão do conhecimento
(2)     Luz = Ideia do Bem
(3)     Objetos da visão (cores) = Faculdade da razão
(4)     Sujeito que vê = Exercício da razão
(5)     Órgão da visão = Aptidão para conhecer
(6)     Faculdade da visão = Ideia do Bem
(7)     Exercício da visão = Sujeito cognoscente
(8)     Aptidão para ver = Objetos do conhecimento (ideias) 
 






 
2º jogo, explicação: partindo da compreensão de que a dicotomia platônica dos mundos sensível e inteligível está no fundamento da oposição entre sujeito e objeto, partindo da compreensão de que essa dicotomia erige o plano suprassensível do mundo inteligível ou ideal à condição de realidade em-si imutável, da qual o sensível é somente uma cópia ilusória contingente, então o aluno já deve ter percebido que a objetividade do mundo sensível é dada pelo âmbito ideal do inteligível, ou seja, que o real é o racional. Assim, já podemos passar a Hegel, autor da célebre frase que afirma o real ser o racional e vice-versa, de modo a vermos como a objetividade da experiência sensível do mundo aparente, isto é, do mundo dos fenômenos, é dada a priori pelo caráter transcendental da subjetividade. Mas a dicotomia platônica, em Kant, revela que o limite do conhecimento está em que, na constituição da experiência de objetos, as categorias do entendimento dão as formas lógicas dos juízos de conhecimento, os quais só se constituem como ligações de conceitos ou de representações dos dados sensíveis da intuição de espaço e de tempo; assim, ideias que não provenham dessa constituição da experiência possível são consideradas, por Kant, puros pensamentos especulativos da razão, sem qualquer correlato na experiência, portanto incognoscíveis em si mesmas. Isso significa que, no processo do saber, a consciência humana pode conhecer a realidade como fenômeno, isto é, a realidade para-si, e não a realidade como númeno ou como é em-si. As ideias puramente inteligíveis em si e por si mesmas são incognoscíveis, para Kant. Portanto este segundo jogo tratará de avaliar se o aluno é capaz de representar graficamente o esquema do devir do saber, figurado no mapa conceitual sobre Hegel e concernente ao fragmento de texto proposto, demonstrando que chegou por conta própria à compreensão de que a cisão entre sujeito e objeto, aparência sensível e verdade inteligível, exterior e interior, a saber, que esta cisão ocorre no interior da consciência e que é somente o momento inicial da experiência de si da consciência, até esta saber de si como totalidade da relação dos pares opostos da dicotomia que se reúnem no Absoluto (consciência de si). Assim a ciência é compreendida em seu devir, e a verdade é o movimento do em si da consciência (a ideia) que chega ao saber de si mediante o movimento do real em que propriamente a negatividade ou o ser-outro da consciência (o em si do objeto alienado como sendo fora da consciência) se mostra como mediação de si consigo mesma da consciência, que é posta no modo do saber de si pela superação da dicotomia em si e para si mesma; assim, a positividade do saber é determinada pelo movimento de alienação da consciência em si (ideia) que se move para si (em que a ideia em si se mostra para-outro, o momento da alienação que constitui a negatividade da consciência) até o momento do absoluto ou da consciência-de-si em que a substância é não mais uma objetividade morta e inacessível à consciência, mas a subjetividade viva e pulsante que se move e sabe de si mesma como a totalidade da relação sujeito/objeto (verdade inteligível/aparência sensível).
Enunciado: elabore uma representação gráfica em círculos formando conjuntos que representam cada momento do devir do saber ou da experiência da consciência, tomando como modelo o mapa conceitual de Hegel exposto nos slides; esteja ciente de que se trata de mostrar o movimento da consciência até o saber de si, em que a oposição entre um saber como aparência e uma verdade em-si incognoscível se anula no Absoluto como unidade da subjetividade/ideal com a objetividade/real na consciência; escreva uma explicação de sua representação gráfica.
Modelo de possível representação gráfica:
Consciência
 Abstrata

 




ser-para-si
sujeito
representação

ser-em-si
objeto
essência

                  
                                                        
