O
tema a ser tratado neste trabalho é a “verdade”. Explicita-se o tema de modo
introdutório pela consideração das três fontes distintas de nossa concepção de
verdade, intimamente ligadas à nossa representação do tempo em: passado,
presente e futuro. Então, o tema da verdade tem também relação fundamental com
o questionamento do tempo e da temporalidade do ente para o qual a verdade (do
ser) se torna uma questão, o homem ou o existente (Dasein), o ente que é sendo aí. Assim, o tema se justifica mediante
o reconhecimento de sua relevância para o aluno do Ensino Médio, na medida em
que este seja inserido em um determinado encaminhamento do questionamento
filosófico que lhe (ao aluno) possibilite a imersão em um vocabulário técnico
(jargão) da filosofia de cunho eminentemente existencial. E isso de modo que o
encaminhamento existencial assuma também a configuração de uma perspectiva prática
de concepção pedagógica do ensino de filosofia como exercício do filosofar.
Os
objetivos específicos a serem atingidos acompanham o desenvolvimento
histórico-filosófico da problematização do tema, na medida em que se pretende
que sejam compreendidos em sua importância fundamental existencial para o ser
homem em sua constituição, portanto para o aluno ou ser humano em formação.
Assim, as questões ou os problemas se resumem aos diferentes modos da verdade
(o tema) em pensadores de épocas distintas em face às três significações de
verdade, quais sejam: a verdade como alétheia
ou negação do encobrimento ou esquecimento, verdade como veritas e verdade como emunah. Com isso, o tema da verdade se
liga ao tema do tempo e seus modos correspondentes a cada uma das considerações
de verdade referidas: alétheia
(presente ou atualidade), veritas
(passado ou o fato como ele foi e vigora ainda em sua rememoração) e emunah (futuro ou expectativa do que há
de vir, projeção existencial na escolha de si mesmo em porvir). O que é o real,
aquilo que se dá imediatamente aos sentidos ou o questionamento que se eleva à
contemplação do inteligível? A elevação ao inteligível nos apresenta a
realidade do pensamento conceitual como uma presença eterna ou como um movimento
do conceito, que se desencobre na história? Como superar a dicotomia entre
sujeito (alma) e objeto (corpo) que daí decorre? O sentido da existência humana
é conhecer o real para dominá-lo e tornar-se maquinação do real, portanto do
homem instrumentalizado pela racionalidade calculadora e lógica, ou caminhar
serenamente pela constante invenção de si mesmo mediante o pensamento que pensa
o sentido e a poesia que entoa a melodia do espanto gratuito com o simples
fenômeno do haver?
A
problematização teórica do tema (verdade) delimita-o historicamente e nos
apresenta os pensadores em que nos baseamos para apresentá-lo no
desenvolvimento histórico-filosófico de sua destinação. A verdade é a rememoração e a pura
presentação do ente nele mesmo, o desencobrimento do ente em seu ser como pura presença
à vista, a visibilidade do intelecto como tal; o tema pode ser problematizado
mediante a oposição entre verdade e aparência, pois o que aparenta ser e não é
como parece ser instaura o conflito da pura presentação desencobridora com o
encobrimento ou a dissimulação do que é (o ser do ente). Desse modo, o
encobrimento ou a dissimulação da verdade (esta como desencobrimento e pura
presentação da realidade) ocorre como destinação ou determinação histórica da
verdade mesma, posto que ela se converte em presentação ao intelecto e se
desdobra fatidicamente em adequação entre a manifestação do ente na
inteligência e as coisas fora da inteligência, a oposição entre mundo ideal
inteligível e mundo real (ilusório) sensível como cópia do primeiro; assim, o
problema da verdade se instaura como pergunta por “o que é o real”; até aqui o
tema pode ser desenvolvido com base em Parmênides/Platão, sobretudo este último.
Como
a pergunta por “o que é o real” se desdobra na referida oposição, que assume na
teoria do conhecimento moderna a configuração da oposição entre um dentro (o
sujeito lógico) e um fora (o mundo exterior dos fatos físicos e objetivos),
como a verdade como veritas é a
verdade dos fatos ocorridos e da correspondência destes aos enunciados em
consonância às suas regras lógicas de validade, sendo estas o fator
preponderante, então se percebe já aí a constituição do sujeito lógico ou
transcendental proposto pela filosofia crítica de Kant e toda a problemática
que envolve a distinção entre coisas em si (númenos ou ideias) e fenômenos
(experiência da objetividade exterior segundo a forma lógica das estruturas
transcendentais da subjetividade). Contudo, não adotaremos Kant, e sim Hegel,
para falarmos da verdade como o movimento de autoformação do espírito em seu
devir histórico até ser ciente de si mesmo como absoluto (superação da
dicotomia entre ideal e real, sujeito e objeto, interior e exterior, essência e
aparência); com isso, atinge-se a compreensão da verdade como processo, como
devir e experiência autoformadora da consciência de si, cuja verdade não se
reduz nem ao sujeito e nem ao objeto, mas sim reside no mover-se a si mesmo da
substância espiritual que se forma mediante a alteração da relação entre
sujeito e objeto; uma alteração na verdade mesma do espírito que sabe e do
próprio saber que se desdobra, no devir, em unidade da identidade e da
diferença entre sujeito e objeto; em suma, a verdade é o processo do saber como
desencobrimento da unidade dialética do espírito que sabe e do que, no saber, é
sabido como objeto de si mesmo: a consciência humana no processo revelador de
autoconhecimento.
Assim,
depois de Platão e Hegel, adotamos o pensador Heidegger. A verdade como emunah (confiança) tem um sentido de
expectativa do futuro. Ora, se adotarmos a perspectiva existencial de
Heidegger, então essa expectativa do porvir se mostra como a verdade do ser que
brilha (se desvela) no ser-aí como ser de projeto, como liberdade para a
escolha de si mesmo em sua facticidade e historicidade; assim, o tempo
originário é o do acontecimento da existência em sua propriedade, em sua
finitude própria como ser-para-a-morte e como a singularização da caminhada
serena do homem se fazendo o seu próprio destino.
1
- A primeira proposta de problematização se refere à pergunta ou indagação por
“o que é real”.
O material a ser usado nesta problematização é o filme Matrix, o primeiro da trilogia; o
objetivo é mostrar ao aluno a experiência da disposição de humor originária do
filosofar, o espanto, que nos impulsiona à pergunta por “o que é o real”.
A desconfiança e insatisfação pela vida cotidiana e programada
segundo regras e a curiosidade de Neo por saber o que é Matrix nos indicam a
disposição afetiva para a indagação pelos fundamentos ocultos ou
suprassensíveis da realidade; desse modo, sua tomada de decisão em tomar a
pílula e todo o processo de busca por conhecer a Matrix é uma escolha livre e,
ao mesmo tempo, uma destinação do homem ao filosofar; todo esse processo é o
lento desencobrimento do real a si mesmo, através do destino histórico do ser
homem em sua facticidade e historicidade, portanto é o acontecimento da verdade
no mundo. Ao escolher-se a pílula vermelha, em vez de manter-se no sonho da
ignorância quanto ao que é Matrix, Morpheus diz a Neo: lembre-se, tudo que ofereço é a verdade, nada mais. Com isso, o
professor deve saber mover e interpretar o filme encaminhando-o para o tema da
verdade em sua íntima conexão com a busca indagadora por o que é real.
