Loirinha, Sweet Child No Mine (não minha)
Ela tem um sorriso que me parece
trazer d' infância ternas lembranças;
tudo era límpido e fresco. Acontece
o claro azul do céu d'esperanças,
quando seus olhos em sublimidade celeste
o brilho d'aurora da vida alegres resplandecem.
Eu odeio olhar tais olhos em dor e peste;
seus cabelos me levam, e não se esquecem,
a um lugar quente e seguro, onde
minha alma infantil nobre descansa
e dos receios de amor se esconde;
a um lugar em que, eterna esperança,
passar quietos chuva e trovão rogando...
Aonde vamos? Continuo inda te amando.
Pensamento Metafísico
sexta-feira, 19 de julho de 2013
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Autoridade
As palavras carregam o sentido que as mentes lhes atribuem,
é difícil para com o interlocutor haver sincera caridade
no diálogo que é monólogo, múltiplas palavras se distribuem,
confusão do autor do texto com textualizador d' autoridade.
Eu só queria divulgar minha página de autor: http://www.recantodasletras.com.br/autores/johnniewalker
Por isso o título do versinho é "Autoridade".
é difícil para com o interlocutor haver sincera caridade
no diálogo que é monólogo, múltiplas palavras se distribuem,
confusão do autor do texto com textualizador d' autoridade.
Eu só queria divulgar minha página de autor: http://www.recantodasletras.com.br/autores/johnniewalker
Por isso o título do versinho é "Autoridade".
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Carta Poética a uma Poetisa
Olá Laeticia (Alegria, em Latim), estava a procurar um jornal ou revista em que pudesse publicar alguma poesia minha, então encontrei seu Jornal de Poesia. Não sou nada técnico em letras ou literatura, sou só-mente um solitário, que tem no dom criador da palavra (não da minha, mas da palavra em geral; como diz Heráclito de Éfeso: É sábio que os que ouviram, não a mim, mas ao LOGOS, reconheçam que todas as coisas são um. (Diels-Kranz 22B50), como dizia, tem no dom criador da palavra um passatempo e um suporte para a existência.
esse imenso ser em contínuo duelo.
O preto e o branco
O quente e o frio
O mais e o menos
O céu e a terra
O tudo e o nada
O som e o silêncio
O nascer e morrer
Olhar e não ver
Estar e não ser
São instâncias da mesma realidade.
A harmonia se impõe na superação dos limites.
Creio que teu Jornal de Poesia seja um espaço para publicação de teus textos próprios. Por isso, modifico meus intentos para um mero exercício de diálogo contigo.
Em teu texto A Sátira a serviço de Gregório, falas sobre o Barroco:
"... o Barroco. Época marcada pela contradição e tensão, pelo conflito e dualismo: mistura de religiosidade e sensualismo, de misticismo e erotismo, de valores terrenos e carnais e de aspirações espirituais. O homem barroco e sua visão de mundo são altamente dialéticos, levando essa dualidade para dentro de suas obras, que passam pela provocação dos contrários para convergir a um ponto que une.
Esse ponto que une os contrários é o próprio processo dialético do real como tal, o lógos ou a razão universal presente na natureza, como espírito individuado no drama da história e da humanidade em cada um de nós. Por isso, não há como escapar do abarcamento que tudo abrange, o pensamento que dirige tudo através de tudo, o raio fulgurante que atravessa o todo com um único pensamento e, assim, permanece o sempre sendo que se exprime como elemento fundante do simples dizer, do espontâneo enunciar que mostra o sentido e abre o espaço-tempo da experiência do ser-no-mundo do homem como devir da experiência da consciência; eis a Fenomenologia do Espírito como segredo que se revela na Dialética do Mundo, que te abraça e que constitui toda tua existência, enquanto humano, isto é, enquanto ente constituído de facticidade e historicidade, à luz da autodoação do ser como simples acontecer do tempo, que apropria o ente para o seu originário advento no puro emergir da totalidade compreendida em seu ser, como lógos.
Assim, em a Dialética do Mundo me abraça, tu mesma dizes:
A escuridão e a luz movem,
como alavancas indissociáveis,esse imenso ser em contínuo duelo.
O preto e o branco
O quente e o frio
O mais e o menos
O céu e a terra
O tudo e o nada
O som e o silêncio
O nascer e morrer
Olhar e não ver
Estar e não ser
São instâncias da mesma realidade.
A harmonia se impõe na superação dos limites.
A escuridão e a luz se movem, como alavancas indissociáveis, esse imenso ser em contínuo duelo. Grande poetisa do ser, não sabes como enuncias o mistério sublime da natureza em repouso, lúcida e tranquila na embriaguez de seus produtos fenomênicos a dançar sob a lei da vida e da morte, a dialética da pessoa do Todo como Deus, a dialética de Deus como Todo (universo), o mover em conjunto da escuridão e da luz.
Pois à imagem da escuridão corresponde o conceito de matéria, cujo fenômeno é a gravidade e a coesão dos corpos; enquanto à luz corresponde o conceito de espírito, que se mostra como inteligência inconsciente presente na natureza em geral e como inteligência consciente no homem, em que vem à luz a razão no mundo e a capacidade não só de intuir esteticamente, mas de construir o conceito de toda experiência estética possível aprioristicamente, porquanto o homem seja o término do processo de espaço-temporalização do infinito no finito, do qual retorna o espírito que nunca foi mais do que si mesmo; a luz é o espírito, que se expande no tempo e desagrega os corpos finitos, por isso estes têm seu lugar no equilíbrio com a gravidade da matéria.
Contudo, a luz é intensão do Universo, Tempo, enquanto a matéria é extensão do Universo, Espaço, a dialética entre ambas é o movimento do infinito no finito como espaço-tempo, em que gravidade e luz se potenciam na dialética da atração (amor) e da repulsão (ódio) (Amor e Ódio como princípios da Natureza, como falava Empédocles de Agrigento). O fenômeno dessa lei se mostra no magnetismo e na eletricidade, cuja síntese dialética ocorre no quimismo. Os processos químicos da matéria são orientados por uma conformidade a fins, tendo a vida como causa inicial e final, de modo que a interação entre os elementos químicos da matéria inorgânica possam vir a ser matéria organizada, isto é, organismo, determinação do espírito que se individua no tempo-espaço e funda o movimento de "evolução dos seres vivos", cuja dialética entre sensibilidade e excitabilidade se sintetiza no fenômeno da reprodução, o qual requer a dualidade dos sexos (em casos de reprodução sexuada, obviamente, nos organismos mais complexos), assim também masculino e feminino também são instâncias da mesma realidade. (Essas intuições poéticas sobre a Dialética do Mundo, que te abraça, podem ser assim entendidas à luz conceitual da Filosofia da Natureza de Schelling, que acabei de expor-te resumidamente).
A Harmonia se impõe na superação dos limites. A Harmonia, a justa medida, a proporção, o lógos de que falava Heráclito de Éfeso, o ápeiron ou ilimitado de que falava Anaximandro de Mileto, o ar ilimitado (pneuma ápeiron) de que falava Anaxímenes de Mileto... e tantas pessoas que disseram o simples ponto de convergência dos limites que se movem como configuração do mundo dos fenômenos que desfilam, dialeticamente, como aparências do ser do tempo ao nosso espírito finito.
O poeta tem a alma do tamanho do mundo porque o poeta é completamente preenchido pela alma do mundo, que nele se individua e, assim, se apresenta à humanidade inteira pelo dom da palavra como autodoação do ser ao homem. Mas muitos nem sequer aprendem a ler e escrever, ou pouco se importam; outros usam a linguagem como objeto de uso e, assim, movem-se a vida inteira pelas vias pragmáticas dos interesses utilitaristas e das vantagens obtidas com barganhas comerciais em falsas relações sociais; este também é um destino da linguagem e do ente que nela tem sua morada, próximo ao ser, embora dele esquecido como não-ente, como dizia Heidegger.
Eu gostaria de compartilhar minha humilde poesia, pelo menos a que restou. Sou um humilde estudante quase professor de filosofia, compartilhando poesia; presumo que não gostes de minha escrita rústica, mas se quiseres trocar uma ideia, será um descanso de minha solidão.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Poematizando uma tarde de inverno
Ninguém sorri ao vento frio, o cinza das nuvens
vai ao Brilho do Sol sobrepujando;
Estes esqueletos de mármore não entendem meus soluços;
ninguém entretém os filhos de alguém
que se entretém com ninguém dormindo de bruços.
O vento frio namora as cinzas nuvens, sorrindo
vai a sobrepujar o menino, essa força do Tempo
que alegria pura e inocente não vê
no coração dessa gente, bons católicos,
que nunca houve no Céu e na Terra, amém;
hoje ninguém vê os filhos do Tempo;
alguém talvez um dia dê soluços de presente ao Tempo,
mas nunca certamente alguém será como antes,
pois dormindo de bruços podem vomitar sem querer,
bons católicos no Céu e na Terra é para inglês ver.
Eu vi ninguém passar por aqui, ele cuspiu uma nuvem.
Eu vejo ninguém voltar para cá, ele cospe soluços e nu vem.
Ele vem de peito aberto e flutua de bruços para o além;
o Tempo ainda está o mesmo devir, sem espaçamento,
não se cristaliza em formas geométricas, ainda menos
poderia ser cristais de lembrança d'algum sentimento
que tenha pulsado no coração de meninos amenos;
bons garotos, SIM, jogam Rock and Roll;
um deles somente, foi largado ao jogo do Tempo;
e sem amor viu escurecer a nuvem de pensamento,
enquanto fantasmas de bons católicos pediam perdão
por nunca haverem sido fiéis ao Templo e à Palavra,
pois jogando futebol fraturam o dedão.
Hoje eu vi passar por aqui uma daquelas nuvens psicanalíticas;
quando elas vêm, meninas e soluços internos rebolam desdém,
enquanto poesias aidéticas e sifilíticas
anunciam a chegada do advento do momento que vem
e antecede ao último suspiro de almas doentes e suas volições paralíticas.]
Mas somente os pais do menino foram bons católicos;
o menino brincalhão rezava com fé, mas Deus Veraz lhe escolheu;
por isso o menino só se fudeu! Antes não fosse escolhido,
escolhido por bestas apocalípticas e bafinhos alcoólicos,
a fim de que nunca precisasse ser crucificado e esquecido.
Os pais do menino, proletários assalariados, nunca rezaram para Karl Marx,]
nunca leram a Crítica da Economia Política, e que comigo toda Nação da Terra cante, porque, sabe o quê?
sem nunca haver lido Kant, os pais viviam sob a Lei do Imperativo Categórico]
e amaram seu filhinho Hiperativo Eufórico.
Dos soluços que causastes, oh linda loirinha,
flor límpida e pura, sorriso de celeste crueldade,
que aos corações deixa ébrios à caipirinha,
o mais intenso revelou-se fealdade
que em aparência exterior no espaço minha
também foi tua essência interior, liberdade
para ser e devir na festa, na pista e no abraço
último em que selei da separação, para sempre, o laço.
Essas sombras cheiram mau, como pombas públicas
que voam na praça e contam piadas sem graça.
Essas ovelhas têm bafos podres, como velhinhas
que se guardam em odres, e acendem velinhas
para espantar fantasmas e odores, bebendo o sangue,
comendo a carne do Deus encarnado, na Igreja,
depois de sentarem-se no bico da garrafa de cerveja.
Todavia deveis ter esperança, meus filhos, pois
de crianças vós sendo passadas depois,
podereis ler poetas malditos e sereis também vós malditos,
pelos séculos dos séculos, pela concessão de destino,
que não vos permite mais serdes humilde menino.
Vós sois todos os que Um foi no Samsara, na transmigração,
no ocultismo criterioso dos deuses,
nos cânticos fúnebres dos Mistérios de Elêusis,
vós sois o eterno condenado à Destruição e Criação
da alma, do corpo e do espírito, lereis e sereis como lerdes,
com quem lerdes, a Palavra da Salvação, na Libação do sangue,
na queimação da carne, que é langue, e no entoar da canção,
Children of the Damned, do número da besta 666, e lereis Baudelaire e emocionar-vos-eis com Rimbaud outra vez,
no Eterno Retorno das ondas do Leme e de Ipanema;
ora, se não sois Bem-Aventurados entre os Budas, qual o problema?
terça-feira, 2 de julho de 2013
Soneto da Imperfeição dos entes no Tempo
Instigante é o teu ser, oh inexprimível complacência.
Desvairados, os produtos de tua vontade sucumbem,
as individuações de tua una vontade se inibem,
enquanto a morte se mostra em tua suprema evanescência.
Todavia, autopercepção, percebo tua grandiosa indiferença,
a tua dor me aniquila, enquanto mortal, no jogo sublime
do Tempo, cuja hibernação na matéria de toda humana crença
à luz de uma lembrança jamais tua essência exprime.
Instigante é o teu ser, oh insondável e infinito desejo,
desprotegidos, os filhos de tua senhora escorrem,
como lodo excrescente de geração e corrupção os vejo,
escorrem pelas vias múltiplas, e pela única via morrem
todos os acenos de vida que, sem ao menos um gracejo,
no torpor da Indiferença do Tempo se corroem.
Desvairados, os produtos de tua vontade sucumbem,
as individuações de tua una vontade se inibem,
enquanto a morte se mostra em tua suprema evanescência.
Todavia, autopercepção, percebo tua grandiosa indiferença,
a tua dor me aniquila, enquanto mortal, no jogo sublime
do Tempo, cuja hibernação na matéria de toda humana crença
à luz de uma lembrança jamais tua essência exprime.
Instigante é o teu ser, oh insondável e infinito desejo,
desprotegidos, os filhos de tua senhora escorrem,
como lodo excrescente de geração e corrupção os vejo,
escorrem pelas vias múltiplas, e pela única via morrem
todos os acenos de vida que, sem ao menos um gracejo,
no torpor da Indiferença do Tempo se corroem.
Imaginário Social e Educação
Eu não pretendia publicar este texto, por preguiça, mas aí está. Junto com meu trabalho sobre Pitágoras, este texto já vislumbra o início de se tentar pensar a Filosofia como Doutrina, isto é, esta como Metafísica ou Sistema do Saber Universal em seu vínculo intrínseco com a efetiva formação da Humanidade, cujo processo é a ideia se concretizando na História e na Cultura. O Idealismo Alemão de Schelling e Hegel nos permitiu a compreensão desse tema, pois pretende abarcar o todo do real, portanto também o todo do saber. Assim, não pensamos autonomia de ciência alguma que não esteja integrada no conceito supremo da realidade (Absoluto), do qual é possível emanar qualquer individuação fenomênica, que se preste a objeto determinado (fenômeno) de um saber determinante de objetos (construção a priori do campo de manifestação de uma experiência possível de objetos enquanto fenômenos ou representações para uma consciência pura transcendental).
A construção a priori do objeto equivale à divisão da realidade em setores de objetos e à consequente liberação de um campo de mostração ôntico-ontológico de um ente e, como tal, é a constituição mesma da assim chamada experiência possível de objetos. Com a interpretação histórico-ontológica da Metafísica consumada, Heidegger nos mostra os fundamentos intrínsecos de todo acontecimento fatual da história da humanidade de acordo com o poder-ser do humano enquanto existente, cujo ser é submetido a profunda análise existencial em Ser e Tempo. O Dasein se desdobra na história em suas possibilidades, na medida em que o poder-ser finito do ser-no-mundo (espacialidade do ser-aí ou Dasein) como ser-para-a-morte (temporalidade da pre-sença ou Dasein) realiza o abandono ontológico do ente (a impossibilidade da metafísica pela consumação de suas possibilidades já desdobradas). Assim, o niilismo alcança seu estágio derradeiro no esquecimento da diferença ontológica que se processa em indiferença patológica. Ao mesmo tempo, a consciência sabe de si mesma como Dasein e se auto-aniquila na tentativa de superar a metafísica moderna da subjetividade.
O pensamento da Morte de Deus é a figuração de que o Incondicionado foi abandonado pela vontade de saber do homem, movimento pelo qual o todo do real se mostra como anelante querer da vontade; a intuição do Eterno Retorno é um espanto, é o estar absorto do sem sentido de ser em que se dá a absorção mesma do sujeito pensante na pulsão de morte que se confunde ao conceito da vida como vontade de poder. Assim, a vida é sempre o querer mais da falta, da carência e da imperfeição do sentimento de vida confundido ao processo metabólico de aceleração do pulsar, que gera insuficiência cardíaca e infarta a realidade no súbito acontecimento da morte. Vivemos no interior do infarto da ciência e da técnica, única possibilidade de poluição atmosférica que aniquila o espírito (Nous) bem em seu elemento primordial, o Pneuma Ápeiron (sopro, respiração, ar ilimitado).
A causa sui ou Deus, isto é, o ente cuja essência envolve a existência... cuja natureza não pode ser concebida senão como existente (Spinoza). O ser que não pode ser concebido senão como sendo (ente) só pode ser o Sumo Ente. É tal abandono ontológico do ente como causa sui que desfigura a cultura e imprime na vida as cinzas do círculo vicioso de toda instalação técnica, pragmática e estrutural da civilização mundial: as fumaças de pensamento que se instauram a partir do esquecimento da intelecção do todo do real em seu divino fundamento; as assim chamadas filosofias contemporâneas que se pretendem não só superar a metafísica moderna, mas superar toda a tradição, e à luz do positivismo científico se arrogam o domínio completo da realidade. Hoje mais do que nunca o homem tem posse da realidade, porque já abandonou o que escapa e se mantém no encobrimento do mistério de ser.
Todavia não sabem que a causa sui já se converteu, na consumação da metafísica, em Capital. O conflito entre Deus e Homem é o fundamento da exploração do Homem pelo Homem. Deus, ou seja, o Capital, ao morrer, ressuscita em toda infra-estrutura social econômico-política como Dinheiro que gera Dinheiro, através da circulação de mercadorias, isto é, da economia de mercado capitalista. No conflito entre Deus (Capital) e Homem (trabalhador assalariado), o conceito de ente criado ou criatura é substituído pelo de homem coisificado, pois o dinheiro que gera mais dinheiro é a multiplicação do Uno pela fetichização da mercadoria, a qual equivale à hipóstase elementar do Uno que se processa e emana até morrer na matéria, o Tempo Puro cristalizando-se em entidades espaciais, coisas extensas que se consomem e, advindas ao retorno do eterno, somem.
A Metafísica termina como fracasso da Sistematização do Saber Universal; a Filosofia sucumbe ao capricho da vaidade de intelectuais de Universidade, técnicos de correntes distintas de pensamento são os funcionários da Igreja Positivista da Humanidade Coisificada pela Física Social das Cinzas de Pensamento que poluem a atmosfera da Terra. Não há Filosofia sem Saber Holístco e Sagrado, consequentemente não há Cultura sem Educação como Formação da Humanidade; mas há Civilização mediante a ruína do Pensamento.
*
Considerações sobre as relações entre o imaginário social e
a formação humana e sobre a possibilidade de um intrínseco vínculo entre
paideia e filosofia .
Iniciamos nossa reflexão indicando
o tema principal que nos foi dado pelo nome da própria disciplina que cursamos,
o imaginário social e a educação, de
modo que a escolha do texto base, a polis
grega e a criação da democracia, vê-se perfeitamente vinculada à proposta
subjacente ao título que dá o nome da disciplina. Ver-se-á que a reflexão sobre
a conexão entre o conceito de um imaginário social e a educação passará
necessariamente pela compreensão do advento da polis grega, coetânea à
criação da democracia, de modo que a reflexão e compreensão sobre a educação,
aqui propostas, estejam ancoradas no solo não tão seguro daquela criação sui generis, peculiar ao imaginário
social da Grécia clássica, que denominamos filosofia.
A pergunta pela
possibilidade de uma orientação na história e na política e seu vínculo com o
poder de julgar e escolher serve de fio condutor para Castoriadis pensar a
questão do humano a partir do advento da pólis
democrática e da filosofia na Grécia clássica. O questionamento acerca do
julgar e escolher está relacionado ao projeto de autonomia a caracterizar
intrinsecamente o vivente humano. Junto a isso, procura-se abandonar os
preconceitos extremos segundo os quais a Grécia seria um modelo paradigmático
ou só mais uma espécie de sociedade entre outras. Antes sim, a Grécia se nos
afigura como um gérmen fértil de possibilidades de questionamento da formação
humana, orientada pelo projeto de autonomia, na medida em que ali surgem a
democracia e a filosofia. Por isso, Castoriadis nos diz que:
“A Grécia é o locus social-histórico onde foram
criadas a democracia e a filosofia e onde se encontram, por conseguinte, nossas
próprias origens. Na medida em que o sentido e as potencialidades dessa criação
não estejam esgotados (...) a Grécia é para nós um gérmen: nem um “modelo”, nem
um epécime entre outros, mas um gérmen.”[1]
A filosofia e a
democracia estão, de certo modo, intimamente ligadas a um projeto de sociedade
que exerce um constante questionamento de suas instituições e valores,
característica que configura um claro projeto de autonomia coletiva aberto à
diversidade, à alteridade. É nesse sentido que se pensa a sociedade democrática
grega como gérmen gerador de reflexões sobre o imaginário social instituinte
que estão em constante conflito com o já instituído da sociedade tanto quanto
com sua tendência ao fechamento nas significações sociais instituídas.
Em sentido radical, a
sociedade instituinte é o próprio imaginário social em ação, a atividade de
auto-instituição ou criação de um mundo humano com suas normas, sua linguagem,
seus valores, seus hábitos e objetivos, pelos quais o homem vive e morre. A
Grécia e o advento da polis democrática
constituem esse gérmen porque é ali onde se dá unicamente a prática de reflexão
crítica sobre suas próprias práticas sociais e uma abertura do olhar para
compreender as outras sociedades; obviamente, a prática de reflexão crítica
sobre si mesmo é característica daquela outra criação grega que conhecemos pelo
nome de filosofia. Assim, podemos vislumbrar a educação, ou a paideia grega clássica, em seu vínculo
intrínseco com a filosofia, e com a política democrática em particular, na
medida em que convoca cada habitante da coletividade a inserir-se igualmente no
âmbito comum e público do exercício da cidadania, da autonomia, da auto-instituição
da sociedade, enfim.
Desse modo, o movimento
democrático e filosófico criado pelos gregos nos impulsiona à reflexão sobre o
âmbito de formação humana, aquela formação em que propriamente o homem está a
formar-se incessantemente, através da prática crítico-reflexiva da sociedade
instituída, proporcionando ao homem mesmo, individual e coletivo, o exercício
vivo da autonomia. Isso nos permite pensar a conexão entre o imaginário social
e a educação, em sentido social e político, na medida em que a auto-instituição
da sociedade é “a criação do indivíduo
humano no qual a instituição da sociedade está solidamente incorporada.”
(Castoriadis. 1987, p. 271)
É assim, portanto, que o
imaginário social promove a educação, isto é, a formação humana por meio das
instituições que cria, mas sem que necessariamente resulte em autonomia social
e individual, tomando por base o princípio democrático-filosófico de abertura
para a interrogação crítico-reflexiva sobre si mesmo e sobre os outros, que
permite a liberação do fator criação como instituição de novas determinações,
formas e leis; fenômeno intrínseco à dimensão social-histórica do humano.
Ademais, a pólis democrática grega é
o primeiro acontecimento social-histórico, de que se tem conhecimento, em que o
poder de julgar e escolher se exerce com plena liberdade.
A propósito, resta-nos
agora a questão sobre a possibilidade do julgar e escolher em face da
determinação da história como criação. Para a compreensão adequada dessa
questão, importa sabermos que a história não é vista como “concatenação causal”
e nem como algo que apresenta uma lei de ordenamento de sua natureza (physis) e de sua finalidade (télos). A questão do julgamento e da
escolha é radical justamente em vista de sua relação com a determinação da
história como criação; sua radicalidade acompanha o fato de não haver
fundamento de realidade algum.
E não se trata somente,
segundo Castoriadis, de fazer parte dessa tradição social-histórica que
possibilitou o julgar e escolher, mas sim de que, antes de julgar e escolher
qualquer coisa em particular, já escolhemos esta tradição e julgamos em prol
dela, em prol do julgar e escolher em geral, em prol da deliberação, coisa
impossível para um muçulmano, um cristão, um hebreu, um hindu ou para qualquer
indivíduo não inserido na tradição social-histórica greco-ocidental inaugurada
pelas criações do imaginário social da Grécia clássica que formam, como gérmen,
a mentalidade política do homem ocidental contemporâneo e moderno; essas
criações são, como já sabemos, a democracia e a filosofia. Com efeito, é em tal
âmbito que se vê em pleno exercício o imaginário social, e sua conexão com uma
possível paideia democrática
viabiliza algumas perspectivas de elucidação do sentido da educação em uma
sociedade livre, aberta, democrática.
Todavia, Castoriadis não
deixa de reconhecer que esta tradição iniciada no solo fértil da polis grega é a mesma que produziu a
Inquisição, Auschuitz, o Gulag e a bomba de hidrogênio. Essas características e
fatos que apresentam elementos antidemocráticos e antifilosóficos somente
mostram, porém, que a história greco-ocidental deve ser interpretada do ponto
de vista da história da luta entre a autonomia e a heteronomia das sociedades,
que promove a alteração delas no tempo. E, talvez, a compreensão desse paradoxo
da história seja exatamente o elemento que nos proporciona a intelecção da
história e da sociedade como “criação” do imaginário social, ou seja, da
sociedade instituinte.
A efervescência do embate
entre imaginário social, ou sociedade instituinte, e sociedade instituída, a
loucura (hybris) do elemento agônico
a caracterizar o conflito entre a heteronomia e a autonomia como inerente à
criação histórica e, particularmente, ao fenômeno da democracia e da filosofia
na Grécia antiga configuram aquele referido gérmen a partir do qual nós,
hodiernos, podemos ainda encontrar uma fertilização de reflexões críticas sobre
nós mesmos e nossa formação, cujo andamento acompanha a polifonia
social-histórica da agonia de luta entre autonomia/heteronomia sem a qual a
própria emergência do novo, isto é, a criação ou auto-alteração das sociedades
na história não seria possível.
Não é de outra maneira
que vislumbramos a conexão entre o imaginário social e a educação, na medida em
que esta seja um projeto de formação humana pelo exercício da capacidade de
deliberação, reflexão e auto-alteração do humano. Isso configura a essência
mesma do ensino e da aprendizagem como interação dos sujeitos, aluno e
professor, em que ambos aprendem a aprender, de tal modo que a educação também
comporte, em sua prática, o elemento agônico da criação histórica na história
de vida de cada humano nas sendas da realização de um projeto individual e
coletivo de autonomia; de tal modo, também, que a prática da reflexão seja a
herança legada às gerações posteriores através da educação como articulação
entre paideia, política (cidadania
como participação ativa na vida pública) e filosofia, cujo exemplo primeiro na
história é o advento da pólis democrática
grega e da filosofia, fenômeno social-histórico singularíssimo que proporcionou
e proporciona, a nosso ver e junto com Castoriadis, intensa germinação de
discussões, questionamentos, reflexões, enfim, deliberações a respeito do
humano e de sua formação.
Essa intensa
fertilização, essa germinação de possibilidades de autoquestionamento (que a
Grécia clássica proporciona ao mundo ocidental através de sua história) se
articula com a política e a filosofia porque, conforme Castoriadis, a Grécia
foi a primeira sociedade a criticar e reformular deliberadamente as leis
tradicionalmente herdadas, isto é, foi a primeira a fazer política; e foi
também a primeira a interrogar a representação instituída (mítica ou
religiosamente) de mundo, perguntando-se pela origem e o sentido dos valores de
bem e mal, justiça e injustiça, ser e não-ser, por exemplo, e dando-lhes um
sentido de origem e explicação propriamente humana, fato que indica a Grécia
como primeira sociedade a fazer filosofia. Eis a herança, criação social-histórica,
que a Grécia legou ao ocidente europeu como gérmen de reflexões sobre o humano,
ou seja, sobre a formação (paideia,
educação) humana.
A compreensão da
interrogação reflexiva pode ser vinculada ao exemplo do exercício do juízo
subjetivo reflexivo que caracteriza, em Kant, o juízo estético sobre o belo.
Essa espécie de juízo não tem valor ou uso de determinação objetiva de
fenômenos, o que não exclui a possibilidade de sua universalidade. O juízo reflexivo
assume a característica de elucidação, e não de explicação por cálculos e
demonstrações, uma vez que seu objeto não constitui meramente um vetor de
operações logicamente possíveis no interior de um conjunto. A subjetivação
reflexionante de tal juízo, cuja validade universal se exprime como que em um
sentido comum de educação para o gosto, conserva a necessidade positiva de
contato com a alteridade, na medida em que sua validade universal nada tem de
uma determinação objetiva das representações do ente para a faculdade de
entendimento, que constitui o conhecimento dado por regras universais, coisa
que tem mais relação com as ditas lógica conjuntista-identitária e ontologia
unitária, portanto também com o procedimento das ciências naturais. Antes sim,
a faculdade de juízo apresenta sua legalidade interna na mera forma do juízo
subjetivo reflexivo, na reflexividade da própria subjetividade que faz do
particular um universal aceito por todos, ou seja, de um particular (novo,
singular) que emerge e se apresenta como modelo e regra universal sem perder em
particularidade, do que surge a questão do gênio e da educação estética.
A partir disso, Castoriadis
pode apontar para o elemento da criação,
lamentando que Kant apenas tenha tratado da imaginação criadora em sentido
estético, desvinculado dos âmbitos ontológicos da psique singular e do social-histórico, respectivamente da
existência humana simultaneamente individual e coletiva, de modo que assim não
se tenha pensado o imaginário social em toda sua radicalidade, isto é, em sua
potência geradora de sentido, em seu poder de instituir formas e assim
normatizar ou organizar a vida humana em sociedade, coisa que por si só já está
vinculada essencialmente a uma reflexão sobre a educação como formação do
homem, como socialização do homem e concomitante criação do indivíduo singular,
livre, autônomo, deliberante; exemplo de um cidadão ativo participante na vida
pública, mas não só disso, como também de um ente pensante que se indaga e
reflete sobre a representação instituída de mundo, de ente em geral, exemplo do
cidadão forjado pela educação na filosofia. Além disso, Castoriadis critica a
necessidade de uma universalidade transcendental desencarnada, a busca de um
substrato suprassensível que legitime a apreciação estética.
Trata-se, pois, de pensar
o conceito de imaginário social como fio condutor para conduzir uma reflexão
sobre a educação, de modo que se o compreende, com Castoriadis, como sociedade
instituinte em seu processo de estabelecimento de normas, mantido sempre em
aberto, sempre em questão, através de uma noção de política como prática cidadã
diretamente vinculada a uma não fragmentação da vida humana nas esferas
isoladas do público e do privado, assim constituindo o humano sempre em formação
nas vias do projeto de autonomia individual e coletiva.
Por isso, pensa-se a
educação do ponto de vista de uma unidade de articulação entre filosofia e
política, e assim se compreende a relação de vínculo intrínseco entre o
imaginário social e a educação, posto que vislumbramos um projeto de formação
humana que viabilize a compreensão e o exercício do imaginário social em toda
sua radicalidade, a saber, como prática crítico-reflexiva sobre suas próprias
práticas e poder ativo instituinte do humano, este pensado em âmbito social e
individual, público e privado conjuntamente, no sentido de possibilitar-lhe uma
existência autônoma em face das tendências heteronômicas da sociedade em
fechar-se nas suas próprias significações sociais instituídas. Não por acaso
Castoriadis dizer que:
“Apenas a educação
(paidéia) dos cidadãos enquanto tais pode dotar o “espaço público” de um
autêntico e verdadeiro conteúdo. Mas essa paidéia não é, basicamente, questão
de livros ou verbas para as escolas. Ela consiste (...) na tomada de
consciência, pelas pessoas, do fato de que a pólis é também cada uma delas, e
de que o destino da pólis depende também do que elas pensam, fazem e decidem;
em outras palavras: a educação é participação na vida política.”[2]
Considerando-se que a
Grécia clássica proporcionou a Castoriadis a germinação de possibilidades
reflexivas, aqui consideradas, acerca de um conceito de imaginário social e seu
vínculo com a educação, de modo que isso se fez necessariamente através do
estabelecimento de uma relação intrínseca entre a formação humana iniciada na
Grécia clássica e os elementos da pólis
e da criação da democracia, e que isso não deixou de estabelecer um vínculo com
a filosofia como crítica reflexiva sobre as representações de mundo
instituídas, então concluímos este trabalho evocando não só uma relação
superficial entre filosofia e educação (paidéia),
mas chamando a atenção para “a formação como meta da filosofia”, de modo que
esta nunca se torna obsoleta, em face da ciência, e determina de modo
intrínseco todo projeto formativo humano possível na tradição ocidental, pois todas as outras ciências serão mais
necessárias do que esta, mas nenhuma lhe será superior[3].
