quinta-feira, 27 de junho de 2013

Sete Anos no Tibet



De acordo com o roteiro proposto, introduzimos este trabalho evocando o tema cinema e filosofia política, sem, contudo, deixarmos de lado a relação desta com a dimensão ética e a estética. Isso porque nos baseamos no texto base do curso: a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, no qual Benjamin nos deixa clara a relação entre uma estética ou filosofia da arte com a filosofia política, deixando claro também que seus conceitos não são apropriáveis pelo fascismo, porém podendo ser utilizados com intuitos revolucionários na política artística. Por isso, se constata também a presença de certo ethos objetivado para a atitude “revolucionária” no âmbito social-político.

Pensamos justificar a escolha da temática e do filme evocando os aspectos pertinentes à situação e à configuração do mundo contemporâneo ao longo dos acontecimentos do século XX: 2ª Guerra Mundial, polarização do mundo em socialista-comunista X capitalista / sociedades fechadas X sociedades livres ou abertas. Temos em mente, por exemplo, as reflexões de Benjamin sobre as mudanças na arte com o advento da fotografia e do cinema e a relação da arte com os acontecimentos políticos do mundo contemporâneo.

Com efeito, Benjamin pensa criticamente em relação ao totalitarismo fascista e procura viabilizar uma perspectiva revolucionária para a arte e as políticas a ela referidas, bem como ao uso que propagandas ideológicas podem fazer da arte, como vemos no filme denominado Mephisto.

Portanto, pensamos justificar ao longo do próprio trabalho a escolha do filme Sete Anos no Tibet, e nos perguntamos se, em um mundo globalizado, a essência humana se determina mesmo pelos modismos consumistas que se apropriam de todos os discursos “científicos” a fim de produzir, através dos meios de comunicação (cinema = imagem em movimento + música e toda técnica ou arte possíveis, incluindo o mundo dos esportes e eventos mundiais) novos mercados de consumo e mentalidades voltadas ao consumo e ao mero entretenimento na busca ilimitada por diversão e prazer.

Em meio a um mundo “hedonista” em que todos buscam o próprio prazer, a fama, o lucro e ganho pessoal, o que inclui a determinação do homem pelo psiquismo freudiano que, por sua vez, determina a psiqué humana como desejo ou impulso libidinal; em meio a um mundo em que o ser e pensar “revolucionariamente” já se tornou um modismo ultrapassado que não se percebe enquanto tal, tentando renovar-se num materialismo banal que só justifica e conserva o próprio andar vigente do processo de internacionalização do mundo, submetendo todas as relações humanas ao modus operandi do comércio, da produção, das relações de propriedade, e da política reduzida à luta de classes em vista do poder (corporativismo, sindicalismo, programas eleitorais e mercado da política das sociedades liberais democráticas etc.)..., enfim, em meio a isso tudo, pensamos que o filme escolhido talvez possa trazer um pouco de repouso e paz àqueles que já não suportam mais o barulho e o rebuliço das opiniões massificadas, sejam estas provenientes de especialistas e técnicos em produzir crítica científica, ou de meros espectadores cansados de seu trabalho que se sentam em bares e, alcoolizados, discutem o desfile de informações dispostos pelos programas de televisão e de mídia comunicativa em geral.


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SINOPSE DO FILME: O diretor do filme se chama Jean-Jacques Annaud; o filme data do ano de 1997; sua duração é de 134 minutos; a fotografia é de Robert Fraisse, a música é de John Williams; o figurino é de Emrico Sabbatini; o roteiro é de Becky Johnson baseado na história de Heinrich Harrer.