O professor pode associar a definição de nosso corpo na Matrix como
autoimagem residual ou projeção mental do “eu” digital à dualidade entre corpo
e alma, mundo sensível e mundo inteligível, de modo que o aprendizado ou a
aquisição teórica de conhecimento e sua execução prática sejam vislumbradas
pelo modelo da máquina a partir do fato de os personagens aprenderem tudo por
meio de inserção de programas em suas mentes, que são executados ao entrarem na
Matrix; assim, é possível entender a ideia da Matrix como sendo o mundo
sensível em que nosso corpo está inserido como imagem residual (cópia) de nosso
eu digital (pensamento), de modo que a verdade seja entendida como o processo
de desencobrimento (não-esquecimento) do que sempre foi.
Neo tomando a pílula vermelha e todos os que são libertados da
Matrix passam pelo processo de despertar do sono que é ser bateria a sustentar
a vida das máquinas. O professor pode, então, encaminhar o tema da verdade
pelas vias da pergunta por o que é o real como um processo de despertar do
homem para o destino do conhecimento; destino que determina o homem como sujeito
e o real como objeto desse processo de conhecer, o qual equivale ao movimento
mesmo do real (objetivo) e do ideal (subjetivo) em conjunto desvelamento no
devir fenomenológico da experiência da consciência até sua autoafirmação
existencial como ser-no-mundo.
O professor pode encaminhar a discussão sobre o conhecimento como
dominação do real pelo ideal, do objeto pelo sujeito, do corpo pelo intelecto;
Neo é a vontade de saber que deve chegar a ser o saber de si mesmo da vontade,
devir em que o conflito entre humanos e máquinas apenas revela o destino
histórico e factual da humanidade fundada na razão ocidental e no modo como,
pela filosofia, se instaura o conhecimento e a ciência como maquinação e instrumentação
da realidade para a sustentação da (re)produção da humanidade, processo que
equivale à maquinação da humanidade e à absorção da vida humana pela
autossustentação da vida da máquina.
2 – A segunda proposta de
problematização se refere ao sentido existencial do tema da verdade, que está
subjacente à pergunta pelo real e ao problema do conhecimento.
Como propusemos acima, Neo representa a vontade de saber que deve
saber a si mesmo como vontade (de vontade, nada). Em conexão ao dito do Oráculo
de Delfos “conhece a ti mesmo”, propomos a problematização da verdade como
movimento da revelação de si mesmo a si mesmo do espírito humano, de modo que a
pergunta por o que é o real, logo o problema do conhecimento, nos encaminhe
para uma autocompreensão do homem e do sentido existencial de sua situação no
mundo.
O professor deve perceber isso no diálogo de Neo com o Oráculo, cena
de Matrix Reloaded que é a figuração
de um diálogo do homem com seu destino no sentido de buscar compreender sua
situação no mundo (duelo entre a liberdade do espírito e a necessidade objetiva
das coisas, das leis da natureza e da sociedade). Assim, O Oráculo diz a Neo que
não cabe perguntar sobre a possibilidade ou não da escolha (liberdade), posto
que tudo é pré-determinado, mas sim saber por que se escolheu o que já se
destinou desde sempre (desde agora, desde que a presença é presente e se lança
ao porvir, em existindo). A preocupação do Oráculo com o futuro indica o
caráter de nossa presença no mundo como ser de projeto, como fado da liberdade.
Na sequência, diz-se que um programa que não funciona como deve é
assimilado pela Matrix, é deletado e retorna à Fonte de todas as máquinas. O
professor deve encaminhar o aluno para a compreensão de que Neo é esse tipo de
programa, tentando libertar-se de todas as regras e almejando a Fonte (Lei) de
toda a Matrix. Assim também é a situação humana no mundo, almejando o
conhecimento último da realidade e buscando o controle dos processos objetivos
da natureza e da vida em sociedade. Neo deve escolher por salvar Trinity ou ir
à Fonte de Matrix e pôr fim à guerra entre máquinas e homens; mais importante
que isso é entender ou saber a escolha, de tal modo que o fado da escolha nunca
seja negado (má-fé), posto que seja negar nossa existência enquanto ser de
projeto, lançamento do jogo de dados do tempo em que já nos encontramos
situados em existindo, apenas restando escolhermos nosso próprio ser no jogo do
porvir, fazendo-nos assim nosso próprio destino como o lugar mesmo do
acontecimento da verdade.
Quando o Oráculo se retira, imediatamente chega o agente Smith; o
professor deve orientar a problematização em sentido existencial a partir da
consideração do agente Smith como contraparte do ser de Neo (a oposição
mutuamente complementar, o caráter oculto da esperança de renovação da Matrix
em seu ser-outro, a antítese necessária instaurada pela ânsia libertária da
errância singular da existência). O agente Smith desplugado perde o propósito
de sua existência, é uma existência sem finalidade, sem causalidade e sem
efetividade; a questão da causalidade e do poder do conhecimento como controle
da causalidade e da geração de efeitos ou da produção de efetividades está
figurada no Merovíngio, por isso Neo precisa pegar o chaveiro, prisioneiro do
Merovíngio, a fim de abrir as portas que levam à Fonte ou causa originária da
realidade (Matrix), que já perdeu o seu propósito ou a sua razão de ser; assim,
orienta-se a problematização do tema da verdade pela indagação sobre o real
pelas vias da busca pelo conhecimento e pelo consequente controle da
causalidade (efetividade) do real, de modo que isso revele ao aluno a nulidade
da própria existência.
Contudo, essa mesma busca que é posta por Neo, pelo espanto, pela
libertação da necessidade das regras que quer saber o real, essa busca traz
consigo toda a sua negatividade (niilismo). Assim, o conflito entre Neo e
agente Smith é a luta entre a liberdade do sujeito individual e a necessidade
objetiva do mundo natural e social, a luta entre o homem vivo e a maquinação
civilizatória do cotidiano do trabalho e do homem moderno escravo da produção e
do consumo. Smith desplugado tem o poder de transformar todos os programas da
Matrix em imagens de si mesmo; ele é a anulação da realidade instaurada pela
desfuncionalização de Neo que, ao querer saber o que é o real em sua Fonte
originária, projeta sua destinação autorreveladora como aniquilação de tudo em
si mesmo e de si mesmo em tudo. A incapacidade de andar conforme as regras, de
ser um elemento funcional no todo, gera a oposição de si mesma alienada como
anulação do todo que se encaminha até o fim da existência de Neo reabsorvido
pela máquina originária, quando a Matrix é destruída e uma nova deve ser
iniciada.
Com isso, o professor deve encaminhar a problematização da pergunta
por “o que é o real” e do “conhecimento” no sentido de fazer ver o tema
“verdade” como o movimento de autorrevelação do ser humano e de sua situação no
mundo.
3 – A terceira
problematização se refere à verdade mesma como o processo ou movimento do real
como espírito no modo do saber universal como ciência de si enquanto
ser-no-mundo.