Assim, concluímos com as seguintes citações evocando, para além de qualquer
rixa, a importância fundamental da filosofia para a prática de formação humana,
de tal maneira que se veja também em perspectivas diversas de pensamento muito
mais a possibilidade de uma comunhão reflexiva que de embates pessoais e
vaidosos:
“tékhne não é apenas a forma prévia da epistéme, mas se introduz essencialmente nela; domínio, direção e
utilização do conhecimento não são algo almejado apenas na técnica em sentido
estrito, mas em toda prática profissional. A ciência sempre tem por meta o
“desempenho”, enquanto a filosofia sempre tem por meta a “formação” no sentido
fundamental da paidéia platônica. Na
ciência, que é sempre inconclusa, aberta, há por isso necessariamente progresso
e desenvolvimento, há resultados, ou seja, algo que pode se tornar obsoleto. Na
filosofia, por outro lado, nenhum resultado pode ser registrado. Por essa
razão, ela também nunca pode se tornar obsoleta”.[4]
“(...) é preciso atentar
ainda para o fato de os gregos (...) terem vivido muito mais intensamente na
linguagem e no discurso público do que estamos acostumados a fazer. Pensar
significava para eles propriamente discutir em público. Nem o livro nem mesmo o
periódico desempenhavam aí algum papel.”
“(...) É por isso que a
lógica antiga em Platão e Aristóteles se encontra em uma conexão íntima e
totalmente estreita (...) com aquela ciência e conhecimento que se ocupam em
particular do discurso público, a saber, a retórica. Assim, todos os problemas
fundamentais da lógica platônica são ao mesmo tempo problemas de retórica.”[5]
Com isso, poderíamos nos perguntar se a filosofia, a
participação política na vida pública, a cidadania, a formação humana, a
autonomia exercida através da deliberação em comum como atividade criadora e
reflexiva dos sentidos que a sociedade se dá, o imaginário social, a educação,
enfim, seria a existência humana um mero jogo de retórica? Quais as
consequências da determinação da essência do homem pelo jogo retórico, pela
auto-instituição de valores e sentidos que o homem coletivo se dá e, assim,
cria a individualidade e forma, educa, a humanidade? Se o homem é quem institui
social-historicamente os valores e os questiona a fim de não cair em
heteronomia alienante, se o homem é esse projeto de autonomia em um jogo
retórico sem regras e valores em si mesmos e por si mesmos existentes, reais,
absolutos, então isso não significa dizer que “vale tudo”? Isso nos mostra como
é ainda vigente aquela discussão inicial entre Trasímaco e Sócrates sobre a Justiça
que desencadeia todo o drama do livro magno (a nosso ver) da filosofia
ocidental, a República de
Platão.
Desse modo, aproveitamos a deixa da citação acima que
indica a meta da filosofia como sendo a “formação” no sentido fundamental da paidéia platônica, em sentido diverso da
ciência que busca sempre resultados efetivos e imediatamente utilitários a
partir de um projeto de dominação, utilização e direção do ente pelo
conhecimento técnico, de tal maneira que isso promova uma instrumentalização da
existência humana, como nos mostra o atual mundo do trabalho e do
entretenimento, bem como o incessante fomento de guerras em prol da expansão
sempre renovada do domínio de territórios a fim de garantir o uso regulado e
planejado da matéria, dos recursos naturais e do labor humano de modo a
promover o mundo da produção técnica do consumo. E fazemos isso exatamente
porque concebemos a total falta de uma paideia
e mesmo de uma discussão no sentido de uma formação integral que discuta os
destinos da pólis (coletividade)
mundial, na medida em que hoje já é impossível escapar da mundialização e do
consequente cosmopolitismo forçado que lhe acompanha, e isso infelizmente para
os que desejam o sossego de sua vida comunitária simples e autossuficiente em
harmonia com o seu meio ambiente e suas significações sociais instituídas.
Portanto, muito mais do que defender que os pensadores
contemporâneos pensam com mais perspicácia a atualidade e de determinar que uma
paidéia platônica seja um
anacronismo, retornamos às reflexões de Castoriadis sobre Kant em busca de
elucidar seu conceito de imaginação radical no texto Imaginação, Imaginário, Reflexão situado em Feito e a ser feito. Ali, Castoriadis nos aponta a noção kantiana
de imaginação a partir do esquematismo na Crítica
da razão pura; a imaginação é uma potência recôndita nas profundezas da
alma humana que faz mediação entre as categorias do entendimento e os dados da
sensibilidade. Porém, é na Crítica da
faculdade de julgar que a imaginação aparece, não explicitamente, como algo
não submetido ao elemento cognitivo e funcionalmente lógico do entendimento, e
sim como a potência criadora ali denominada gênio,
que procede como natureza. Assim, é
possível o fruir do livre jogo da imaginação em conformidade às leis do
entendimento na obra de arte, cujo valor reside em que apresente as ideias da
razão (determinações do ente supra-sensível) na intuição (configuração
espaço-temporal do ente sensível).
Embora Castoriais em seguida cite algumas obras de arte
em que não percebe a apresentação das ideias da razão (aquelas noções puras que
não têm um correlato na experiência e que, portanto, não são dados sensíveis
para o uso especulativo ou lógico da razão em vista da construção de um
conceito de natureza como objeto cognoscível, mas que são úteis, segundo Kant,
como postulados do uso prático da razão e servem de princípios metafísicos que
fundamentem uma ética, tais como: imortalidade da alma, Deus etc.), pode-se
considerar que as ideias da razão constituem aqueles númenos (os entes em si
mesmos) que permitem a formação do caráter e das atitudes humanas em tudo que
praticam, a saber: ciências, esportes, artes, trabalho, lazer, conversar etc.
E isso de tal maneira que
uma discussão de noções puramente inteligíveis, mas não palpáveis como objetos
físicos, tais como justiça, coragem, temperança e sabedoria, tão citadas por
Platão como características do filósofo e cidadão autêntico de uma
coletividade, sejam ainda aquilo a respeito do que se precisa deliberar com o
intuito de promover uma paideia
cosmopolita, uma formação necessariamente vinculada ao inelutável destino da
humanidade técnico-científica hodierna, a fundação de uma cidade universal, o
que não escapa aos paradoxos inerentes a um antagonismo social-histórico entre
heteronomia e autonomia e a um projeto formativo que vise a resguardar,
concomitantemente, a singularidade e diversidade dos indivíduos, dos povos e
das culturas em meio a um mínimo de uniformidade que a comunicação e a
convivência exigem de todos.
É com esses apontamentos
reflexivos, que não oferecem respostas definitivas, mas que abrem o espaço de
reflexão para o vislumbre de possibilidades de instauração de projetos de ser,
de existir, de co-habitar, de conviver etc. enfim, é com isso que fechamos
nosso trabalho, indicando, à luz do que se disse, a possibilidade de uma
reflexão, com Schiller, acerca de uma Educação
Estética do Homem, o que não seria algo distante de um imaginário social
peculiar aos gregos clássicos, que tinham no conceito do belo um elemento fundamental de valor, inclusive, ontológico, sem o
qual não é possível a um ente ser, pois ser si mesmo e ser belo é estar em
conformidade às leis da natureza de cada ente, do cosmos como totalidade do
ente múltiplo em ordem e unidade, assim como, na Teogonia de Hesíodo, apesar dos exageros literários, as maiores
atrocidades “cometidas” pelos deuses não revelam outro princípio senão que as
forças olímpicas, a terceira geração dos deuses, manifesta o poder de ordenação
da matéria em meio ao caos, no sentido da formação dos mundos e da totalidade
organizada dos reinos (céu, terra, oceanos, mundos inferiores, Hades, Olimpo,
humanidade). Pois o Cosmos é
ordenação do caos em um equilíbrio entre forças titânicas e obscuras que
promovem a degradação (phtorá) da
matéria e forças olímpicas e brilhantes ou formadores que promovem a geração (gênesis) dos entes determinados ou
individuados na e com a matéria; a formação do homem deve acompanhar o mesmo
movimento, pois o homem é um desses entes que se formam no interior do Cosmos.
BIBLIOGRAFIA:
ARISTÓTELES. Metafísica; ensaio introdutório, texto
grego com tradução e comentário de Giovanni Reale; tradução Marcelo Perine. São
Paulo: Edições Loyola, 2ª edição: junho de 2005.
CASTORIADIS, Cornelius. A polis
grega e a criação da democracia. In: Encruzilhadas
do Labirinto II. – Domínios do homem.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
____________. Feito e a ser feito
– as encruzilhadas do labirinto V;
trad. Lílian do Valle – Rio de Janeiro: DP&A, 1999. p. 254-255.
HEIDEGGER. Introdução à Filosofia.
Trad. Marco Antônio Casanova. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Doutrina Holística / Tese de Mestrado
Capítulo
1: Esboço geral da ideia de projeto de uma constituição da formação (Paideia) integral do homem como
fundamento da ciência primeira ou metafísica geral em sentido clássico
socrático-platônico a partir da Filosofia da Natureza de Schelling.
Assim toda filosofia é como uma árvore, cujas raízes
são a Metafísica, o tronco é a Física, e os ramos são todas as outras ciências.
René Descartes
1.1 Introdução:
Inicialmente nosso tema
central é a questão da dialética entre o consciente e o inconsciente na
Filosofia da Natureza de Schelling. Desse modo, trata-se de entender em que
medida essa dialética está no fundamento de uma especulação acerca da natureza,
em que medida o projeto de uma física especulativa ou ontologia da natureza,
proposta por Schelling, traz em seu bojo a compreensão da constituição
estrutural do ser da natureza como sendo o movimento mesmo de
espaço-temporalização da referida dialética, ou seja, o processo de
sujeito-objetivação da natureza a tornar-se consciência-de-si. Como essa
autoconsciência só irrompe na inteligência capaz de intuir a ideia presente na
natureza de forma objetiva ou real e como essa mesma inteligência se
autopercebe como sendo espelho ou reflexão da subjetividade livre da natureza
como processo de autoprodução da ideia absoluta, assim estabelecendo uma
conexão interna entre a Filosofia da Natureza e a Filosofia da Arte no sistema
de Schelling, então o problema do questionamento acerca da dialética entre o
consciente e o inconsciente na Filosofia da Natureza de Schelling também
implica em algumas considerações sobre a relação e integração do homem com a
natureza em geral. Afinal, o homem é um produto natural e, em especial, um
produto em que propriamente a natureza mesma chega a tornar-se
consciência-de-si como idealidade absoluta e sujeito livre em autoprodução que
se objetiva em realidade produzida, isto é, nos produtos, entes ou fenômenos
que propriamente constituem os objetos de conhecimento da consciência reflexiva
do homem.
Antes de qualquer
consideração, é importante lembrar que em 1800, em sua obra intitulada Sistema do Idealismo Transcendental,
Schelling afirma a perfeita unidade ou identidade entre a filosofia
transcendental, ou metafísica geral, e a filosofia da natureza como parte
integrante da mesma, porém aqui estamos amparados por um texto mais curto do
ano de 1803, a saber: Exposição da Ideia
Universal da Filosofia em geral e da Filosofia da Natureza como parte
integrante da primeira[1];
este texto é um apêndice às Ideias para
uma Filosofia da Natureza. A Filosofia Transcendental realiza um movimento
de compreensão do real (matéria, natureza) a partir do ideal (espiritual, como
subjetividade que constitui a experiência de objetos segundo determinações a priori), mas como seu objeto é o
absoluto, e neste não se admite uma separabilidade entre sujeito e objeto,
então se constitui como saber absoluto que parte do axioma fundamental que o
sustenta como sistema do saber especulativo em geral, ou seja: a afirmação da
perfeita identidade entre o ideal e o real. Assim, a filosofia da natureza, que
explica o ideal a partir do real, perpassa a suposição da presença da ideia
objetivada na natureza, ao modo de uma inteligência adormecida na matéria. Isso
leva Schelling a entender que a natureza inorgânica resguarda em si esse
adormecimento da vida que deve movimentar-se gradativamente, como devir da
matéria em conformidade a fins, até a formação dos organismos e, finalmente, à
autoconsciência da inteligência e de seu devir natural na formação do homem,
ser vivo e natural em que vem à luz a razão, o espírito ou lógos.
Desse modo, compartilhamos
da interpretação da Introdução das Ideias
para uma Filosofia da Natureza, elaborada por Marcia C. F. Gonçalves[2],
acerca da filosofia especulativa da natureza de Schelling, também conhecida
como física dinâmica, em alternativa à física mecanicista do século XVIII,
baseada nos pensamentos de Descartes, Galileu e Newton. Mediante o estudo
desses textos obtivemos uma compreensão acerca da natureza, proposta por
Schelling, como sendo o movimento de autoformação da totalidade universal. Essa
compreensão se dá a partir da tese schellinguiana da “Ineinsbildung” [formação-em-um ou imaginação interior] do infinito
no finito e vice-versa, exposta por Schelling na Introdução das Ideias para
uma Filosofia da Natureza. A partir disso, fomos levados à seguinte
compreensão da ideia da natureza, a
saber: a ideia da autossustentabilidade (Selbstständigkeit)
como sendo uma qualidade intrínseca ou uma determinação ontológica efetivamente
real e essencial do ente em questão, a natureza, do qual nenhum ente ou
produção se encontra apartado, seja como produto da arte ou qualquer tipo de
fabricação humana, visto que o conceito de arte de Schelling nos encaminha para
a compreensão da obra humana como espelhamento da produtividade da natureza,
assim realizando a conexão intrínseca entre a inteligência inconsciente (natureza,
como devir autoformador da matéria) e a consciente (homem, história como devir
autoformador do espírito).
Assim interpretamos a tese
schellinguiana sobre a liberdade ou autonomia da natureza, a partir da interpretação
do conceito alemão de Selbstständigkeit [que pode ser traduzido por
autonomia, autossuficiência], como autossustentabilidade. Porém, ressaltamos
que Schelling também não possui uma tese clara sobre a autossustentabilidade da
natureza. Esta é uma interpretação a partir, de novo, da tese da Einbildung des Unendlichen in das Endliche
(imaginação do infinito no finito[3]), que Schelling defende na introdução das Ideias. (I,2,65).
Gostaríamos
ainda de ressaltar um ponto, a saber: que no decorrer do texto podemos ser
taxados de estarmos imbuídos de intenções dogmáticas ou teológicas; porém, aqui
gostaríamos de deixar manifestos nossos intentos próprios, já que estamos no
início do texto. Entendemos que a tese da imaginação do infinito no finito
juntamente à compreensão do homem como inteligência consciente, em que a
inteligência inconsciente se individua e atinge ciência de si como Eterno Ato
de Conhecimento, nos permite vislumbrar que exteriormente, como aparência, a
forma humana é a perfeita imagem do Universo individuado; porém, precisamos
também nos questionar quanto à correspondência dessa aparência exterior,
internamente, ao interior da produtividade infinita enquanto atividade
produtora (geradora), de maneira que o agir e o produzir humanos estejam em
conformidade à natureza, isto é, em semelhança à essência produtora, na medida
em que nesta se encontram todas as propriedades inerentes, suficientes e
necessárias, para que o movimento infinito de produtividade autoformadora da
matéria se mantenha sempre na lei de seu devir, gerando, fazendo crescer as
formações da matéria desde os entes inorgânicos aos orgânicos, assim dando
forma à vida.
Como
a constituição do conceito de natureza, mediante uma ontologia geral ou
filosofia especulativa que se deixa determinar por uma noção de ente em geral
como natureza, equivale à descrição do processo de autoformação da
matéria[4], e como este processo culmina na
formação ou produção do homem, enquanto espécie de ser vivo inteligente e
consciente, então o sistema do saber em geral (metafísica) deverá
integrar também em seu conteúdo uma Filosofia da História (Fenomenologia do
Espírito), posto que o homem se autoforma na lei de seu devir, como
história, e produz os meios culturais para formar-se a si mesmo (Paideia).
Então, fica claro que apresentamos uma tese própria, e não só fazemos uma
problematização conceitual e técnica de um ou mais filósofos. Utilizamos a
figura de linguagem bíblica, que o homem foi criado à imagem e semelhança de
Deus, pois O lado real daquele agir eterno torna-se patente na natureza: a
natureza em si ou a natureza eterna é justamente o espírito trazido à luz na
objetividade, a essência de Deus introduzida na forma (Schelling. 1979,
p.52). Essa natureza eterna (ou natureza naturante) é uma e a mesma em relação
à natureza que aparece (natureza naturada), isto é, o mundo como totalidade do
ente ou Cosmos; porém, a inteligência individuada em consciência humana
apenas percebe a finitude, a lei da dança ou do movimento da vida e da morte, da
geração e da corrupção, até autocompreender-se como ente essencialmente
temporal e finito no mundo e formular uma analítica da existência (Dasein)
enquanto ser-no-mundo.
Apesar
de o discurso de uma analítica ôntico-ontológica do Dasein carregar o
peso de estabelecer o poder-ser próprio de nossa presença (de nosso ser-aí) no
mundo, como Kant estabelecera limites para a Razão (Lógos) Pura Teórica
quanto ao que se pode conhecer, apesar dos esforços em compreender a superação
da metafísica como tradição ontoteológica fundada no esquecimento quanto
ao fundamento infundado da diferença entre ser e ente, que vigora velado,
portanto inquestionado durante o devir histórico-ontológico da Era da metafísica
consumada na dominação técnico-científica do pensamento ocidental[5], apesar do ataque a marteladas aos
fundamentos judaico-cristãos da cultura ocidental, como platonismo para o
povo[6], intentamos empreender, a partir do
idealismo alemão, ou do que ele possa nos fornecer, uma retomada do ideal
clássico socrático-platônico do homem Bom, Belo e Justo, assim erigindo
a Bondade, a Beleza e a Justiça como valores universais ou postulados da Razão
Prática, valores regulativos da ação e da volição humanas. Contudo, antes de
Sócrates ou Platão, Heráclito já dizia: Para o deus são belas todas as
coisas e boas e justas, mas homens umas tomam (como) injustas, outras (como)
justas[7]. Neste fragmento já se vê a Quadratura
de Heidegger, a diferença poética ou unidade originária (diferença quanto ao
ser, pois o ser é poesia, somente pela qual os homens e os deuses habitam o
mundo em uma unidade originária[8], quando os mortais poetizam a
existência nos mitos, nas fábulas e nas revelações proféticas[9]) entre os deuses e homens, imortais e
mortais, Céu e Terra, pois os deuses são a Bondade, a Beleza e a Justiça,
enquanto os homens, sem essência determinada, existem projetivamente na
alternância entre ser e nada e na angústia da presença do nada (ser) pela
antecipação da morte ontológica (não biológica), como ser-para-a-morte.
Desse
modo, empreenderemos a seguir uma confrontação dialógica com Immanuel Kant
(Crítico da Razão e da Faculdade do Juízo), Friedrich Nietzsche (Crítico da
Cultura Ocidental e seus fundamentos socrático-platônicos) e Martin Heidegger
(destruidor-desconstrutor da história da ontologia ou da tradição metafísica
ocidental) no sentido de nos anteciparmos a possíveis críticas, as quais
obviamente poderiam ser fundadas em outros pensadores ou pressupostos
distintos. Somente depois disso, passaremos à nossa proposta de retomada de um
sentido possível da metafísica como sistema do saber em geral, isto é,
como construção, constituição e regulação do conceito de Universo (Natureza)
que se espelha ou reflete (mediante o processo de imaginação do infinito no
finito acima referido) na cultura ou na obra humana; na esfera do espírito
objetivo como constituição política da coletividade humana (Estado, ou Pólis;
que engloba a família e a sociedade civil e sustenta as divergências sociais
sob a ideia da equanimidade como fundamento da justiça social); na esfera do espírito
absoluto, como integração da arte (intuição sensível do infinito finitizado
na beleza da forma, aparência), da religião (representação do absoluto como Deus
dos deuses e introspecção do todo na subjetividade humana pela fé
religiosa e consideração da sacralidade da totalidade do ente como reflexão da
Bondade divina, Cosmos = Natureza + Espírito) e da filosofia (pensamento
sistemático que se move no cerne do conceito, indistinção entre real e
racional, ideia e matéria, espírito e natureza; assim o filósofo é o Rei da Pólis,
como propõe Platão em A República, pois constrói, constitui e regula a
fundamentação da formação (Paideia) humana e estabelece a permanência da
Cultura no devir da História.
1.2 Esboço resumido do desenvolvimento do tema:
Schelling
procura argumentar em prol da tese segundo a qual a inteligência se encontra
adormecida ou inconsciente na natureza e que, nesse modo, ela pode ser intuída
imediatamente em uma visão de mundo. Mas a inteligência se encontra consciente
na criação de um mundo ideal mediada por conceitos ou pela razão humana, de tal
modo que a filosofia especulativa da natureza seja compreendida como criação do
conceito de natureza do ponto de vista de sua idealidade. A criação da ideia de
natureza pelo espírito equivale à descrição consciente do processo de seu vir a
ser como autoformação da matéria, de maneira que a cisão entre espírito e
matéria, isto é, entre a subjetividade livre e produtora (idealidade) e a
objetividade real e necessária no seio da própria natureza atinja uma síntese
dialética entre o consciente (construção conceitual) e o inconsciente (visão ou
intuição de mundo), assim integrando homem e natureza na totalidade universal,
esta equilibrada por uma conformidade a fins ou lei que regule as potências ou
dimensões da matéria em seu devir infinito mediante um processo evolutivo e
gradativo de formação-em-um ou imaginação do infinito no finito[10].
O
tema a dialética entre o inconsciente e o
consciente na Filosofia da Natureza de Schelling, a nosso ver, implica em
algumas considerações teóricas sobre as relações entre o homem e a natureza
concernentes ao problema mundialmente vigente sobre as ações humanas estarem
necessariamente mais equilibradas com o ecossistema. Se não podemos, como
filósofos, apresentar uma solução pragmática para as discussões sobre economia
sustentável e outras formas de preservação ambiental, podemos, contudo,
contribuir com uma filosofia especulativa da natureza e com uma ideia de
sistematização do saber em geral que viabilize o vislumbre de uma possível
orientação da consciência humana nos rumos de uma visão de mundo e, sobretudo,
de uma criação do conceito de natureza com intuitos holísticos de integração do
homem com a natureza em geral, no sentido de uma integração e harmonização
universal.
Pois
se a natureza como sujeito é produtora, natureza naturante como idealidade da
natureza em sua infinitude, e se a natureza como objeto é ente produzido, isto
é, natureza naturada como objetividade da natureza em sua finitude, ou seja, superfície
em que se mostra o fim da produção na geração e corrupção constante dos
produtos (entes), mantendo-se velado o ser mesmo desse ente, a natureza, como
imanência autoprodutora infinita que se processa conforme a uma lei interna que
se dá seus próprios fins em uma incessante projeção ou produção de dimensões ou
potências da matéria até a geração de organismos (seres vivos), não seria então
o caso de o sistema do saber em geral vislumbrar a arte (técnica) como
atividade humana essencial, em que se dá a síntese entre real e ideal no
espelhamento da autoprodução da ideia absoluta presente na natureza como lei de
seu devir?
Portanto,
esboçamos, a partir do sistema de Schelling, a indicação do projeto de
sistematização do saber em geral partindo de uma filosofia ou ontologia geral,
a metafísica propriamente dita como construção da ideia da natureza em geral a
partir de seu fundamento transcendental, e não de sua realidade empírica
objetivamente dada; mas como a filosofia da natureza se encontra como parte
integrante da mesma, visto que se intenta recuperar o conceito universal de
natureza como ente em geral, e visto que esta realiza o movimento inverso
àquela, partindo da realidade natural como objeto da experiência cognoscível
traduzida em idealidade conceitual, então a Filosofia da Arte aparecerá como
síntese entre ideal (natureza consciente) e real (espírito adormecido) e
apresentará a ideia do belo como parâmetro para a ordem e justa medida de toda
ação humana, de tal modo que toda ação humana seja “arte” e que toda arte seja
criação do conceito de natureza e intuição (visão) de mundo na realização de
uma prática racional concordante a uma lei universal para toda ação igualmente
livre e necessária.
A
propósito, uma análise do artigo Arte e
Sistema de Arturo Leyte Coello[11]
muito elucidaria este ponto, embora não possamos fazer isso agora. Importa ao
menos indicar que, nesse artigo, o autor retoma a antiga partição estóica do
sistema do saber em Ética, Lógica e Física, de modo a apontar que no pensamento de Schelling a Ética ocupa o lugar de uma Filosofia da
História, a Física o de uma Filosofia
da Natureza, enquanto a Lógica é
substituída pela Arte como função de conexão ou vínculo entre as partes do
sistema (vínculo das ontologias regionais com a ontologia geral); assim, a Lógica é substituída pela Filosofia da
Arte, sem perder de vista que as partes do sistema são imagens do sistema
inteiro, de modo que uma suposta oposição entre Lógica e Arte, entre
linguagem racional argumentativa ou conceitual e palavra poética ou figura de
linguagem mítica, revele tão-somente que o Lógos
é, enquanto princípio-guia (Arqué)
universal, o pensar e enunciar de um artista, figuração do demiurgo platônico
que forma a matéria a partir da contemplação das ideias e do plano puramente
ideal, que se objetiva na natureza-que-aparece como totalidade do ente ou
Universo[12]. Como
síntese do pensamento schellinguiano, vale reproduzir aqui o parágrafo de
encerramento do referido artigo, o qual é suficiente para desmontar toda nossa
pretensão ou intenção teológica ou dogmática:
“Mas é muito possível que o melhor Schelling esteja
só começando nesse momento e que tenha tido que formular a questão do sistema,
afastado da arte, como sistema da identidade, mas para abandoná-lo. É muito
possível que seus escritos posteriores, inclusive os dedicados à filosofia da
natureza, voltem a descobrir a realidade original do conflito e o próprio peso
do obscuro e desconhecido que alenta em tudo, até na própria realidade natural
que se acreditava compreendida em uma filosofia da natureza. E é muito possível
que o papel que representou a arte até um momento determinado, que chega até
1800, seja retomado pela religião, que se constituirá no novo órgão da
filosofia. Mas que será um órgão que volta a expor a realidade que agora, além
disso, de se entender como oposição entre inconsciente e consciente, será
entendida como conflito mesmo do tempo e da história, a saber, conflito entre o
passado no consciente e o futuro consciente, entre a mitologia (que representa
o passado) e a revelação (que representa o futuro). Mas isto nos introduz em
outro Schelling ou, talvez, só nos retorne ao Schelling que nunca abandonou a
visão do conflito e a perspectiva de que a filosofia, embora queira o sistema,
jamais poderá abandonar o positivo, o individual e o singular, e que se o
sistema não pode integrá-lo. Isto será algo só historicamente possível, será
melhor abandonar o sistema.”[13]
1.3 O Saber do Absoluto como Ciência
da Natureza em geral:
Schelling
inicia A Exposição da Ideia Universal da
Filosofia em geral e da Filosofia da Natureza como parte integrante da mesma
pela compreensão da filosofia como ciência da igualdade entre o absolutamente
ideal e o absolutamente real. Fora dessa igualdade há somente realidade
sensível e condicionada. Essa igualdade é princípio e fundamento de toda
demonstração, por isso só se a prova indiretamente[14].
A
Filosofia é a única ciência que tem o saber como objeto, portanto é um saber
incondicionado, insubordinado. Ela é saber absoluto porque é saber do absoluto,
e vice-versa. A indiferença entre o Absoluto e o próprio saber absoluto indica
a identidade entre o absolutamente real e o absolutamente ideal. Essa
identidade é condição de toda cientificidade superior e ocorre também na
geometria e na matemática, ao passo que na filosofia ocorre em significação
mais elevada por afastar de si toda referência sensível.
A
concepção do absolutamente ideal designada por saber absoluto indica o absoluto
como eterno ato de conhecimento. O saber absoluto é o subjetivo e o objetivo
não unificados como opostos em uma síntese extrinsecamente forçada pelo
entendimento reflexionante, mas sim como um sendo o outro inteiramente. O
absoluto se define logicamente como matéria e forma na pura identidade da
absolutez em si e para si. A identidade pura (produtividade infinita), ou
absolutez, se introduz para-si-por-si-em-si mesma na subjetividade e na
objetividade, possibilitando-as e não sendo fragmentariamente uma ou outra
somente, mas sim identidade pura como sujeito-objetividade indivisa (unidade
duplicada e cindida em si mesma de natureza naturante e natureza naturada =
série infinita de 1-1+1-1+1... em que propriamente sua auto-aniquilação retorna
a si e produz o que é intermediário entre ela mesma {1} e nada {0},
a
saber: ½, simbolismo matemático da unidade que é, em verdade, duplicidade ou
dualidade constitutiva do real em sua totalidade)[15].
O
absoluto ou eterno ato de conhecimento (em si mesmo matéria e forma) é um
produzir que faz de si (como pura ideia) forma real e se dissolve, como forma
real objetiva, na essência ou no sujeito. A matéria ou essência é o absoluto
como pura subjetividade que produz em si a forma e a objetividade revelada em
uma superfície exterior de fenômenos. A objetividade da forma se dissolve
novamente na essência da matéria como um processo de retomada da objetividade
(natureza naturada) inteira na subjetividade (natureza naturante). Não há saída
do absoluto de si mesmo. Ele próprio é esse eterno agir produtor como eterno
ato de conhecimento, que se desdobra na geração da subjetividade ou infinitude
inteiramente formada na objetividade ou finitude, bem como o retorno ou
dissolução desta naquela, isto é, a forma se dissolve na essência (matéria).
No
absoluto se dão, indivisas, essas duas unidades, quais sejam: o sujeito como
dissolução da forma na essência (matéria) e o objeto como formação da essência
na forma; por final, um terceiro momento reúne a figuração da essência na forma
e desta na essência. Esse processo do eterno ato de conhecimento que é o
absoluto não é outro senão a figuração ou formação-em-um (imaginação) do
infinito no finito, através dessas três unidades, ideias ou mônadas. Estas são
particulares e universais ao mesmo tempo, somente o modo de a identidade pura
ser sujeito-objeto opera uma distinção. As ideias são sínteses da identidade
absoluta entre o universal (essência) e o particular (forma). Quando uma dessas
unidades capta a si mesma como forma, ou diferença relativa, as coisas
singulares surgem como um momento de cristalização do eterno ato de
transformação da essência na forma, isto é, da figuração do infinito no finito.
Essa diversificação produzida, porém, é inessencial ou quantitativa e se
assenta no grau da figuração do infinito no finito.
As
três unidades acima expostas constituem, portanto, a figuração do infinito no
finito como estruturação do universo na formação da série dos corpos. A filosofia
da natureza explica e constrói o conceito de natureza mediante a distinção
lógica entre natureza naturante e natureza naturada, a qual na realidade não
constitui uma diferença ontológica, pois ambas manifestam uma mesma natureza
que aparece na superfície da objetividade real fenomênica dos produtos e que
permanece, contudo, inaparente
enquanto pura produtividade infinita que se mostra e se esconde nos
produtos.
Ao
passar da consideração da filosofia em geral como saber absoluto para a
filosofia da natureza[16],
fala-se a respeito do lado real daquele agir eterno, pois este agir como ato de
conhecimento eterno do absoluto foi entendido anteriormente a partir da
idealidade pura do saber absoluto. Que não se esqueça, porém, que ideia e realidade
são absolutamente idênticas, para Schelling. A realidade do agir eterno se
torna patente na natureza porque esta é a própria ideia objetivada. No entanto,
como natureza eterna, natureza naturante ou ato de conhecimento absoluto, a
figuração do infinito no finito, ou seja, a manifestação do espírito que vem à
luz na objetividade como introjeção da essência divina (universal) na forma
(particular) compreende o movimento inverso (a outra unidade) na identidade
pura de sujeito-objetivação do absoluto. Já a natureza que aparece se
caracteriza como uma exterioridade em face do ato de conhecimento eterno (o
absoluto ou natureza naturante). Isso corresponde à corporificação ou
ex-posição (posição para fora) da natureza eterna, ou seja, à fixação da
finitização do infinito em uma forma particular que, como diferença relativa,
caracteriza uma diversificação inessencial e quantitativa, mas não essencial ou
qualitativa.