                                                                   Relação   Dialética

    
Experiência
 



             

 


Saber Absoluto ou Consciência-de-Si
Subjetividade/ideal = Objetividade/real

                         



Explicação do modelo: este modelo proposto indica uma posição unilateral da consciência abstrata no ser-em-si e no ser-para-si, daí a seta apontar dela para estes; as setas de duas pontas indicam que, a partir da relação dialética entre o em-si e o para-si na consciência, ocorre a concretização da mesma mediante a sua experiência, que é o devir do saber, no qual a separação entre um saber para a consciência (aparência) e uma verdade em-si incognoscível é superada pelo Absoluto (momento da consciência-de-si); superação da cisão entre verdade (inteligível) e aparência (sensível). É possível também representar esse movimento mediante uma posição da “experiência” como intersecção dos conjuntos do em-si e do para-si. Este modelo não é absoluto; trata-se de ver como o aluno pode construir sua própria representação gráfica, como se ele estivesse reconstituindo o movimento mesmo da passagem de uma consciência abstrata (dicotômica) para uma consciência concreta (que vê o movimento dialético e o conjunto das relações dialéticas em unidade); a passagem do universal abstrato ou separado da experiência sensível (as ideias platônicas e a oposição kantiana entre fenômeno e coisa-em-si) pelos particulares momentos do devir do saber até o universal concreto, que não separa, mas reúne e totaliza (Neo se deixa penetrar pelo Agente Smith, para absorvê-lo em-si para-si e consumar a destruição-recriação da Matrix). Assim, a verdade das proposições (verdade abstrata) é superada por uma verdade mais abrangente, a verdade especulativa (em que as leis lógicas do entendimento, a saber, princípio de identidade, não-contradição e terceiro excluído são superadas pelo movimento dialético de tese-antítese-síntese); assim também o saber não se cinde em oposição entre forma lógica e conteúdo material, forma e matéria do saber se unificam na consideração de que o real é o racional, e o racional é o real.

3º jogo, explicação: após a compreensão do processo efetivado até aqui, este jogo avaliará se o aluno chegou a entender que o devir do saber como experiência da consciência (Hegel) mostra a passagem de uma concepção de verdade como universal e necessária (as ideias inteligíveis de Platão, cuja verdade é sempre a mesma imutável e atemporal) para uma concepção de verdade em movimento, portanto temporalizada; e isso por meio da superação da cisão entre aparência (experiência ou mundo sensível) e verdade (adequação às regras lógicas do entendimento ou mundo inteligível). Trata-se de um jogo em que a palavra-chave é “verdade” e em que os alunos devem descobrir os conceitos correspondentes do pensamento de Heidegger. Com ele, pretende-se avaliar a fixação dos conceitos e a compreensão da verdade em sentido existencial, isto é, no sentido das noções da analítica existencial expostos no mapa conceitual de Heidegger e com base no trecho escolhido deste pensador. A distinção entre verdade ontológica e verdade ôntica repercute no âmago das intenções de Heidegger em retomar o sentido do ser mediante a análise existencial do Dasein (ser-aí ou presença), ente para o qual a verdade (do ser) se torna uma questão, posto que seja o ente que questiona o seu próprio ser como questionamento do sentido da existência. Assim a verdade como sendo um problema do conhecimento se transporta para um âmbito mais originário, qual seja: o de nossa presença no mundo em sua facticidade, de modo que o problema do conhecimento e das relações entre um sujeito e um objeto, bem como da busca por substâncias suprassensíveis, se torne um problema secundário referente à verdade ôntica tomada como interpretação pré-ontológica do ente (Dasein) ou como compreensão pré-ontológica do ser. Hegel realiza a passagem da verdade que se opõe à aparência (saber como fenômeno em oposição à coisa em si) e passa da verdade da proposição (lógica aristotélica tradicional) para a verdade especulativa (o movimento dialético do lógos ou da razão como unidade de real e ideal). Heidegger retoma o sentido de ser para a existência, não para o saber ou o conhecimento, de modo que a verdade do ser repercuta no âmago da abertura para o mundo (ser-no-mundo) e da singularidade do ser-aí (ente que se abre para o ser) em sua finitude própria (ser-para-a-morte). A mundanização própria do ser-no-mundo e a temporalização própria da finitude do ser-aí como ser-para-a-morte aparecem como o movimento mesmo de realização dinâmica da espacialidade e da temporalidade próprias do ser-aí; e para chegar a isso é preciso rever toda a tradição da oposição entre sujeito e objeto fundada na dicotomia do inteligível (res cogitans) e do sensível (res extensa), na qual a verdade proposicional predomina como verdade do conhecimento do objeto pelo sujeito. Todavia o Dasein não tem substancialidade dada, ele é o ente que, aberto para o ser e exposto para o súbito acontecimento do mundo, está destinado para a liberdade de escolher o seu ser próprio ou para esquecê-lo nas ocupações cotidianas com coisas e com a circulação do falatório das opiniões públicas massificadas; diante disso, o Dasein (ser-aí) precisa rememorar o sentido de sua existência e projetá-lo como passo-a-passo de seu caminho rumo à morte, pois ele é a constante dinamização do instante de realização presencial de si mesmo, ele é a espaço-temporalização das dinâmicas de realização de seu próprio ser; e só assim a verdade do ser se mostra como sentido que a presença-no-mundo se dá de acordo com suas possibilidades, isto é, conforme o seu poder-ser mais próprio (singularidade do ser-para-a-morte como antecipação da nulidade de todas as possibilidades da existência). Com base nisso, pretendemos que o aluno entenda o sentido existencial da verdade, figurado nas escolhas que Neo deve fazer, posto que ele é o escolhido pelo ser para ser o que é, assim como todo o homem é escolhido pelo ser para ser o que é (ser-aí, presença); e isso é o limite ou a finitude da liberdade da existência, que, todavia, permanece sem fundamento.