O professor deve encaminhar o tema da verdade como o movimento em
que toda diferença se suprime na unidade nadificadora da negatividade da
consciência, cuja presentação ou temporalização na existência fática é a
angústia quanto à nulidade de si mesma e de todos os seus projetos no
ser-para-a-morte. Por isso, escolhemos a cena do filme Matrix Revolutions em que a Matrix já está anulada ou aniquilada,
completamente tomada pelo Smith desconectado da Fonte ou do sistema, sem
propósito; como o Smith é o ser-outro objetivo e necessário da subjetividade
libertária de Neo, o conflito entre ambos revela o sem sentido da oposição
entre um mundo objetivo de fenômenos e um mundo subjetivo de regras
lógico-transcendentais para o conhecimento acerca do real. A busca pelo
conhecimento da Fonte originária do real como sistema da Matrix leva Neo ao
saber de si mesmo como fonte da anulação do sentido do sistema, posto que ele é
o desejo de libertação do sonho (Morpheus)
e está destinado para ser o lugar de desencobrimento do mistério (ocultação do
real, esquecimento do ser). Assim, em vez de um desejo de saber que opõe uma
realidade objetiva externa a fim de controlá-la, a cena em que Neo se deixa
penetrar pelo niilismo de Smith mostra a síntese dialética em que o saber chega
à ciência de si como fonte das oposições e centro de reintegração das posições
em composições; assim Neo sabe de si mesmo enquanto negatividade negadora e se
deixa penetrar pela morte aniquiladora, em que toda dualidade e conflito se
integram como unidade da identidade e da diferença entre o sujeito e o objeto,
o ideal e o real, a causa e o efeito, o saber como verdade do ser e o que é
sabido como aparência do ente. Assim, a Matrix nulificada acaba e o propósito
pode ser renovado na criação de uma nova Matrix, o sonho (Morpheus) atinge a sua liberdade (salvação da humanidade perante o
domínio das máquinas)... O professor deve interpretar o fim da oposição entre
saber (verdade) e aparência no duelo final entre Neo e Smith e, assim, mover a
compreensão do aluno de algo filosófico mediante o filme. Com isso, a negatividade
pura e simples da consciência se mostra em sua verdade, e esta mesma se revela
em sua realidade como o processo mesmo do saber que sabe a si mesmo e é a vida
que pulsa em história e movimento dialético. Com isso, a verdade já se mostra
como a temporalidade do homem e de sua situação no mundo (facticidade),
encaminhando-nos para o reconhecimento existencial (não existencialista) da
verdade.
Etapa V
Explicitar o que acontece
no âmago da verdade ao haver a indagação por “o que é o real”
- O aluno deve demonstrar o entendimento de que a verdade se
desdobra na oposição entre o saber do real e aparência deste como cópia
ilusória no fenômeno (Matrix); assim ele apreende a ideia de que a verdade se
oculta na aparência e gera uma oposição entre ideal e real, sujeito e objeto.
Explicitar o processo de conhecer como domínio da causalidade ou da efetividade do
real e sua relação com o acontecimento da verdade como saber que sabe a sua
escolha (destino)
- O aluno deve demonstrar que entendeu o conhecimento como domínio
da lei de causalidade e efetividade do real, a partir da busca pela Fonte
(causa primeira) de toda aparência efetiva; ele deve demonstrar ainda que
entendeu a conexão da busca pelo conhecimento da causa (metafísica) com a
situação fática do homem (sujeito de conhecimento) no mundo, deve entender que
essa situação é a da escolha de seu próprio ser e de saber isso como sendo a
manifestação da verdade mesma como destinação da existência, como estar fadado
a escolher as suas possibilidades e, em tal destinação da verdade, chegar a
compreender a si mesmo no mundo. Assim, compreende-se o sentido existencial da
tematização da verdade e se atinge o objetivo primordial.
Explicitar a negatividade
do saber de si da consciência
O aluno deve mostrar que entendeu a verdade como movimento e
processo que ocorre na facticidade da existência humana como fado da escolha de
si mesma enquanto ser de projeto (lançado no tempo), cujo fundamento é a
nulidade em que se dissolve toda oposição entre sujeito e objeto. Assim a
verdade não é mais vista fundamentalmente como problema do conhecimento
teórico-prático do real maquinado e instrumentalizado, mas sim o problema do
conhecimento é visto como um modo derivado da verdade como escolha de si mesmo
ciente de si enquanto lugar de irrupção do sentido existencial do mundo para o
homem em sua presença fática e histórica. O aluno deve entender isso pela
superação dialética da dicotomia entre verdade e aparência, entre o saber
subjetivo do ser e o que é sabido como verdade objetiva do ente, de modo que a
verdade seja entendida como a destinação de nossa liberdade.
Pensamos
que agora devemos tratar dos mesmos problemas levantados a partir da
interpretação que fizemos acerca do conjunto da trilogia do filme Matrix no
Bloco anterior e que já vínhamos expondo desde o Bloco 1, recorrendo aos
pensadores escolhidos: Platão, Hegel e Heidegger. Parece-nos que nossa
exposição anterior sobre o tema já foi feita em certo nível de abstração
elevado para o aluno de Ensino Médio; e isso porque não pudemos prescindir da
referência aos conceitos básicos, a fim de nos fazermos compreender quanto ao
uso dos meios auxiliares de problematização.
O
primeiro pensador com que trabalhamos o tema da verdade é Platão. A importância
deste pensador para a compreensão do tema da verdade é fundamental, pois ele
inaugura a investigação metafísica propriamente dita e toda problemática
epistemológica e ou gnosiológica daí advinda e projetada como destinação
histórica da humanidade ocidental, à luz de sua experiência com o saber como
processo de autodesencobrimento do espírito (como saber absoluto) ou do Dasein (autocompreendido como
ser-no-mundo e ser-para-a-morte).
Com
efeito, Platão (428-348 a.C.) é considerado o primeiro a realizar a chamada
dicotomia dos dois mundos (sensível e inteligível) e a inaugurar um pensamento
que investiga a realidade em seus fundamentos suprassensíveis. A pergunta
pré-socrática pela causa originária (arché)
da totalidade da natureza (physis)
ainda não havia encontrado uma resposta que não estivesse localizada no plano
imanente da própria natureza enquanto entidade material (sensível), embora a
especulação de um Parmênides, por exemplo, já houvesse alcançado elevado nível
de abstração na consideração da verdade como única via do pensar e do ser, que
unifica ambos na mesmidade do fenômeno da atividade pura de percepção (pensar)
e do que é percebido nessa atividade (ser). Aqui, de certo modo, a cisão
sujeito/objeto já irrompe no interior da consciência e no filosofar sobre o que
é o real, embora essa interpretação da realidade só ganhe forma plena na teoria
moderna do conhecimento pela dualidade cartesiana de substâncias (res cogitans / res extensa).