Essa
natureza que aparece é chamada de natureza naturada como corpo ou símbolo da
natureza naturante. Adiante[17],
Schelling diz que aí o Absoluto se oculta em um outro do que ele mesmo é em sua
absolutez (identidade pura). Nesse outro de si, dá-se uma fragmentação do mundo
entre sujeito e objeto na inteligência humana, res cogitans e res extensa,
e a consequente concepção de uma ciência físico-matemática mecanicista que
apenas calcula objetos no espaço e, em seus deslocamentos, objetiva causas
extrínsecas do movimento dos corpos em geral. Aqui a natureza apenas se mostra
no que há de inessencial, sua diversificação quantitativa em corpos singulares,
mas nunca alcança nela as ideias ou mônadas, as unidades absolutas ou os entes
em si mesmos que, no reino ideal, são qualitativamente unos ao real como
identidade pura entre essência (matéria) e forma, universal e particular,
infinito e finito, natureza naturante e natureza naturada.
Assim,
embora muitos possam considerar anacrônico, pois o tempo moderno já passou, as palavras com as quais Schelling
finaliza a Exposição da Ideia Universal da Filosofia em geral e da Filosofia
da Natureza como parte integrante da primeira revelam o intuito de nosso
projeto, que não é uma exposição de problemas conceituais, mas a tentativa (e
aqui o termo “tentativa” diz muito) de compreender a constituição do saber em
geral, ou a metafísica, como sistema da Paideia universal, inspirados
por uma obra clássica, A República de Platão e pelo ideal do que é bom,
belo e justo. Talvez estejamos tentando elaborar uma Doutrina Dogmática sob o
nome de Filosofia, e talvez isso se assemelhe à configuração da religião,
da qual Schelling nos fala no trecho a seguir, mas certamente não pretendemos
nos erguer a um posto como o de Papa de uma Igreja Universal do Reino de Deus,
muito menos arregimentar um rebanho de fiéis; nosso objetivo somente é expressar
o que nos é dado, espontaneamente, a pensar:
“O caráter de todo o tempo moderno é
idealista, o espírito dominante é o retorno à interioridade. O mundo ideal
move-se poderosamente para a luz, mas o que ainda o retém é que a natureza se
retirou como mistério. Os próprios segredos que estão naquele mundo não podem
tornar-se verdadeiramente objetivos, a não ser no mistério da natureza
enunciado. As divindades ainda desconhecidas, que o mundo ideal prepara, não
podem entrar em cena como tais antes de poderem tomar posse da natureza. Depois
que todas as formas finitas forem desmanteladas e no vasto mundo não houver
mais nada que unifique os homens como intuição comum, somente a intuição da
identidade absoluta na mais completa totalidade objetiva pode, de novo e na
última configuração da religião, unificá-los para sempre. [18]
1.4 Nossa proposta
de sistematização do saber em geral
Deparamo-nos com uma questão que se
duplica em uma via de dois sentidos, cujo fim é o mesmo: 1ª - a tese de
Schelling de que o saber humano (inteligência autoconsciente) se fundamenta na
própria natureza (que inclui também a atividade ou inteligência inconsciente);
e 2ª - a tentativa de compreender a sistematização de Schelling de um saber
universal, ou seja, de um saber da totalidade, do universo, da natureza como
absoluto. Em meio a isso, surge a consideração e antecipação dialógica de
possibilidades de crítica ao nosso projeto de interpretação da constituição
dogmática da metafísica como Paideia humana
universal, através do arcabouço de pensamento fornecido pelo idealismo alemão;
desse modo, reconhecemos o problema da história como âmbito da formação do êthos da humanidade e como
materialização do devir da consciência ou do espírito, pelo qual este chega a
ser ciente de si mesmo como saber e como objeto do saber que se forma no
processo de seu próprio devir, que é a sua existência (Dasein, pre-sença ou ser-aí) propriamente dita, como ser-no-mundo em sua facticidade e
historicidade. Por isso, realizamos uma confrontação com Kant, Nietzsche e
Heidegger antes de passarmos aos capítulos finais sobre a unidade do saber
universal como tal na arte, na religião e na filosofia, tomando-se como
fundamento a palavra poética, a linguagem do mito (poesia) como linguagem
originária, como exposição insigne da verdade (alétheia) que está no fundamento abismal de possibilidade da
linguagem racional, lógica ou técnico-teórica dos conceitos. Assim, se há uma
palavra divina, um pneuma ápeiron do
espírito de Deus a animar a matéria e sustentar o devir inteiro da natureza, da
individuação do infinito no finito e da história, então é disso que falamos nos
capítulos finais dedicados à palavra poética e à consideração da arte, esta não
só como um setor autônomo de operações ou produções humanas com objetivo de
mera fruição estética do gosto (sentimento de prazer e desprazer), mas como
modelo da atividade mesma de espelhamento do processo de imaginação do infinito
no finito, que promove o devir do saber na história como autoformação da
espécie humana, a saber, a própria existência (Dasein) do homem no mundo. Assim, comecemos então.
A
filosofia especulativa da natureza é, segundo Schelling, uma criação do
conceito de natureza do ponto de vista de sua idealidade. A criação do conceito
de natureza equivale à descrição da autoformação da matéria. Considerando a
filosofia da natureza como uma ciência necessária no sistema do saber,
Schelling afirma a presença da inteligência de dois modos, a saber: como
inconscientemente produtiva na intuição do mundo imediata e como consciente na
criação de um mundo ideal mediado por conceitos. Como forma da manifestação da
Razão no mundo e como autoconhecimento da própria razão universal da totalidade
cósmica, a filosofia (da arte) é considerada o saber que supera a referida
diferença desses dois modos de ser da inteligência, assim constituindo o
fundamento de uma sistematização do saber em geral.
Esse
sistema do saber se constrói mediante a seguinte consideração: que a filosofia
geral ordene e conceba a realidade em seu ser sob o ponto de partida de sua
idealidade transcendental, subordinando o real ao ideal, e que a filosofia da
natureza se movimente em direção oposta na tarefa de explicar o ideal a partir
do real, ex-pondo (exteriorizando) a autoposição do espírito ou pensamento no
devir da matéria ou natureza; isso não significa que não haja entre ambas uma
unidade necessária que as identifique em sua diferença, assim pro-movendo o
saber em direção a uma síntese fundamental entre realidade e idealidade na
filosofia da arte. As produtividades consciente e inconsciente têm uma
afinidade identicamente originária. Essa unidade aparece na natureza como
impulso que se cristaliza (formação básica da matéria) até se refletir nas
formações orgânicas. Esse processo da inteligência é o devir auto-organizador
da matéria, que se reflete na arte como obra do gênio humano[19].
Desse
modo, o sistema do saber se organiza como compreensão de si mesma da razão a
contemplar-se como o absoluto que se faz consciência de si, saber que sabe a si
mesmo, portanto ciência absoluta e universal que unifica necessidade e
liberdade, resolvendo, assim, oposições como espírito e matéria, alma e corpo,
homem e natureza, Deus e Universo, produtividade ou natureza naturante e produto
ou natureza naturada. É pelas produções do gênio que o homem realiza sua
conformidade à lei da produtividade natural: a arte, a ciência, a religião e a
filosofia, bem como toda indústria ou produção humana não deveriam ser um saber
e fazer que se opõe à natureza e põe um conflito entre o homem e o ente em
geral, entre uma res cogitans como
sujeito e uma res extensa como
objeto. Antes sim, a filosofia da arte como síntese sistemática do saber em
geral, como unidade da filosofia transcendental e da filosofia da natureza,
deveria propor uma intuição ou visão de mundo, bem como uma criação do conceito
de natureza universal, que resultasse em uma autocompreensão holística do homem
capaz de equilibrá-lo consigo mesmo e com o todo em tudo que seja por ele
produzido no âmbito da cultura, de modo que a filosofia da arte não se ocuparia
somente de problemas especificamente estéticos (mera fruição do gosto), mas sim
de um ideal do belo universal que propriamente não excluísse a consideração da
realidade natural e do caráter dessa natureza que se espelha nas atitudes
humanas, o que evidentemente também inclui uma reflexão filosófica de cunho formativo,
uma preocupação com a paideia humana
que inclui também o âmbito ético-moral ou comportamental.
Assim,
a ordenação sistematizada de tal saber ideal, por parte do espírito ou da
inteligência humana, acompanha a exposição do movimento real de auto-organização
da natureza ou matéria, movimento este que se dá como geração e formação do
universo, ou seja, como produção da substância universal e de sua
espaço-temporalização nas diversas potências ou dimensões da matéria. Trata-se
de um processo de formação-em-um ou imaginação do infinito no finito, que se
irradia e dissemina desde o microcosmos ao macrocosmos e vice-versa, formando
ou organizando a matéria em uma conformidade a fins.
Essa
conformidade a fins é a lei que rege o equilíbrio das forças dinâmicas de
potenciação da matéria, assim ordenando o devir universal e guardando-o de sua
dissolução terminal, bem como organiza as cristalizações da natureza universal
incondicionada em produtos determinados, movendo a matéria inorgânica até as
formas vivas e à aparição determinada da inteligência consciente no homem, ente
no qual o organismo universal se reflete ou se espelha. Esse espelhamento é o
produto final da imaginação ou formação-em-um do infinito no finito, cujo fim é
o homem, este como imagem exteriorizada da ideia da substância universal ou Deus em uma forma determinada. A
semelhança de caráter se daria na correspondência das ações humanas à
conformidade a fins ou legalidade capaz de sustentar a produtividade de
produtos, sem que o todo desse ato de produzir se desestabilizasse ou não
correspondesse às exigências básicas de preservação e reprodução da vida para
cada forma orgânica determinada.
É
desse modo que concebemos a filosofia, unindo algumas reflexões próprias ao
pensamento de Schelling, como sistema do saber em geral, o qual propriamente
constitui a sapiência primeira, e última, como metafísica. Esta sapiência é a
superação da oposição dos modos imediato (intuição) e mediato (razão) de
conhecer e, como tal, compreende o saber do que é absolutamente. Esse saber do
absoluto é um saber puro que mostra as raízes originariamente idênticas da
inteligência em seus modos inconsciente ou consciente. Essa identidade se
mostra de maneira imediata nas produções do gênio (arte, ciência, religião, filosofia)
como atividade simultaneamente consciente e inconsciente; ao passo que fora da
consciência tal unidade se mostra nos produtos da natureza, enquanto nestes se
percebe a unidade do ideal com o real.
Uma
noção importante de ser lembrada diz respeito à consideração da geometria.
Fala-se desta, não como cálculo de formas estanques ou mesmo como se fosse uma
legalidade formal do entendimento extrínseca à natureza, oprimindo-a como
objeto da atividade formal de cálculo lógico do entendimento a partir de categorias
que trazem consigo as formas possíveis de juízos constitutivos da experiência
de objetos, mas sim como um movimento de potenciação dos espaços ou dimensões
da matéria. Esses espaços (espaços-tempos ou dimensões) potenciados resultam em
novas cristalizações da matéria ou formações de estruturas (geométricas, em
conformidade a regras) moleculares a configurar individuações e formações
determinadas. Assim, o espaço e o tempo não são somente formas puras da
intuição sensível a serem organizadas em categorias ou possibilidades lógicas
de juízos de conhecimento pela faculdade do entendimento; o espaço e o tempo
ocorrem juntos, são um e o mesmo processo de finitização (individuação) do
infinito, e isso se dá na matéria mediante um processo dialético de potenciação
ou formação de si mesma em dimensões ou graus de cristalização da própria
matéria.[20]
Esse
processo de cristalização passa do reino inorgânico (minerais) ao orgânico em
um movimento dialético de formação ou organização da matéria. A inteligência da
natureza ocorre no e percorre o processo de produção de planetas (sistemas de
planetas e galáxias), na cristalização dos minerais e na formação dos
organismos, bem como na atividade mais elevada do espírito humano, a produção
pela arte. Assim, a natureza é vista como produção ou produtividade em si mesma
e, também, como o produto de si mesmo gerado. O conceito da natureza em
Schelling compreende, pois, o ente inorgânico como o não-organizado no
movimento de geração do ente orgânico ou organizado; este é mais complexo e se
diferencia em funções, pelo que também revela a ideia do sistema e da
legalidade interna da auto-organização da matéria como devir da natureza
universal. A unificação de ambos e a presença do inorgânico no organismo
permite a compreensão de um planeta ou do universo como um organismo, um ente
vivo e, por que não, inteligente.
Desse
modo, a conformidade a fins do movimento de finitização do infinito perpassa o
movimento dialético de formação do organismo através do inorgânico e permite a
compreensão de que toda a matéria é animada; a vida é o fim e o início da
natureza e, por isso, também se pode compreender seu caráter sagrado e a
correspondência da natureza como produtividade com o caráter da conduta humana,
na medida em que o homem também é inteligência produtora, a qual deveria, assim
pensamos, preocupar-se em basear suas ações em princípios ético-morais mais
apropriados e conformes à ideia da geração, preservação e conservação, não só
de sua espécie como também de seu ambiente, não só em sentido estritamente
biológico ou ecológico, mas também compreendendo o âmbito da reflexão
deontológica.
Com
isso, pensamos que a organização do sistema do saber em geral a partir da
filosofia de Schelling nos permite sustentar a tese de uma metafísica ou
sapiência primeira concernente aos fundamentos comportamentais do homem em sua
universalidade, na medida em que abarca uma visão de mundo holística pela
construção de um conceito de natureza (universo), que inclui a produção do
espírito humano em geral como arte e faz retornar a busca metafísica pela ideia
do belo apresentada nas obras e no fazer humano, bem como faz retornar o bem
como ideia ou objeto da vontade e princípio de regramento das ações humanas em
todos os âmbitos de atuação: política, produções artísticas específicas,
esportes, convivência cotidiana no lazer e no trabalho, consciência ecológica
ambiental e planetária também como convivência cidadã e preocupação com o
coletivo e com as futuras gerações; ideias que permitem pensar a constituição
do cosmos humano, a pólis ou coletividade, em sua
auto-organização através de uma paideia
(formação educacional) cultural universal.
A
posição (tese) de tal universalidade no âmbito da conduta humana, a nosso ver,
foi formulada por Kant em seu imperativo categórico, mas a composição (síntese)
de que a conduta humana esteja em conformidade à lei ou conformidade a fins da
natureza ou universo em sua sujeito-objetividade, abrangendo assim a
harmonização da liberdade e da necessidade, é uma construção que ensaiamos a
partir de Schelling. A antítese ou contraposição foi posta pelo próprio Kant ao
retirar da construção do conceito de natureza as ideias da razão pura teórica,
tornando a natureza mero objeto de cálculo das categorias do entendimento,
reduzindo o tempo e o espaço à condição de meras formas puras da experiência
pela intuição sensível, e separando o âmbito da razão pura prática ou volição
humana do âmbito da construção do conceito de natureza. Aqui e abaixo se
apresentam as razões de o homem hodierno viver de maneira tão instrumental e
fragmentada, como se fosse um produto enlatado disposto em um supermercado
globalizado para o consumo e desperdício de energia na desintegração da matéria
organizada.
A
retirada de uma finalidade e causalidade da natureza, o positivismo com que se
considera a ciência física e as ciências naturais dela derivadas no século XIX
são condições históricas que abrem o espaço para Nietzsche construir um
conceito de vida cega e autocentrada em sua expansão ilimitada como devir de
forças ou vontade de poder, cujo autoquerer-se determina o pensamento abissal
do eterno retorno como essência vigorante da vontade (seja como eterno retorno
do mesmo no projeto de uma história do esquecimento do ser e da consumação da
metafísica no domínio técnico-cibernético sobre o ente na totalidade, em
Heidegger, seja como eterno retorno da diferença em Deleuze, seguindo as
interpretações deste sobre a lógica estóica, Spinoza e Bergson). Por isso, ataca-se
a moral na metafísica como herança platônica presente no êthos judaico-cristão, a ciência física e o evolucionismo
darwinista são alçados ao modelo de ciência na construção de um conceito de
natureza e de vida amoral. Assim,
percebe-se como tal ciência da natureza manipula os fenômenos físico-químicos
para construir armas letais de poder altamente destrutivo, como a bomba
atômica, por exemplo, sendo incapaz de regenerar tecidos orgânicos e impedir o
envelhecimento e a mortalidade do corpo.
Do
mesmo modo, seguindo a via do idealismo alemão corriqueiramente visto como
absolutamente resolvido em Hegel, a ideia como objeto do saber puro
especulativo no autodesenvolvimento do espírito na história até o saber de si
como unidade racional do real com o ideal, podemos vislumbrar como o esquema
tese/antítese/síntese foi utilizado para interpretar o conjunto do idealismo
alemão: tese-Fichte ou idealismo subjetivo (o Eu que se põe e no autopor-se põe
um não-eu) /antítese-Schelling ou idealismo objetivo (o não-eu como natureza é
sujeito livre autoprodutivo) /síntese-Hegel ou idealismo absoluto (a natureza
como inteligência inconsciente não pode ser liberdade, só a negação da negação
como movimento do espírito realiza a liberdade na história e vem a ser consciência
de si; provavelmente, nem Fichte nem Schelling ignorassem isto). Hegel descreve
o processo do real (ideal) determinando-se no aparecimento da consciência em
seu devir fenomenológico, ou seja, o conceito lógico-ontológico que se
concretiza em figuras históricas como processo dialético de suas determinações
até tornar-se fenômeno para si e objeto de si mesmo como sujeito. Tal movimento
da verdade de si do espírito é sabido como ciência da experiência da
consciência e desemboca na compreensão da ciência absoluta como auto-especulação
deveniente da consciência (unidade da relação entre sujeito e objeto na
constituição do saber em seu devir histórico-dialético como vida do espírito).
Assim,
“(...)
o movimento do existente consiste, de uma parte, em tornar-se outro e, desse
modo, tornar-se conteúdo imanente a si mesmo; doutra parte, o existente retoma
em si esse desenvolvimento ou esse seu existir, ou seja, faz de si mesmo um
momento e se simplifica no sentido da determinidade. Nesse movimento a negatividade
é a distinção e a posição do existir: no
retorno a si mesmo a negatividade é o devir da simplicidade determinada. Desta maneira acontece que o conteúdo não
recebe a sua determinidade de um outro, pregada sobre ele, mas a dá a si mesmo
e se dispõe a si mesmo como momento e como lugar do todo. (...)”[21]
Segundo Hegel, cada
vez que a consciência evolve até novas formas de mediação e complexidade, mais
ela atinge a concretude do real. Esta se revela mais propriamente no conceito
ou no pensamento especulativo; só aí é possível conhecer a ideia, que não se
reduz ao mero pensável não-experimentável ou incognoscível, conforme diz Kant
na Crítica da Razão Pura, mas sim é
(a ideia) a realidade concreta. Não mera abstração do pensamento nem
representação de fenômenos, a ideia é o elemento mesmo da razão que constitui o
real. E assim a filosofia expressa por conceitos o que a religião expressa por
meio de representações figurativas e a arte por meio de intuições sensíveis. O
conceito filosófico de Deus, por
exemplo, remete à ideia do absoluto (incondicionado). Consciência é a relação
entre sujeito e objeto. Sempre que essa relação se altera, sujeito e objeto se
alteram. A Fenomenologia do Espírito
é a ciência da descrição do devir ou do desenvolvimento da consciência. Se
nesse evolver, o objeto se altera, então no saber absoluto já não se trata mais
dos entes naturais ou da fé religiosa, mas sim do absoluto. O saber que lhe
corresponde é a ciência do absoluto, o pensamento puro especulativo, a
filosofia não mais como ingênuo amor pela sabedoria, mas como saber absoluto,
visto que tem o próprio absoluto como objeto.
Porém, nossa crítica
não pode deixar de ver que o saber absoluto é aquele que se move segundo a
propensão (amor) que é a própria in-tensão do saber em seu conceito e sua
verdade como objeto desse “tender a” em seus fundamentos intrínsecos; essa
tensão interna (intensão) do “tender a” (amor) é o segredo mesmo da vida do
saber em seu alvorecer, e só a partir daí pro-move uma ex-tensão, uma tensão
para fora de si que funda as estruturas internas de um devir histórico-humano e
do próprio movimento da matéria no seio da natureza universal... a justificação
da filosofia e do saber absoluto como amor pelo saber e a legitimidade da
ingenuidade romântica como seriedade da dor do sacrifício universal é o que
fica por demonstrar, visto que o real em sua magnitude sacral não se deixa
aproximar de um nível tão ínfimo como o da demonstração pela linguagem do reles
raciocínio humano, demasiado humano;
e daí o paradoxo de um deus que encarna em humano a fim de ensinar como
retornar à origem divina, Jesus Cristo, Sakyamuni Buda etc. [consideração
positiva das religiões ortodoxas e tradicionais e daquilo que Nietzsche
denomina, em sua Genealogia da Moral,
ideal ascético ou sacerdotal].
A alteração da
consciência, isto é, da relação entre sujeito e objeto se dá quando a verdade
até então tida como certa é percebida como errada e é negada enquanto verdade.
Instala-se uma contradição no seio da vida da consciência que a levará à sua
supressão e superação em uma nova forma ou estrutura de relação entre sujeito e
objeto. O devir histórico da consciência é o fundamento intrínseco da história
do mundo, da humanidade, da religião, da arte, da filosofia, enfim. A
consciência se aliena na dicotomia sujeito-objeto, por vezes na preponderância
de um sobre outro, até suprimir tal diferença no saber de si enquanto unidade
concreta da totalidade estrutural do real em seu devir dialético-fenomenal. A
demora de cada época do evolver do espírito é a vigência da consciência no
instante do acontecimento de sua alienação, e assim suas aparições formam estruturas
concretas de efetivação histórico-factual da presença (ser-aí ou existência) da
consciência.
O saber absoluto é o
saber de si da consciência enquanto revelação da verdade de sua realidade, ou
seja, saber isso que foi dito acima e saber o segredo de cada alteração da consciência, assim revelando ao homem
os fundamentos intrínsecos de cada acontecimento histórico. Esse segredo é o
mistério de ser retraído, em-si e para-si mesmo retido (epoché do ser, suspensão do juízo ou da possibilidade da enunciabilidade
como tal), que se mostra na diferença face a todo e qualquer ente (o que se
manifesta na linguagem), e se funda afundando-se no abismo de ser do ser-aí
como ser-no-mundo, destino do ser na diferença que se envia ao âmago da
existência no seio da facticidade histórica até a indiferença do esquecimento,
em seus fundamentos intrínsecos, como história (lembrança) do ser ou destruição
fenomenológica da história da ontologia, até então esquecida em sua verdade[22]. Embora
tente se diferenciar de Hegel, Heidegger é hegeliano, e a superfície da
diferença dos conceitos e das épocas é a manifestação da alteração do mesmo, ou
seja, da consciência, a qual se mostra à contemporaneidade como tentativa de
superação da metafísica moderna da subjetividade.
Assim,
a crítica dos jovens hegelianos de esquerda redundará, em termos heideggerianos,
na absoluta inversão da metafísica em Marx[23],
a saber: inversão da pura especulação da história (rememoração,
não-esquecimento, desvelamento, verdade) da consciência e do saber em seu devir
convertida em filosofia da práxis
pautada em uma pretensa ciência absoluta da matéria natural processada, pelo
trabalho, em produtos humanos, o materialismo histórico-dialético, assim
de-generando a filosofia em mera teoria da práxis
social-histórica fundada nas modificações das relações de propriedade em
torno às organizações de modos de produção correspondentes. Assim, a ideia da
metafísica ou da filosofia como sistema do saber em geral se degrada em
disciplinas filosóficas ou científicas (naturais ou humanas) e perde o ponto de
integração holística do homem consigo mesmo e com o todo, o sagrado, na medida
em que se declara a morte de Deus e
se instaura o materialismo (realismo) em oposição ao espiritualismo
(idealismo), como se já houvesse alcançado um conhecimento absoluto acerca do
que seja matéria ou espírito e sobre as relações entre ambos. Assim, como acima
citamos Hegel a falar sobre o existente (Geist),
também agora citamos Heidegger a falar sobre o existente (Dasein):
“(...) Chamar a atenção para o
ser-no-mundo como traço fundamental da humanitas
do homo humanus não significa afirmar
que o homem é apenas um ser “mundano”, no sentido cristão; portanto, um ser
afastado de Deus e até desligado da transcendência. Com esta palavra pensa-se o
que mais claramente foi denominado o transcendente. O transcendente é o ente
supra-sensível. Este vale como o ente supremo no sentido da causa primeira de
todos os entes. Deus é pensado como esta causa primeira. “Mundo”, todavia, na
expressão ser-no-mundo, não
significa, de maneira alguma, o ente terreno, à diferença do celeste, nem mesmo
o “mundano”, à diferença do “espiritual”. “Mundo”, naquela expressão, não
significa, de modo algum, um ente e nenhum âmbito do ente, mas a abertura do
ser. O homem é e é homem enquanto ec-sistente. Ele está postado, num processo
de ultrapassagem, na abertura do ser, que é o modo como o próprio ser é; este
jogou a essência do homem, como um lance, no cuidado de si. (...)”[24]
Desse modo, pensamos que Hegel e
Heidegger pensam, cada um a seu modo, a facticidade e a historicidade do existente, um sob o ponto de vista da
negatividade da consciência (negação da negação que promove a síntese dialética
de múltiplas determinações e é o motor do devir fenomenológico do Espírito), outro sob o ponto de vista da
abertura do ser no ser-no-mundo como
modo de ser próprio do existente (Dasein,
ser-aí ou presença). Ambos pensam, essencialmente, o caráter temporal do
existente enquanto existe, portanto ambos pensam a essência do tempo, mas
Heráclito já havia proclamado: Tempo é
criança brincando, jogando; de criança o reinado[25].
Com
efeito, e aqui vale lembrar Sócrates, a história do saber e das muitas
doutrinas filosóficas e científicas mais parece um desfile carnavalesco de
intelectos que pensavam tudo saber sem saber que nada sabiam, mas na medida em
que nos obrigamos, por força maior, à escrita e ao estabelecimento de algumas
proposições de caráter axiomático, não podemos nos furtar ao re-conhecimento de
que já nos movemos naquela atitude própria de conhecimento em que mais se
estabelecem certezas auto-afirmativas do que uma abertura para o movimento
dialético da alteridade absoluta (não-ente) e da consciência de que nada se
sabe; de fato, o relativismo desleixado de nossa época não é nossa posição,
apesar de não termos a mínima intenção de sermos tiranos do saber; o máximo que
podemos intentar ao escrevermos é deixar que cada leitor entenda como puder e
adote a posição que julgar mais apropriada diante do que leu.
Ao
discutir o caráter científico da filosofia da natureza, Schelling considera a
oposição entre filosofia transcendental e filosofia da natureza, na medida em
que esta sustenta a ideia da autonomia da natureza, esta não só como produto,
mas como simultaneamente produtiva e produto. Assim, ele caracteriza a
filosofia da natureza como um espinozismo
da física, na medida em que a substância universal é vista sob a ótica da
unidade diferenciada em si mesma da natureza naturante (subjetividade livre e
necessária da produtividade infinita) e da natureza naturada (objetividade
contingente dos produtos finitos). O projeto de uma filosofia da natureza
perpassa a consideração da natureza pela explicação da dinâmica de suas forças
constitutivas, explicação esta que se estende até as manifestações orgânicas
consideradas em analogia à razão. Tal analogia da organicidade da natureza como
sendo sua conformidade a fins permitirá a suposição da razão (Lógos) como sendo também um jogo de
forças mais elevadas da natureza, cujo conhecimento nos é vedado[26].
Schelling
recupera a ideia antiga de uma física especulativa para caracterizar sua filosofia
da natureza a partir de seu primeiro problema, a saber: investigar a causa
absoluta do movimento. Para resolver este problema, ele rejeita o ponto de
vista mecânico, segundo qual o movimento no infinito se origina do movimento. O
caminho de um pensamento dinâmico e dialético aparece como única opção para
Schelling, na medida em que se supõe que o movimento surja também a partir do
repouso, supondo-se que no repouso da natureza esteja implícito o seu
movimento.
Assim,
considera-se que o movimento originário da natureza já emana dos primeiros
fatores de sua construção, o movimento mecânico sendo considerado, então, como
secundário e derivado. Isso estabelece uma diferença entre a física
especulativa de Schelling e a assim chamada física empírica, na medida em que
esta trata somente dos movimentos secundários e nunca alcança a última causa
dos movimentos da natureza, ao passo que aquela se ocupa somente das causas
originárias do movimento, apontando para o impulso interno subjetivo da
natureza, enquanto a física empírica apenas trata de fenômenos de superfície e
considera a natureza em sua objetividade exterior.
A
intenção de derivar as manifestações da natureza a partir de seus fundamentos
intrínsecos redunda na tarefa de elaboração de uma ciência da natureza. Tal
elaboração implica em que se pergunte pela possibilidade de uma teoria da
natureza como ciência. A física especulativa como ciência da natureza, pois,
requer algumas elucidações primárias acerca do conceito de saber. Em seu
sentido rigoroso, o conceito de saber se mostra no objeto mesmo, na medida em
que se compreendem as condições de sua possibilidade; e isso se assemelha ao
projeto de uma filosofia transcendental, posto que estar convencido da
existência efetiva de um fenômeno ainda não é suficiente para que se estabeleça
um conhecimento sobre as estruturas constitutivas desta realidade objetiva que
se apresenta à nossa experiência de fenômenos; antes sim, é preciso vislumbrar
a essência interna e a construção do próprio objeto do saber em consonância à
construção do próprio saber.
Isso
se explica pela consideração do experimento como sendo um perguntar à natureza,
à qual esta se vê obrigada a responder de alguma forma, pelo que o experimento
é compreendido como um ato de produzir manifestações fenomênicas. No entanto,
todo experimento traz um juízo a priori oculto,
e a contemplação da construção interna da natureza é possível porque há
perfeita harmonia da liberdade e da necessidade na natureza e no espírito
humano. Desse modo, só é sabido o que é construído como objeto do saber que
está em devir autoconstrutivo. O saber é, assim, o puro saber a priori, pois o experimento não revela
a construção interna da natureza em seus fundamentos, senão apenas torna
objetivamente exposto o que pode ser previsto de uma lei interna simples que já
está presente na natureza de modo absoluto e necessário.
A
organização interna do sistema da física especulativa inicia pela distinção
entre empiria e ciência, na medida em que aquela se ocupa de seu objeto enquanto
ser determinado e acabado, ao passo que a ciência contempla o objeto em seu
devir infinito. A experiência não é de todo negada, mas o importante é
reconhecer que uma empiria que não reconduza as manifestações da natureza aos
seus fundamentos últimos não penetra nas profundezas da realidade (matéria),
enquanto esta resguarda em si a presença eterna da idealidade (espírito) em seu
ser deveniente. Do mesmo modo, uma construção a priori do conceito de natureza que não se mostre experimentado
não revela ao espírito humano uma dimensão da matéria até então não manifestada
ao espírito finito, que fica por esperar sua aparição em um momento distinto da
história. Esse esperar é propriamente o desejar e amar, o querer que tem como
objeto de si o retorno a si mesmo na forma do saber, reflexão, que está em
devir e que não opõe distinções qualitativas entre uma rigorosa ciência
absoluta e um ingênuo amor pelo saber, posto que sua essência é saber que quer
a si mesmo como amor, amor que se reflete e ama a si mesmo como saber
(definição romântica e ingênua de filosofia).