RESUMO: Este filme é uma narrativa da história do alpinista austríaco Heinrich Harrer, personagem estrelado por Brad Pitt. Harrer vive na época da expansão nazista pela Europa; como era uma ambição nacional escalar o Nanga Parbat, um dos picos mais altos do Himalaia, Harrer se aproveita disso para realizar uma ambição pessoal, a fim de obter fama e glória pessoais, afinal, a cena em que pega a bandeira nazista demonstra certa antipatia de Harrer por questões nacional-socialistas ou políticas em geral. Seu egoísmo é tamanho que abandona a esposa grávida para realizar tal empreitada. Durante sua aventura, Harrer é capturado por ingleses em território britânico no período em que se dava a Segunda Guerra Mundial. Consegue fugir com o companheiro Peter Aufschnaiter (David Thewlis), e ambos passam por muitos perigos até se instalarem em Lhasa, Capital do Tibet. Ali, Peter conhece uma nativa, com quem se casa, e Harrer conhece o Dalai Lama com quem estabelece um vínculo de amizade, aprendendo a desatar-se de seus apegos individuais e desejos egoístas, convivendo com uma cultura simples e comedida. Harrer presencia as dificuldades daquele povo no contexto da invasão do exército da China, esta tendo estabelecido governo Comunista, cuja doutrina histórico-materialista-dialética da luta de classes não tolera a simples cultura espiritual tibetana. Ao final da Segunda Guerra, Harrer retorna a seu país, encontra seu filho já rapaz e sua esposa já casada com outra pessoa; o filme termina com a bela cena de Harrer e seu filho no pico do monte com a bandeira tibetana nele fincada.

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            Tendo em vista o que dissemos acima, fundamentamos teoricamente este trabalho constatando a pertinência da mensagem do filme com relação ao assunto da filosofia política em nossa época contemporânea. Isso inclui as reflexões sobre o papel da arte e das políticas artísticas determinadas por contextos e interesses, à luz das reflexões do texto de Benjamin acima citado. Este texto é explícito em apresentar perspectivas revolucionárias de compreensão da política, partindo da reflexão marxista sobre os modos de produção capitalista.

Benjamin chama nossa atenção para a perda da autenticidade (aura) da obra de arte com a transformação do valor de culto da arte para o de exibição, transformação esta sofrida por causa do advento da reprodutibilidade técnica na fotografia e no cinema. Com isso, a arte perde sua função ritual e assume outra forma de práxis, a função política.  

Com efeito, a configuração político-econômica do mundo contemporâneo internacionalizado é tal que submete toda visão de mundo possível à questão da produção e do consumo, de quem detém os meios de produção, de como se dá a divisão do trabalho e de como as nações se organizam politicamente em defesa de seus interesses próprios no mercado mundial. Essa configuração de mundo objetiva as produções artístico-culturais de cada distinta etnia de modo a convertê-las em uma circulação de artigos de compra e venda no seio de uma indústria cultural, preenchida com artigos e produtos consumíveis para a multiplicidade indefinida de variabilidade de gostos no mundo do entretenimento e da categorização do cidadão comum como “consumidor”. Do mesmo modo, a cultura é dissociada do mundo da vida, a religião se torna um assunto político ou uma formalidade social ou folclórica, e a natureza segue servindo de fundo de reservas de matéria bruta disponível para a intervenção do maquinário dos diversos setores produtivos, que asseguram a produção das necessidades utilitárias da civilização humana.    

Portanto, pensamos que este filme apresenta uma situação na qual seja possível uma contextualização dos acontecimentos históricos e políticos do século XX, os quais se desdobram no estado atual das relações e da configuração do mundo globalizado hodierno, bem como nos mostra uma experiência de leveza e paz espiritual no encontro do homem ocidental (figuração do homo universalis e cosmopolita, sem fronteiras)[1] com uma tradição antiqüíssima que vai sendo devastada por essa ânsia de universalização e materialização ateísta e anti-tradicionais[2].

As guerras e os acordos de paz, a definição das fronteiras geográficas ou étnicas, a polarização do mundo e a corrida armamentista, o desenvolvimento de tecnologias e o investimento em pesquisas científicas que viabilizem a produção de novas técnicas e de novas possibilidades de tecnologias desenvolvidas, a corrida pelas conquistas de territórios “extraterrestres” empreendida pelos programas espaciais, a competição por mercados, a queda da URSS, as invasões e conflitos no Oriente Médio, o projeto de globalização e inserção de todas as culturas como fantasias passadas e fetichismos capazes de se tornarem produtos consumíveis no mercado mundial do entretenimento e do materialismo de todo tipo que assola toda a humanidade; tudo isso chama nossa atenção para a impossibilidade de, no mundo contemporâneo, o homem poder experimentar a simplicidade de uma relação harmoniosa com tudo que é, com a Terra, com a fauna, com a flora, com o Céu, e consigo mesmo, em meio à perturbação do mundo do trabalho, do mercado, da computação, do cálculo das ações e das objetivações, das programações e projeções, da globalização do modo de pensar ocidental europeu, cuja culminância na consumação da metafísica se dá em Nietzsche, o arauto da Morte de Deus, instalando o domínio incondicional da produção humana sobre os entes, o império da técnica, conforme o pensamento de Heidegger.