Então
o tema da verdade em Platão é abordado a partir do próprio questionamento
platônico quanto ao que é o real. O movimento dialético de ascensão das
sensações da aparência às intelecções da essência e de descensão destas àquelas
constitui o movimento da verdade como processo do desvelamento da realidade
como fenômeno e do fundamento puramente inteligível (ideal) da manifestação sensível
da realidade, na qual esta mesma se oculta (se sombreia), posto que a realidade
em si mesma e por si mesma é a idealidade do pensamento que, como tal, é
suprassensível. Assim, a dicotomia platônica entre o mundo sensível da
aparência e o mundo inteligível das formas como fundamentos de possibilidade
das aparências inaugura a oposição entre essência (verdade) e aparência,
oposição na qual a verdade equivale à apreensão da essência pelo intelecto,
apreensão à qual toda aparência possível deve se conformar como cópia de seu
modelo suprassensível.
Com
isso, o reino da aparência mesma é considerado como mera cópia ilusória do real
inteligível, cuja verdade (desencobrimento) reside na ideia; a aparência
sensível como cópia é o reino no qual a verdade simultaneamente se mostra e se
oculta, ao passo que a elevação ao reino inteligível constitui o processo mesmo
do desencobrimento da verdade em que o real se mostra em sua plenitude como
pura inteligibilidade na dissolução da oposição entre aparência e verdade, entre
ser (objeto da percepção) e pensar (o ato de perceber como tal). Curiosamente
aqui a verdade já se mostra como Alétheia,
isto é, como o jogo do encobrimento e do desencobrimento. A descensão do
inteligível (causa originária) ao sensível (efeito ilusório) promove o
encobrimento do puro manifestar-se de toda realidade possível como ato puro do
pensar (conceber), por isso o conhecimento do real enquanto fenômeno só pode
ser efetivo na medida em que o desencobrimento-encobrimento (verdade como Alétheia) se mantém encoberto na
operação do entendimento que calcula objetos e produz juízos sobre objetos.
Aqui
a verdade se torna a verdade da proposição (1º - adequação do pensamento
consigo mesmo em conformidade às regras da lógica, isto é, do Lógos como faculdade dos juízos:
princípio de identidade, de não-contradição e do terceiro excluído / e 2º adequação da aparência sensível ou da
experiência possível de fenômenos ao próprio juízo ou à proposição na
constituição da objetividade do objeto como representação conceitual do mundo
exterior e das coisas dentro deste mundo para o sujeito lógico). Desse modo, em
Platão vislumbramos o tema da verdade em conexão ao problema do conhecimento
como pergunta por o que é o real, fato que inaugura a possibilidade de cisão
entre um mundo objetivo de fenômenos e um mundo inteligível subjetivo de formas
lógicas categoriais ou transcendentais para a constituição da aparência como
mundo da experiência.
Assim,
a oposição entre verdade e aparência está no fundamento da oposição moderna
entre o subjetivo e o objetivo. Por isso, escolhemos Hegel (1770-1831), nosso
segundo pensador, pois ele pensa a verdade como o movimento dialético em que a
oposição entre o subjetivo e o objetivo se dissolve, ou melhor, se resolve na unidade
do saber ciente de si (espírito), figura da consciência em que esta supera,
historicamente, a cisão engendrada nela mesma entre verdade e aparência, coisa
em si e fenômeno.
Com
Hegel pretendemos chegar à compreensão do em
si objetivo como verdade, mas esta não mais como o inteligível que paira
como mundo ideal eterno e imutável acima do sensível aparente mediante uma
dicotomia a-histórica a sustentar uma metafísica transcendente. A consideração
do saber como aparência nos leva à compreensão da cisão entre o em si objetivo e o para-a-consciência (o para-si
subjetivo) como sendo uma dicotomia que ocorre no interior da consciência
mesma. A Fenomenologia do Espírito é
a ciência da experiência da consciência e, como tal, equivale à descrição do
processo ou do devir da consciência em sua imediata universalidade abstrata até
a concreção de sua realidade ideal no conceito, isto é, no saber de si como
figuração do absoluto (o verdadeiro como tal).
Essa
experiência ocorre na história e mostra a temporalidade do saber, posto que
cada época equivale a uma determinação da consciência no processo de sua
fenomenalidade (aparência). Assim, a oposição entre verdade (essência) e aparência
se anula (negatividade) pela autocompreensão da consciência como unidade da
relação entre sujeito e objeto; a alteração desta relação promove uma alteração
do saber sobre o objeto (sujeito que o representa para si) e do objeto mesmo
que é sabido (o em si verdadeiro como tal). Com isso, a distinção entre
inteligível (ideal ou subjetivo) e sensível (aparência do objeto ou
representação) aparece para a consciência como unidade da relação de sujeito e de
objeto. Essa unidade se mostra como saber de si da consciência, pois esta é a
totalização mesma da relação na fenomenalidade do saber de si, que reúne
verdade e aparência no Absoluto.
Ocorre
que a distinção entre o em si do objeto e o saber desse em si como
representação do objeto para a consciência fica presa na cisão interna de uma
subjetividade transcendental desgarrada do movimento especulativo da ideia que
se mostra na história (Kant). Assim, toda objetividade é dada a priori na subjetividade desgarrada da
historicidade, isto é, da temporalidade e da facticidade da consciência
enquanto vida do espírito. Esse pulsar do espírito é a negatividade como tal,
que em seu elemento puramente nadificante promove a passagem de uma ontologia
da substância para uma fenomenalidade do sujeito que surge para si mesmo como
unidade do real e do racional (ideal). De modo que o que irrompe para a
consciência transcendental como objeto da representação é, na verdade, devir e
movimento da realidade efetiva, isto é, transcendência do existente como vida
do espírito. Essa vida é a existência mesma que vem a ser Dasein; é a efetividade mesma do que existe em sua temporalidade,
facticidade e historicidade.
Assim
entendido o devir do saber da consciência até sua autocompreensão como
transcendência (negatividade), passamos ao terceiro pensador, Heidegger (1889-1976).
A retomada do sentido do ser mediante uma analítica existencial ou uma
hermenêutica da facticidade conflitará com a tradição substancialista da
metafísica. A análise da existência em sua facticidade substitui as categorias
do ente simplesmente dado pensado como substância pela descrição fenomenológica
dos existenciais do Dasein (ser-aí):
ser-no-mundo como o transcender mesmo que atravessa o ente na totalidade a fim
de apreendê-lo em seu ser e mostra o sentido (unidade) que irrompe do abismo da
existência enquanto um estar suspenso dentro do nada, isto é, enquanto pura
abertura (aí) do ser (presentação).
O
ser-no-mundo configura o estar-lançado no jogo da temporalização do projeto de
ser ou das possibilidades do existir como tal; não comporta mais uma cisão,
dele mesmo derivada e não ciente de si, entre uma substância pensante que
calcula objetos e um mundo das coisas extensas que são calculadas mediante as
formas lógicas do pensamento. Aqui a verdade como adequação ou conformidade dos
juízos (conceito) e da experiência de objetos (aparência sensível) se mostra
também como derivada e secundária. A verdade eminentemente ontológica do ser é
o desencobrimento como tal, que irrompe como abismo (ausência de fundamento) da
existência fática, cujo modo próprio de ser é ser-aí (abertura para a
presentação). Como a existência sempre se move em uma compreensão de ser, a
questão do sentido do ser, consequentemente da verdade do ser, deve ser posta
mediante uma análise existencial do ente cujo ser mesmo é posto em questão;
essa análise mostra as estruturas ontológicas da existência fática na medida em
que ela é a pura abertura para a apresentação da realidade.