Comandos:
Coluna 1 – palavra do Latim equivalente à palavra portuguesa verdade, cujo sentido é o do fato como ele foi (passado).
Coluna 2 – Estrutura de ser da abertura (aí) espacializadora do ser-aí que constitui a facticidade ou a existência fática da presença e suas dinâmicas de realização.
Coluna 3 – Resultado do processo de a coisa ou o mundo tornar-se fenômeno objetivo para a consciência através da adequação dos dados sensíveis da intuição às categorias do entendimento (verdade ôntica)
Coluna 4 – Definição tradicional da essência da verdade, segundo Heidegger.
Coluna 5 – Palavra grega por meio de cuja tradução como “desvelamento” Heidegger pretende recuperar o sentido original da essência da “verdade”.
Coluna 6 – Palavra alemã que designa o ser da existência humana, cuja analítica é realizada em Ser e Tempo como retomada do sentido do ser, isto é, como retomada da essência originária da verdade como desencobrimento ou presentação do ser pela abertura (aí) do próprio ser (ser-aí).
Coluna 7 – Estrutura de ser da abertura (aí ou pré) temporalizadora do ser-aí ou da pre-sença (Da-sein) e que constitui o seu poder-ser mais próprio como finitude da existência.    
Gabarito:                                                   


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1
2
3
4
5
6
7




Enunciado: com base nos comandos ao lado, preencha as colunas da verdade com os conceitos correspondentes. 


Escolher três textos não-filosóficos: filmes, letras de música, poesia, extratos de obras literárias:
Esta tarefa é realizada no sentido de relacionar conceitos filosóficos e textos ou realidades não-filosóficos, a fim de que o aluno possa ser avaliado quanto a sua capacidade de estabelecer a esperada relação, após haver aprendido os referenciais conceituais filosóficos determinados.

1º - Escolhemos trechos selecionados de um poema de Olavo Bilac, A tentação de Xenócrates, com o objetivo de avaliar o aluno quanto a sua capacidade de ver a problemática platônica da dicotomia mundo-sensível/mundo inteligível. Neste poema, então, está figurada poeticamente a problematização de Platão quanto à dualidade corpo/alma, sensível/inteligível relativa ao problema do conhecimento como busca indagadora “por o que é o real”, já elucidada em demasia neste trabalho.