Posto
que a ciência não se ocupa de algo determinado como coisa condicionada, mas
somente do incondicionado, então a física especulativa inicia pela investigação
a respeito do incondicionado na ciência da natureza. Ao considerar que tudo o
que pode ser dito que é, é condicionado, Schelling vislumbra, à sua maneira, o
que Heidegger posteriormente considerará o fundamental da filosofia como
metafísica, e esta como história do esquecimento do ser em sua diferença
abissal face a todo e qualquer ente. Schelling considera o ser mesmo como incondicionado (nada
ou não-ente), o que não é um ente
determinado, e assim prepara a intelecção de seu conceito de pura produtividade
ilimitada, cuja atividade infinita é propriamente a natureza em seu caráter
originário.
As
manifestações fenomênicas ou produtos da natureza são considerados limitações
determinadas da atividade produtiva pura e simples. No devir do saber em geral,
cada nova descoberta ou construção conceitual da ciência em experimentações faz
aparecer uma determinação dessa atividade produtiva em sua retenção nas
dimensões ou potências da matéria, mas como essa atividade é infinita, também
há de considerar-se que a atividade oposta de contenção ou limitação da
produtividade é também infinita em seu gênero. Assim, forma-se uma infinidade
de potenciações qualitativas ou individuações espaço-temporais limitadas em si
mesmas e interconectadas, de maneira que o saber nunca cessa de descobrir
formas de manifestação da matéria em seus diversos graus de aparição no repouso
automovente da substância universal infinita em sua imanência que, no
automover-se, transcende e já transcendeu a si mesma. Isso está no fundamento
dos mitos de transfiguração da vida e da morte figurada em divindades que
passam por um processo de ressurreição. Mas Schelling apenas nos mostra algumas
das potenciações (ou potências) da natureza em sua dinâmica auto-organizadora.
Importa
saber que a ideia de auto-organização da natureza implica também a compreensão
de suas diferentes dimensões ou potências. O primeiro momento dessas potências
é a construção do universo, na qual se dá a formação-em-um ou imaginação do
infinito no finito, processo pelo qual cada corpo formado se apresenta como um
reflexo da infinitude da totalidade no corpo finito. Esse primeiro momento se
constitui pela duplicação do mundo em dois planos que se espelham: o macrocosmo
universal e o microcosmo singular; este último constitui a série de todos os
corpos da natureza.
O
termo potência tem significação matemático-geométrica e indica, em referência à
autoformação da natureza, que cada potência se eleva a outra potência,
desdobrando-se em outra dimensão. No primeiro momento ocorre, simultaneamente,
a formação em retrocesso, isto é, o movimento contrário ao da formação da série
dos corpos, que percorre do finito ao infinito e origina a segunda potência.
Esta se duplica em dois planos: o universal correspondente à luz e o particular
correspondente ao corpo. Constituem-se mutuamente, não como espelhamento de um
no outro, mas como incidência de um sobre outro que se dá mutuamente, sem que
se forme uma relação causal externa. As várias dimensões da matéria se mostram,
então, pela dinâmica entre a expansão da luz e a coesão do corpo; dinâmica esta
que gera um equilíbrio entre a integridade do corpo e sua possibilidade de
movimentação. A terceira potência surge daí, como nova dimensão da matéria a
constituir o organismo, a partir da incisão (incidência) do plano da
universalidade da luz sobre o plano das singularidades dos corpos. Essa in-cisão
eleva a finitude do plano dos corpos a uma universalização infinita que realiza
uma síntese integral de matéria e luz capaz de organizar a vida ou, o que dá no
mesmo, formar os organismos. Aqui não há uma causação do organismo mediante
movimento aleatório da matéria, antes sim o ser vivo é que fundamenta a
totalidade da natureza, cujo movimento prepara o seu advento pela síntese de
matéria e luz; a conformidade a fins é a lei do devir da matéria, cujo escopo é
chegar à sua organização, isto é, à formação perfeita do organismo em que se
individua o eterno ato de conhecimento do absoluto (infinito + finito), a forma
humana como ideia objetivada na natureza e ciente de si mesma enquanto existente (Geist, Dasein) na
história; figuração da imagem e semelhança do criador.
A
analogia entre a organização da matéria e a ordem cósmica universal implica em
uma consideração da indiferença entre os produtos da natureza e a própria
atividade de produção. A produtividade como natureza naturante e os produtos
como natureza naturada são momentos distintos de um mesmo todo integrado, que
permite o vislumbre da natureza como sujeito, por um lado, e como objeto, por
outro. A matéria é regida por um princípio de coesão, o magnetismo, este
determinado pela lei da impulsão dos polos opostos na tendência a
unificarem-se; isto em nada se relaciona com uma indivisibilidade ou
impenetrabilidade da matéria. Oposto ao magnetismo e dialeticamente
complementar é o fenômeno da eletricidade que se manifesta como luz. A luz
entra em contato com a matéria, esta sob a forma de massa a sofrer o peso da
gravidade; esse contato de luz e matéria gera os processos químicos e
estabelece as forças de coesão (solução) e de expansão (dissolução) da matéria.
Assim, o organismo é visto como a própria natureza que se tornou autônoma
através da interiorização dos processos de síntese da matéria (o quimismo ou
sínteses químicas), os quais são os resultados das dinâmicas relações e
interações presentes no magnetismo e na eletricidade, elementos da matéria e da
luz respectivamente. O organismo se origina dessa animação da matéria pela
energia da luz combinada à força gravitacional. Essa combinação gera o
dinamismo das forças centrípeta e centrífuga no interior de cada organismo,
este sendo matéria que se organiza mediante sua própria sensibilização,
excitação e reprodução[27].
1.5 Conclusão deste
capítulo:
Como conclusão apenas podemos indicar a base ou causa e a
finalidade que impulsionam o projeto, sem perder de vista o caráter inconcluso
de toda projeção. E se a projeção do projeto equivale a um processo de
imaginação (formação-em-um) do infinito no finito, isto é, de finitização do
infinito, então isso nada mais mostra que o caráter inconcluso do projetar
(imaginar) como tal. Assim, só podemos reproduzir e interpretar o esquema do
Universo, portanto do sistema do saber universal, de Schelling[28]:
no topo Deus, que se projeta em
universo e constitui absolutamente sua totalidade relativizada no real e no
ideal (Razão ou Lógos); assim, o todo
relativamente-real é a natureza, cuja primeira potência é a gravidade como
verdade da matéria, objeto da ciência como Naturwissenschaften
(ciências da natureza); o todo relativamente-ideal é o espírito, que almeja o
saber e a verdade na ciência de si do espírito como espírito (Geisteswissenschaften); a luz é a
segunda potência da natureza que mostra, junto à primeira em uma dinâmica
dialética de forças, a natureza como movimento (magnetismo, eletricidade e
sínteses químicas), o qual revela, por sua vez, a bondade divina como graça
eterna da criação e funda a verdade da religião como mistério sacral no milagre
da vida (criação); a terceira potência da natureza é a vida, que se mostra
objetivamente como organismo (sensibilidade, excitabilidade e reprodução) e que
mostra a plenitude da individuação da substância universal na forma humana;
esta é o objeto da arte e expressão do ideal da beleza, não só como corpo, mas
como conduta, mente (alma) e expressão da bondade e da verdade, assim
constituindo o ideal da razão no mundo como formação (Bildung) e cultura (Kultur)
pela educação (Paideia); disso, é
possível o desvelamento da racionalidade ou idealidade do mundo, a razão mesma,
em um sistema do mundo a constituir o objeto da história; enfim, a definição
clássica e metafísica do homem como animal racional reflete a totalidade do
sistema do saber no ideal do bom, do belo e do justo, o modelo de cidadão no
ideal do ser humano real, objeto da filosofia, que se mostra como doutrina
universal e necessária a vigorar no âmago da compreensão radical (original) da
autossustentabilidade (Selbständigkeit)
do todo cósmico natural e espiritual (cultural) perfeitamente integrados na
totalidade ética do Estado (Pólis).
Capítulo
2: Antecipação a possíveis críticas: confrontação dialógica com Immanuel Kant,
Friedrich Nietzsche e Martin Heidegger.
2.1 Immanuel
Kant
Em
nossa confrontação dialógica com Kant iniciamos, porém, com uma discussão com
Hegel mediada por Marcia Cristina Ferreira Gonçalves em seu livro O Belo e o Destino: uma introdução à Filosofia de Hegel[29],
especificamente nos trechos referidos em nota. Iniciamos pela consideração da
perda da função educacional e política da arte[30],
portanto pela perda da proposta de Schiller de uma Educação Estética como preparo do indivíduo ou do cidadão para uma
vida ética, esta centrada na exigência de subordinação dos interesses e
impulsos individuais à vida da espécie (coletividade), que se exprime no Estado
(Pólis). Aqui surge a consideração
dos deuses gregos como representações de potências éticas, e os conflitos entre
essas potências, bem como as resoluções trágicas ou não entre esses conflitos
apenas nos indicariam a adequação de uma concepção de totalidade cósmica com o Cosmos Político da cidade, da
coletividade ou da civilidade humana (pois em Hesíodo, a Teogonia é uma Cosmogonia,
um discurso sobre a origem ou o fundamento do Universo formado por potências
divinas; enquanto Os Trabalhos e os Dias
indica a condição humana em meio à conformidade ou não ao Cosmos ou Natureza).
Uma
questão se impõe aqui: Hegel não adota a função educacional ética da arte, mas
admite uma questão que Schiller herdou de Kant e procurou resolver de maneira
igualmente kantiana, a saber: o conflito entre razão e sensibilidade, no qual a
ideia estética submetida à ideia ética promove uma repressão dos impulsos
naturais e dos sentimentos por meio de sua racionalização. Esse conflito impõe
a questão da liberdade do espírito, na medida em que este se exprime, pela obra
de arte, e se reconhece na obra como a unidade da subjetividade (que dá a
forma) e da matéria (que recebe a forma, como objetividade), movimento em que a
negatividade do espírito se mostra e o absoluto assume uma aparência sensível,
a aparência do conceito racional sensibilizado, isto é, a unidade da
sujeito-objetividade do espírito enquanto absoluto. Assim a arte realiza a expressão
sensível do infinito no finito, realiza de maneira intuitiva o ideal como seu
conteúdo a expor-se em um produto, qual seja, a obra de arte. Assim, o conteúdo
da arte é o divino [bem], e o belo se apresenta sob a forma humana ou
espiritual[31].
No entanto, para Hegel essa unidade da essência e da aparência revelada na obra
de arte ou na beleza, ao contrário de Schiller, não aponta para uma
substancialidade metafísica, e sim para a essência espiritual meramente humana
sempre sobreposta à natureza ou matéria, esta como objetividade pura e simples.
Desse
modo, mais adiante[32],
Marcia Cristina analisa a co-presença do
subjetivo e do objetivo na poesia, esta considerada por Hegel a forma
suprema da arte pelo simples fato de nela (na poesia) a liberdade ou o espírito
(o existente ou Dasein) se mostrar de
modo reflexivo. Considerando que a poesia é palavra (Lógos), sua expressão verbal constitui-se essencialmente como
idealidade. Porém aqui chegamos ao ponto central de nosso enfoque, que
permitirá passarmos ao diálogo prometido com o Kant da Crítica da Razão Pura; por isso, deixamos claro que tendemos mais
para a tese de Schiller que para a tese de Hegel, segunda a qual (a tese de
Hegel) a espiritualidade meramente humana realiza uma autorreflexão
antropomórfica, idealizando sua própria existência pela representação do mundo
organizado dos deuses olímpicos.
Se
nós afirmamos que os deuses são invenções e projeções da natureza humana,
admitimos a verdade de tal afirmação somente se considerarmos tal projeção como
uma fé firme na existência de
entidades divinas como potências cósmicas, cujo conflito é a simples harmonia
da resolução constitutiva da Physis
enquanto atividade ou vigência de si mesma; por isso, remeteremos a Schelling a
responsabilidade de haver cunhado um conceito genuíno de filosofia como poesia
e religião sensível, e não a Hegel, no capítulo subsequente iniciado com o
texto Programa Sistemático, porque o
conceito de natureza de Schelling nos
encaminha para a consideração da pergunta originária pelo ser do ente enquanto
ente como natureza, desde os
pré-socráticos, até nos encaminhar ao retorno da pergunta metafísica pela existência de substâncias suprassensíveis
(transcendentes porque inaparentes em
si mesmas, conquanto inteligíveis pelo sujeito pensante, imanentes porque
plenamente presentes na natureza como fundo abissal do mundo objetivo dos
fenômenos).
Assim,
a perfeita ideia da unidade sistemática do saber se nos apresenta por essas
compreensões do pensamento de Schelling que estamos a elaborar de modo
interpretativo próprio, seguindo o fio condutor da historicidade do existente
(ser-aí) mediante uma confrontação dialógica com três pensadores escolhidos. De
maneira que nossa confrontação com Kant visa alcançar a compreensão do
Idealismo Alemão como o pensamento que afirma a Razão Especulativa como efetiva
Realidade Objetiva e Subjetiva, na forma do Saber Absoluto que, segundo
Schelling, se revela em uma Filosofia da Arte, na medida em que esta forneça o
vínculo ou a conexão (a unidade da identidade e da diferença) entre uma
Filosofia da Natureza, esta a considerar a ideia presente na natureza de modo
objetivo como inteligência adormecida ou inconsciente, e uma Filosofia do
Espírito, na medida em que o espírito seja considerado em sua identidade e
diferença com a natureza por ser a natureza que se individua e atinge a plena
formação da aparência sensível (finitização) do infinito na humanidade, que é
um ente histórico e cultural. A unidade dialética da identidade e da diferença
entre o espírito e a natureza nos é fornecida pela Filosofia da Arte de
Schelling, que nos permite pensar o homem como obra de arte da natureza, esta
pensada por nós como imanência (onipresença) do Deus dos deuses na totalidade do ente ou Cosmos; por isso, essa obra de arte da natureza é uma figura de
linguagem (poesia) da criação divina, uma imagem e semelhança do ser de Deus,
como nos diz Fichte:
“Conhecimento é
imagem do ser de Deus: mas não o conhecimento que põe outra vez um ser a partir
de si mesmo, e sim o que põe um vir-a-ser: a imagem da liberdade eternamente
criadora, pairando acima, com suas leis que se enunciam por toda eternidade em
conceitos puros – este é o mundo; e querer satisfazer-se com um mundo inferior
é um disparate deplorável.”[33]
Quanto à questão do conflito entre
razão e sensibilidade (que é um problema esquizofrênico de seccionamento do
homem no interior de si mesmo na medida em que se considera um animal
[sensibilidade] racional [suprassensibilidade inteligível], consideração em
nada falsa, todavia), importa ressaltar uma diferença básica entre a Estética de Hegel e a Crítica da Faculdade do Juízo de Kant
apontada por Marcia C. F. Gonçalves[34],
a saber: segundo Kant, a poesia não pode apresentar a ideia por esta ser um
conceito indemonstrável da razão que não pode adequar-se a qualquer intuição;
isso é suficiente para percebermos a total determinação do pensamento kantiano
sobre a relação entre entendimento e sensibilidade a partir do conceito de
verdade lógica como adequação[35]
(entre a razão e a sensibilidade em uma razão de conhecimento na medida em que
o faça por meio das categorias do entendimento na constituição de uma
experiência possível junto aos dados da intuição sensível de espaço e de tempo
como puras formas a priori da
sensibilidade).
Desse modo, a poesia não expressa a
ideia como categoria da razão, explica-nos Marcia Gonçalves, não uma ideia
ética (a liberdade, por exemplo), mas somente uma ideia estética enquanto
representação da imaginação, que dá muito a pensar sem que isto seja possível
de converter-se em um conceito determinado e atingir a linguagem em uma
articulação compreensível. Isso acaba por reduzir a ideia estética a uma
determinação analógica da ideia da razão, de maneira que a beleza (ou o belo)
seja considerada um símbolo da ideia do bem ético. Assim, a liberdade estética
se vê submetida à liberdade ética, esta como ideia da Razão Prática, de modo
que a arte seja considerada um instrumento de fins superiores (éticos) e de
modo que lhe (da arte) seja retirada sua autonomia. Marcia Gonçalves, então,
interpreta a definição de poesia de Hegel como sendo um aspecto libertador do
conceito de arte ideal, na medida em que a palavra poética não se vê mais
reduzida à mera imitação da realidade ou a uma expressão analógica imperfeita
da razão, pelo contrário, a poesia seria a enunciação concreta da razão, posto
que seja (a poesia) também Lógos.
Ora, somos forçados a concordar com
essa definição de poesia, este tipo de linguagem ao qual vamos nos referir no
capítulo posterior dedicado a Schelling. Porém rejeitamos a ideia de uma
autonomia da arte que não esteja integrada no sistema do saber em geral (metafísica), cuja finalidade é a
formação cultural (Paideia) como experimentação
autorrefletida do espírito que sabe a si mesmo na lei de seu devir (o saber
mesmo da ideia absoluta enquanto objetividade natural da inteligência
inconsciente, ou necessidade, e enquanto subjetividade espiritual que chega a
ser consciente de si no seio da história e da cultura, o reino da liberdade). Por
isso, afirmamos a nossa tese (posição) da unidade dialética da identidade e da
diferença entre a ideia estética do belo na sensibilidade (infinito finitizado)
e a ideia ética do bem na pura inteligibilidade ideal (finito infinitizado);
essa unidade sintética não é analógica, portanto não submete uma a outra, mas é
sim uma afirmação de que a ideia estética e a ideia ética são uma só e mesma
realidade, a saber, a liberdade poética do espírito ciente de si enquanto
existente (Dasein).
É nesse sentido que evocamos a
figura de Platão, com a citação que segue abaixo, e passamos imediatamente a
uma rápida confrontação dialógica com o Kant da Crítica da Razão Pura:
“(...) Julgo que
é mais por esta razão, uma vez que já me ouviste afirmar com frequência, que a
ideia do bem é a mais elevada das ciências e que para ela é que a justiça e as
outras virtudes [temperança, coragem e sabedoria] se tornam úteis e valiosas. E
agora já calculas mais ou menos que é isso que vou dizer, e, além disso, que
não conhecemos suficientemente essa ideia. Se a não conhecemos, e se, à parte
essa ideia, conhecermos tudo quanto há, sabes que de nada nos serve, da mesma
maneira que nada possuímos, se não tivermos o bem. Ou julgas que vale de muito
possuir qualquer coisa que seja, se ela não for boa? Ou conhecer tudo o mais,
exceto o bem, e não conhecer nada de belo e bom?
- Por Zeus que
não!
- Mas na verdade
sabes também que, para a maioria, é o prazer que se identifica com o bem, ao
passo que para os mais requintados é o saber.[36]”
Após estas
considerações, partimos rumo à Crítica da
Razão Pura de Kant, localizando-nos especificamente na Observação final a toda antinomia da razão pura[37].
Descrevamos de maneira geral a estrutura da Crítica:
a introdução trata da diferença entre conhecimento puro e conhecimento
empírico, trata da necessidade de determinação da extensão de todo conhecimento
a priori, da distinção entre juízos
analíticos e juízos sintéticos, trata ainda destes últimos considerados a priori como princípios de todas as
ciências teóricas da razão etc. A Crítica
da Razão Pura se divide em: I - Doutrina transcendental dos elementos e II
– Doutrina Transcendental do Método; a primeira se divide em primeira parte –
Estética Transcendental, que trata das intuições puras do Espaço e do Tempo
como formas a priori da
sensibilidade; a segunda parte é denominada Lógica Transcendental, que se
divide em Analítica Transcendental, na qual Kant trata do uso dos conceitos
puros do entendimento ou das categorias como faculdade de juízos de
conhecimento das coisas como objetos da experiência possível; a Lógica
Transcendental, além da Analítica, também se divide em Dialética
Transcendental, na qual Kant trata, introdutoriamente, da Dialética em geral
como lógica da aparência[38]. Detemo-nos um pouco aqui.
A lógica da aparência
transcendental, ou dialética em geral segundo Kant, não identifica fenômeno e
aparência, pois a verdade ou aparência transcendental não está implantada no
objeto, enquanto intuído pela sensibilidade, mas no juízo sobre o objeto
enquanto este é meramente pensado. Desse modo, Kant afirma que a aparência
lógica é a simples imitação da forma da razão (aparência dos paralogismos), que
surge da falta de atenção à regra lógica, qual seja: não perder de vista a
diferença entre os princípios imanentes inteiramente aplicáveis dentro dos
limites da experiência possível e os princípios transcendentes que transpõem
esses limites. Essa transposição, porém, não indica um abuso no uso
transcendental das categorias do entendimento puro, que constitui um simples
equívoco da faculdade de julgar na medida em que não seja refreada pela
crítica, a qual delimita o terreno de ação do entendimento em seu uso empírico.
Antes sim, quando Kant se refere aos princípios transcendentes, ele o faz no
sentido de estabelecer uma diferença entre transcendental e transcendente, de
modo a determinar que os princípios do entendimento, em respeito à regra
lógica, apenas tenham um uso empírico, e não transcendental. Com isso Kant
propõe que o entendimento não transponha os limites da experiência a fim de
recair em juízos baseados naqueles princípios efetivos da razão
(transcendentes), que nos convidam a transpassar tais limites.
Desse
modo, Kant reconhece que a aparência transcendental não desaparece, é efetiva,
mas que sua nulidade deve ser descoberta pela crítica, mantendo a atenção à
referida regra lógica. Ele dá o exemplo da seguinte proposição: O mundo tem de ter um começo no tempo;
certamente esse começo nos levaria à admissão necessária da existência de um
causa primeira do começo do mundo no tempo, uma causa que poderia ser
transcendente ao mundo, no sentido de ultrapassá-lo e ser a causa primeira e
última de todos os eventos decorridos na duração temporal (intensão) do mundo
em sua totalidade, sem nos esquecermos de que o mundo também é pensado como a
totalidade do espaço como extensão, no qual se deslocam os corpos.
Segundo
Kant, uma proposição como essa se origina de uma necessidade da razão em cair numa
ilusão, a saber: a razão sob a consideração subjetiva de si mesma como
faculdade de conhecimento dispõe de regras fundamentais e máximas referentes ao
seu uso, nas quais está contido o aspecto inteiro de seus princípios objetivos;
disso, resulta uma necessidade subjetiva de unificação ou ligação dos conceitos
do entendimento mediante uma suposta determinação das coisas em si. Com isso,
Kant anuncia que a Dialética Transcendental deve satisfazer-se em desencobrir a
aparência de juízos transcendentes, de modo a evitar a ilusão ou o engano acima
descrito, a confusão dos fenômenos como representações de objetos com a
aparência transcendental, que pode nos remeter à pergunta pela causa
transcendente da totalidade dos fenômenos (mundo) e à possibilidade de acesso à
realidade como coisa em si (númeno).
Quanto
à questão da causa do mundo enquanto objetividade fenomênica, lembremos somente
que Schelling adota o conceito de causa
sui de Spinoza, denominando sua Filosofia da Natureza ou física dinâmica de
spinozismo da física[39],
de modo a tratar o problema da causalidade do mundo com uma solução imanentista
mediante seu conceito de natureza naturante como produtividade infinita que se
mostra nos produtos finitos ou na natureza naturada[40].
Porém, a nosso ver, ainda seria preciso superar mais essa dicotomia (a saber, a
diferença entre o transcendente e o imanente) que permanece no fundamento de
pseudoproblemas filosóficos, no sentido de justificar a construção conceitual
de sistemas de conceitos delimitadores do que é possível ou impossível, até o
conceito de transcendência e liberdade do Dasein
de Heidegger como ponto de inflexão para a constituição do existencialismo ateu
de Sartre, posto que o abandono do infinito (impossível enquanto essência
atemporal ou deus) em prol do finito
(possível enquanto existência temporal ou homem) só pode ser realizado,
historicamente, após o advento do idealismo alemão.
Essa
escola de pensamento retoma, por sua vez, o conceito de substância infinita de
Spinoza, que é paralelamente ambos os seus atributos cognoscíveis ao homem
(pensamento e extensão), posto que o homem como corpo e alma seja uma
modificação desses atributos, de modo a alcançar o pleno conceito de Absoluto
como unidade dialética entre a identidade e a diferença do infinito com o
finito, unidade do ser ou ente em geral (como natureza, objeto ou res extensa) e do pensar que reflete o
ser e o conhece por meio de ideias ou representações (sujeito pensante). Com
isso, apenas queremos apontar que Kant criticou a dualidade de substâncias
cartesiana (res cogitans e res extensa; sujeito e objeto), mas de
modo algum superou (sintetizou) ou
unificou essa dualidade (diferença) no conceito especulativo de Absoluto.
Isso
se deixa ver pelo modo como considerou o conceito de dialética, que foi retomado pelo idealismo alemão em um sentido
positivo da negatividade; esta em Hegel vista como o nada originário do
Espírito enquanto existente, que se determina nas épocas históricas, e funda a
cada momento o devir de si mesmo como auto-experiência da consciência; a
negatividade em Schelling, diferentemente, assume a forma da positividade do
dualismo dialético das forças dinâmicas da natureza, esta pensada como
inteligência inconsciente, que se equilibram mediante o princípio centrífugo
(que se afasta do centro como extensão ou expansão da matéria, espacialização
do tempo, e como intensão ou contração reincidente da luz na série dos corpos,
temporalização do espírito) e o princípio centrípeto (que se dirige para o
centro como retorno do finito ao infinito, assim como a espaço-temporalização
centrífuga da natureza equivale à extrusão do infinito no finito); de modo que
a dinâmica da dualidade de forças da natureza, em Schelling, é a descrição do
processo de formação-em-um do infinito no finito, e deste naquele, mediante a
teoria das potências ou dimensões da matéria, processo deveniente da natureza
que equivale ao Eterno ato de Conhecimento do Absoluto, repousante em seu ser
como pensamento que pensa a si mesmo,
como unidade indiferenciada entre o inteligível (perceptível) e o inteligido
(percebido) no intelecto ou na inteligência (apercepção) divina[41].
Assim,
podemos nos localizar, como acima referido, na Observação final a toda antinomia da razão pura, a fim de passarmos
ao capítulo subsequente intitulado Ideal
da Razão Pura. Importa, pois, entender que Kant critica a posição do
Incondicionado como totalmente fora do mundo sensível, isto é, fora da
experiência possível, de modo que as ideias se tornem transcendentes, não
servindo, assim, para o acabamento nunca realizável da razão enquanto um
prosseguimento incessante (processo), posto que as ideias transcendentes sejam
separadas deste e se elevam à determinação de si mesmas como objetos, cuja
matéria não procede da experiência e cuja realidade objetiva se mantém no
âmbito dos conceitos puros a priori.
Esses
objetos puramente inteligíveis, segundo Kant, admissíveis como aparências
transcendentais, são incognoscíveis e destituídos de princípios de
possibilidade, enquanto objetos independentes da experiência, portanto
injustificáveis na medida em que sejam somente meros entes de razão (e aqui
reside, a nosso ver, a consideração do incondicionado como: 1º ens realissimum, ou seja, como conceito
de uma coisa em si totalmente determinada em um ser individual, posto que sua
determinação procede da reunião de todos os predicados opostos possíveis em um
único sujeito ou substrato transcendental, a saber, o conceito de totalidade da
realidade [omnitudo realitatis] como
infinito; 2º como ens originarium ou
conceito do substrato comum da multiplicidade das coisas, que é o conceito de
realidade suprema, como puro objeto ideal da razão; 3º como ens summum ou o ente supremo, posto que
não há outro além dele; 4º como ens
entium ou ser dos entes [Deus dos
deuses] na medida em que tudo se lhe está subordinado enquanto
condicionado)[42].
O
Capítulo III do segundo livro (Raciocínios dialéticos da razão pura) da
Dialética Transcendental é intitulado Ideal da razão pura. Sua primeira seção
trata do ideal em geral. E aqui lembramos nosso intuito: exaltar a afirmação de
que o real é o racional (ideal) e vice-versa, não no sentido de encaminhamento
para o idealismo alemão somente, mas também no sentido de recuperação da metafísica socrático-platônica em seus
fundamentos normativos ético-morais, encaminhando-nos para a demonstração
(revelação) dos valores universais para a formação (Paideia) integral do homem.
Nesse
sentido, a crítica kantiana da razão pura estabelece a regra lógica para todo
uso dos conceitos puros do entendimento, as categorias, tendo como condições de
sua realidade objetiva o substrato material fornecido pela sensibilidade na
constituição de uma experiência possível da realidade enquanto fenômeno (natureza),
e somente assim as categorias podem ser representadas in concreto. As ideias, ou o conceito kantiano de ideia, estão mais
ainda afastadas da determinação da concretude de sua realidade objetiva do que
as categorias puras do entendimento, porque não se objetivam em qualquer
fenômeno no qual seja possível sua representação concreta.
Contudo,
esse procedimento reflexionante do entendimento pretende ser superado pelo pensamento especulativo do
idealismo alemão acerca do absoluto, do qual retiramos nossa compreensão de que
a dicotomia entre a coisa em si (ideia transcendente ou númeno) e o fenômeno
não residirá mais na sustentação da oposição entre razão (ideia ética) e
sensibilidade (ideia estética), mediada pelo entendimento (ou mesmo pela
imaginação). Esta mediação do entendimento, por sua vez, sustenta a
fragmentação do mundo como representação e coisa em si no interior da Razão e
funda a desvinculação entre o seu uso puro especulativo teórico e o seu uso
puro prático na determinação de postulados regulativos para a ação humana, pelo
que o conceito de liberdade do existente (homem) e de sua ação volitiva será
sempre oposto ao conceito de necessidade da natureza, esta considerada o ente
que tem uma essência dada, objetivamente real, que se opõe à liberdade ou
vontade absoluta individuada na inteligência consciente em seu ímpeto (vontade
de poder) de temporalização (negação da negação) de si mesma como transcendência do ser-no-mundo, ou como desejo de anelo no pensamento-imagem do
eterno retorno que se afirma como vida a cada vez sempre potenciada pela
determinação de si mesma como vontade de
poder. Por isso tudo, Schopenhauer determinará a coisa em si originária do
mundo como vontade em oposição ao mundo como representação, formulará uma
teoria da contradição da vontade consigo mesma e uma doutrina do sofrimento do
mundo, que será baseada em sua interpretação budista do conceito de nirvana, no
qual ele pensa anular aquela unidade cindida no interior da Razão e, assim,
atingir um estado de ataraxia.
Digressões
à parte, voltemos a Kant, para concluirmos nossa confrontação dialógica com
este pensador. Pois ele ainda afirma que o ideal é mais afastado da realidade
objetiva que a ideia, posto que o ideal é esta não só representada in concreto, mas in individuo, ou seja, como coisa singular determinável ou
totalmente determinada tão-somente pela ideia[43]. Daí
passa-se à consideração da ideia perfeita da humanidade enquanto detentora da
extensão de todas as propriedades essenciais do homem na constituição do conceito
de natureza humana em conformidade a seus fins. Kant, então, define o ideal a
partir do que Platão concebia como ideia do entendimento divino, a saber: como
ente singular na intuição pura desse entendimento, isto é, como perfeição
suprema de cada espécie possível e fundamento originário de todas as cópias
fenomênicas dessa perfeição.
Assim,
Kant passa à consideração do ideal como possuindo força reguladora das ações,
no entanto sem poder constitutivo, na tarefa da razão de impor limites à
liberdade. Com isso, enquanto servem de exemplos de conceitos puros à razão, os
conceitos morais são determinados como ideias, tais como as de virtude,
prudência humana ou sageza [sabedoria circunspecta]; porém, os conceitos morais
são empíricos quando baseados no sentimento de prazer e desprazer e expressos
em juízos de apreciação (juízos de gosto), pelo que não se constituem
inteiramente, segundo Kant, como conceitos puros da razão. Desse modo, o ideal
da razão é conflitante em sua busca por uma determinação segundo regras a priori, pensando um objeto
determinável segundo princípios (dever-ser) sem que, contudo, haja condições
suficientes na experiência para a sensibilização de um conceito transcendente.
Por
isso, o ideal da razão busca princípios regulativos, não constitutivos, para a
ação (ética) e para o juízo de gosto (particularmente o juízo de gosto do belo,
cuja análise não podemos empreender aqui a partir da Analítica do Belo na Crítica
da Faculdade do Juízo). Toda essa construção determinará a subordinação da
ideia estética à ideia ética, acima referida, por meio da consideração da
sensibilidade como análogo da razão. Faz parte de nossa tese afirmar ou
defender que não há subordinação nem analogia, mas perfeita identidade ou
unidade entre o campo ético e o estético, na medida em que a regra lógica seja
não substituída, mas unificada com a lei da poesia na consideração do
logicidade do Lógos, na determinação
da racionalidade da Razão. Elaboramos este tópico com intuito de nos
anteciparmos ao possível rótulo de pré-críticos.