Como
o ser-aí é pura abertura do ser, sem substancialidade suprassensível ou mesmo
sensível (ideal-subjetiva ou real-objetiva), a verdade do ser como
desencobrimento oculta em seu acontecimento próprio o caráter temporal do
próprio ser. O desencobrimento (verdade) do ser equivale à temporalização do
ser-aí, de tal modo que a reflexão sobre o tempo deve substituir os caracteres
da representação corrente do tempo “passado”, “presente” e “futuro” pelos modos
extáticos do tempo originário, isto é, da temporalização extática da
existência, quais sejam: o vigor-de-ter-sido, a vigência como tal ou atualidade
e o porvir, os quais equivalem aos três sentidos de nossa noção de verdade: alétheia (presente ou atualidade), veritas (passado ou o fato como ele foi
e vigora ainda em sua rememoração) e emunah
(futuro ou expectativa do que há de vir, projeção existencial na escolha de si
mesmo em porvir.
Assim
descoberta a temporalidade do ser como abertura (presentação) do ser ao pensar
(homem), na medida em que este se compreende como lugar da abertura do ser
(ser-aí), a finitude se mostra como o caráter próprio do ser-aí em seu
poder-ser como ser-para-a-morte, estrutura ontológica da singularidade do
existente e possibilidade extrema do projeto de ser que anula todas as
possibilidades do projeto de ser, isto é, do próprio ser-aí. O ser-para-a-morte
se faz perceber como tal como disposição de humor fundamental, a angústia, que
é a pura apresentação do nada ou da nulidade da existência. A decaída ou a fuga
de si mesma da presença-no-mundo (ser-aí como ser-no-mundo) na ocupação com as
coisas cotidianas e na impessoalidade do mundo público é também uma perda da
singularidade irrevogável e irremissível do ser-para-a-morte. Assim, assumir a
própria morte em sentido ontológico é retomar o projeto de ser próprio e
escolher o seu próprio ser, enquanto se vive, isto é, em existindo. Com isso,
da indagação por o que é o real e de sua instauração como problema do
conhecimento chegamos ao desencobrimento da verdade mesma, nosso tema, em um
sentido eminentemente existencial.
3
fragmentos de textos filosóficos de contextos históricos diferenciados:
1
– Platão
"(...) O método da dialética é o único que
procede, por meio da destruição das hipóteses, a caminho do autêntico
princípio, a fim de tornar seguros os seus resultados, e que realmente arrasta
aos poucos os olhos da alma da espécie de lodo bárbaro em que está atolada e
eleva-os às alturas (...)" (533a-e)
"(...) chamemos ciência à primeira divisão,
entendimento à segunda, fé à terceira, e suposição à quarta, e opinião às duas
últimas, inteligência às duas primeiras, sendo a opinião relativa à
mutabilidade, e a inteligência à essência. " (534a-e)
(A República, 2008, pp. 230-231)
2 – Hegel
"(...) O saber é o lado determinado dessa
relação ou do ser de alguma coisa para uma consciência. No entanto,
distinguimos desse ser para um outro o ser-em-si. O que é relacionado com o
saber é, por sua vez, distinto dele e é posto como sendo mesmo fora dessa
relação; o lado desse em-si é chamado verdade."
"Se (...) pesquisamos a verdade do saber,
pesquisamos (...) o que ele é em-si. Mas, nessa inquisição ele é nosso objeto,
é para nós. O seu em-si que resultasse de tal inquisição seria, antes, seu ser
para nós. O que afirmássemos como sua essência não seria a sua verdade mas o
nosso saber a seu respeito. (...)"
Não obstante, a natureza do objeto que pesquisamos
transcende essa separação ou essa aparência de separação (...)"
(Fenomenologia do Espírito, 1999, pp. 337-338 )
3 – Heidegger
"(...) a definição tradicional da essência da
verdade: Verdade é adequação da coisa com o conhecimento. Mas pode se entender
também assim: Verdade é adequação do conhecimento com a coisa. (...) Se
traduzimos a palavra alétheia por "desvelamento", em lugar de
"verdade", esta tradução não é somente "literal", mas ela
compreende a indicação de repensar mais originalmente a noção corrente de
verdade como conformidade da enunciação, no sentido, ainda incompreendido, do
caráter de ser desvelado e do desvelamento do ente. (...) a liberdade é o
abandono do desvelamento do ente como tal. O caráter de ser desvelado do ente
se encontra preservado pelo abandono ek-sistente; graças a este abandono, a
abertura, isto é, a"presença" (o "aí"), é o que é.”
(Sobre a Essência da Verdade, 1973, pp. 331-336)
Bibliografia:
PLATÃO. A República. São Paulo: Martin
Claret, 2008.
HEGEL, Friedrich Wilhelm. Obras seletas. São
Paulo: Abril Cultural, 1999.
HEIDEGGER, Martin. Obras Seletas. São Paulo:
Abril Cultural, 1973.
OBS: Supõe-se que os alunos entrarão em contato com
os fragmentos após receberem o material de slides e terem visualizado o mapa
conceitual, cujo conteúdo tenha sido previamente explicado em aula, e só assim
ser-lhes-á aplicada a tarefa lúdica ou os jogos sugeridos na Etapa IX, a
seguir.
1º jogo, explicação: partindo da compreensão do
movimento dialético como sendo o movimento da verdade, em Platão, como processo
da ascensão (desvelamento) do sensível (opinião) ao inteligível (ciência) e
descensão deste àquele (sombreamento ou ocultamento da verdade na aparência
sensível), o aluno deverá associar cada uma das instâncias corporais sensíveis
a seus equivalentes no âmbito da alma intelectiva; pressupõe-se que se entenda
que o movimento ascensional de desvelamento se move do reino das imagens ou
sombras até a intelecção das operações puramente ideais, que revelam a
estrutura racional do entendimento como forma lógica dos juízos ou das
proposições; acima o puro pensar (perceber) revela o caráter da verdade como alétheia (desvelamento), que se perde ou
se oculta na transformação da verdade como desvelamento em verdade das
proposições (adequação lógica do entendimento consigo mesmo e dos juízos com
sua verificação empírica ou sua aparência sensível). O aluno deve chegar a
compreender que na dicotomia aparência sensível/essência inteligível já reside
a oposição entre o sujeito (ideal) e o objeto (real) na constituição da
experiência da consciência, ou seja, do devir do saber (ciência); aqui o
conhecimento é determinado como certeza da objetividade da experiência, pois o
conhecimento se dá quando a objetividade (ser-em-si) do objeto se torna
fenômeno para a consciência (representação do objeto ou o momento do
ser-para-si da consciência, em terminologia hegeliana). Obtida essa
compreensão, é possível estabelecer uma conexão com o pensador seguinte.