“(...) - dizia
Das faculdades da alma e da teoria
De Platão aos discípulos atentos.
(...)
Assim junto às sagradas oliveiras,
Era imoto seu corpo horas inteiras,
Mas longe dele o espírito pairava.
(...)
E, longe, luz mais pura
Que a extinta luz daquele dia morto
Xenócrates procura:
- Imortal claridade,
Que é proteção e amor, vida e conforto,
Porque é a luz da verdade.
(...)
Em vão Laís o abraça, e o nacarado lábio
Chega-lhe ao lábio frio... Em vão! Medita o sábio,

E nem sente o calor desse corpo que o atrai,
Nem o aroma febril que dessa boca sai.

E ela: “Vivo não és! Jurei domar um homem,
Mas de beijos não sei que a pedra fria domem!”
Xenócrates, então, do leito levantou
O corpo, e o olhar no olhar da cortesã cravou:

“Pode rugir a carne... Embora! Dela acima
Paira o espírito ideal que a purifica e anima:
Cobrem nuvens o espaço, e, acima do atro véu
Das nuvens, brilha a estrela iluminando o céu!”

Fonte: BILAC, Olavo. Poesias. São Paulo: Martin Claret, 2004. (p.88-93).

OBS: no mínimo há que se perceber que a tentação de Xenócrates é o saber, não o prazer, é o espírito, não o corpo, é o inteligível, não o sensível, é a verdade, não a aparência, é a essência (possibilidade), não a existência (atualidade). Aqui não se pode expressar a dualidade ideal/real, pois em Platão a ideia é o real, e o sensível é a cópia do real. 

2º - Quanto à problemática que pergunta “por o que é o real”, relativamente a Hegel, precisamos recorrer novamente ao filme Matrix (o primeiro da trilogia), pois foi o único texto não-filosófico que encontramos para expressar a dicotomia ideal/real, sujeito/objeto, em-si/para-si, númeno/fenômeno, verdade/aparência como sendo um fenômeno inerente à própria consciência. Assim, a cena do filme (aproximadamente 1:10:40; cena 21 no DVD) em que Neo vai visitar o Oráculo e vê algumas meninas brincando com objetos que flutuam, mais especificamente quando Neo tem uma outra experiência da fenomenalidade do mundo objetivo no diálogo com um menino-monge que entorta uma colher com o pensamento. O menino diz a Neo para ele não entortar a colher, posto que a colher (objetivamente) não exista, mas sim para ver a verdade, qual seja, a de que é ele mesmo (Neo) “quem entorta”; com essa cena, há que se entender que a dicotomia em-si/para-si (fenômeno/númeno) ocorre no interior da consciência, que uma alteração na consciência implica em uma alteração na relação sujeito/objeto, isto é, uma alteração na verdade mesma; de modo que a ciência seja vislumbrada como devir da experiência da consciência (Fenomenologia do Espírito) até o saber de si (este é o caminho de Neo até sua batalha final com Smith). Ao chegar ao saber de si, a consciência não opõe essência (verdade, possibilidade) e existência (aparência, atualidade); é a consumação da metafísica, no dito de Heidegger, nosso próximo pensador; e é a consumação auto-aniquiladora e autorenovadora da Matrix. Por isso, escolhemos essa sequência de pensadores em conexão a uma interpretação determinada que fizemos, neste trabalho, acerca do filme Matrix. 