Neste mundo, tudo que é sólido se desmancha no ar. Talvez este sólido a desmanchar-se seja o mais simples e o essencial, esquecido pelo homem contemporâneo e talvez vivenciado por Harrer na sua estada no Tibet, junto ao Dalai Lama. É desse modo que interpretamos uma frase escrita na capa do DVD do filme em questão, angustiados em nosso mundo globalizado e sem fronteiras: Quando a última fronteira... é o início de uma nova vida. O início de uma nova vida no ultrapassar da última fronteira, porém, requer a experiência do aprendizado. E o que o homem contemporâneo talvez precise aprender seja a simplicidade diante do que pura e simplesmente é em seu resguardo de ser. Com isso, passamos ao tema da discussão do que poderia ser pensado a partir deste filme no Ensino Médio.

Este filme nos ajuda a pensar o choque de mentalidades distintas e o aprendizado que este choque pode nos provocar. Este aprendizado, porém, não vem sem o esforço e a dor do choque. Harrer se nos apresenta como um típico homem ocidental, que pensa que tudo existe para si, para a fruição de seu prazer, de sua vaidade, de sua ânsia de sensação e adrenalina, de aventura ao acaso, de vontade de poder e dominação sobre a totalidade dos entes; trata-se de uma figuração do modo ocidental de ser, em seu modo de organização democrático e liberal, assegurando os direitos ao individualismo e à plena satisfação dos prazeres pela capacidade de consumo como ilusão da liberdade. 

De outro lado, vemos um governo forte e autoritário se estabelecer na China e invadir o Tibet, demonstrando a disciplina imperial do Estado centralizador de poder calcado no materialismo dialético produzido pela crítica da economia política tal qual esta se dá como evolver histórico do mundo ocidental, não obstante o socialismo acontecer com mais força naqueles lugares onde não há tradição histórica de lutas por democracia e reivindicações “revolucionárias”, a saber, a parte oriental (leste) da Europa que formou o bloco soviético, e a China mais a Coréia do Norte, cujas tradições remontam a governos “imperiais” ou “reais”.

Tais acontecimentos não acontecem, contudo, sem o advento da expansão ocidental, francesa e inglesa, sobretudo, no século XIX, assim estruturando o capitalismo mundial e devastando as tradições culturais de todos os povos da Terra, configurando a categorização geopolítica do nosso mundo atual dividido em continentes e países demograficamente delimitados etc. Trata-se da expansão ocidental e sua dominação sobre Ásia e África. E se a dominação se torna norte-americana no século XX, isso não exclui o fato de ser uma dominação cultural ocidental que se internacionaliza e pretende unificar a multiplicidade cultural sob a ânsia de domínio manifestada nos cálculos e objetivações de tudo que se mostra sendo. Com isso, as diversidades culturais servem de matéria para a reprodutibilidade técnica das manifestações artísticas produzidas com base nas culturas devastadas e nos povos e modos de vida dizimados pelo avanço técnico-científico mundial (ocidental), com forte ajuda da perspicácia dos japoneses, estes já ocidentalizados. A reprodutibilidade técnica, no entanto, não assola só o campo da arte, mas também tudo que é produção humana em geral, até as tentativas de clonar animais e humanos.

Em seu texto, percebemos que Benjamin procura delinear a situação da obra de arte na contemporaneidade, esta caracterizada por constituir uma sociedade, a nosso ver, cujos elementos constituintes são a técnica de reprodutibilidade serial de objetos em todos os níveis. Com isso, acontece a extrema massificação do homem e da arte sob dois contrapontos: o fascismo e o comunismo. O primeiro com uma estética da natureza bélica em sua política; o segundo com um preenchimento de significados políticos na arte, que deve representar a ideologia da classe ou da luta de classes. No contexto contemporâneo das discussões entre capitalismo e socialismo, de qualquer modo, reina o fenômeno da massificação humana e de sua redução às determinações do modo de organização da produção em geral; de utensílios, máquinas, tecnologias, realidades, fetiches, entretenimentos, modas, mentalidades, gostos, opiniões.  A arte que melhor configura o homem contemporâneo é o cinema, mostrando como se efetiva o domínio de aparelhos sobre o homem (a luta do artista contra o poder das câmeras, as quais já estão espalhadas pelas ruas a fim de controlar o insaciável Eros do homem contemporâneo, incapaz de autogoverno), de modo que o homem efetive o seu domínio sobre o real a partir do aparato técnico e de sua capacidade de reprodutibilidade serial, assim também produzindo o fenômeno da massificação da arte e da estética da guerra, pela qual as massas são objetivadas e as relações de produção vigentes se mantêm preservadas.
  