Enunciado: associe cada instância do mundo sensível
(visível) a seu equivalente correto no mundo inteligível (alma).
|
Gabarito
Mundo Visível (sensível) = Mundo
Inteligível
(1)
Sol = Ideia do Bem
(2)
Luz = Verdade
(3)
Objetos da visão (cores) =
Objetos do conhecimento (ideias)
(4)
Sujeito que vê = Sujeito
cognoscente
(5)
Órgão da visão (olhos) =
Órgão do conhecimento
(6)
Faculdade da visão =
Faculdade da razão
(7)
Exercício da visão =
Exercício da razão
(8)
Aptidão para ver = Aptidão
para conhecer
|
- Instâncias desordenadas para o aluno estabelecer
as devidas associações equivalentes:
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(1) Sol = Órgão do conhecimento
(2) Luz = Ideia do Bem
(3) Objetos da visão (cores) = Faculdade da razão
(4) Sujeito que vê = Exercício da razão
(5) Órgão da visão = Aptidão para conhecer
(6) Faculdade da visão = Ideia do Bem
(7) Exercício da visão = Sujeito cognoscente
(8) Aptidão para ver = Objetos do conhecimento
(ideias)
|
2º jogo, explicação: partindo da compreensão de que
a dicotomia platônica dos mundos sensível e inteligível está no fundamento da
oposição entre sujeito e objeto, partindo da compreensão de que essa dicotomia
erige o plano suprassensível do mundo inteligível ou ideal à condição de
realidade em-si imutável, da qual o sensível é somente uma cópia ilusória
contingente, então o aluno já deve ter percebido que a objetividade do mundo
sensível é dada pelo âmbito ideal do inteligível, ou seja, que o real é o
racional. Assim, já podemos passar a Hegel, autor da célebre frase que afirma o
real ser o racional e vice-versa, de modo a vermos como a objetividade da
experiência sensível do mundo aparente, isto é, do mundo dos fenômenos, é dada a priori pelo caráter transcendental da subjetividade.
Mas a dicotomia platônica, em Kant, revela que o limite do conhecimento está em
que, na constituição da experiência de objetos, as categorias do entendimento
dão as formas lógicas dos juízos de conhecimento, os quais só se constituem
como ligações de conceitos ou de representações dos dados sensíveis da intuição
de espaço e de tempo; assim, ideias que não provenham dessa constituição da
experiência possível são consideradas, por Kant, puros pensamentos
especulativos da razão, sem qualquer correlato na experiência, portanto
incognoscíveis em si mesmas. Isso significa que, no processo do saber, a
consciência humana pode conhecer a realidade como fenômeno, isto é, a realidade
para-si, e não a realidade como númeno ou como é em-si. As ideias puramente
inteligíveis em si e por si mesmas são incognoscíveis, para Kant. Portanto este
segundo jogo tratará de avaliar se o aluno é capaz de representar graficamente
o esquema do devir do saber, figurado no mapa conceitual sobre Hegel e
concernente ao fragmento de texto proposto, demonstrando que chegou por conta
própria à compreensão de que a cisão entre sujeito e objeto, aparência sensível
e verdade inteligível, exterior e interior, a saber, que esta cisão ocorre no
interior da consciência e que é somente o momento inicial da experiência de si
da consciência, até esta saber de si como totalidade da relação dos pares
opostos da dicotomia que se reúnem no Absoluto (consciência de si). Assim a
ciência é compreendida em seu devir, e a verdade é o movimento do em si da
consciência (a ideia) que chega ao saber de si mediante o movimento do real em
que propriamente a negatividade ou o ser-outro da consciência (o em si do
objeto alienado como sendo fora da consciência) se mostra como mediação de si
consigo mesma da consciência, que é posta no modo do saber de si pela superação
da dicotomia em si e para si mesma; assim, a positividade do saber é
determinada pelo movimento de alienação da consciência em si (ideia) que se
move para si (em que a ideia em si se mostra para-outro, o momento da alienação
que constitui a negatividade da consciência) até o momento do absoluto ou da
consciência-de-si em que a substância é não mais uma objetividade morta e
inacessível à consciência, mas a subjetividade viva e pulsante que se move e
sabe de si mesma como a totalidade da relação sujeito/objeto (verdade
inteligível/aparência sensível).
Enunciado: elabore uma representação gráfica em
círculos formando conjuntos que representam cada momento do devir do saber ou
da experiência da consciência, tomando como modelo o mapa conceitual de Hegel
exposto nos slides; esteja ciente de que se trata de mostrar o movimento da
consciência até o saber de si, em que a oposição entre um saber como aparência
e uma verdade em-si incognoscível se anula no Absoluto como unidade da
subjetividade/ideal com a objetividade/real na consciência; escreva uma
explicação de sua representação gráfica.
Modelo de possível representação gráfica:
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Consciência
Abstrata
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ser-para-si
sujeito
representação
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ser-em-si
objeto
essência
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Experiência
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Saber Absoluto ou
Consciência-de-Si
Subjetividade/ideal = Objetividade/real
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Explicação
do modelo: este modelo proposto indica uma posição unilateral da consciência
abstrata no ser-em-si e no ser-para-si, daí a seta apontar dela para estes; as
setas de duas pontas indicam que, a partir da relação dialética entre o em-si e
o para-si na consciência, ocorre a concretização da mesma mediante a sua
experiência, que é o devir do saber, no qual a separação entre um saber para a
consciência (aparência) e uma verdade em-si incognoscível é superada pelo
Absoluto (momento da consciência-de-si); superação da cisão entre verdade
(inteligível) e aparência (sensível). É possível também representar esse
movimento mediante uma posição da “experiência” como intersecção dos conjuntos
do em-si e do para-si. Este modelo não é absoluto; trata-se de ver como o aluno
pode construir sua própria representação gráfica, como se ele estivesse
reconstituindo o movimento mesmo da passagem de uma consciência abstrata
(dicotômica) para uma consciência concreta (que vê o movimento dialético e o
conjunto das relações dialéticas em unidade); a passagem do universal abstrato
ou separado da experiência sensível (as ideias platônicas e a oposição kantiana
entre fenômeno e coisa-em-si) pelos particulares momentos do devir do saber até
o universal concreto, que não separa, mas reúne e totaliza (Neo se deixa
penetrar pelo Agente Smith, para absorvê-lo em-si para-si e consumar a
destruição-recriação da Matrix). Assim, a verdade das proposições (verdade
abstrata) é superada por uma verdade mais abrangente, a verdade especulativa (em
que as leis lógicas do entendimento, a saber, princípio de identidade, não-contradição
e terceiro excluído são superadas pelo movimento dialético de
tese-antítese-síntese); assim também o saber não se cinde em oposição entre
forma lógica e conteúdo material, forma e matéria do saber se unificam na
consideração de que o real é o racional, e o racional é o real.