3º - Escolhemos dois textos não-filosóficos como referência ao pensamento existencial de Heidegger, de acordo com a interpretação do tema da verdade encaminhado em sentido existencial desde que iniciamos este trabalho. Há que se entender nesses dois textos a disposição de humor da angústia, que revela a nulidade da existência e a deixa suspensa em tal nulidade a fim de que ela mesma (a presença-no-mundo) esteja entregue à responsabilidade de escolher o seu ser na pura dinâmica do instante, do porvir que atualiza um vigor-de-ter-sido, isto é, do caráter temporal do ser, que se mostra na temporalidade da presença. A verdade é o acontecimento-apropriação da co-pertinência (pertença comum) de ser (o que se compreende como ente) e pensar (a compreensão que compreende o ser) no Lógos (enunciação, palavra, linguagem, razão). O acontecimento que apropria é o irromper da existência fática no mundo, o ser-no-mundo como tal, em sua propriedade. O que há de próprio na existência enquanto pre-sença (ser-aí) é o seu pré (aí), a sua abertura ou exposição (ec-sistência, ekstases do tempo) in-sistente na verdade do ser. A verdade do ser é: que o ser é a pura apresentação do sentido da realidade ao Dasein (ser-aí) enquanto este é a cada vez convocado a estar suspenso dentro do nada em uma disposição de humor fundamental, a angústia. Esta disposição de humor mostra à presença a nulidade de suas possibilidades factuais de realização no seu poder-ser mais próprio (singular) e que anula todo o seu poder-ser, qual seja: o ser-para-o-fim como ser-para-a-morte. O esquivar-se (decair) da presença de sua própria morte indica uma impropriedade da própria presença, a decadência no mundo instrumentalizado das ocupações cotidianas e  no impessoal da publicidade (“todo mundo morre”, ou “morre-se”, sujeito indeterminado); mas a presença (que é sempre minha) não poder ser indeterminada, uma mera coisa que se repete como as outras na perda de si mesma em meio à massa social, ela é a singularização (determinação) de si mesma em um porvir atualizante de suas possibilidades. Assim ela deve recuperar seu vigor-de-ter-sido desde sempre em que esteve aí sendo (existindo) e, assim, projetar o seu poder-ser em uma atualização do vigor de ser si-mesma (ipseidade); mas para isso ela deve defrontar-se com a angústia de “ser ou não ser, eis a questão” e suportar, enquanto vive, a própria morte.

I – Letra de música: Fade To Black (original em inglês: Metallica, Ride The Lightning, 1984).
Escurecer
A vida parece desaparecer
Esvaindo-se todos os dias
Me perdendo dentro de mim mesmo
Nada importa, ninguém mais

Eu perdi a vontade de viver
Simplesmente nada mais a oferecer
Não há nada mais para mim
Preciso do fim para me libertar

As coisas não são mais como costumavam ser
Faltando alguém dentro de mim
Mortalmente perdido, isso não pode ser real
Não posso suportar esse inferno que sinto

O vazio está me preenchendo
Ao ponto da agonia
As trevas crescem tomando a aurora
Eu era eu mesmo, mas agora se foi

Ninguém além de mim pode me salvar, mas já é tarde demais
Agora eu não consigo pensar, pensar por que eu deveria tentar

O ontem parece nunca ter existido
A morte me recebe calorosamente, agora eu vou apenas dizer adeus.



II – Extrato de obra literária: Ser ou não ser, eis a questão (original em inglês: William Shakespeare, A tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, Ato III Cena I).

Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e flechas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor.
Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte o sonho que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Toda a lancinação do mal-prezado amor,
A insolência oficial, as dilações da lei,
Os doestos que dos nulos têm de suportar
O mérito paciente, quem o sofreria,
Quando alcançasse a mais perfeita quitação
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo e suando sob a vida fatigante,
Se o receio de alguma coisa após a morte,
–Essa região desconhecida cujas raias
Jamais viajante algum atravessou de volta –
Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?
O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação.""[...]


OBS: há que se entender, no mínimo, que a presença ou o ser-aí, este ente que eu mesmo sou a cada vez em existindo, não tem uma essência dada a priori de maneira substancial (a existência precede à essência). Antes sim, que a presença-no-mundo está lançada no porvir de si mesma (ipseidade, na singularização de si mesma que equivale à temporalização do ser no poder-ser mais próprio-pessoal de cada presença-no-mundo, o ser-para-a-morte). Assim e pelo que foi dito neste trabalho, o tema da verdade se desentranhou como revelação do sentido existencial da verdade através de uma problematização determinada da história da filosofia mediante Platão, Hegel e Heidegger, com auxílio dos meios não filosóficos aqui utilizados.
 



           


 

  

  

 



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