Desde
que hajas nascido, mortal, só te resta chorar;
se
és proveniente do tempo primordial que já não
há,
nada
te espera enquanto habitas este tempo-espaço;
as
flores não luzem mais alegria de crianças saudáveis;
sente
o frio seco e vê como as cinzas nuvens encobrem a verdade dos
céus aos que não podem voar além da atmosfera e
da gravidade da Terra!
Pois
nem da terra em que pisam podem sofrer a dor de morte,
e
nem a presença dos deuses podem apreender nos fenômenos;
suas
paixões já não estão em concordância
com o impulso primeiro,
a
matéria se degrada, os corpos se degeneram e a mente morre sem
cessar;
como
culpar os viventes de não saberem o que é vida ou
morte,
se
nem mais a vida universal deseja viver e proliferar-se eternamente?
Semelhante
à melodia da chuva de novembro, a liberdade se aliena
solitária
na
incapacidade tanto de ser quanto de não ser;
por
isso, os mortais dispersam a própria existência,
enquanto
estão aqui e lá, acolá, distantes da absoluta
essência,
embora
esta se preserve onipresente além do filtro das individuações.
Violinos,
flautas transversas, violoncelos, pianos...
solitários
na sala vazia ecoam o silêncio dos desconcertos,
enquanto
espíritos mortos da música aguardam o Maestro
ressuscitar da depressão dos séculos e de todos os
seres viventes que foram, que são e que virão a ser...
nascendo e morrendo;
o
sofrimento silencioso da grande permanência há de
findar,
caso
se manifeste real compaixão do Deus dos Deuses em oferta de
vida e graça aos que morrem;
enquanto
a morte oculta sua presença no mundo das aparências,
volições
esquecidas retornam ao fulcro da matéria,
sem
contudo poderem se unir ao espírito que tudo percebe e tudo
concebe;
criança
pura e serena, inteligência criadora, ação
geradora e mantenedora,
nada
destrói, tudo sustenta, por tudo sofre, enquanto cada ente que
vive a morrer deseja sempre a morte em lugar da vida,
posto
que esta se mantém oculta no resguardo de si mesma,
sem
vontade de apropriação e incapaz de violência,
nunca
apreensível por intelectos mortais ou tecnologias,
nunca
sensível às brutas paixões de corpos que morrem,
nunca
manchada pelas almas que pulsam a dissolução da matéria
e da forma.
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