3º
jogo, explicação: após a compreensão do processo efetivado até aqui, este jogo
avaliará se o aluno chegou a entender que o devir do saber como experiência da
consciência (Hegel) mostra a passagem de uma concepção de verdade como
universal e necessária (as ideias inteligíveis de Platão, cuja verdade é sempre
a mesma imutável e atemporal) para uma concepção de verdade em movimento,
portanto temporalizada; e isso por meio da superação da cisão entre aparência
(experiência ou mundo sensível) e verdade (adequação às regras lógicas do
entendimento ou mundo inteligível). Trata-se de um jogo em que a palavra-chave
é “verdade” e em que os alunos devem descobrir os conceitos correspondentes do
pensamento de Heidegger. Com ele, pretende-se avaliar a fixação dos conceitos e
a compreensão da verdade em sentido existencial, isto é, no sentido das noções
da analítica existencial expostos no mapa conceitual de Heidegger e com base no
trecho escolhido deste pensador. A distinção entre verdade ontológica e verdade
ôntica repercute no âmago das intenções de Heidegger em retomar o sentido do
ser mediante a análise existencial do Dasein
(ser-aí ou presença), ente para o qual a verdade (do ser) se torna uma
questão, posto que seja o ente que questiona o seu próprio ser como
questionamento do sentido da existência. Assim a verdade como sendo um problema
do conhecimento se transporta para um âmbito mais originário, qual seja: o de
nossa presença no mundo em sua facticidade, de modo que o problema do
conhecimento e das relações entre um sujeito e um objeto, bem como da busca por
substâncias suprassensíveis, se torne um problema secundário referente à
verdade ôntica tomada como interpretação pré-ontológica do ente (Dasein) ou como compreensão
pré-ontológica do ser. Hegel realiza a passagem da verdade que se opõe à
aparência (saber como fenômeno em oposição à coisa em si) e passa da verdade da
proposição (lógica aristotélica tradicional) para a verdade especulativa (o
movimento dialético do lógos ou da razão como unidade de real e ideal).
Heidegger retoma o sentido de ser para a existência, não para o saber ou o
conhecimento, de modo que a verdade do ser repercuta no âmago da abertura para
o mundo (ser-no-mundo) e da singularidade do ser-aí (ente que se abre para o
ser) em sua finitude própria (ser-para-a-morte). A mundanização própria do
ser-no-mundo e a temporalização própria da finitude do ser-aí como
ser-para-a-morte aparecem como o movimento mesmo de realização dinâmica da
espacialidade e da temporalidade próprias do ser-aí; e para chegar a isso é
preciso rever toda a tradição da oposição entre sujeito e objeto fundada na
dicotomia do inteligível (res cogitans)
e do sensível (res extensa), na qual
a verdade proposicional predomina como verdade do conhecimento do objeto pelo
sujeito. Todavia o Dasein não tem
substancialidade dada, ele é o ente que, aberto para o ser e exposto para o
súbito acontecimento do mundo, está destinado para a liberdade de escolher o
seu ser próprio ou para esquecê-lo nas ocupações cotidianas com coisas e com a
circulação do falatório das opiniões públicas massificadas; diante disso, o Dasein (ser-aí) precisa rememorar o
sentido de sua existência e projetá-lo como passo-a-passo de seu caminho rumo à
morte, pois ele é a constante dinamização do instante de realização presencial
de si mesmo, ele é a espaço-temporalização das dinâmicas de realização de seu
próprio ser; e só assim a verdade do ser se mostra como sentido que a
presença-no-mundo se dá de acordo com suas possibilidades, isto é, conforme o
seu poder-ser mais próprio (singularidade do ser-para-a-morte como antecipação
da nulidade de todas as possibilidades da existência). Com base nisso,
pretendemos que o aluno entenda o sentido existencial da verdade, figurado nas
escolhas que Neo deve fazer, posto que ele é o escolhido pelo ser para ser o
que é, assim como todo o homem é escolhido pelo ser para ser o que é (ser-aí,
presença); e isso é o limite ou a finitude da liberdade da existência, que,
todavia, permanece sem fundamento.
|
Comandos:
Coluna
1 – palavra do Latim equivalente à palavra portuguesa verdade, cujo sentido
é o do fato como ele foi (passado).
Coluna
2 – Estrutura de ser da abertura (aí) espacializadora do ser-aí que
constitui a facticidade ou a existência fática da presença e suas dinâmicas
de realização.
Coluna
3 – Resultado do processo de a coisa ou o mundo tornar-se fenômeno objetivo
para a consciência através da adequação dos dados sensíveis da intuição às
categorias do entendimento (verdade ôntica)
Coluna
4 – Definição tradicional da essência da verdade, segundo Heidegger.
Coluna
5 – Palavra grega por meio de cuja tradução como “desvelamento” Heidegger
pretende recuperar o sentido original da essência da “verdade”.
Coluna
6 – Palavra alemã que designa o ser da existência humana, cuja analítica é
realizada em Ser e Tempo como retomada do sentido do ser, isto é, como
retomada da essência originária da verdade como desencobrimento ou
presentação do ser pela abertura (aí) do próprio ser (ser-aí).
Coluna
7 – Estrutura de ser da abertura (aí ou pré) temporalizadora do ser-aí ou
da pre-sença (Da-sein) e que
constitui o seu poder-ser mais próprio como finitude da existência.
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Enunciado:
com base nos comandos ao lado, preencha as colunas da verdade com os conceitos
correspondentes.
Escolher
três textos não-filosóficos: filmes, letras de música, poesia, extratos de
obras literárias:
Esta
tarefa é realizada no sentido de relacionar conceitos filosóficos e textos ou
realidades não-filosóficos, a fim de que o aluno possa ser avaliado quanto a
sua capacidade de estabelecer a esperada relação, após haver aprendido os
referenciais conceituais filosóficos determinados.
1º
- Escolhemos trechos selecionados de um poema de Olavo Bilac, A tentação de Xenócrates, com o objetivo
de avaliar o aluno quanto a sua capacidade de ver a problemática platônica da
dicotomia mundo-sensível/mundo inteligível. Neste poema, então, está figurada
poeticamente a problematização de Platão quanto à dualidade corpo/alma,
sensível/inteligível relativa ao problema do conhecimento como busca indagadora
“por o que é o real”, já elucidada em demasia neste trabalho.
“(...) - dizia
Das faculdades
da alma e da teoria
De Platão aos
discípulos atentos.
(...)
Assim junto às
sagradas oliveiras,
Era imoto seu
corpo horas inteiras,
Mas longe dele
o espírito pairava.
(...)
E, longe, luz
mais pura
Que a extinta
luz daquele dia morto
Xenócrates
procura:
- Imortal
claridade,
Que é proteção
e amor, vida e conforto,
Porque é a luz
da verdade.
(...)
Em vão Laís o
abraça, e o nacarado lábio
Chega-lhe ao
lábio frio... Em vão! Medita o sábio,
E nem sente o
calor desse corpo que o atrai,
Nem o aroma
febril que dessa boca sai.
E ela: “Vivo
não és! Jurei domar um homem,
Mas de beijos
não sei que a pedra fria domem!”
Xenócrates,
então, do leito levantou
O corpo, e o
olhar no olhar da cortesã cravou:
“Pode rugir a
carne... Embora! Dela acima
Paira o
espírito ideal que a purifica e anima:
Cobrem nuvens
o espaço, e, acima do atro véu
Das nuvens,
brilha a estrela iluminando o céu!”
Fonte: BILAC,
Olavo. Poesias. São Paulo: Martin
Claret, 2004. (p.88-93).
OBS:
no mínimo há que se perceber que a tentação de Xenócrates é o saber, não o
prazer, é o espírito, não o corpo, é o inteligível, não o sensível, é a
verdade, não a aparência, é a essência (possibilidade), não a existência
(atualidade). Aqui não se pode expressar a dualidade ideal/real, pois em Platão
a ideia é o real, e o sensível é a cópia do real.