2.2
Friedrich Nietzsche
Esta
nossa confrontação dialógica com Nietzsche se divide em um momento estético e
um momento ético, embora já tenhamos deixado claro acima que pretendemos não
distinguir a ideia ética da ideia estética; trata-se, portanto, de uma e a
mesma confrontação dialógica em sentido ético-estético, racional e sensível.
Iniciamos, pois, com duas citações de Nietzsche, a primeira de uma obra tardia
ou de sua maturidade e que está em perfeita unidade de sentido ou de
significação do pensamento com a citação que faremos de uma obra de juventude.
Do mesmo modo, nossa confrontação estética se baseia em uma obra de juventude, O Nascimento da Tragédia, enquanto nossa
confrontação ética fará uma rápida referência a obras de maturidade tais como Ecce Homo e Crepúsculo dos Ídolos.
Iniciemos,
pois, com uma citação do §7 da Terceira Dissertação da Genealogia da Moral, no qual se trata da exposição da determinação
do ideal ascético como condição da elevada e ousada espiritualidade do
filósofo, na medida em que este afirma a sua própria existência, pela ascese
ideal, em vez de simplesmente negar a existência (vida como vontade de poder) em geral: pereça o mundo, faça-se a filosofia, faça-se
o filósofo, faça-se eu[44]. Percebe-se
o quanto esta afirmação está de acordo com as citações que reproduzimos abaixo,
retiradas do prefácio de A Filosofia na
Idade Trágica dos Gregos. Com isso, reivindicamos também nosso direito à
personalidade singular, na consideração histórico-ontológica do pensamento como
confrontação dialógica da alma do mundo consigo mesma, individuada nas pessoas
dos pensadores como figuras do espírito (o pensamento que pensa a si mesmo e
atinge a ciência de si absoluta como devir fenomenológico de sua experiência).
Assim, leiamos Nietzsche:
“(...) os
sistemas filosóficos são só inteiramente verdadeiros para seus criadores: os
filósofos posteriores
consideram-nos
normalmente
um erro enorme (...) Quem se alegra
(...) com grandes homens, também tem sua alegria em tais sistemas, pois, mesmo
que sejam inteiramente erróneos, não deixam de ter um ponto completamente
irrefutável, uma disposição pessoal, uma tonalidade (...) Esta tentativa de
contar a história dos filósofos gregos mais antigos distingue-se de outras
tentativas semelhantes pela sua concisão (...) pois em sistemas que foram
refutados só nos pode interessar a personalidade, uma vez que é a única
realidade eternamente irrefutável”.[45]
Com essa
consideração da filosofia pré-socrática como Filosofia da Idade Trágica dos gregos, Nietzsche embarca na
seguinte interpretação histórica do devir do pensamento, a saber: que a partir
de Platão a filosofia perde sua essência; que havia certa pureza de
personalidade nos filósofos assim denominados pré-platônicos (conhecidos como pré-socráticos); que o caráter
misto da filosofia platônica indica o início da decadência do pensamento
originário dos gregos[46]. Segundo
Nietzsche, Platão resguarda em si um misto de realeza reservada e moderada de
cunho heraclítico, de melancolia compassiva de legislador pitagórico e de
dialético-socrático investigador de almas; do mesmo modo, Nietzsche considera
que o filósofo não atrapalha o curso da civilização grega, antes sim protege
sua pátria, ao passo que a partir de Platão inicia-se o exílio do pensamento e
a conspiração contra a pátria.
Isso,
a nosso ver, é uma síntese do que seja a República
de Platão e indica a necessidade de revisão da tradição, em período de
decadência ou perda de suas origens; de modo que surge, a partir daí, a
sistematização do saber em geral ou metafísica
como tarefa de determinação dos fundamentos da cultura e de formação (Bildung) integral do homem (Paideia). A esse respeito, recomendamos
uma rápida verificação do Livro III de A
República, posto que ali se realiza uma revisão crítica da natureza dos
deuses a partir de uma confrontação dialógica de Platão com Homero, a fim de
empreender a constituição da cidade ideal. E isso se faz mediante uma crítica
pitagórico-socrático-platônica à poesia trágica, fundada na tradição pública e
cultural dos mitos herdados desde os poetas Homero e Hesíodo; crítica essa que
constitui, a nosso ver, o todo de A
República.
2.2a
Confrontação estética
Esta confrontação dialógica com
Nietzsche, em sentido estético, só poderia referir-se à obra estética mais
popular dele, a saber: O Nascimento da
Tragédia. Desse modo, compartilhamos, em nossa tese, da seguinte afirmação:
ver a ciência com a óptica do artista,
mas a arte, com a da vida... (Nietzsche. 1992, p.15). Todavia, livramo-nos
aqui de assumir um compromisso, ou mesmo de negá-lo absolutamente, com a determinação
do ser da vida como vontade de poder, a qual se mostra em sua plenitude
transbordante no pensamento abissal do eterno retorno como expressão figurativa
e dramatizada de uma disposição de humor afirmativa da vida, o amor fati (o §341 de A Gaia Ciência – O peso mais pesado não por acaso estar em precedência ao Incipit tragoedia, isto é, ao iniciar-se
do canto do bode expiatório, Zaratustra, o profeta da decadência dos valores da
tradição judaico-cristã ocidental, estes assentados na metafísica moral
socrático-platônica). Antes sim o conceito de vida, a nosso ver, deve estar
presente no âmago da natureza concebida como unidade da produtividade infinita
e dos produtos finitos, do ponto de vista da conformidade a fins (imagem e
semelhança) do processo de formação-em-um do infinito no finito, e vice-versa,
assim alcançando o conceito do homem como obra de arte da natureza, em si mesma
divina, que na religião se representa como criação do homem à imagem e
semelhança de Deus (o que não é exclusividade do Judaísmo ou do Cristianismo).
Nietzsche retoma a metafísica de
Schopenhauer de O Mundo como Vontade e
Representação e transpõe para esta fórmula as ideias estéticas das forças
constitutivas da natureza figuradas em Apolo e Dioniso. Assim, Apolo se caracteriza
como esplendor da forma divina e figuração do principium individuationis[47],
isto é, do princípio de individuação ou finitização do infinito como aparência
e beleza. Apolo é a figuração do mundo onírico, ou se quiserem ilusório, da beleza das formas finitas
determinadas correspondentes ao mundo como fenômeno ou representação. Em
contrapartida e perfeita unidade, Dioniso será a figuração da Vontade como
coisa em si, contraditória em si mesma enquanto geradora e destruidora de toda
aparência, ela é o retorno do finito ao infinito originário, como morte, de
onde brotou pelo nascimento como fenômeno gratuito da vida (natureza como
produtividade infinita e produto finito). Por isso, Apolo pode ser pensado como
a figura da serenidade jovial e da sobriedade de uma sabedoria prudente, que
será racionalizada no ideal epistêmico do conhecimento a partir da metafísica
socrático-platônica, esta inserida na arte trágica por Eurípides. Enquanto
Dioniso é a figura mítica esquecida pela linguagem racional dos conceitos
inaugurada pela filosofia clássica, é a magia simpática inebriante do ideal
sensível da arte, sob cujo poder o homem deixa de ser artista e se torna obra
de arte em satisfação do Uno-primordial[48]
(Vontade como coisa em si do mundo ou da natureza como totalidade cósmica).
A consideração de Apolo e Dioniso
como impulsos artísticos da natureza[49] nos
leva a pensar na total ausência de conflito entre razão e sensibilidade, ideia
estética e ideia ética, posto que, para Nietzsche, a arte e os deuses gregos
nada têm de moral. Assim, a estética de Nietzsche entra em conflito direto com
o projeto de uma Educação Estética baseado
em Schiller, tal como nos referimos na confrontação com Kant. Do mesmo modo, a
alta consideração que Nietzsche dedica a um ideal homérico de vida, que se
expressa e se autojustifica nos deuses homéricos, nos leva a compreender
fundamentalmente sua oposição à metafísica socrático-platônica como moral:
“Aqui nada há
que lembre ascese, espiritualidade e dever (...) onde tudo o que se faz
presente é divinizado, não importando que seja bom ou mau. (...) A existência
de tais deuses sob o radioso clarão do Sol é sentida como algo em si digno de
ser desejado e a verdadeira dor dos homens homéricos está em separar-se dessa
existência (...) de modo que agora, invertendo-se a sabedoria do Sileno,
poder-se-ia dizer: A pior coisa de todas é para eles morrer logo; a segunda
pior é simplesmente morrer um dia”[50].
Contudo a solução homérica de
Nietzsche apenas permanece no domínio simples da sensibilidade convertida em
uma ética puramente estética, que está no fundamento da oposição entre uma
moral de guerreiros como afirmativos da vontade de poder da vida e o ideal
ascético das religiões e da filosofia em sentido metafísico como formas
niilistas de decadência cultural. Desse modo, parece-nos que a utilização dos
deuses gregos como educação estética
não subordinada analogicamente, mas sim vinculada unitariamente a princípios
éticos seria completamente desaprovada por Nietzsche, porque assim se
assemelharia ao fim trágico da tragédia de Ésquilo e Sófocles no socratismo
estético de Eurípides:
“Também
Eurípides foi, em certo sentido, apenas máscara: a divindade que falava por sua
boca, não era Dionísio, tampouco Apolo, porém um demônio de recentíssimo
nascimento, chamado Sócrates. Eis a nova contradição: o dionisíaco e o
socrático, e por causa dela a obra de arte da tragédia grega foi abaixo.”[51]
2.2b
Confrontação ética
Se
nossa discordância em relação a Nietzsche ainda não se evidenciou pela
Confrontação dialógica estética, então talvez se faça perceber mais claramente
agora. Primeiro vamos considerar o projeto de transvaloração de todos os
valores até então vigentes (época de Nietzsche e de florescimento de seu
pensamento); e o faremos de maneira breve tocando em suas compreensões
fundamentais. Com relação ao problema da verdade enquanto medida de valores
relativos a uma vontade de poder determinada (greco-romana ou judaico-cristã,
por exemplo), Nietzsche é bastante duro em considerar a crença no ideal como um
engano, não como cegueira, mas como covardia frente ao conhecimento, este
considerado uma consequência da coragem; de maneira que os ideais sequer
mereçam uma refutação, mas somente que se vistam luvas para tocá-los. Assim,
ele proclama sua busca pelo proibido Nitimur
in vetitum[52],
posto que o proibido até então tenha sido exatamente a verdade.
Quanto aos ideais, já
deixamos claro que os adotamos tais como Platão, a saber, como virtudes
racionais da alma: temperança, coragem, sabedoria e justiça; esses ideais nos
parecem ser, como princípios reguladores e constitutivos do ser homem, as
condições transcendentais de possibilidade da sensibilização racional para o
belo na obra de arte, na medida em que toda obra humana cultural deva espelhar
o bem, posto que tudo o que destrói e
corrompe é mau, ao passo que o que salva e preserva é bom[53].
Com isso, nossa resposta a Nietzsche se faz mediante uma interrogação
platônica:
“Parece-te
que há alguma diferença entre os cegos e aqueles que estão realmente privados
do conhecimento de todo o ser, e que não têm na alma nenhum modelo claro, nem
são capazes de olhar, como pintores, para a verdade absoluta [alétheia ou desencobrimento], tomando-a
sempre como ponto de referência, e contemplando-a com o maior rigor possível,
para só então promulgar leis aqui na terra sobre o belo [ciência estética], o
justo [ciência jurídica] e o bom [ciência ética], se for caso disso, e
preservar as que existem, mantendo-as a salvo?”[54]
Nossa
confrontação dialógica com Nietzsche tem o objetivo de confirmar o caráter
dogmático de nossa tese (posição), embora não tenhamos pretensão de elaborar
uma doutrina a ser seguida por rebanhos. E isso porque não vislumbramos ainda
qualquer construção sistêmica de conceitos que não promova uma esquematização
de estruturas restritivas ao pensamento. Motivo pelo qual cabe ao leitor aceitar
ou não o caráter axiomático das proposições fundamentais e das pressuposições
infundadas, ou melhor, autofundadas, da expressão da personalidade do filósofo
sob a forma da pretensa universalidade da Filosofia.
Assim,
intentamos retomar o ideal do homem bom, belo e justo como homem ético,
estético e cidadão civil regido pelas leis de uma jurisdição local, que traz
consigo toda sua universalidade singular cultural. Todavia não perdemos de
vista que faz parte do homem mesmo a tendência ao questionamento e à
reformulação de si mesmo enquanto locus
originário do sentido do mundo, enquanto existente (ser-aí). E por isso mesmo nossa tese é uma mobilização própria de
conteúdos filosóficos, e não uma repetição de problemáticas conceituais
pontuais em um mero exercício lógico e técnico-teórico a fomentar o falatório
ou palavrório do mundo-da-vida (Lebenswelt)
acadêmico-científica.
Concluímos nossa
confrontação dialógica com Nietzsche, em sentido ético, referindo-nos
brevemente ao capítulo intitulado O
problema de Sócrates de O Crepúsculo
dos Ídolos, especificamente o §4, no qual se trata dos indícios de
decadência em Sócrates como indícios de excesso do lógico, em detrimento do
sensível[55].
Injúrias e adjetivações pejorativas à parte, Nietzsche considera a equação
razão = virtude = felicidade como sendo contrária aos instintos dos helenos, e
isso bem em conformidade à alta consideração de sua interpretação própria do
ideal homérico de vida. Como estamos aqui a considerar o ideal
socrático-platônico em grau de melhor valor apreciativo, sem desvalorização
depreciativa do pensamento de Nietzsche e de sua importância histórica no todo
da Filosofia historicamente considerada, então somente podemos reafirmar a
seguinte equação: bom = belo = justo.
2.3 Martin
Heidegger
2.3a Do
abandono da constituição ontoteológica da metafísica ao retorno do sentido
originário da mesma como projeto de uma Paideia
humana universal.
Neste tópico de nossa confrontação
dialógica com Heidegger, situamo-nos inicialmente no texto A Constituição Onto-Teo-Lógica da Metafísica, no qual se dá uma
confrontação de Heidegger com Hegel no sentido de buscar as diferenças entre um
pensamento e outro. Desse modo, em que medida Hegel já era heideggeriano ou
Heidegger permaneceu hegeliano é uma questão que se deixa elucidar a partir da
mesmidade que o pensamento especulativo conserva no diálogo e na confrontação
consigo mesmo[56],
através da revisão ou da retomada de seu caminho adiante em confrontação com a
tradição que o precede. É desse modo que se apreende o sentido do
questionamento da história da filosofia enquanto uma relação especulativa e
dialógica do pensamento consigo mesmo, tomando-se a história em sentido
histórico-ontológico, sem, contudo, desconectar esse sentido dos fatos do
mundo, antes sim mantendo o intuito de apreender os fundamentos dos
acontecimentos factuais da história em conexão com a propriedade insigne da
existência humana no mundo.
Então toda confrontação dialógica
visa não a igualar o pensamento dos pensadores, pois a igualdade suprime a
diversidade, a singularidade e a finitude própria da existência solitária, mas
posicioná-los na comunhão do mesmo, pela palavra, em que a diversidade do
pensamento universal pode se apresentar como singularidade do pensamento de um
pensador. Portanto aqui não nos importa muito a busca de Heidegger por mostrar
a diferença de seu pensamento face ao de Hegel; diferença esta que se mostra
pelo fato de o pensamento histórico-especulativo de Hegel, segundo Heidegger[57],
ter por objeto o pensamento (sujeito) enquanto movimento dialético do absoluto
como saber puro de si na forma do conceito absoluto, que é a realidade
(idealidade) enquanto tal, e isso na medida em que Hegel pensa o objeto do
pensamento como o ser, determinando-o como pensamento do ente pelo pensamento
do absoluto como tal (o real é o racional e vice-versa); ao passo que Heidegger
pretende pensar a diferença enquanto diferença, na medida em que pensa o mesmo
(o ser) em sua diferença com o ente; diferença esta que repercute no âmago do
existente humano sob a ótica da analítica do Dasein (ser-aí ou presença no mundo), que abordaremos a seguir no
sentido de nossa reflexão presente, que se apresenta nesta tese.
Com isso e de certo modo, já estamos
nos movendo no interior do auto-esclarecimento da ação mesma de confrontar-se
dialogicamente, pois a palavra solitária de uma existência finita não pode
privar-se da referência ao outro por meio de uma palavra compartilhada que se
move através de si mesma; esse movimento se chama de interlocução, que
propriamente constitui o diálogo do pensamento consigo mesmo através da
existência factual e histórica. Falamos de palavra, portanto do Lógos e da Razão. Se formos acusados de
não possuirmos uma metodologia de pensamento, poderemos, com isso, retrucar
mediante o seguinte raciocínio: este capítulo em especial e esta tese em geral
parte da ideia da confrontação dialógica do pensamento consigo mesmo, parte do
caminhar livre, sereno e sóbrio do pensar por suas próprias veredas enquanto
atividade pura e simples. Esse caminhar se dá em uma estrada, em uma via
própria, isto é, em um horizonte transcendental que constitui em si mesmo e
para si mesmo os seus envios e desvios próprios no sentido de reenviar sua
essência própria ao âmago de sua existência singular, finita e solitária em
compartilhamento possível nos encontros e desencontros da caminhada pela
estrada. Essa estrada do caminho do pensamento é palavra (Lógos) em seu pleno vigor ativo de produzir enunciações; por isso,
a palavra metodologia guarda em si a
suprema redundância do pensamento alienado de si mesmo em uma diferença formal/material
entre uma lógica formal e uma lógica material (metodológica), entre uma lógica
pura e uma lógica aplicada, pois o caminho (método) da palavra (Lógos) é a palavra em sua atividade
(Verbo-logia) de apalavrar (enunciar,
tornar manifesto enquanto Lógos
Apophantikós).
Contudo, é importante reconhecer a
diferença de caminhada entre Hegel e Heidegger pela diferença no dialogar com a
história do pensamento como tal, pois Hegel o faz através do sobressumir ou
suspender (Aufhebung) como sentido de
fundação da verdade absoluta, isto é, do saber que sabe a si mesmo e é certo de
si mesmo enquanto espírito (a superação da dicotomia sujeito/objeto), a fim de
fundar o progresso (Fortgang) da
história na figura do Absoluto como o devir ciente de si mesmo. Porém e junto a
isso, Heidegger empreende o passo de volta como regresso (Rückgang) ao âmbito originário a partir do qual a essência da
verdade é questionada em sua dignidade própria, até então vigente em
esquecimento[58].
Assim
Heidegger promove o seu passo de volta a fim de reconhecer a Tecnologia como
apresentação e aperfeiçoamento do ente que se move no interior da essência da
técnica moderna, ou seja, da metafísica consumada na Era Atômica[59].
Com isso, ele pode questionar a essência da técnica moderna, ainda impensada,
segundo ele, realizando esse passo de volta para pensar sua conexão com a
essência da metafisica, assim vislumbrando os fundamentos de nossa época atual
pela sua compreensão a partir da descrição e da interpretação tecnológicas do
todo do ente, a nosso ver, como um sintoma do sem sentido de ser da existência
(niilismo/apatridade como abandono ontológico do ente/Morte de Deus). Nossa resposta própria ao problema da técnica
moderna virá no tópico a seguir desta confrontação com Heidegger pela
recuperação do sentido da técnica em geral como arte (ciência, um modo do
saber, já que o homem é o Homo Sapiens),
e isso a partir de indicação do próprio Heidegger em seu texto A Questão da Técnica.
Pela
análise do começo da ciência proposto pela Ciência
da Lógica de Hegel como sendo o
resultado, posto que com o resultado, na
medida em que dele resulta o começo, se deve propriamente começar[60],
Heidegger chega à questão da teologia propriamente dita, na medida em que se
considera que o começo da ciência seja Deus; do mesmo modo, a ciência que trata
do ente em geral, a ciência do ser enquanto ser (metafísica) é denominada
ontologia.
À
parte a determinação cristã medieval, que não é só cristã porque, sendo
preservada pelos árabes a obra de Aristóteles se misturou ao islamismo, porque
houve pensadores judeus e árabes pensando teologicamente e porque até antes,
por meio de Fílon de Alexandria, a obra de Platão se misturou ao Judaísmo etc.
a ontologia e a teologia constituíram uma única ciência; aqui gostaríamos de
evitar qualquer acusação particular e encarar esses fatos como acontecimentos
do porvir histórico, como uma forma de sincretismo da filosofia pagã
greco-romana com elementos religiosos de distintas culturas (semíticas
inclusive) no interior do Império Romano em seus últimos dias de decadência.
Mas como sempre, a questão “puramente ontológica” da metafísica não permitirá a
Heidegger pensar o elemento do devir cultural de maneira “historiográfica” ou “antropológica”,
como uma mera “ciência ôntica”; não é nosso escopo aprofundar essa questão.
Importa
uma indicação de Heidegger sobre a Teologia
como pensamento especulativo sobre Deus, na era medieval, mas antes disso como:
na Antiguidade o dizer mítico-poético dos
deuses, sem referência a um ensinamento de fé e a uma doutrina eclesial[61].
Pois isso nos leva à consideração da religião pública dos deuses da Pólis (coletividade) não como fé em uma
doutrina de Igreja, mas como poetização (produção) pela arte da existência
humana, na medida em que se a considera do ponto de vista da sacralidade da
onipresença numinosa (os deuses como númenos) da natureza como fenômeno em
geral e da cultura como o lugar do fenômeno do espírito (homem), assim
constituindo uma integração holística entre inteligência inconsciente na visão
(intuição) de mundo e inteligência consciente na construção ideal do conceito
de natureza em geral (Filosofia da Natureza ou Metafísica específica da natureza); por isso mesmo, o equilíbrio holístico
do todo cósmico (natureza e cultura) não separa a realidade em uma oposição
entre razão e sensibilidade, entre ideia ética e ideia estética; e a técnica
antiga como arte se disseminava em todo fazer prático ou teórico como ciência
ou sapiência.
Mas
abandonando nossa digressão, retornemos ao sentido puramente ontológico da
teologia, segundo Heidegger. Importa saber que o Deus entra na filosofia em
confusão ao ser no sentido mais geral e abstrato (nada) como não sendo qualquer
ente em particular, isto é, não sendo um acidente da substância universal ou um
modo possível de ser. Na medida em que a linguagem racional da filosofia rompe
com a tradição mítica e na medida em que a ciência se auto-eleva ao ideal
platônico da pura epistéme, a pura
apresentação da natureza como fenômeno numênico concreto é substituída pela
abstração vazia do motor imóvel aristotélico como representação da causa
primeira e do fundamento último da realidade. Assim, Heidegger chega à
compreensão do ser do ente representado pela metafísica clássica como
fundamento autofundado (causa sui), o
conceito metafísico de Deus. Este conceito determinará metafisicamente todas as
elaborações de ontologias ao longo do desdobramento histórico-ontológico da
metafísica, isto é, do pensamento ocidental, posto que o objeto deste é o ser
em seus múltiplos modos de aparecer (de tonar-se manifesto), inclusive como
negação de si mesmo na consumação da metafísica pelo dito Deus morreu; assim, os fenômenos do ser entificado como fundamento
são: lógos, ideia, substância,
sujeito, vida, vontade, vontade de poder[62]...
O
ser é o transcendente como tal que se mostra em fenômeno como a ultrapassagem
para o ente, a fim de captá-lo e unificá-lo no simples dizer de uma palavra
fundamental: a enunciação metafísica que está na base axiológico-axiomática
como proposição evidente por si mesma do sistema de pensamento dos pensadores,
o sistema do emaranhado lógico-argumentativo que se pretende demonstração do
pressuposto que está na base de toda possível tessitura de proposições
demonstrativas no interior do sistema, a teia de aranha da pseudo-ordenada
caótica Tarântula venenosa que é a linguagem racional técnico-teórica dos
conceitos. Aquela ultrapassagem que
ultrapassa e já ultrapassou é a transcendência do ser-no-mundo (ocidental), o
livre estar aberto para suas possibilidades fáticas e históricas[63],
no início do destino histórico-factual ocidental nos rumos da consumação do
esquecimento do ser (metafísica) na dominação técnico-científica sobre o ente
na totalidade.
Desse
modo, o Deus da metafísica como onto-teo-logia não pode ser, como causa sui ou conceito puramente
racional, objeto de fé ou reza, muito menos de sacrifício, temor ou regozijo
através de danças e cânticos de louvor.[64]
Porque não é mais um deus de uma cultura, dos mitos e das lendas de um povo,
mas o Deus mais fantasioso de todos, isto é, o fundamento causal inicial-final
do mundo como mero conceito racional intuído de maneira pura no ideal da razão
especulativa. Com isso, queremos dizer que o mais fantasioso é não o Deus como Deus dos deuses (Zeus), mas o ideal de um povo que não é mais povo,
de uma cultura que não é mais cultura, mas tão somente o destino
histórico-ontológico do esquecimento do ser, que se inicia pelo rompimento com
a linguagem (verdade) mítico-poética e seu consequente abandono por parte da
linguagem argumentativa e lógica na busca de sua adequação consigo mesma e com
a experiência possível do mundo sensível.
O
fantasioso é o fantástico especular-espetacular fantasma Deus morto da ciência positivista ocidental transmutado em religião
da humanidade universal racional que a tudo instrumentaliza, inclusive a si
mesma, em um processo de subjetivação transcendental de tudo e de todos pela
objetivação fisicalista da natureza (de tudo e de todos) como objeto da pura
vontade auto-aniquiladora de calcular e controlar, para conquistar a cada vez
uma nova atualização da liberdade perdida e escolhida como possiblidade fática
e histórica de sua presença no mundo, enquanto esta não se abriga mais no ente
enquanto ente, mas com este se confronta, em uma briga de morte, a fim de
apreendê-lo racional-conceptivamente em seu ser.
Ora,
é desse modo que Heidegger afirma[65]
que o pensamento a-teu que abandona o Deus
onto-teo-lógico da metafísica clássica como conceito puro e racional de causa sui está ainda mais próximo do Deus divino, pois a este sim,
acrescentamos, o homem pode render cultos de louvor e temê-lo em dias e noites
de trovoada (aparições de Zeus) e de imensas catástrofes naturais (Caos), bem
como festejá-lo respeitosamente com cantos e danças sagradas em dias de
prosperidade, regozijando-se da fecundidade da natureza (Gaia e os epítetos da
Terra) e da alegria sorridente de um céu azul e ensolarado ao dia (Apolo) ou de
um céu estrelado com um luar brilhante e reflexivo, calmo e misterioso à noite
(Ártemis).
Finda
o texto A Constituição Ontoteológica da
Metafísica pelo reconhecimento de toda dificuldade como sendo uma
dificuldade da linguagem; o reconhecimento de que as línguas ocidentais são,
diversamente, línguas do pensamento metafísico, enquanto este se determina
tecnicamente como mera lógica gramatical de sujeito e objeto, sem pensar em
seus fundamentos originários o “é” que realiza a cópula das proposições em
todas as enunciações fundamentais dos pensadores em suas especulações de
pensamento; e isso desde Parmênides a Hegel como princípio especulativo até
Nietzsche como dissolução do “é” em posição da vontade de poder[66].
Pois essa mesma dificuldade da linguagem nos previne de transformar o
pensamento em terminologia técnica conceitual, mas nos permite semear a semente
da meditação serena, a partir da qual é possível um nascer e frutificar[67].
Com
isso, urge retomarmos o que em nós nasce e frutifica a ponto de posicionar-se,
como tese, nas proposições desta dissertação. Intentamos retomar, com ajuda do
idealismo de Schelling, um sentido possível da sistematização do saber em geral
como metafísica, e um sentido possível desta como Paideia humana universal tendo como referência a tradição
socrático-platônica (em certo sentido, também órfico-pitagórica), que se
encontra sintetizada em A República de
Platão. Por isso, faz-se necessária esta confrontação dialógica com Heidegger,
cujo pensamento histórico-ontológico do destino ocidental do esquecimento do
ser em momento algum não nos permitiria pensar, à maneira clássica, a
onto-teo-logia em adequação à época contemporânea. Evidentemente, há outras
inúmeras correntes de pensamento que já se movem desde seu instante
contemporâneo de surgimento no sentido de ou no sem sentido de estabelecimento
de valores universais ético-normativos para a constituição do saber em geral
(ou seja, para a constituição do homem enquanto Homo Sapiens).
A
construção ideal do conceito de natureza como causa sui na Filosofia da Natureza de Schelling nos evocou a
retomar uma consideração do ente (tó on)
em geral como physis (natureza). Na
medida em que a causa sui é pensada
especulativamente como Deus, uma
representação religiosa do puro conceito do Incondicionado, a natureza deve ser
pensada, a nosso ver, como uma entidade divina em si mesma, em sua atividade
pura de produtividade que não se separa ôntico-ontologicamente
dos produtos finitos nos quais se individua, embora seja pensada uma distinção
puramente lógico-conceitual entre natureza-naturante e natureza-naturada para
fins de compreensão intelectual de uma e a mesma natureza física, de um único
ente sendo em seu ser.
Assim,
o problema da discussão entre uma substância transcendente imaterial que é
causa de outra substância material, em que a causa se efetiva como atividade
criadora, é um problema que fica em suspenso, provisoriamente, pelo conceito de
causa sui aplicado à especulação da
substância universal (natureza) em seu caráter de imanência (spinozismo da
física). O que permanece, porém, impossível de ser representado para nosso
entendimento reflexivo como categorizador da experiência possível de objetos,
mas que talvez possa ser ideado como realidade especulativa, a um só tempo
singularíssima e universalíssima, é a afirmação, talvez mítico-poética, de que
o ente divino, a natureza como um todo, é transcendente e imanente a si mesmo e
a todas as suas individuações em formas finitas desde o infinitamente
macrocósmico (universo como sistema de galáxias) ao infinitamente microcósmico
(partículas atômicas e sub-atômicas).
Mais
incompreensível que isto seria pensar em que medida há nesta substância
uno-múltipla (uni-verso) uma autodeterminação capaz de normatização do caos
originário da matéria pura e simples em ordem espiritual constitutiva da
possibilidade das vidas no interior (ou seria exterior? Sim!) dessa substância,
isto é, entre o infinitamente macrocósmico e o infinitamente microcósmico. De
maneira que o que fica por ser jamais experimentado pelos cálculos da técnica e
da ciência ocidentais é o que a especulação metafísica deve se impor como
insigne desencobrimento (revelação) do espírito pensante na natureza, que
Schelling denomina Eterno Ato de Conhecimento do Absoluto, determinando que
neste haja a presença real da ideia da vida em geral, que deve assumir a
perfeita forma finita no organismo humano e chegar a ser consciente de si mesmo
enquanto capacidade de normatizar suas ações mediante os princípios
ético-estético-jurídicos: a Bondade, a Beleza e a Justiça em tudo presentes
como caráter uno-di-sseminado, através da formação-em-um do infinito no finito,
e vice-versa, do espírito inconsciente na matéria universal e da matéria
consciente no espírito individuado, este enquanto autoformação
histórico-cultural da Humanidade (Homo
Sapiens).
Tendo
isso em vista, precisamos nos situar, infelizmente sem demora analítica, no
texto do Terceiro Capítulo das Considerações Prévias de Os Conceitos Fundamentais da Metafísica: mundo, finitude e solidão
de Heidegger; onde solidão pode ser lido, a nosso ver, simplesmente como a
singularização ou a temporalização da finitude do ente pensado como Dasein, isto é, como o existente que é a
cada vez em seu mundo próprio e na liberdade de escolha de si mesmo, nos modos
existenciais de ser-no-mundo e de ser-para-a-morte. Aqui não tratamos dos
conceitos de Heidegger, e sim de nossa própria retomada do conceito clássico de
metafísica em uma confrontação dialógica com este profundo conhecedor e
descobridor de um sentido possível para esta palavra; motivo pelo qual,
infelizmente, não nos podemos deter detalhadamente nas profundas análises que
Heidegger faz, neste texto, sobre a origem e a história da palavra metafísica, embora tenhamos de nos deter
neste ponto.