Tendo isso em vista, podemos substituir o fascismo tal qual Benjamin experimentou no contexto do nazismo pelo fascismo da democracia liberal implantado pelos EUA em todo o mundo, com o apoio das nações ditas aliadas, e perceber como vivemos em uma rede emaranhada de poderes e constituição de verdades e saberes correspondentes à preservação das relações vigentes de produção. A reflexão de Benjamin sobre o uso do cinema em prol da revolução ou em prol do fascismo, como seria com toda arte em geral, só nos mostra como a arte é apropriada para legitimar e formar as mentalidades conforme o estado vigente das relações de produção, ou melhor, do projeto de civilização vigente; o cinema norte americano é o melhor exemplo, pois reina em todo mundo e domina os mercados cinematográficos, bem como determina as subjetividades em vista de seu projeto consumista de sociedade.

Hoje em dia, quem não é individualista o suficiente como o personagem Heinrich Harrer? No entanto, o Tibet já não é mais o que era, e o Dalai Lama está exilado nos EUA. Isto porque o mesmo espírito totalitário e controlador reinam na China. Alguém poderia se aventurar em ir ao Tibet e ter a experiência do simples viver em harmonia com a natureza tal qual o alpinista austríaco? É possível perceber o mundo sem que se incorra nestas determinações materialistas de visão de mundo? No campo da biologia, a genética e o tema da clonagem, o evolucionismo darwinista; no campo da história, da geografia política e das ciências sociais, da psicologia e do direito (positivo), quem não pensa de maneira “materialista”? Quem não pensa com um arcabouço conceitual marxista no âmbito das ciências humanas? Não são esses os grandes mantenedores do status quo? A vigência da proposta de Comte acerca da religião da Humanidade e do governo dos técnicos e cientistas, que só oculta o controle dos investidores em técnicas e pesquisas científicas com vistas ao progresso e à ordem em consonância à manutenção das relações de propriedade e produção assim perpetuando os lucros gerados pelo carrossel das civilizações globalizadas?

O exemplo da experiência de Harrer no Tibet não nos convoca a experimentarmos em nós mesmos uma possibilidade mais branda de estar-no-mundo e, assim, compreender o ser em um modo de abertura da totalidade dos entes que nos harmonize com o todo e conosco? Isso não seria repensar e refletir o ethos humano? O requerimento por interdisciplinaridade no Ensino Médio, e a tarefa singular da Filosofia neste aspecto, não nos convoca à reflexão sobre a própria ciência e o modo de fazer ciência como um modo não essencial de estar, habitar em um mundo, construindo um mundo em que estejamos e habitemos assim e assado? Não foi essa a experiência de Harrer? O questionamento do próprio ser (vida), esse ser que eu sou e tenho sido, e a transformação da atitude perante tudo que é e está sendo? Não seria o caso de o próprio ser acontecer de modo a apropriar o homem para sua simplicidade harmoniosa neste momento da ausência de fronteiras (limites) para a humanidade? Como se lê na capa do filme escolhido: Quando a última fronteira... é o início de uma nova vida. Talvez o ser deva acontecer em sua simplicidade para que o homem seja por ela acolhido com propriedade, de modo a estarmos mais humildes diante da graça de seu advento, mantendo nossa reverência humilde em face de seu respeitoso resguardo:

“Resguardar é, em sentido próprio, algo positivo e acontece quando deixamos alguma coisa entregue de antemão ao seu vigor de essência, quando devolvemos, de maneira própria, alguma coisa ao abrigo de sua essência, seguindo a correspondência com a palavra libertar (freien): libertar para a paz de um abrigo. Habitar (...) permanecer pacificado na liberdade de um pertencimento, resguardar cada coisa em sua essência. O traço fundamental do habitar é esse resguardo. (...) Mostra-se tão logo nos dispomos a pensar que ser homem consiste em habitar e, isso, no sentido de um demorar-se dos mortais sobre essa terra.”
“”Sobre essa terra” já diz, no entanto, “sob o céu”. Ambos supõem conjuntamente “permanecer diante dos deuses” e isso “em pertencendo à comunidade dos homens”. Os quatro: terra e céu, os divinos e os mortais, pertencem um ao outro numa unidade originária.”
“(...) Enquanto resguardo, o habitar preserva a quadratura naquilo junto a que os mortais se demoram: nas coisas.”
“(...) Cultivar e edificar significam, em sentido estrito, construir. Habitar é construir desde que se preserve nas coisas a quadratura (...)” (HEIDEGGER, 2008, p. 129-131)
“Coisificando, a coisa deixa perdurar a união dos quatro, terra e céu, mortais e imortais na simplicidade da sua quadratura, que unifica por si mesmo.”
“A terra é o sustentáculo da construção, a fecundidade na aproximação, estimulando o conjunto das águas e dos minerais, da vegetação e da fauna.
“(...)”
“O céu é o caminho do sol, o curso da lua, o brilho das constelações, as estações do ano, a luz e claridade do dia, a escuridão e densidade da noite, o favor e as intempéries do clima, a procissão de nuvens e a profundeza azul do éter.”
“Os imortais são acenos dos mensageiros da divindade. É, na regência encoberta da divindade, que Deus aparece, em sua vigência essencial, que o retira de qualquer comparação com o que é e está sendo.”
“Os mortais são os homens. São assim chamados porque podem morrer. Morrer significa: saber a morte, como morte. (...) A morte é o escrínio do Nada, do que nunca, em nível algum, é algo que simplesmente é e está sendo. Ao contrário, o Nada está vigindo em vigor, como o próprio ser. (...) Os mortais são mortais, por serem e vingarem, no resguardo do ser. São a referência vigente ao ser, como ser.”
“Dá-se o nome de mundo a este jogo em espelho, onde se apropria a simplicidade de terra e céu, de mortais e imortais. Mundo é mundo, no vigor que instaura mundo, que, portanto, mundaniza. (...) O querer explicar do homem não alcança a unidade simples da singularidade unitária do mundanizar. Ao serem representados, apenas, como um real particular, fundando-se e explicando-se um pelo outro, os quatro conjugados são sufocados em sua vigência essencial.”  (HEIDEGGER, 2008, p. 155-157)


Essa simplicidade de ser da quadratura descrita por Heidegger, e seu resguardo no abrigo pacificador da liberdade junto às coisas, talvez seja semelhante à experiência de Harrer no Tibet. Uma experiência de tonalidade afetiva sim, que diz respeito à nossa correspondência com os outros entes que não somos sem que nos lancemos a uma dominação incondicionada do ser destes entes através da ciência e da linguagem (logos) como vigência da técnica consumada pela metafísica ocidental, que hoje impera no globo terrestre e para além dos céus nos programas espaciais.

 A experiência de Harrer foi, por que não, uma experimentação semelhante à do sentido originário do logos de Heráclito e da ataraxia helenista em meio à loucura dos totalitarismos políticos e da marcha progressiva da ciência, da história e do espírito absoluto em sua vontade de poder. Essa experiência não precisa ser documentada ou enunciada, ela é de cada um que a alcança em sua singularidade, no encontro consigo mesmo, pelo qual cada um vem a ser o que é e realiza a máxima délfica: γνώθι σαυτόν (conhece a ti mesmo).


BIBILOGRAFIA:

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica IN Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. – (Obras escolhidas; v. 1)
HEIDEGGER, Martin. Construir, Habitar, Pensar/A Coisa IN Ensaios e Conferências; tradução de Emanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel, Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.

   

          

       
          
     



[1] O que não pode acontecer sem o Humanismo Renascentista, o Iluminismo, o advento da economia liberal capitalista e do Estado Laico de Direito, da democracia e da derrubada das monarquias, das expansões territoriais européias e das instituições capitalistas nas formas empresariais e bancárias e nas revoluções industriais e tecno-científicas, enfim, a destruição de toda cultura não-européia pela manifestação ôntica da consumação da metafísica e da técnica ocidentais uniformizando o mundo.
[2] Nietzsche = transvaloração de todos os valores = Morte de Deus / Marx = a religião é o ópio do povo / evolucionismo = homem provém de símios / Freud = homem é subjetividade inconsciente e sem fundo, abismo de energia psíquica e libidinal em busca de prazer (vida) e potência de perversão da libido na pulsão de morte...

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