2º
- Quanto à problemática que pergunta “por o que é o real”, relativamente a
Hegel, precisamos recorrer novamente ao filme Matrix (o primeiro da trilogia),
pois foi o único texto não-filosófico que encontramos para expressar a
dicotomia ideal/real, sujeito/objeto, em-si/para-si, númeno/fenômeno,
verdade/aparência como sendo um fenômeno inerente à própria consciência. Assim,
a cena do filme (aproximadamente 1:10:40; cena 21 no DVD) em que Neo vai
visitar o Oráculo e vê algumas meninas brincando com objetos que flutuam, mais
especificamente quando Neo tem uma outra experiência
da fenomenalidade do mundo objetivo no diálogo com um menino-monge que entorta
uma colher com o pensamento. O menino diz a Neo para ele não entortar a colher,
posto que a colher (objetivamente) não exista, mas sim para ver a verdade, qual
seja, a de que é ele mesmo (Neo) “quem entorta”; com essa cena, há que se
entender que a dicotomia em-si/para-si (fenômeno/númeno) ocorre no interior da
consciência, que uma alteração na consciência implica em uma alteração na
relação sujeito/objeto, isto é, uma alteração na verdade mesma; de modo que a
ciência seja vislumbrada como devir da experiência da consciência (Fenomenologia do Espírito) até o saber
de si (este é o caminho de Neo até sua batalha final com Smith). Ao chegar ao
saber de si, a consciência não opõe essência (verdade, possibilidade) e
existência (aparência, atualidade); é a consumação da metafísica, no dito de
Heidegger, nosso próximo pensador; e é a consumação auto-aniquiladora e
autorenovadora da Matrix. Por isso, escolhemos essa sequência de pensadores em
conexão a uma interpretação determinada que fizemos, neste trabalho, acerca do
filme Matrix.
3º
- Escolhemos dois textos não-filosóficos como referência ao pensamento
existencial de Heidegger, de acordo com a interpretação do tema da verdade
encaminhado em sentido existencial desde que iniciamos este trabalho. Há que se
entender nesses dois textos a disposição de humor da angústia, que revela a
nulidade da existência e a deixa suspensa em tal nulidade a fim de que ela
mesma (a presença-no-mundo) esteja entregue à responsabilidade de escolher o
seu ser na pura dinâmica do instante, do porvir que atualiza um vigor-de-ter-sido,
isto é, do caráter temporal do ser, que se mostra na temporalidade da presença.
A verdade é o acontecimento-apropriação da co-pertinência (pertença comum) de
ser (o que se compreende como ente) e pensar (a compreensão que compreende o
ser) no Lógos (enunciação, palavra,
linguagem, razão). O acontecimento que apropria é o irromper da existência
fática no mundo, o ser-no-mundo como tal, em sua propriedade. O que há de
próprio na existência enquanto pre-sença (ser-aí) é o seu pré (aí), a sua
abertura ou exposição (ec-sistência, ekstases do tempo) in-sistente na verdade
do ser. A verdade do ser é: que o ser é a pura apresentação do sentido da
realidade ao Dasein (ser-aí) enquanto
este é a cada vez convocado a estar suspenso dentro do nada em uma disposição
de humor fundamental, a angústia. Esta disposição de humor mostra à presença a
nulidade de suas possibilidades factuais de realização no seu poder-ser mais
próprio (singular) e que anula todo o seu poder-ser, qual seja: o ser-para-o-fim
como ser-para-a-morte. O esquivar-se (decair) da presença de sua própria morte
indica uma impropriedade da própria presença, a decadência no mundo
instrumentalizado das ocupações cotidianas e no impessoal da publicidade (“todo mundo
morre”, ou “morre-se”, sujeito indeterminado); mas a presença (que é
sempre minha) não poder ser indeterminada, uma mera coisa que se repete como as
outras na perda de si mesma em meio à massa social, ela é a singularização
(determinação) de si mesma em um porvir atualizante de suas possibilidades.
Assim ela deve recuperar seu vigor-de-ter-sido desde sempre em que esteve aí
sendo (existindo) e, assim, projetar o seu poder-ser em uma atualização do
vigor de ser si-mesma (ipseidade); mas para isso ela deve defrontar-se com a
angústia de “ser ou não ser, eis a questão” e suportar, enquanto vive, a
própria morte.
I
– Letra de música: Fade To Black (original em inglês: Metallica,
Ride The Lightning, 1984).
Escurecer
A
vida parece desaparecer
Esvaindo-se
todos os dias
Me
perdendo dentro de mim mesmo
Nada
importa, ninguém mais
Eu
perdi a vontade de viver
Simplesmente
nada mais a oferecer
Não
há nada mais para mim
Preciso
do fim para me libertar
As
coisas não são mais como costumavam ser
Faltando
alguém dentro de mim
Mortalmente
perdido, isso não pode ser real
Não
posso suportar esse inferno que sinto
O
vazio está me preenchendo
Ao
ponto da agonia
As
trevas crescem tomando a aurora
Eu
era eu mesmo, mas agora se foi
Ninguém
além de mim pode me salvar, mas já é tarde demais
Agora
eu não consigo pensar, pensar por que eu deveria tentar
O
ontem parece nunca ter existido
A
morte me recebe calorosamente, agora eu vou apenas dizer adeus.
II – Extrato de obra literária: Ser ou não ser, eis a questão (original
em inglês: William Shakespeare, A
tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, Ato III Cena I).
Ser
ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em
nosso espírito sofrer pedras e flechas
Com
que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou
insurgir-nos contra um mar de provações
E
em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
Dizer
que rematamos com um sono a angústia
E
as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer
para dormir... é uma consumação
Que
bem merece e desejamos com fervor.
Dormir...
Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois
quando livres do tumulto da existência,
No
repouso da morte o sonho que tenhamos
Devem
fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que
impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem
sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O
agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Toda
a lancinação do mal-prezado amor,
A
insolência oficial, as dilações da lei,
Os
doestos que dos nulos têm de suportar
O
mérito paciente, quem o sofreria,
Quando
alcançasse a mais perfeita quitação
Com
a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo
e suando sob a vida fatigante,
Se
o receio de alguma coisa após a morte,
–Essa
região desconhecida cujas raias
Jamais
viajante algum atravessou de volta –
Não
nos pusesse a voar para outros, não sabidos?
O
pensamento assim nos acovarda, e assim
É
que se cobre a tez normal da decisão
Com
o tom pálido e enfermo da melancolia;
E
desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas
de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se
de rumo e cessam até mesmo
De
se chamar ação.""[...]
OBS: há que se entender, no mínimo, que a
presença ou o ser-aí, este ente que eu
mesmo sou a cada vez em existindo, não tem uma essência dada a priori de maneira substancial (a
existência precede à essência). Antes sim, que a presença-no-mundo está lançada
no porvir de si mesma (ipseidade, na singularização de si mesma que equivale à
temporalização do ser no poder-ser mais próprio-pessoal de cada
presença-no-mundo, o ser-para-a-morte). Assim e pelo que foi dito neste
trabalho, o tema da verdade se desentranhou como revelação do sentido
existencial da verdade através de uma problematização determinada da história
da filosofia mediante Platão, Hegel e Heidegger, com auxílio dos meios não filosóficos
aqui utilizados.
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