Com
efeito, o grande ponto dessa confrontação dialógica com Heidegger reside em que
este pensador de maneira alguma concebe sua leitura como mais uma possível
interpretação, mas como constatação histórica de uma problemática confusão
quanto ao uso do vocábulo metafísica
como um mero termo técnico para agrupar os escritos de Aristóteles anteriores
ou posteriores aos tratados de Física;
uma confusão que historicamente assume significação de conteúdo e que se
encaminha no sentido de uma reflexão da metafísica como ciência acerca das
substâncias suprassensíveis (metafísicas
ou além da física). De maneira que a interpretação de Heidegger sobre o
conceito mesmo de Physis (natureza) e
sobre a inserção desses escritos de Aristóteles conhecidos como aqueles que vêm
depois da Física no âmbito da
reflexão sobre a Physis em nada
discordam do que intentamos; senão em um ponto, o daquele incompreensível que
afirmamos sobre a natureza, em si mesma divina em sua totalidade, ser
singularíssima e universalíssima como imanente e transcendente a si mesma,
sendo a um só tempo sensível enquanto fenômeno (necessidade da realidade
objetiva) e suprassensível enquanto númeno (liberdade da idealidade subjetiva).
Esclareçamos
isso percorrendo brevemente o texto de Heidegger, iniciando de seu fim: pois ao
final[68],
evoca nossa atenção à sua intenção de caracterização da pergunta metafísica
fundamental no sentido de encaminhar-se nas vias instauradas por sua analítica
do Dasein. Esse perguntar metafísico,
segundo ele, só é possível, a partir dele (Ser
e Tempo), como êthos próprio,
como lógos próprio e como physis própria da ontologia hermenêutica
da existência em sua facticidade e historicidade enquanto analítica
fenomenológica do Dasein; o quê nos
restringe bastante aos intentos de sua pergunta pelo ser do mundo (ser-no-mundo), da finitude (ser-aí) e da solidão (singularização ou
ser-para-a-morte). Com isso, ele determina sua tarefa: escapar do caráter
extrínseco do filosofar (extrínseco porque até então não vislumbrado por seu
próprio projeto de ontologia ou metafísica)
a ponto de não recair em reflexões de tipo teoréticas (ciências) que poderiam
ser úteis na elaboração de uma possível perspectiva de visão de mundo; assim
Heidegger apenas estabelece seu salto para fora da ontologia tradicional, a
metafísica ou filosofia clássica, e para dentro do questionamento que lhe é
próprio desde Ser e Tempo,
estabelecendo a diferença entre filosofia, visão de mundo e ciência.
Antes
ele já afirmara[69]
que tratava de filosofia, não de ciência, não de arte, não de religião; este é
um dos pontos em que discordamos, o da restrição de tipos de discurso
referentes a distintos objetos (objetivos e objetividades estabelecidas
previamente pela delimitação de uma região do saber segundo o objeto
específico), de modo que nos perguntaríamos se a pretensão de Heidegger em
escapar da metafísica moderna da subjetividade não nos estaria enredando em seu
sistema de conceitos de Ser e Tempo a
ponto de nos objetivar pelo conceito de ser-aí
(Dasein) e de nos sujeitar (subjetivar) enquanto existentes (das Seiende) às pretensas possibilidades
de sua facticidade e historicidade? Outra coisa é possível quando se fala de metafísica ou ontologia, ou criticismo da Razão Pura pela filosofia
transcendental, ou transmutação transvalorativa de todos os valores até então
vigentes, ou... investigações lógicas sobre proposições com sentido e
proposições sem sentido..., ou verificação empírica das proposições como
critério de demarcação entre o científico e o não científico... ou ainda
submeter as teorias a testes de refutação constantes...?
Deixamos
claro que nada temos contra e não excluímos, a partir de nossa vinculação do
idealismo alemão com a metafísica clássica socrático-platônica, a possibilidade
de interpretação e mesmo de unificação do ente em geral e do homem, em espécie,
a partir de conceitos tais como ser-aí,
Razão Pura Prática e Teórica, vontade de poder, ao passo que não
podemos aceitar certas restrições impostas ao pensamento na medida em que a
revisão crítica da tradição (Kant), destrutiva da tradição (Nietzsche) e
destruidora-desconstrutora da tradição (Heidegger-Derrida) já se impõe como
nova tradição da contemporaneidade, motivo pelo qual nos desculpamos aos
não-dogmáticos de carteirinha se voltamos atrás e lá permanecemos em uma
espécie de dogmatismo pré-crítico, posto que intentamos não-esquecer a
tradição, mas sim rememorá-la em sua verdade até então tornada inverídica por
seus revisores críticos, destrutivos e destruidores-desconstrutores.
Heidegger
insere a discussão sobre a origem e a história da palavra metafísica no âmbito
de sua consideração como filosofia primeira, isto é, como ontologia ou
metafísica geral, como mais uma disciplina entre outras[70],
a saber: a lógica, a ética, a estética, a filosofia da natureza, a filosofia da
história etc. como ontologias regionais ou metafísicas especiais; mas no
sentido de escapar dessa leitura tradicional e inserir o pensamento metafísico
no âmbito de sua própria ontologia do ser-aí. A partir disso, ele inicia uma
intensa investigação histórica sobre a formação da palavra “metafísica”, desconsiderando-a
de algum carácter originário, antes sim atribuindo este caráter a palavras como
physis (a vigência do ente na
totalidade, incluindo homem e história e da qual o homem não é senhor,
incluindo também o ente divino como motor imóvel aristotélico[71])
e lógos (a ação de retirar a physis do velamento e torná-la
desvelada, isto é, alétheia; portanto
lógos incluindo a verdade como alétheia ou o processo de tornar
manifesto o ente na totalidade como vigente em sua vigência[72],
como presente em sua presença, como sendo em seu ser).
O
Lógos-Alétheia abrange os dois
significados de Physis, a saber: 1º -
como ente físico simplesmente dado que nasce e perece, que se forma e esvaece a
cada instante por si mesmo em contraposição ao ente técnico, isto é, ao que é
trabalhado e levado ao acabamento como invenção e produção humana; e 2º - physis não como o próprio vigente, mas como a lei interna ou a
vigência do vigente como tal[73].
Aqui nada há a questionar, porém nos mantemos em reserva quanto à separação da
lei interna do vigente (vigência ou essência, ou ainda a ousia ou substância = natureza) em relação ao vigente mesmo
enquanto ente presente (em ato ou enérgeia);
separação que será feita pela lógica e gramática medieval (substância e
acidente ou atributo) e que se converterá no binômio metafísico
essência/existência (potência/ato), uma determinação categorial do ente em
geral da qual Heidegger procura se afastar em Ser e Tempo.
Desse
modo, Heidegger encaminha os dois significados de physis (ente na totalidade e essencialidade ou ser do ente) como duplo direcionamento do
questionamento aristotélico acerca da filosofia primeira[74]. E
aqui chegamos à decadência, segundo Heidegger, do filosofar vital na formação
das disciplinas escolares (lógica, física e ética), na medida em que a
filosofia se torna uma matéria de estudo para as escolas e o saber já se vê
convertido em saber epistêmico, em ciência física, ciência lógica e ciência
ética; o saber dividido em regiões diversas do ente, na medida em que este
mesmo perde o seu caráter originário de totalidade enquanto physis. Somente assim é que surgem as
ciências enquanto disciplinas, no interior da academia platônica por meio de
Xenócrates, na escola peripatética de Aristóteles até sua adoção pelos estóicos[75].
Assim
também a ideia do sistema do saber em geral como metafísica é proposta por Schelling mediante uma unificação
possível de todas as disciplinas específicas do saber pela Filosofia da Arte,
depois abandonada e substituída pela religião, em seguida possivelmente
abandonada a própria filosofia como sistema, historicamente, para que seja
possível a afirmação plena do positivo, do individual e do singular:
“Mas
é muito possível que o melhor Schelling esteja só começando nesse momento e que
tenha tido que formular a questão do sistema, afastado da arte, como sistema da
identidade, mas para abandoná-lo. É muito possível que seus escritos
posteriores, inclusive os dedicados à filosofia da natureza, voltem a descobrir
a realidade original do conflito e o próprio peso do obscuro e desconhecido que
alenta em tudo, até na própria realidade natural que se acreditava compreendida
em uma filosofia da natureza. E é muito possível que o papel que representou a
arte até um momento determinado, que chega até 1800, seja retomado pela
religião, que se constituirá no novo órgão da filosofia. Mas que será um órgão
que volta a expor a realidade que agora, além disso, de se entender como
oposição entre inconsciente e consciente, será entendida como conflito mesmo do
tempo e da história, a saber, conflito entre o passado no consciente e o futuro
consciente, entre a mitologia (que representa o passado) e a revelação (que
representa o futuro). Mas isto nos introduz em outro Schelling ou, talvez, só
nos retorne ao Schelling que nunca abandonou a visão do conflito e a
perspectiva de que a filosofia, embora queira o sistema, jamais poderá
abandonar o positivo, o individual e o singular, e que se o sistema não pode
integrá-lo. Isto será algo só historicamente possível, será melhor abandonar o
sistema.”[76]
Ora, o fenômeno histórico da divisão do
saber em regiões específicas ou ontologias regionais e da suposta necessidade
de sua sistematização força a filosofia primeira ou metafísica geral (ontologia
geral) a ser encarada como a disciplina que realizaria a unificação
sistemática, assim retirando o homem da vida fragmentada que vive, na medida em
que a vida do homem é determinada pelo saber humano, posto que homem é o Homo Sapiens. Pelo trecho lido acima e
pelo que temos falado, Schelling tentou sistematizar o saber em geral a partir
da Filosofia da Arte, até 1800, posteriormente tentando fazer isso pela
religião, chegando até ao abandono do sistema pelos motivos que já foram ditos
acima. Mas antes disso, o órgão da Filosofia, ou seja, a unidade do sistema tem
sido feito pela Lógica enquanto
possibilidade formal do discurso e pela Ontologia
enquanto possibilidade real do que pode logicamente ser falado enquanto
verdadeiramente conhecido (ente); um exemplo disso é o Livro IV da Metafísica de Aristóteles ou toda a Crítica da Razão Pura de Kant.
Essa
divisão do saber, essa decadência do filosofar originário desde Platão e
Aristóteles, segundo Heidegger, implica na seguinte definição do êthos como: “(...) atitude do homem (...) em seu portar-se como um ente diverso da
natureza em sentido estrito, da physis.”[77]
Aqui tocamos em um problema fundamental sobre a diversidade entre êthos e physis, que repercute no âmago do problema entre razão pura prática
(ideia ética) e sensibilidade (ideia estética) já referido. Poderíamos nos
perguntar em que medida nem Platão ou Aristóteles, nem sequer o estóicos,
tivessem essa pretensão de considerar o êthos
em diversidade à physis em suas
obras, sem esquecer que o elemento unificador é o lógos, e isso desde Heráclito de Éfeso, como conformidade do homem
ao ente na totalidade (Cosmos); uma
conformidade que inclui toda a complexa diversidade do ente na simples
universidade do ser; e talvez unicamente por isso Heidegger possa afirmar que a
linguagem é o lar do ser, onde mora o homem enquanto poeta e pensador.
Desse
modo, cumpre sermos objetivos e encerrarmos de uma vez este tópico de nossa
confrontação com Heidegger. A análise do significado do termo metafísica leva-o a pensar uma acepção
estritamente técnica da expressão meta
enquanto “ao lado”, “por detrás” ou “em seguida a” em referência ao tratado de Física de Aristóteles no sentido de
meramente agrupar a obra deste pensador em certa ordem bibliográfica no interior
de uma biblioteca [78].
Com isso, tem-se a ordenação dos escritos de Aristóteles na seguinte ordem:
escritos de lógica, escritos de física, escritos sobre a filosofia primeira ou
metafísica e, por fim, os escritos éticos e políticos.
Poder-se-ia
perguntar em que medida essa ordem já diz algo de uma possível sistematização
do saber em geral: parte-se da Lógica como forma pura e possibilidade do
discurso verdadeiro para a Física e, igualmente, a Metafísica como filosofia
primeira (em consonância à Lógica, como se vê no Livro IV da Metafísica de Aristóteles), a Física e a
Metafísica abrangendo o ente na totalidade como realidade total a respeito de
que se fala, ou seja, que se desvela pelo discurso e que insere o homem no
âmago desse desvelamento enquanto ente natural; somente depois dessa reflexão
sobre o ente em geral, a natureza (incluindo sua caracterização como Theos, o divino) enquanto totalidade do
ente, parte-se para as reflexões políticas do homem enquanto habitante de uma Pólis (coletividade ou cidade), enquanto
natureza mesma do homem a reivindicar a discussão pelas respectivas formas de
governo mais ou menos adequadas e sobre o tipo genérico de indivíduo humano que
se pretende formar, pela Paideia
cultural, em conformidade a normas éticas convencionadas pela deliberação livre
do homem acerca de sua morada no mundo, de sua habitação na palavra em meio à
manifestação de um sentido para o ente na totalidade. Mas nessa ordenação, não
houve uma situação da Poética, que
trata da arte em geral (nem do tratado De
Anima); paramos por aqui; apenas indicamos que os escritos sobre a
filosofia primeira foram colocados bem no centro, bem no meio entre os lógicos
e os físicos e os éticos e os políticos; talvez agrupássemos os escritos sobre
a arte, a Poética, depois dos últimos
ou até antes dos primeiros e, sinceramente, não sabemos se isso alteraria o
conteúdo do sistema inteiro, posto que cada ontologia regional é a expressão
mesma do todo do saber sistêmico da ontologia geral.
É
assim que a polêmica quanto à interpretação do meta de metafísica, isto
é, a polêmica quanto à transformação de ta
meta ta jusika (em
grego) para metaphysica (em latim)
assumirá uma outra significação, qual seja: a de transformação[79],
posto que o meta também tem esse
sentido; transformação como passagem de um ser a outro no sentido de uma
reflexão sobre o movimento na natureza em geral. Heidegger interpreta isso como
um lançar-se do ente físico para outro ente, para fora do ente sensível rumo ao
suprassensível, de modo que o mero uso técnico “bibliotecário” do termo metafísica tenha assumido uma
significação de conteúdo da própria reflexão da filosofia primeira de Aristóteles, assim destinando a sua
interpretação ao longo da história do pensamento ocidental através da
escolástica medieval até as influências de Suarez sobre Descartes, no início da
metafísica moderna da subjetividade. E pelo fato de Heidegger considerar que
esse movimento histórico tenha sido uma confusão dos significados do termo metafísica que, através da dogmática
cristã, prevaleceu pela Renascença, pelo Humanismo e pelo Idealismo Alemão como
sendo uma inverdade apenas percebida por Nietzsche[80],
aqui nos separamos de Heidegger, assim como o fizemos em relação a Kant e
Nietzsche, em defesa de nossa tese.
Primeiro:
poderíamos nos questionar quanto ao fato de a interpretação de conteúdo da
palavra metafísica, embora esta não
seja expressão cunhada por Aristóteles, não signifique em momento algum um
rumar do movimento de transformação da physis
sensível para um suprassensível que não fosse também, e até mais ainda que
o sensível, dentro e no âmago mesmo da physis
enquanto infinito autoproduzir-se e, pelo princípio de retenção da
produtividade infinita, deixar-se ver ou mostrar-se em um todo finito do ente
que nasce e perece; um deixar ver e mostrar-se que é de si para si mesma, posto
que o que vê o finito é o entendimento reflexivo do homem, ao passo que o
mostrar-se do infinito no finito só se revela à intuição (que aqui nos livramos
de dizer que seja sensível ou racional, ou as duas coisas), posto que o homem é
a formação mesma finita dessa atividade infinita de produtividade que é a natureza
(divina em si mesma), segundo a Filosofia da Natureza de Schelling.
Segundo:
poderíamos nos perguntar por que motivo nós deveríamos passar dogmaticamente da
filosofia crítica transcendental de Kant como tribunal da Razão Pura à
filosofia a golpes de martelo de Nietzsche para chegarmos até Heidegger e sua
tarefa de destruição da história da ontologia (através de sua obra Kant e o problema da Metafísica)[81],
desprezando o Idealismo Alemão como uma forma de ocultismo ou teosofia[82];
de modo que esse segundo questionamento nos leva a um terceiro: por que motivo
nós deveríamos necessariamente supervalorizar o germanismo de um suposto Führer do pensamento em detrimento do
latinismo da palavra metaphysica
transmutada em ontologia do Dasein
(que, como ontologia, nada tem de antropológica ou pedagógica)? Seja como for,
Heidegger se impõe como o condutor e líder da Universidade Alemã em 1933, o ano
em que Hitler assume o poder; evidentemente não queremos fazer uma crítica da
vida pessoal do grande pensador Martin Heidegger; queremos apenas mostrar que a
metafísica não se desvincula, pelo contrário, ela vincula uma sistematização do
saber em geral. E assim como Heidegger considera que a decadência do pensamento
antigo se inicia pelas filosofias escolares herdadas de Platão e Aristóteles,
afirmamos o caráter de nossa tese como retomada do sentido originário da
metafísica clássica socrático-platônica enquanto fundamentação de uma Paideia humana universal, e fazemos isso
mediante uma citação de Conde Yorck feita por Heidegger no §77 de Ser e Tempo; fazemos nossas as palavras
de Yorck, no sentido de fazer ver também que não rejeitamos completamente o
conceito de ser-aí ou pre-sença:
“O ponto nevrálgico da historicidade é o fato de que
a totalidade dos dados psicofísicos não é
(...), mas vive. E uma reflexão sobre si mesmo, que não se dirige a um eu
abstrato mas à plenitude do meu si-mesmo, é que haverá de me encontrar
historicamente determinado tal como a física me reconhece cosmologicamente
determinado. Tanto quanto natureza, eu sou história... (...) O poder tornar-se
prática é, sem dúvida, o fundamento próprio e justo de toda ciência. Mas a
práxis matemática não é a única. A finalidade prática de nosso ponto de vista é
a pedagógica, no sentido mais amplo e profundo do termo. Ela é a alma de toda
verdadeira filosofia e a verdade de Platão e Aristóteles (...) O senhor sabe o
que eu acho a respeito da possibilidade de uma ciência da ética. (...) Para
quem são propriamente esses livros? Arquivos e arquivos! O único valor digno de
nota é o élan de passar da física para a ética. A filosofia é a manifestação da
vida, e não a expectoração de um pensamento, que nem possui e nem manifesta
solidez por desviar a visão do solo da consciência. Nessa acepção, a tarefa
será parcimoniosa em seus resultados mas complexa e trabalhosa em sua conquista.
Liberdade dos preconceitos é a pressuposição, que já é muito difícil de se
adquirir.”[83]
2.3b
Da analítica do Dasein à essência poiética da técnica como arte.
Nossa
confrontação dialógica com Heidegger ainda segue o fio condutor do problema que
se nos apareceu desde a confrontação com Kant e que também se nos apresentou no
diálogo com Nietzsche, a saber: o problema do conflito entre a razão (alma) e a
sensibilidade (corpo), um conflito metafísico entre o suprassensível e o
sensível, um conflito de regiões do saber comumente consideradas distintas: a Ética e a Estética, como já se tornou vício e costume da ciência em geral
seccionar a realidade em setores de objetos, essa grandiloquente ciência
simultaneamente produtora de conhecimento e ignorância; uma ignorância
cognitiva sim porque veste a fantasia pitagórico-platônica do ideal da ciência
e do conhecimento e submete tudo (que é possível) ao rigor de esquemas
metodológicos de constituição de objetos possíveis enquanto posicionáveis para
a positividade do comportamento científico frente ao ente; ação esta que se
denomina pesquisa científica e que se mostra mediante uma forma determinada de
discursividade permitida; uma permissão que se autojustifica pela dogmática
maquinal da sistêmica movimentação estrutural do pensamento que se move no
cerne do conceito, assim constituindo um caráter científico para o
comportamento humano enquanto produtor do ente mediante sua construção positiva
no processo de sua objetivação, na medida em que se torna fenômeno descoberto
pela práxis produtora de teorias.
Fazemos
agora uma rápida caminhada por Ser e
Tempo e pelo projeto de retomada do questionamento pelo sentido do ser
através da analítica do Dasein (ser-aí). Considerando que a nossa
pre-sença no mundo (ser-aí ou Dasein como ser-no-mundo) sempre se move em uma compreensão de ser e que o ser
é sempre o ser de um ente, Heidegger anuncia, no §3 de Ser e Tempo[84], o
primado ontológico da questão do ser, qual seja: que no processo da
constituição da ciência reside a assim chamada diferença ôntico-ontológica, que
na maioria das vezes permanece velada em sua verdade para o próprio cientista
em seu labor científico. Esse processo se dá mediante a tomada do todo do ente,
dividido em regiões, como campo para a liberação do surgimento e da
determinação de setores de objetos possíveis para a pesquisa científica; esse
processo constitui a positividade mesma das ciências positivas na medida em que
põe o setor de objetos pela determinação da região do todo do ente a ser
abarcada; como essa posição é uma posição em nível ontológico, ela ocorre como
movimentação dos conceitos fundamentais das ciências no sentido de
estabelecimento de leis para os fenômenos e de sua enunciação em um sistema de
pro-posições; esse movimento é um movimento descensional da verdade ontológica
como alétheia (desencobrimento do
ente pelo encobrimento ou esquecimento do ser) até a verdade ôntica, que se
deriva nas leis lógicas do entendimento e da estrutura formal do encadeamento
de proposições mediante o uso de conceitos puros ou categorias. Na medida em
que essas proposições concordam ou estão adequadas às experimentações dos
objetos enquanto fenômenos abarcados pelo setor do ente delimitado, a teoria
científica em sua práxis teórica é
estável e não se abala em seus fundamentos.
Apesar
de o peso (ordem) da pesquisa científica se ordenar na referida positividade,
diz Heidegger[85],
e de objetivar-se publicamente nos manuais como acúmulo dos resultados obtidos
pelas pesquisas, o progresso se dá como movimento de revisão e questionamento dos
conceitos fundamentais que constituem cada setor de objetos, a saber: história,
natureza, vida, linguagem etc. Assim, cada setor de objetos pode ser tematizado
e se tornar objeto de investigação; processo pelo qual se pode configurar não
só uma ciência histórica, uma ciência natural, uma ciência biológica etc. como
também uma Filosofia da Ciência histórica, uma Filosofia da Natureza, uma
Filosofia da Biologia ou uma Filosofia da Linguagem. Assim, o progresso
científico se move mediante uma crise dos conceitos fundamentais das ciências,
na medida em que estes não se adequam mais às experimentações ou investigações
positivas e não mostram mais as coisas em si mesmas, ou o ente enquanto ente,
como fenômeno ou campo de apresentação de fenômenos.
Acima
nos referimos à distinção entre uma verdade ontológica (verdade do ser como alétheia) e uma verdade ôntica (verdade
do ente como adequação), que não é falada no trecho de Ser e Tempo que estamos a analisar. Gostaríamos de deixar expresso
que essa distinção aparece, não necessariamente da forma como a colocamos aqui,
no Sexto capítulo da Primeira Seção da Introdução
à Filosofia de Heidegger como determinação da Verdade em seus sentidos
ôntico e ontológico e na sua relação com a liberdade ou a transcendência do Dasein enquanto o transpassar
conceptivamente o ente como tal na totalidade a fim de apreendê-lo em seu ser[86].
De modo que o filosofar é ali definido como o transcender próprio da essência
do ser-aí humano, que está no fundamento originário da possibilidade da
positividade da ciência, embora resguardando toda diferença entre ciência e
filosofia ali discutida, tal qual ela (a ciência) se desenvolve na esteira da
facticidade e da historicidade do Dasein
nos rumos de sua destinação planetária como império da técnica e
universalização do modo ocidental de pensar.
Ora,
o transcender próprio ao Dasein mantém
sua relação intrínseca com a essência volitiva da vida tomada de maneira
apodítica (universal e necessária) como ímpeto de dominação, embora o conceito
de Dasein procure a singularização na
existência a fim de escapar de qualquer essencialização de si como ente
simplesmente dado. É assim que Nietzsche é posto no cume da consumação da
metafísica mediante a seguinte consideração Imprimir
ao devir o caráter de ser – eis a suprema vontade de poder[87];
esse caráter da vida ou da vontade de poder, a saber: imprimir ao devir (ente)
o caráter de ser (apreensão do ser do ente pela concepção de um conceito no
intelecto) é o transcender como tal, o estar livre para assumir suas
possibilidades fáticas no mundo. Assim, o ser é pensado como eterno retorno,
modo da constância pelo qual a vontade de poder é anelante, isto é, quer a si
mesma como presença (Dasein) que
assegura a si mesma enquanto ser do devir (dominação da realidade).
Não
podemos nos demorar neste ponto, em que se discute também a diferença entre
compreensão de ser pré-ontológica e ontológica. Apenas gostaríamos de apontar
para a diferença entre visão de mundo (ser-aí mítico) e filosofia (ser-aí, de
certo modo, científico ou destinado como tal pelo acontecimento-apropriação do
ser), de maneira a ressaltarmos que tal construção de cunho pretensamente ontológico não se defronta com o problema
da cultura, posto que esta seria considerada mais uma região ôntica ou setor
limítrofe de objetos de uma ciência positiva determinada, a antropologia,
resguardando o teor dogmático de sua
própria construção conceitual no sentido de preservar a ontologia do Dasein como filosofia primeira [metafísica] temporalizada[88].
Assim,
a ideia de que as ciências positivas do ocidente e a filosofia sejam meras
determinações de uma cultura particular que se deu a tarefa de um ideal de
universalidade técnico-teórica ao questionar a sua tradição mítica e instaurar
a linguagem puramente racional não pode ser uma ideia discutida em termos
puramente heideggerianos. Talvez isso seja possível a partir da consideração da
assim chamada crise das ciências no sentido de uma crise de sentido existencial
de um povo, de uma cultura, em seu destino histórico-factual; esta ideia pode
ser intuída a partir da obra A Crise das
Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental de Edmund Husserl, na
medida em que o método fenomenológico possa ser usado como via de investigação
autocrítica da perda do sentido da realidade e de sua ligação com o sagrado,
que se manifesta de diversas maneiras em distintas culturas, e sua coligação
com a dimensão religiosa do homem. Do mesmo modo, a oposição entre razão e
sensibilidade como determinação metafísica clássica do homem como animal racional reflete o fundamento da
teoria do conhecimento moderna inaugurada desde Descartes como oposição entre
um subjetivismo transcendental (res cogitans)
e um objetivismo fisicalista (res extensa).
É
nesse sentido que colocamos aquela distinção entre verdade ontológica e verdade
ôntica como distinção originariamente unitária entre verdade poética como alétheia e verdade lógica como adequação
(do pensamento consigo mesmo pelas leis lógicas do entendimento e deste com a
experiência possível de representação de objetos, a sensibilidade). E isso está
em plena concordância ao objetivo de nossa confrontação dialógica com Kant, a
saber, indicar a superação do entendimento reflexivo e do conceito kantiano de
conceito como representação até alcançarmos a verdade do idealismo alemão
acerca da ideia (realidade) como movimento auto-especulativo do Absoluto. A
verdade poética como verdade originariamente ontológica será tema do próximo
capítulo, e estará fundada na seguinte fala de Schelling que adiantamos aqui e
agora:
“A filosofia
também é poesia, mas não tão inconvenientemente a ponto de ressoar apenas a
partir de um único sujeito. Ao contrário, ela é uma poesia interior, implantada
no objeto, tal como a música das esferas celestes. Pois, originariamente, é a
coisa que é poética, só depois o é a palavra.[89]
Após esta breve
digressão que contém muitas possibilidades de desenvolvimento analítico de
tematizações de problemáticas conceituais, das quais não podemos nos ocupar,
muito embora possamos indicar, precisamos voltar a Ser e Tempo, mais precisamente ao §4 intitulado O primado ôntico da questão do ser. Pois
aqui se determina de maneira amplamente dogmática..., como é de costume em
filosofia, a fim de que se possa construir algum sistema de conceitos e
enclausurar o pensamento em suas possibilidades finitas de questionamento,...
que: A compreensão do ser é em si mesma
uma determinação do ser da pre-sença[90].
De modo que ser-ontológico não significa elaborar uma ontologia (teoria?),
segundo Heidegger, muito embora o encobrimento sempre vigente na metafísica da diferença
ôntico-ontológica esteja no fundamento da distinção entre teoria e prática, que
delimita a natureza puramente técnica do pensamento metafísico tradicional até Ser e Tempo.
Na
verdade, pretende-se dizer que o Dasein
não se determina sendo simplesmente um ente dado, mas o ente especial que é
sendo a cada vez a escolha de seu próprio ser enquanto existe no modo da
referida compreensão de ser (diferença ôntico-ontológica). Assim, supõe-se que
o termo ontologia sendo reservado para a designação de questionamento teórico
do sentido do ser determinará esse ser-ontológico como significando
pré-ontológico. E aqui reside a máxima importância que ressaltaremos em
referência ao §42 intitulado: A
confirmação da interpretação existencial da pre-sença [Dasein] como cura a partir da própria interpretação
pré-ontológica da pre-sença[91]. Pois eis que agora chegamos à nomeação do ser
próprio do Dasein como existência; termo pelo qual se delimita
a possibilidade de comportamento do ser-aí [Dasein
ou pre-sença] enquanto se a considera um ente desprovido, em sua essência,
de um conteúdo determinado ou qüididativo,
posto que a existência deve sempre escolher (ou não) o seu próprio ser e
reivindicar a sua singularidade enquanto pre-sença no mundo do ponto de vista
de sua finitude ou de seu ser-para-a-morte.
Mas
aqui percebemos o conflito com a tradição escolástica e metafísica em geral e
que toca o ponto que nos importa nesta confrontação com Heidegger. Pois a existência enquanto contendo em si um
conteúdo qüididativo pode encaixar-se em uma classificação lógica e biológica
de gêneros e espécies: “O que situa uma
realidade dentro de seu gênero ou espécie correspondente é o que se expressa na
definição do que é a coisa (quid est); por este motivo os filósofos trocaram o
termo essência por qüididade (Tomás de Aquino, De ente et essentia)”[92].
Porém a analítica do Dasein não busca
uma determinação lógico-biológica da essência da existência humana enquanto
animal (gênero) racional (diferença específica), mas sim uma compreensão do ser
da existência no domínio puro de sua proposta de renovação (destruição ou
desconstrução) da história da ontologia (§6 de Ser e Tempo).
Desse
modo, a velha definição de homem como animal
racional, como sensibilidade e razão, se torna pura e simplesmente o ser vivo cujo modo de ser é,
essencialmente, determinado pela possibilidade da linguagem[93].
Apontando para a citação de Schelling que fizemos acima, já anunciamos que a
possibilidade da linguagem é a coisa mesma (realidade objetiva da natureza)
enquanto poética. Mas Heidegger quer tanto escapar da ontologia tradicional e
do homem considerado uma “coisa natural”, que seu projeto de escapar da ou
superar a metafísica moderna da subjetividade como substancialidade apenas
vislumbrará na assim chamada virada a
apatridade (niilismo) do homem face à vigência da linguagem da técnica moderna[94]
como consumação da metafísica e, confirmando o êthos próprio da existência enquanto correspondência do pensar ao
apelo do ser na linguagem, Heidegger reconduzirá o pensamento originário à
vizinhança do poeta que canta a simplicidade do acontecimento primordial do
espanto com a realidade, que fora esquecido pelo destino histórico-ontológico
da verdade do ser: os deuses também estão
aqui presentes[95].
Assim,
Heidegger responde da seguinte maneira à pergunta de Jean Beaufret de que maneira dar novamente, à palavra
humanismo, um sentido? [96] e
à afirmação do mesmo o que procuro fazer,
já há muito tempo, é precisar a relação da Ontologia com uma Ética possível[97] citando Heráclito de Éfeso: Êthos anthrópo daimon (...): a habituação (familiar) é para o
homem o aberto para a presentificação do Deus (o não-familiar)[98]. O aberto para a presentificação do Deus, assim pensamos, é o ser-aí, a
presença humana no mundo como existência poética na correspondência originária
ao apelo do ser na linguagem, que só se vê na época mítica anterior à
metafísica clássica propriamente dita, a época do pensamento originário dos
pré-socráticos, de Homero e de Hesíodo e que Platão tenta rememorar
poeticamente na recorrência aos mitos em seus diálogos, quando o uso
lógico-dialético da linguagem já não dá mais conta de acessar o ser em sua
verdade (alétheia). Assim Heidegger
pensa que:
“(...) Através
da interpretação ontológica do ser-aí como ser-no-mundo não se decidiu nada,
nem positiva nem negativamente, sobre um possível ser-para-Deus. Mas só pela
clarificação da transcendência se alcança um adequado conceito do ser-aí, que,
levado em consideração, permite, então, perguntar qual é, sob o ponto de vista
ontológico, o estado da relação do ser-aí com Deus. (....) Somente a partir da
verdade do ser [desvelamento-encobrimento] deixa-se pensar a essência do
sagrado.[99]
Com isso,
Heidegger procura se distinguir do existencialismo humanista de Sartre
e
da afirmação sartreana de que nós
estamos precisamente num plano onde há apenas homens
afirmando que, a partir de Ser e Tempo,
só se pode dizer que nós estamos
precisamente sobre um plano onde há originariamente [principalement] o Ser. De
modo que o ser e o plano são o mesmo, posto que simplesmente dá-se ser.[100]
Poder-se-ia perguntar em que medida esse se que indica sujeito indeterminado
e que dá, isto é, se doa como acontecimento-apropriativo (Das Ereignis) de Ser a tempo e de Tempo
a ser, assim essencializando e temporalizando a existência humana, não seria
uma recaída no discurso impróprio, impessoal da opinião pública massificada que
se autojustifica, na Alemanha daquele tempo, como uma espécie de deixa pra lá, é assim que todo mundo faz
mesmo relativamente à doutrina de Estado imposta pelo Partido Nacional
Socialista e uma maneira de eximir-se da responsabilidade de escolha do próprio
ser enquanto presença-no-mundo, posto que o dar-se do ser se envia ao ser-aí e
o destina para a escolha de si mesmo possível em sua facticidade histórica
vigente (§74 de Ser e Tempo a
constituição fundamental da historicidade; a noção de envio comum como acontecer da comunidade e do povo); porém este não
é o escopo de nosso trabalho e de nossa confrontação com Heidegger.
Precisamente
neste momento, precisamos retornar a Ser
e Tempo, especificamente ao §42, que trata do tema da auto-interpretação
pré-ontológica do ser-aí no sentido de confirmar a interpretação existencial do
ser-aí como cura (Sorge, o cuidado na
ocupação com as coisas e na preocupação com os outros, estes enquanto tendo o
caráter de seres-aí; a preocupação, portanto, nos aponta a estrutura de
ser-uns-com-os-outros do ser-aí; este, por usa vez, pode designar o Dasein ou a presença-no-mundo existente
fática e historicamente enquanto indivíduo e enquanto coletividade). Aqui,
reproduzimos a fábula de Higino que Heidegger cita como figura de linguagem
(mítico-poética) da determinação temporal da existência finita do homem na
Terra:
“Certa vez, atravessando um
rio, cura viu um pedaço de terra argilosa: cogitando, tomou um pedaço e começou
a lhe dar forma. Enquanto refletia sobre o que criara, interveio Júpiter. A
cura pediu-lhe que desse espírito à forma de argila, o que ele fez de bom grado.
Como a cura quis então dar seu nome ao que tinha dado forma, Júpiter a proibiu
e exigiu que fosse dado o nome. Enquanto Cura e Júpiter disputavam sobre o
nome, surgiu também a terra (tellus) querendo dar o seu nome, uma vez que havia
fornecido um pedaço de seu corpo. Os disputantes tomaram Saturno como árbitro.
Saturno pronunciou a seguinte decisão, aparentemente equitativa: Tu, Júpiter,
por teres dado o espírito, deves receber na morte o espírito e tu, terra, por
teres dado o corpo, deves receber o corpo. Como, porém, foi a cura quem
primeiro o formou, ele deve pertencer à cura enquanto viver. Como, no entanto,
sobre o nome há disputa, ele deve se chamar homo, pois foi feito de húmus
(terra).[101]
O §42 de
Ser e Tempo mostra claramente a
determinação da existência humana como cura a partir da concepção tradicional
do homem como composto de corpo (elemento terrestre) e espírito (elemento
celeste). A fábula mostra uma contenda entre céu (Júpiter ou Zeus) e cura, para
dar nome ao ente formado pela cura a partir da terra (tellus). Esta também entra na contenda pelo fato de ter fornecido
um pedaço de seu corpo, ao passo que Júpiter havia concedido o espírito,
enquanto a cura havia lhe dado forma. O juiz que decide a contenda é ninguém
menos que Saturno (Kronos ou Tempo),
e por isso a temporalidade é tratada como sentido ontológico da cura na segunda
parte de Ser e Tempo; por isso,
enquanto viver, o homem experimenta a morte como morte em sentido ontológico na
mortalidade como tal do fenômeno ôntico do tempo originário, na
intratemporalidade como o aberto do ente que nasce e perece. Heidegger cita,
ainda no §42, uma passagem da epístola 124 de Sêneca[102]
em que quatro naturezas se distinguem: vegetal, animal, humana e divina; homens
e deuses se distinguem das outras por serem dotados de razão; deuses e homens
se distinguem entre si porque os primeiros são imortais e os segundos, mortais.
Na perfeição do ente divino o bem realiza a sua natureza, na perfeição do
humano, a cura.
A fábula
de Higino e a Epístola 124 de Sêneca citadas por Heidegger indicam a cura como
determinação estrutural do ser-aí, e sua derivação na existência do mundo
factual e cotidiano constitui o cuidado na ocupação com as coisas (entes
intramundanos) e na preocupação com os outros existentes (homens, entes com o
caráter de ser-aí e ser-no-mundo). Esse cuidado, ou melhor, a própria cura é ou
habita poeticamente a sua pátria na linguagem na medida em que resguarda nas
coisas e na manifestação dos entes na palavra o mistério da retração do ser de
quadratura em sua unidade originária: deuses e homens, céu e terra. Apenas como
menção, ressaltamos que a suástica é um símbolo com quatro pontas e, girando, é
uma representação do movimento do Universo na cultura budista e na hindu; um símbolo
que foi apropriado pelo Nazismo em posição inversa e que é uma figuração do Dharma do Universo, a Lei do Buda. Com
isso, chegamos a entender que a poesia é, pois, a linguagem da verdade do ser
(quadratura) que se mantém em seu resguardo:
“Resguardar é, em sentido
próprio, algo positivo e acontece quando deixamos alguma coisa entregue de
antemão ao seu vigor de essência, quando devolvemos, de maneira própria, alguma
coisa ao abrigo de sua essência, seguindo a correspondência com a palavra
libertar (Freien): libertar para a
paz de um abrigo. Habitar (...) permanecer pacificado na liberdade de um
pertencimento, resguardar cada coisa em sua essência. O traço fundamental do
habitar é esse resguardo. (...) Mostra-se tão logo nos dispomos a pensar que
ser homem consiste em habitar e, isso, no sentido de um demorar-se dos mortais
sobre essa terra. Sobre essa terra já diz, no entanto, “sob o céu”. Ambos
supõem conjuntamente “permanecer diante dos deuses” e isso “em pertencendo à
comunidade dos homens. Os quatro: terra e céu, os divinos e os mortais,
pertencem um ao outro numa unidade originária. (...) Enquanto resguardo, o
habitar preserva a quadratura naquilo junto a que os mortais se demoram: nas
coisas. (...) Cultivar e edificar significam, em sentido estrito, construir.
Habitar é construir desde que se preserve nas coisas a quadratura (...) Coisificando,
a coisa deixa perdurar a união dos quatro, terra e céu, mortais e imortais na
simplicidade da sua quadratura, que unifica por si mesmo. A terra é o sustentáculo
da construção, a fecundidade na aproximação, estimulando o conjunto das águas e
dos minerais, da vegetação e da fauna. O céu é o caminho do sol, o curso da
lua, o brilho das constelações, as estações do ano, a luz e claridade do dia, a
escuridão e densidade da noite, o favor e as intempéries do clima, a procissão
de nuvens e a profundeza azul do éter. Os imortais são acenos dos mensageiros
da divindade. É, na regência encoberta da divindade, que Deus aparece, em sua
vigência essencial, que o retira de qualquer comparação com o que é e está
sendo. Os mortais são os homens. São assim chamados porque podem morrer. Morrer
significa: saber a morte, como morte. (...) A morte é o escrínio do Nada, do
que nunca, em nível algum, é algo que simplesmente é e está sendo. Ao
contrário, o Nada está vigindo em vigor, como o próprio ser. (...) Os mortais
são mortais, por serem e vingarem, no resguardo do ser. São a referência
vigente ao ser, como ser. Dá-se o nome de mundo a este jogo em espelho, onde se
apropria a simplicidade de terra e céu, de mortais e imortais. Mundo é mundo,
no vigor que instaura mundo, que, portanto, mundaniza. (...) O querer explicar
do homem não alcança a unidade simples da singularidade unitária do mundanizar.
Ao serem representados, apenas, como um real particular, fundando-se e
explicando-se um pelo outro, os quatro conjugados são sufocados em sua vigência
essencial.”.[103]
Inevitavelmente
somos forçados a interpretar essa ânsia pelo resguardo de ser (quadratura) em
um habitar (êthos) poético (belo) de
nossa existência no mundo como sinal de uma disposição de humor fundamental do Dasein, a saber: a angústia como
sentimento da presença do nada e da reivindicação do poder-ser mais próprio
irrevogável e irremissível do ser-aí, do ser-no-mundo ou de nosso
ser-uns-com-os-outros como ser-para-a-morte; em um compartilhamento insigne da
absoluta singularidade, da ausência de pertencimento a um lar e do sem sentido
determinado de ser enquanto existente.
Em meio
a isso, a constatação da consumação dos desdobramentos possíveis do
esquecimento do ser, isto é, o fechamento do ciclo da pergunta pelo ser do ente
como ente na totalidade na instalação do domínio técnico-científico do homem
sobre a terra e sobre si mesmo, objetivando tudo e a todos para tudo e para
todos até a devastação da terra na brutalidade auto-aniquiladora das guerras
mundiais, dos governos ditatoriais, da polarização esquerda-direita e da
corrida armamentista na vontade de querer enlouquecida da ânsia de dominação da
angústia mundialmente compartilhada. Em meio a isso, um filósofo buscava
serenidade e um pouco de aquecimento em meio à lareira do ser, em meio ao
fogo-clarão que relampeja o aparecimento de um visto e a visualização de um
sentido; como diz a lenda, Heráclito preferia brincar com crianças o jogo do
tempo, do lançar de dados da sorte (destino) do puro pensamento de clareira, em
vez de envolver-se nos negócios da Pólis (coletividade).
Assim também Heidegger refugiou-se na Floresta Negra em busca da serenidade
junto ao ser, pensando e poetando a permanência da caminhada, a existência
estando a caminho do ser. Não se pode culpar um homem ou uma multidão de homens
porque já não se consegue estabelecer o vínculo entre a Ontologia e uma Ética
possível, na medida em que a civilização já não é mais cultura, na medida em
que o belo já não é a forma da medida da sensibilidade do gosto para a arte,
nem o bem a finalidade racional da morada humana no mundo.
Assim,
no confronto com a tradição metafísica ocidental a determinar a
substancialidade do sujeito e do objeto a partir da essência do gênero
específico animal racional, como
Heidegger ainda poderia pensar como Aristóteles? Como encontrar qualquer ideia
ética ou estética, ainda no mundo hodierno dito por uns pós-moderno? Como é
possível ainda uma Paideia humana
universal, como é possível uma Pólis
integrada em meio à exaltação desmedida do consumo, do entretenimento e das
paixões pessoais? Como confiar na metafísica clássica do animal racional e nas
palavras seguintes de Aristóteles?
“(...) que o
homem é um animal político, por natureza, (...) A natureza, afirmamos, nenhuma
coisa realiza em vão. Somente o homem, entre todos os animais, possui o dom da
palavra; a voz indica dor e prazer, e por essa razão é que ela foi outorgada a
outros animais. Eles chegam a sentir sensações de dor e prazer, e fazerem-se
entender entre si. A palavra, contudo, tem a finalidade de fazer entender o que
é útil ou prejudicial, e, consequentemente, o que é justo e injusto. O que,
especificamente, diferencia o homem é que ele sabe distinguir o bem do mal, o
justo do que não o é, e assim todos os sentimentos dessa ordem cuja comunicação
forma exatamente a família do Estado. (...) a natureza faz assim com que todos
os homens se associem (...) As armas que a natureza fornece ao homem são a
prudência e a virtude. (...) É necessário, portanto, admitir em princípio que
as ações honestas e virtuosas (...) são a finalidade da sociedade política.
(...) Em todas as ciências, assim como em todas as artes, a finalidade é um
bem; e o maior de todos os bens encontra-se, sobretudo, naquela dentre todas as
ciências que é a mais alta; ora, tal ciência é a política e o bem, em política,
é a justiça, quer dizer, é a utilidade coletiva.[104]
Ora, o que essas
palavras de Aristóteles sobre bem e mal, justo e injusto, prudência e virtude
na determinação da natureza humana, pela linguagem ou pelo Lógos (racionalidade), em vista da necessidade de o homem chegar a
ser homem enquanto habitante de uma cidade ou coletividade, em suma, o que
essas palavras evocam em nossa confrontação com Heidegger? Sim, elas evocam a
necessidade de repensar o êthos
possível de nossa existência ontológica na linguagem em sua relação com uma
ética possível, especialmente uma ética possível enquanto estética, um bem
coletivo possível enquanto universalidade bela das ações virtuosas, justas e
boas, uma cidade mundial (cosmopolitismo) possível enquanto formação integral (Paideia) humana universal. Em meio a uma
época já bastante pós-crítica da Razão moderna, cabe perguntar-se, com
Habermas, acerca da possibilidade de uma Razão Comunicativa enquanto ponto de
unificação da ideia ética (razão) com a ideia estética (sensibilidade) no todo
da cultura:
“Sugeri (...) que o paradigma do
conhecimento de objetos deveria ser substituído pelo paradigma do entendimento
entre sujeitos capazes de falar e agir. Hegel e Marx não efetuaram a mudança de
paradigma; por sua vez, Heidegger e Derrida, na tentativa de ignorar a
metafísica da subjetividade, permaneceram presos à intenção da filosofia
primeira. (...) No entanto, o poder histórico-transcendental, a única
constância no sobe-e-desce dos discursos sujeitadores e sujeitados, revela-se,
enfim, apenas um equivalente para a “vida” das velhas filosofias da vida. Uma
solução mais sólida delineia-se ao abandonarmos a pressuposição um tanto
sentimentalista da perda do abrigo metafísico e entendermos a consideração
transcendental e a empírica, (...) entre a produtividade de uma espécie que se
gera a si mesma e o originário que precede toda produção – se entendermos
portanto o jogo enigmático dessas suplicações como aquilo que realmente é: um
sintoma de esgotamento. O que está esgotado é o paradigma da filosofia da
consciência. Se procedermos assim, certamente devem se dissolver os sintomas de
esgotamento na passagem para o paradigma do entendimento recíproco.”[105]
Quanto aos
sintomas de esgotamento do paradigma da filosofia da consciência, não podemos
negar que Heidegger os tenha constatado e se esforçado por apresentar uma
alternativa própria de pensamento, assim como Derrida e outros. Porém é certo
que sua ontologia do Dasein permanece
sob o domínio da intenção da filosofia primeira temporalizada. Quanto ao
abandono sentimentalista da perda do abrigo metafísico, não podemos seguir as
recomendações de Habermas, uma vez que concebemos a possibilidade de um
entendimento recíproco a partir de ideias que já vimos expondo no decorrer
deste trabalho e que se elucidarão no capítulo seguinte e no curso ainda não
terminado de nossa confrontação dialógica com Heidegger. Pretendemos sim
retomar o sentimentalismo romântico da perda do abrigo metafísico mediante a
proposta dogmática, mas não impositiva, do sentido clássico socrático-platônico
da metafísica como sistematização do saber em geral com fins de constituição de
um projeto de formação integral do homem; e isso na medida em que erigimos a um
patamar de absolutidade universal os princípios da Bondade, da Beleza e da
Justiça (Harmonia) enquanto condições de possibilidade de um entendimento
recíproco pautado no paradigma da Razão Comunicativa, sem, contudo,
necessariamente abandonarmos o supostamente esgotado paradigma da consciência.
Assim sendo, retomemos uma colocação
que fizemos acima acerca da possibilidade de que o método fenomenológico possa
ser usado como via de investigação autocrítica da perda do sentido da realidade
e de sua ligação com o sagrado, que se manifesta de diversas maneiras em
distintas culturas, e sua coligação com a dimensão religiosa do homem. Logo,
dispensando as teorias consagradas da antropologia de intenções psicológicas e
sociológicas, Angela Ales Bello nos convida a uma leitura desse tipo em sua
obra intitulada: Culturas e Religiões:
uma leitura fenomenológica. Desse modo, ela nos convida a nos questionarmos
sobre a aparente áurea de superioridade civilizacional de nossa cultura
científica ocidental em relação às ditas culturas primitivas quanto ao projeto
histórico do povo europeu em constituir-se enquanto Humanidade Racional
portadora de um Lógos (discurso,
palavra, razão etc.) universal.
Com efeito, a diferença de métodos
na pesquisa antropológica leva a diferenças de impostação e de discursos, bem
como a diferentes resultados. Então poderíamos nos perguntar se a essência da
prática científica está no método ou na lógica de seu procedimento, de tal
maneira que tal determinação da humanidade enquanto humanidade científica nos
encaminharia para uma possível recolocação do problema da técnica moderna. E
isso se daria na medida em que a técnica se vincula originariamente ao projeto
epistemológico ou gnosiológico da modernidade (Francis Bacon/René Descartes...)
até o positivismo do século XIX, o neopositivismo do Círculo de Viena e as mais
atuais assim chamadas Filosofias da Ciência, cujo labor é um esforço constante
de que a Filosofia se justifique enquanto possibilidade de fundamentação
metacientífica das metas possíveis da ciência enquanto operacionalização da
sujeição e da objetivação maquinal a que estamos sujeitos e em que estamos
existindo enquanto objetos da técnica como processo desmedido de racionalização
do sentido de ser de nossa existência no mundo, neste mundo.
Angela Ales Bello nos fala de uma
carta de Edmund Husserl a Lévy-Bruhl[106] em
referência ao Einfühlen (sentir) e ao
Verstehen (compreender); o que sem
muitas restrições conceituais poderia se considerar um modo variado da
sensibilidade e da razão. Esse sentir e compreender se referem ao modo como o
“outro” percebe, pensa e identifica o seu mundo e as coisas que se mostram no
interior do campo de mostração abarcado pela “lógica” e pela “ontologia” própria
desse mundo. De tal modo que Husserl, diz Angela Bello[107],
admite que o despojamento da postura científica (lógico-ontológica) próprias ao
homem ocidental equivale à adoção daquela postura pré-científica
(pré-categorial e pré-classificatória) que, apesar da diversidade, nos insere
(chineses, indianos, hotentotes etc.) em um mundo de pertença comum que permite
a penetração teórica e prática no mundo alheio.
Obtém-se,
assim, um duplo resultado: 1 – compreender o que nos é estranho e 2 –
esclarecer ou elucidar as estruturas do mundo da experiência pelo
reconhecimento de que todos são co-sujeitos do mundo da experiência. Isso,
porém, só é possível porque Husserl elaborou, enquanto cientista ocidental, um
método capaz de permitir a apreensão das estruturas (lógico-ontológicas) do
mundo-da-vida, portanto das culturas. E isso por si só já determina a prática
científica enquanto método (caminho) que constrói espontaneamente a essência do
nosso mundo circundante de vivências experimentadas no sentido de viabilizar
sua apreensão enquanto campo de fenômenos para uma consciência pura
transcendental sempre movida para a manifestação de algo pelo seu caráter de
intencionalidade; essa experiência pré-científica, ou se quiserem
pré-histórica, não é outra coisa que a existência histórica e factual enquanto
ser-no-mundo que se auto-interpreta pré-ontologicamente por meio da linguagem
poética dos mitos.
Angela Ales sustenta, assim, que
Husserl descobriu a dimensão dos Erlebnisse
(experiências vivenciais) na qual a investigação fenomenológica deve
centrar-se com o objetivo de compreender e elucidar o sentido do mundo-da-vida.
Isso evidencia a presença de duas atitudes para o fenomenólogo da cultura ou do
mundo-da-vida, a saber: a científica e a pré-científica. Pois embora se trate
de um cientista ocidental que adota cientemente uma postura metodológica, ele o
faz no sentido de despojar-se da ciência a fim de penetrar no mundo pré-científico.
Poder-se-ia perguntar, ainda assim, até que ponto esse despojamento é real,
visto que não se deixa de classificar as culturas alheias como primitivas ou
pré-científicas etc. Importa reconhecer, de qualquer modo, que o primado do
egológico deve sofrer a epochè
(suspensão do juízo) para alcançar-se o pré-científico. E por isso fazemos uma
citação de Heidegger como ilustração do ímpeto de uniformização que ocorre na
instalação da maquinação da técnica moderna, que se consuma como determinação
do domínio incondicional da operacionalização da razão instrumental no processo
de subjetivação do ente na totalidade em objeto da vontade de vontade
calculadora de objetividades para a ciência:
“Caracterizou-se
o pensamento, por um lado, do ponto de vista da reflexão, e por outro na
referência à sua própria profundidade. Nós, os hodiernos, só conhecemos a
reflexão na configuração da reflexão da subjetividade. Uma vez que costumamos
justapor a subjetividade com a egoidade do eu isolado, vemo-nos sempre no temor
de que a reflexão constitua o solo fermentador do individualismo e do egoísmo.
Todavia, deve-se advertir que nessa essência da reflexão, assumida como egoísmo
egocentrado, não somente o homem singular, mas também grupos e ligas inteiras,
nações e povos, toda a humanidade da Terra pode vir a ser desolada e
aniquilada. A remissão reflexiva não precisa, necessariamente, limitar-se ao
“eu” isolado. Precisa, porém, referir-se sempre a um si-mesmo. O eu e o
si-mesmo não são o mesmo. Não existe apenas o eu-mesmo. Existem também o
você-mesmo, o nós-mesmos, o vocês-mesmos. Para cada essência da reflexão é
decisivo o modo de determinação da mesmidade do mesmo, e vice-versa.”[108]
É com base nisso que concluiremos este tópico de nossa
confrontação com Heidegger pela consideração positiva da técnica como arte,
pois esse egoísmo egocentrado da razão ocidental tem sempre se movido no âmbito
da reflexão do pensamento que, a caminho do ser, destinou cada modo de
determinação da mesmidade do mesmo para todas as pessoas (eu, tu, ele, nós,
vós, eles). Mas antes, importa terminar este excurso digressivo sobre a
aplicação do método fenomenológico nas investigações sobre as culturas pelo
conceito de mundo-da-vida, isto é,
das experiências vivenciais pré-científicas na medida em que nestas se preserva
um olhar ou uma visão de mundo que intui a totalidade do ente (natureza,
universo) em uma consideração sacral; o que não significa que o sagrado necessariamente
deva determinar-se como inteligência inconsciente intuída em visão mítica de
mundo, não só isto; isto é também consciência, é a ideia livremente se movendo
em sua presença eternamente deveniente como natureza (unidade da produtividade
infinita e dos produtos finitos) e como processo de autoformação da matéria,
cuja descrição equivale à construção do conceito de natureza pela Filosofia da
Natureza de Schelling.
Angela
Ales Bello afirma[109]
que a originalidade da fenomenologia está em haver identificado as experiências
vivencias como unidade da consciência; essa identificação ocorre pela
constatação de uma duplicidade unitária do mundo-da-vida a dominar todo o campo
fenomenológico de investigação, a saber: a hylè
(matéria) sensorial e a morphé (forma) intencional, que se unificam na medida em que os dados sensíveis
são a matéria das formações intencionais de sentido e de significação. O
ser-fenomenológico mesmo se dá mediante essas duas camadas unificadas: os dados
hyléticos ou materiais constituem a
sensibilidade das experiências ainda destituídas de intencionalidade
(consciência), posto que meramente sensuais; porém estes fornecem os materiais
noemáticos que servem de objetos visados (noemas) pela consciência intencional
nas formações de noeses (pensamentos de essenciais ou estruturas eidéticas). A aplicação do método
fenomenológico na investigação das culturas ditas primitivas permite a
compreensão de ser das vivências experienciais ou do mundo-da-vida em que o
momento hylético exerce fator
preponderante na visão de mundo mítica, a qual interpreta a natureza enquanto
permeada do elemento do sagrado, no sentido de apreender o sentido dessas
experiências.
Todavia o momento hylético
material e o noético intencional estão de tal modo não-separados que prevalece
um mundo de ação e movimentação cinestésica da natureza em que não faz sentido
separar espírito e matéria, alma e corpo, Deus e Homem, ação e contemplação,
prática e teoria. Assim, também se compreende o porquê da racionalização
exagerada da técnica e da ciência ocidentais na constituição de uma
civilização, não de uma cultura, posto que não há cultura, a nosso ver, quando
um povo não vislumbra a cada momento de sua vida a sacralidade dadivosa do
simples fenômeno gratuito da vida, da natureza e do acontecimento do mundo.
Pois o processo de racionalização intelectualista e formal da ciência
privilegia o momento noético e gradativamente produz o seccionamento da
realidade em setores de objetos e diferentes domínios de saber.
Esse é o sentido da técnica moderna, cujo sentido
originário como arte nós procuramos aqui recuperar a partir de uma breve
consideração do texto A Questão da
Técnica de Heidegger. Na conclusão deste texto a questão da técnica é
remetida ao acontecimento-apropriação, isto é, ao simples dar-se subitamente da
verdade (desencobrimento-encobrimento) do ser no ser-aí histórico e factual.
Quanto ao ser como ser lembramo-nos dele pela figura mito-póetica da
quadratura: unidade originária de deuses e homens, céu e terra. Quanto ao ser
como o simples percurso do mistério de seu puro “dar-se”, poder-se-ia perguntar
se não é uma mera poetização da existência enquanto embelezamento e divinização
sacral da physis, esta enquanto
vigência da totalidade do ente (Cosmos);
vigência esta que não só se mantém encoberta pelo domínio técnico-científico do
ente, como o sufoca nesse encobrimento em um auto-aniquilamento perpétuo do
homem maquinado pela inversão do animal
racional da metafísica clássica em Razão Bestializada; de maneira que o ser
mesmo permanece esquecido em sua verdade.
Porém, Heidegger evoca a lembrança de que a técnica
uma vez tenha sido o desencobrimento que
levava a verdade a fulgurar em seu brilho[110].
De modo que a técnica era a arte como produção da verdade a mostrar-se na
beleza, na ideia estética do Belo. Assim a técnica era também a Poiésis das belas-artes. A Grécia antiga
considerada o início do destino ocidental em sua historicidade e facticidade
fornece a compreensão da técnica como arte, e desta como produção poética do
belo, na medida em que seja a piedade que se integra no domínio regido pela
preservação da verdade do ser.
As artes não eram só objeto de um prazer estético,
muito menos um dos setores da cultura, que hoje é promovido pelo Estado junto
aos financiamentos concedidos por subsídios e parcerias com a iniciativa
privada, embora esse tipo de coisa deva existir, pois já é a manifestação da
cultura como produto cultural, mas não a essência vigorante da cultura enquanto
a produtividade infinita de si mesmo, na história, do espírito como devir da
experiência da consciência ou da formação humana. As artes faziam resplandecer a presença dos deuses e o encontro entre o destino
de deuses e homens[111].
Por isso mesmo a arte é um modo de desencobrimento poético do ser e é o êthos originário da humanidade
primordial, que se expressa em mitos e lendas de uma tradição oral passada de geração
em geração até se tornar, pelo advento da escrita, os fundamentos da
civilização e da cultura de um povo na constituição de uma religião pública
(por exemplo, a religião pública da Grécia antiga que se expressava no teatro,
na celebração da existência poética na poesia como unidade de arte musical e
arte cênica; assim a poesia era a produção e reprodução do êthos humano pela arte; ou mesmo na Igreja ou no Templo que é o
local de reunião pública da comunidade do povo a compartilhar uma fé em Deus,
em Buda etc., em cânticos e celebrações ritualísticas cheias de respeito e
reverência).
Assim razão e sensibilidade sempre estiveram unidas;
espírito e natureza também na unidade poética da ideia ética (bem) e da ideia
estética (belo), na justiça universal como equilíbrio entre a lei da Pólis e a lei dos deuses (natureza, Cosmos como totalidade do ente). Pois a
poesia é a origem da palavra no seu vigor mesmo de surgimento; a poesia é o Lógos originário em sua plena atividade
de produção do ente e de tornar manifesto o ente em seu ser; por isso, a poesia
é a essência da arte, da religião e da filosofia, essas esferas do espírito
absoluto, porque a poesia é a essência originária da linguagem; e a Filosofia
da Arte ocupa o lugar da Lógica como função vinculadora das funções e do
funcionamento orgânico do sistema, porque a Filosofia da Natureza parte da
ideia presente de modo objetivo na necessidade da natureza para chegar à
intuição da mesma como processo livre do Absoluto, enquanto a Filosofia do
Espírito parte da ideia que se apresenta na história até o alcance de si mesma como
consciência que devém em sua facticidade existente e se autoforma no devir do
saber, assim alcançando a si mesma na plena realização da ideia de si mesma
como liberdade da consciência, do espírito e da transcendência existente do
ser-no-mundo em sua facticidade e historicidade.
Capítulo 3: O mais antigo programa sistemático
Nada mais justo que iniciarmos este capítulo explicando o
sentido de seu título; advém de um texto conhecido pelo nome O mais antigo programa sistemático do
idealismo alemão, ao qual nos referimos abreviadamente como Programa Sistemático; nosso título
exclui a expressão idealismo alemão e
preserva o resto, porque supomos simplesmente que seja o sentido do mais antigo
programa sistemático de toda filosofia desde a antiguidade clássica, isto é,
desde a metafísica socrático-platônica, como projeto de uma Paideia humana universal. Este texto
data de 1796 (97?) e é conhecido pela polêmica que envolve sua autoria
desconhecida; deixemos esta polêmica quanto à autoria de lado; e tomemos o
texto como simples expressão do espírito coletivo do tempo, um espírito que
muito bem pode ser, enquanto Zeit-Geist,
a amizade de um ciclo de jovens estudantes que se reúne para poetizar
conjuntamente a sua própria existência; esses estudantes são Hölderlin, Hegel e
Schelling. Assim, passemos ao texto.
A
exemplo dos fragmentos dos pensadores pré-socráticos, o texto inicia
fragmentado, como que pelo final de uma frase que não se sabe bem o que dizia;
ou será que, como fragmento e estilística da estética romântica, já traz
consigo a totalidade do programa sistemático do pensamento, que é a descrição
da autoconstrução da realidade inteira em seu puro processo, em seu puro
pro-ceder, no puro procedimento poiético
do discurso, da linguagem, do Lógos,
da Razão? O texto inicia pelo final? Que sentido isso teria? O texto
simplesmente inicia (...) uma ética.[112] O texto simplesmente termina Será preciso que um espírito superior,
enviado dos céus, funde entre nós essa nova religião; ela será a última obra, a
obra máxima da humanidade[113].
Nada
há mais a citar deste texto, que inicia pelo fim da filosofia: uma ética; que
finda pelo retorno ao início da obra máxima da humanidade, a fundação de uma
religião, de uma nova religião; tarefa talvez impossível antes que a
civilização inteira se aniquile e se esqueça de sua própria história, perdendo
todos os seus fundamentos espirituais e realizações materiais, tecnológicas e
científicas, culturais e artísticas, econômico-políticas e sociais; assim só
resta o homem diante de si mesmo em meio à natureza; esquecido de si mesmo e de
tudo; reiniciando o ciclo histórico.
Tomando
o resultado de toda metafísica como tarefa de postular princípios práticos, o
texto nos convoca à compreensão da ética como um sistema de todas as ideias; a
primeira ideia é a representação de si mesmo como absolutamente livre;
liberdade a partir da qual e ao mesmo tempo surge um mundo inteiro, como
criação a partir do nada. Como a filosofia nos oferece as ideias puras e a
experiência nos oferece os dados sensíveis da natureza enquanto fenômeno, fica
para o futuro uma Física capaz de nos fornecer a experiência dessas ideias
puras; o que não significa que elas já não estejam aí ocultas na natureza que se
mostra na permanência do mistério, no seu próprio resguardo de ser. Isso nos
faz pensar em que medida toda a Filosofia da Natureza de Schelling não seria a
tentativa de inaugurar essa “Física futura”, em consonância a uma Ética, cuja
unidade sistemática seja dada por uma Filosofia da Arte (até 1800) e talvez
pela Filosofia da Identidade (1801-1804) até uma fase teosófica e um tanto
quanto religiosa (1804-1811) a culminar na assim chamada Filosofia Positiva ou
Filosofia da Mitologia e da Revelação (1815 em diante)[114].
Seguindo
o texto Programa Sistemático, a
passagem da natureza à obra humana pretende, pela ideia de liberdade, excluir a
ideia de Estado e a de classe sacerdotal ou instituição religiosa; essa
característica do texto nos indica a influência da Revolução Francesa, que
resultou no fim do chamado Antigo Regime de estamentos assentado nos
privilégios do clero e da nobreza. O Estado é considerado mecânico, assentado
na ideia da máquina, e como tratamento de homens livres ao modo de engrenagens
ou peças da máquina; quanto às ideias de divindade e imortalidade da alma como
postulados práticos, não deveriam ser posse de uma autoridade eclesial externa
à própria liberdade da consciência de si individual. Concebemos que o Programa
Sistemático assim concebido seja uma impossibilidade prática, embora atinja o
cerne da aspiração humana; pois o Estado não enquanto máquina burocrática que
registra e calcula os cidadãos, mas como a coletividade humana organizada é
inevitável e é mesmo condição de possibilidade do homem formado, pela educação,
enquanto indivíduo consciente de sua singularidade, enfim, enquanto existência.
Então o Estado ou a Pólis deve
fornecer as condições formativas do ser homem para que ele não seja besta, mas
homem e daí indivíduo consciente de si enquanto pre-sença singular no mundo;
essas condições são a Educação, que pode ser religiosa ou não de acordo com as
aspirações da geração de formadores. A tentativa disso é a democracia moderna,
que nem defendemos nem atacamos, o espírito democrático que tem sido defendido
ao longo de nosso século XX cheio de Ditaduras e guerras. Porém, abandonamos
essa digressão e voltamos ao texto.
A
ideia unificadora de todas é a ideia de Beleza, o Belo como tal. E por isso a
dignidade superior da poesia se mostra em ser a poesia o caráter originário da
linguagem e da verdade; o ideal estético expõe na arte a realidade suprema como
tal, a bondade; com isso, não negamos a dialética da luz e das trevas, do bom e
do mau, não negamos o negativo a fim de subordiná-lo ao positivo, pois o
Absoluto a tudo engloba em sua totalidade; porém reconhecemos o caráter
sagrado, ou seja, de sagração mesma da vida no movimento da matéria até
formar-se no organismo que espelha a Ideia Absoluta presente na natureza
universal, e a isso chamamos a bondade eterna da criação universal; a bondade,
contudo, está irmanada na beleza e nela se expõe como verdade do processo de
formação-em-um do infinito no finito; sagrar-se quer dizer simplesmente chegar
a ser o que é e, assim, manter-se em sua essência e preservá-la por força de si
mesma, que advém do âmago da natureza enquanto pura produtividade infinita; por
isso, a natureza é fenômeno do sagrado como tal, o que se sagrou e desde sempre
veio a ser o que é; assim também a reverência humilde e o respeito silencioso
são a conduta mais plena do espírito contemplativo que já se percebe sempre em
seu ser, nunca fora da liberdade (necessidade interior da natureza absoluta) e
da necessidade (liberação do espírito para a exposição de si no movimento da
matéria).
Com
isso, o Programa Sistemático proclama
o fim da história, da filosofia, das ciências e das artes na unificação poética
de uma religião sensível; com isso, a nosso ver, nada se dissolve, antes sim,
tudo se resolve; a filosofia é poesia, mas não é mera literatura qualquer, é
fundação poética do ser da humanidade
pela Razão mítica, ou simplesmente pela Mito-Logia;
pelo Lógos Mítico; a autêntica poesia
como êthos humano e produção da ideia
humana na real humanidade pela arte. Com efeito, pode-se dizer que nunca houve
tal ideal, pelo que concluímos também nunca ter existido a humanidade real;
talvez as duas afirmações sejam extremas; porém a Paideia humana constitui a cultura em seus fundamentos e se projeta
na história; a formação é projetiva e visa sempre à preservação do presente, ou
melhor, da presença humana a cada vez sempre aí pela projeção do porvir nas
futuras gerações, sempre cientes do legado da tradição precedente sem, contudo,
perder de vista a vitalidade do questionamento edificante.
Aqui
e agora, neste mesmo espaço-tempo, queremos abordar o paradoxo da Razão, sua
fragmentação em duas dimensões: a do condicionado enquanto mundo dos fenômenos
de uma experiência possível e a do incondicionado enquanto ser-em-si puramente
pensável. Com base em Kant, Schelling considera[115]
o estabelecimento de que os princípios verdadeiramente metafísicos sejam apenas
de uso regulador no uso teórico da razão; de modo que a elevação ao mundo
suprassensível nada mais seja que a constituição de normas para o uso prático
da razão, isto é: o domínio puro das ideias tem apenas uso prático no
estabelecimento de leis morais, mas não constitui, apenas regula o uso teórico
da razão quanto à experiência possível de objetos e ao conhecimento da natureza
enquanto fenômeno. Assim, é abandonada a determinação da metafísica como
filosofia primeira teórica que se segue à ciência física pela adoção da mesma
como uma ciência precedente à física no sentido de estabelecer normas
universais (imperativo categórico) práticas de ação para o cientista (o sujeito
que teoriza e constrói a experiência de objetos ou da natureza como fenômeno
para uma consciência pura transcendental).
Essa
construção kantiana do sistema da razão teórica e da razão prática parece muito
edificante para as atuais discussões sobre ética no fazer científico, nas
produções tecnológicas a ele vinculadas e no uso da natureza como matéria bruta
para a produção humana (técnica). Porém ainda preserva o caráter absoluto do
controle da subjetividade humana sobre a totalidade do ente, que tanto
Heidegger se esforça por mostrar em conexão com sua caracterização da
metafísica consumada no domínio técnico-científico ocidental, destinado
histórico-ontologicamente como vigência do esquecimento da diferença
ôntico-ontológica a repercutir no âmago do Dasein
assumido em suas possibilidades finitas, factuais e históricas. Mas não
voltaremos a isso. Importa agora reconhecer a questão e o esforço da
sistematização do saber em geral, por parte de Schelling, como sendo um
trabalho sério, e não somente um devaneio ocultista-teosófico de um pensamento
que vagueia pelas nuvens do conceito, o idealismo alemão, sem atingir um lugar
ao sol radiante da suposta realidade concreta e material.
Pois
Schelling inicia o Prefácio das Ideias
para uma Filosofia da Natureza[116],
a partir do que dissemos acima, caracterizando a filosofia teórica pura como
investigação da realidade do saber em geral; a filosofia teórica aplicada é a
filosofia da natureza, cuja tarefa é deduzir de princípios um saber determinado
(o sistema da totalidade da experiência) como integrante do sistema em geral.
Assim como a Física está para a Filosofia Teórica, também está a História para
a Filosofia Prática (história do mundo como história da natureza e das ciências
da natureza + história do homem e das ciências humanas). Assim é possível uma
sistematização do saber mediante uma Filosofia da Natureza e uma Filosofia do
Homem (Fenomenologia do Espírito),
pelas quais se abrange a totalidade da filosofia aplicada. O que queremos com
isso? Já falamos sobre a substituição da Lógica como saber unificador do
sistema da Física e da Ética (o que permanece na Enciclopédia das Ciências Filosóficas de Hegel; a Lógica como
Dialética); em Schelling a Lógica é substituída pela Arte, ou pela Filosofia da
Arte até 1800, e posteriormente dá lugar ao sistema da Filosofia da Mitologia e
da Religião.
O
que queremos com esses apontamentos breves e gerais é proporcionar uma visão de
conjunto capaz de vislumbrar que em cada Filosofia particular do sistema já
está presente o sistema inteiro do saber enquanto unidade de sujeito e objeto;
motivo pelo qual ciência, arte, filosofia e religião são o mesmo; motivo pelo
qual lógica, física, ética, estética se integram no caráter originário da
linguagem como poesia (produção) do fenômeno do ente na enunciação. Se esse
tipo de consideração é, hoje, antiquada ou ultrapassada, se é que já foi um dia
efetiva, é porque o espírito mesmo no devir da sua experiência ainda sequer
chegou ao saber de si mesmo enquanto espírito. E Hegel chegou a saber esse saber?
De que adianta só Hegel chegar a esse saber e todos os outros reproduzirem seu
pensamento? Daí as oposições e diferenciações: hegelianos de esquerda e de direita;
Kierkegaard; Schopenhauer e daí Nietzsche; e daí... Talvez estejamos apontando
somente para o fato de esse saber, enquanto devir, sempre a cada vez estar
alienando-se na impossibilidade de configurar-se em uma vontade universal
equilibrada com uma vontade individual e vice-versa; e aqui vontade individual
abrange o indivíduo enquanto um grupo até o indivíduo singular que faz parte do
grupo (nação, povo, cultura, cidade, bairro, família, eu).
O
problema da conciliação entre uma vontade universal e uma vontade individual
também é um encaminhamento possível da questão da fragmentação da Razão em pura
teórica especulativa e Razão pura prática deliberativa (Razão Especulativo-Comunicativa).
Com base nas reflexões de Leonardo Alves Vieira em seu texto A Filosofia Prática do jovem Schelling[117],
evocamos o problema da distinção e da unificação da Ética com o Direito, para
depois chegarmos à compreensão da unificação entre a Razão Teórica e a Razão
Prática, portanto entre a Física e a Ética, na consideração da Metafísica como sistema do saber em
geral e como projeto de formação (Paideia)
humana universal; formação do Homo
Sapiens.
Pois
ali Leonardo Alves Vieira identifica, na Filosofia moral do jovem Schelling, a
tarefa de dupla via da Ética e do Direito na unidade de uma vontade absoluta, a
saber: que a Ética deve trazer a vontade individual para a sua identidade com a
vontade universal; enquanto o Direito deve trazer a vontade universal para
identificar-se à vontade individual. Esse movimento de dupla via unitária
possui, a nosso ver, um caráter formativo e em nada se assemelha a um tipo de
subordinação, mas de formação, constituição e mesmo de maturação do homem à
estrutura ético-jurídica da dimensão coletiva (Pólis) da existência em seu ser-uns-com-os-outros.
De modo que as discussões éticas quanto ao fazer científico, quanto ao modo como
manipulamos as forças da natureza em seus fenômenos físico-bio-químicos, seja
uma preocupação não só com nossa presença no mundo, mas também com as gerações
porvindouras e a permanência do devir histórico do saber pela não-extinção da
espécie humana. Assim, torna-se possível pensar a busca pela integração do
homem e de seu ecossistema (grego oikos (οἶκος), casa + systema (σύστημα), sistema: sistema onde se vive[118];
o nosso êthos ou morada na linguagem)
a partir de uma interpretação determinada da Filosofia da Natureza de Schelling,
considerando o conceito de natureza do ponto de vista da Selbständigkeit (autossustentabilidade) da própria natureza; por
essas considerações, pensa-se uma Filosofia Primeira em harmonia às requisições
atuais por um diálogo universal e pacífico entre os povos na busca por uma
economia sustentável em meio ao fenômeno inelutável da globalização.
O
retorno à alta consideração da metafísica socrático-platônica nos forneceu os
princípios basilares ou as ideias puras da Razão Universal: a busca a cada vez
renovada pelo que é em si mesmo bom, belo e justo no cultivo das virtudes;
temperança, coragem, sabedoria, amizade. Assim, a ideia ética é a Bondade e
constitui a realidade em si mesma do ser ético do homem como tal na medida em
que se integre na identidade da vontade individual com a vontade universal; a
Justiça é a ideia jurídica por excelência que está no fundamento da dialética
dos direitos e dos deveres e no equilíbrio, inclusive, das forças dinâmicas da
natureza em perfeita unidade com a bondade, pelo que o Direito ou a Ciência
Jurídica deve trazer a vontade individual à identidade integrada com a vontade
universal; a Beleza é a ideia estética que irmana a Bondade e a Justiça universais
(na natureza e no espírito) e expressa a unidade da inteligência inconsciente
da visão de mundo mítica e da inteligência consciente que constrói o conceito
do saber e do que é sabido nesse saber como objeto fenomenal da experiência da
consciência pura transcendental. Assim, o fim da formação é a irrupção do
gênio, que expõe o Absoluto (formação-em-um do infinito no finito) em uma obra
de arte.
Pensa-se
que haja uma superioridade da Razão prática sobre a Razão teórica, porque só a
razão prática supera a oposição em vez de somente configurar uma oposição[119].
Mas a verdadeira superação dialética é a composição sintética do todo
estrutural em sua harmonização universal concreta, isto é, a composição que
nasce da unidade da identidade e da diferença da razão teórica e da razão
prática, do condicionado na natureza como lei necessária e objetiva de seus
fenômenos finitos e do incondicionado como liberdade subjetiva da natureza
enquanto produtividade infinita de sua própria fenomenalidade. Desse modo, a
pura posição ou tese é o incondicionado como tal[120];
a antítese ou contraposição surge na razão teórica como oposição entre sujeito
(eu) e objeto (não-eu); a limitação própria do sujeito finito é a negação de si
na natureza como objeto, limitação que só vislumbra na natureza a necessidade
objetiva e nunca a liberdade subjetiva, limitação que só vislumbra no espírito
a liberdade enquanto ação moral dissonante da natureza (a moral como contranatureza-Nietzsche); assim, a síntese ou
composição surge como momento estrutural do todo em sua realidade efetiva,
posto que a razão teórica constitui um conhecimento apodítico (universal e
necessário) da natureza em perfeita unidade com a razão prática a regular ou
normatizar a conduta humana em todas as suas atividades com base em princípios
ético-morais.
Neste
ponto de nossa exposição já não podemos mais deixar de falar diretamente o
fundamento dogmático de nossa tese: por meio da junção dos princípios da
metafísica clássica socrático-platônica com alguns elementos do idealismo
alemão, em especial o de Schelling, evocamos o sentido original da própria
metafísica como sistematização do saber em geral, isto é, um programa
sistemático de constituição das bases de toda cultura possível como projeto de
formação humana integral. E nossa afirmação mais fundamental e também mais
inconcebível ainda parte do seguinte princípio: se na natureza a ideia está
presente de modo objetivo e real, então afirmamos o que as ciências positivas
da natureza jamais um dia comprovarão (talvez um dia comprovem?) e que pode ser
intuído racionalmente, partindo-se do pressuposto de que a razão é natural e
está na natureza sem se lhe opor, a saber: que as ideias de Bondade, Beleza e
Justiça estão aí na natureza e são ideais do Eterno Ato de Conhecimento do
Absoluto na unidade do incondicionado e do condicionado, do infinito e do
finito, da liberdade e da necessidade; as ideias ética, estética e jurídica
estão aí presentes e são matérias naturais, assim como o ar que respiramos,
como os átomos, as moléculas, o oxigênio etc. E só é possível haver aparência
ordenada dos fenômenos por que há espírito consciente e princípios objetivos de
ordenação da matéria; assim a dialética heraclítica também afirmaria haver a
oposição de todos aqueles princípios na constituição da totalidade; sim, mas a
ordem cósmica vigente em equilíbrio com as potências titânicas do caos é o que
permite haver a organização da matéria e a formação da vida individuada em
distintas espécies; esse equilíbrio é possível pela atividade da Justiça; esse
equilíbrio é harmonia como a do arco e da lira porque ele é manifestação da
Beleza na forma sensível; essa manifestação é boa, bela e justa porque é a
sustentação mesma do equilíbrio a preservar as vidas e o movimento ordenado do Cosmos enquanto iluminação da
obscuridade amorfa da matéria, o Caos permanecendo
no oculto como contrapartida do que se mostra, e isso é em si e para si mesmo
bom porque é a Bondade mesma.
A
recuperação dos princípios socrático-platônicos (buscar em si mesmo o que é bom,
belo e justo) nos pareceu fundamental para chegarmos a essa construção ideal do
real como tal junto aos elementos que buscamos em Schelling, pois este apenas
se ocupa com a ideia da beleza em sua Filosofia da Arte, à qual recorreremos
agora para concluirmos este capítulo. Considerando que a causa inicial e final
da filosofia seja o conhecimento intuitivo do absoluto, como que por revelação
imediata do Eterno Ato de Conhecimento que se individua e se intui
racionalmente na consciência humana individuada, tendo por fundamento de
expressão a originária essência do Lógos como
poesia, então pode-se dizer que:
“A beleza (...)
está posta em toda parte onde luz e matéria, ideal e real se tocam. A beleza
não é nem meramente o universal ou o ideal (este = verdade), nem o meramente
real (este está no agir), portanto é somente a plena interpenetração ou
formação-em-um (Ineinsbildung) de
ambos. A beleza está posta ali onde o particular (o real) é tão proporcional a
seu conceito, que esse conceito mesmo entra, como o infinito, no finito e é
intuído in concreto. Com isso, o real, no qual ele (o conceito) aparece, torna-se verdadeiramente semelhante e
igual ao protótipo (Urbild), à Ideia,
onde precisamente esse universal e esse particular estão em identidade
absoluta. O racional torna-se (...) ao mesmo tempo algo que aparece, algo
sensível.[121]
Com essas palavras de Schelling fica tácita a não
separação da ideia estética e da ideia ética pela unidade dialética da
sensibilidade e da razão na natureza, de modo inconsciente, e na arte como obra
da consciência humana ou do gênio, que procede als Natur. Pela recuperação da metafísica socrático-platônica
chegamos à compreensão de que não só a Beleza, mas a Bondade e a Justiça
constituem ideias reais presentes na auto-organização da natureza como Cosmos, organização da matéria ou do Caos; assim, retomamos o ideal clássico
da busca pelo que é em si mesmo bom, belo e justo pela consideração do sentido
originário da filosofia primeira ou metafísica como projeto formativo do homem,
isto é, como Paideia humana
universal.
Assim, o papel da Filosofia da Arte é fornecer, a nosso
ver, os princípios naturais do fazer artístico em geral, particularmente a
Filosofia da Arte de Schelling em que se exprime a unidade com a Filosofia da
Natureza, fornecendo a unificação do sistema inteiro, que também deve conter
uma Fenomenologia do Espírito ou uma ciência da descrição do devir da
experiência da consciência, em que esta se objetiva na história e vem a ser
saber que sabe a si mesmo. Desse modo, a consciência-de-si é a autodeterminação
de todas as determinações possíveis do saber em que se torna efetiva a já
presente na natureza, de modo inconsciente, unidade da identidade e da
diferença entre a liberdade e a necessidade. A natureza em si mesma divina se
expõe, enquanto criação consciente, na arte mediante o mesmo processo pelo qual
a matéria se auto-organiza, inconscientemente, na natureza. Esse processo é a
imaginação (Einbildungskraf) ou
força-da-formação-em-um (die Kraft der
Ineinsbildung), é a força mesma da individuação formativa da matéria
através da qual ideal e real, alma e corpo são um e o mesmo.
Os aforismos 22 e 23 de Aforismos para Introdução à Filosofia da Natureza[122]
nos apontam para uma compreensão básica: a filosofia não é religião, mas a
filosofia autêntica se caracteriza como reunião racional da ciência e da
religião em uma harmonia sagrada do saber através de uma imersão nas
profundezas recônditas da natureza. Assim, originariamente a linguagem
conceitual da filosofia configura a concepção mesma do conceber conceitos, o Lógos e o Intelecto, na atividade que
denominamos poesia; esta é interior e implantada no objeto, tal como a música das esferas celestes.
Pois, originariamente, é a coisa que é poética, só depois o é a palavra.[123]
Por isso mesmo intentamos nesta dissertação recuperar o ideal
socrático-platônico, em confrontação dialógica a Kant, Nietzsche e Heidegger,
na busca pelas ideias ética (Bondade), estética (Beleza) e jurídica (Justiça)
implantadas objetivamente na natureza como substância universal. Do mesmo modo,
fomos levados a considerar que o Eterno Ato de Conhecimento do Absoluto na
natureza inclui dentro de si toda a
superfície exterior de fenômenos finitos (nascimento e morte dos produtos e da
totalidade do universo como produto ou conjunto dos fenômenos). Essa inclusão
de sua máxima exterioridade e limitação é o que garante a unidade entre a
necessidade e a liberdade e abrange a História, a Cultura e o devir do Espírito
que se autoforma ao longo de sua aparência no tempo e no espaço, como fim da
individuação da substância universal.
Assim,
a unidade do infinito com o finito, do incondicionado com o condicionado, da
alma com o corpo é a composição sintética da realidade em si e para si mesma
sempre vigente do Eterno Ato de Conhecimento, que é consciência-de-si na medida
em que superou a oposição entre inconsciente e consciente na universalidade
concreta da ideia. A ideia que formulamos é a perfeita unidade do que em si
mesmo é bom, belo e justo; a Bondade, a Beleza e a Justiça como princípios
racionais de integração do Cosmos na
tendência da matéria amorfa do Caos à desintegração pura, pois A ideia é o raio que por si penetra e
ilumina o não ser da coisa, tornando-a visível e aparente[124],
assim como Zeus é o raio fulgurante do pensamento que atravessa o todo e dirige
o seu curso, atravessa as potências titânicas do Caos, do Céu (Uranos) e da
Terra (Gaia), atravessa o Tempo (Cronos) e organiza a matéria em Cosmos na aparência e no vigor de
instauração da ordem pelo governo da geração Olímpica.
Capítulo
4: A compreensão da metafísica ou da filosofia propriamente dita como formação
do homem pela sistematização do saber em geral na Filosofia da Arte de
Schelling.
Este
capítulo intenta apresentar-se como conclusão deste trabalho em complementação
ao capítulo anterior, que também pretendia ser conclusivo, pois talvez
repitamos algumas noções já presentes no todo do trabalho. Com efeito,
iniciamos com um capítulo que se apresenta como esboço da ideia geral da
metafísica clássica como sistematização geral do saber, portanto também como
tendo o caráter de formar a humanidade, posto que o homem é o ente que sabe, ou
que deseja o saber. O primeiro capítulo partiu da Filosofia da Natureza de
Schelling para chegar à totalização do saber como arte, pois esta é a atividade
humana que propriamente constrói o objeto e o sujeito em seu puro exercício
artístico concomitantemente teórico e prático; assim, a arte é o elemento
formador que dissemina a ideia racional em sensibilidade real, em vivência do
saber universal, que na religião se apresenta como unidade sacral da comunidade
humana com a totalidade cósmica no fundamento da vida e da existência (Deus); já a filosofia é o saber supremo,
a ciência pura especulativa que compreende no conceito a possibilidade da realidade
em geral, portanto a realidade mesma de toda possibilidade em conexão com o
poder-ser próprio de nossa presença no mundo.
É desse modo que o
primeiro capítulo deste trabalho procurou recuperar, pela Filosofia da Natureza
de Schelling, a compreensão mais abrangente possível de tudo-que-é no conceito
de natureza (universo), o ente na
totalidade como o sentido unitário da realidade que se abre para o porvir
(irrupção do ser-aí em sua facticidade), para o caminho em direção ao ser
(historicidade), que se expressa no âmago da vontade humana como desejo de
saber. Assim também, a conclusão do capítulo primeiro deste trabalho, isto é, o
ítem 1.5 do primeiro capítulo já traz consigo o sentido do todo, portanto tudo
o que intentamos esclarecer neste trabalho; o esquema do universo equivale ao
esquema do saber em geral, de tal modo que o sistema do saber acolhe em si o
sujeito que sabe (espírito) e o objeto que é sabido (matéria) na totalidade
organizada do Absoluto Ato de Conhecimento.
Como o conceito mais
abrangente da totalidade do ente e do ser do ente em geral é o conceito de
natureza (Physis), desde a assim
chamada filosofia pré-socrática, então o questionamento por nós levantado no
primeiro capítulo já continha em si a conexão com o problema da metafísica ou
da filosofia propriamente dita que se inicia com a tradição clássica
socrático-platônica e aristotélica. Assim, a necessidade de nossa confrontação
dialógica exposta no longo segundo capítulo deste trabalho se mostra evidente,
posto que a conexão que estabelecemos entre o sentido da metafísica clássica
como formação integral do homem e a noção de uma sistematização do saber em
geral, advinda do idealismo alemão, pode parecer e afirmamos que seja uma
intenção dogmática; até porque dogmatismo não é privilégio das religiões, mas,
a nosso ver, de tudo que se afirma, portanto de tudo que se mostra em
proposições.
Por isso, precisamos
nos confrontar com o projeto kantiano de estabelecer alguns limites para a
razão especulativa em seus devaneios metafísicos a partir da filosofia em
sentido crítico e transcendental, o que resultou na fragmentação interna da
razão em uma oposição entre seu uso prático e seu uso teórico; igualmente
precisamos nos confrontar com o projeto nietzschiano de transvaloração de todos
os valores por meio de marteladas destrutivas ao fenômeno da decadência da
cultura ocidental, que Nietzsche identifica no socratismo estético de Eurípedes
(no âmbito da arte), no racionalismo metafísico e dicotômico entre o sensível e
o inteligível em sentido epistêmico e lógico-ontológico no pensamento de Platão
(no âmbito da filosofia) e na dicotomia do bem e do mal em sentido ético-moral
na tradição judaico-cristã (no âmbito da religião); assim a confrontação
abrange as três esferas do espírito absoluto, conforme sistematização de Hegel,
a saber; a arte (estética), a religião (ética) e a filosofia (metafísica, que
totaliza arte e religião, intuição sensível e representação do Absoluto pela fé
no domínio árido e seco do conceito); mas se todo conceito tem uma concepção, e
se todo conceber (inteligir e compreender; compreensão de ser) é criar, se toda
concepção é geração ou produção, então a irrupção do sentido do ser na palavra
ou na linguagem conserva em si o caráter poético do fenômeno do Lógos; exatamente por isso a
confrontação com Heidegger se mostrou a mais longa, pois a metafísica como
esquecimento do ser se consuma na lembrança de que a história do ser é a
história (rememoração) dos adventos epocais do ser em sua retração no fenômeno
do ente em suas determinações metafísicas possíveis, estas como formas
históricas da revelação da verdade do ser na instalação definitiva do domínio
técnico-científico do homem sobre a totalidade do ente; somente assim pudemos
realizar a compreensão do movimento da ontologia do Dasein ao sentido historicamente perdido da técnica em geral como
arte; e daí passamos do capítulo segundo ao capítulo terceiro deste trabalho.
O capítulo terceiro
fala simplesmente da realidade como tal, que é idealidade como tal, em seu
fundamento poético; a ideia do mais
antigo Programa Sistemático sintetiza a ideia da sistematização do saber em
geral (metafísica) como tendo um caráter finalístico de formação ou de
construção da Humanidade. Como isso ocorre no devir fenomenológico da
experiência da consciência, que se mostra a si mesma em suas determinações no
fenômeno da cultura e da história como vida do espírito, então o processo mesmo
desse devir é a realização da ideia que, ao ser intuída como saber que sabe a
si mesmo, atinge a plena idealização do real na consciência de si do espírito
que se sabe espírito. Mas as obras desse espírito e o espírito mesmo como obra
de seu labor (dialética do senhor e do escravo) só pode ser considerado mais
elevado que a natureza porque ele é obra da natureza mesma, que se eleva de
intuição do mundo inconsciente à intelecção consciente de si mediante a
construção conceitual do objeto (mundo), cuja ideia já se encontra adormecida
na matéria desde sempre e que só vem a ser saber de si mediante o processo
mesmo do real (natureza) que se sabe construção ideal de si como unidade de
sujeito (liberdade) e de objeto (necessidade), o Absoluto. Disso e somente
disso se pode chegar até à compreensão de que a ciência suprema é a filosofia
não porque exclui, mas porque abrange, suspende e conserva em si e para si
todos os momentos da produção humana, a saber: a arte e a religião, bem como
todo o conhecimento das ciências positivas da natureza e toda elaboração ética
e jurídica do homem em sociedade, em consonância a uma lógica que é também
ontologia, um método (caminho) que é também saber efetivo do real (a caminhada
e o proceder mesmo do processo do caminho). Desse modo, precisamos expor os
elementos ou as noções presentes na introdução da Filosofia da Arte de Schelling que nos permitem chegar à elucidação
do sentido de nosso trabalho como um todo, que se resume nos títulos deste
quarto capítulo, do terceiro e também do primeiro.
A analogia inicial que
Schelling estabelece entre arte e natureza traz consigo uma ideia sistemática
acerca do saber absoluto e do objeto desse saber, na medida em que se mostra em
cada um dos âmbitos distintos (arte e natureza) como a finitização mesma do
infinito e a construção do conceito de arte, ou de natureza, como tomada de
consciência do próprio infinito no saber humano finito. Pois a arte, bem como a
natureza, deve ser pensada em seu todo orgânico, com uma simples diferença
essencial: que a arte produz com liberdade absoluta a unidade e a legalidade da
profusão de fenômenos de si mesma (obras de arte diversas), através das quais o
espírito conhece a si mesmo imediatamente, muito mais que pelo conhecimento da
natureza[125].
No que diz respeito à
fruição da arte pelas obras, Schelling afirma que deva ser a um só tempo
passiva e ativa, arrebatada ou ébria e refletida ou sóbria. Se na fruição da
arte não ocorre a reconstrução da obra pelo entendimento, então a mera fruição
de emoções e afetos sensíveis demonstra ausência de formação ou cultura do
próprio gosto[126].
Assim, a ideia do belo aparece como o todo (ser orgânico) da arte nas obras. Ora,
no que tange ao aspecto formativo ou cultural (educacional), parece-nos muito
relevante a associação que Schelling estabelece entre a formação social e a
arte, no trecho a seguir, sobretudo relativamente à consideração da arte como ciência pela Filosofia da Arte:
“(...) Faz
parte, portanto, até mesmo da formação social universal – já que em geral não
há estudo mais social que o da arte – ter ciência da arte, ter cultivado em si
a capacidade de apreender
a Ideia do todo, assim como as referências
recíprocas das partes umas às outras e ao todo e, inversamente, do todo às partes.
Mas isso, justamente, não é possível senão mediante ciência e, em particular, mediante filosofia.[127]
Essa
afirmação de Schelling nos parece importante na medida em que a ciência seja a própria filosofia como
ciência absoluta, a metafísica como ciência
do ente enquanto ente que se desdobra em diversos âmbitos do ente como ciência
da arte, da religião, da ética, da natureza, de Deus, da história, do homem, da
linguagem etc. Não se pode perder de vista que as ciências diversas sejam
partes do todo do saber, cuja causa inicial e final é a formação do homem; daí
a nossa intenção de forjar um sentido possível para a metafísica como sistematização do saber universal, como formação
integral do homem. E isso se vincula à noção de Schelling da ciência, ou do
saber, como construção do objeto do saber, portanto como aperfeiçoamento da
intuição intelectual do ente mesmo ou da realidade em questão para a formação
de um juízo adequado no entendimento, de acordo com a Ideia mesma do real ou como arte, ou como natureza ou como
história, na medida em que esses diversos âmbitos revelam uma perspectiva
através da qual o Absoluto mesmo se mostra. E somente assim os diversos âmbitos
do ente aparecem em seu lugar adequado no todo do sistema do saber universal,
cuja exposição equivale à descrição e à construção do conceito do
universo.
Portanto,
os princípios absolutos da arte devem estar contemplados na ciência da arte,
posto que deles emergem juntamente a forma e a matéria (conteúdo) da arte;
assim também essa ciência é filosófica porque concebe em ideias ou em conceitos
universais a determinação do genuíno juízo (entendimento) daquilo que é intuído
concreta e sensivelmente na experimentação da arte como tal mediante suas obras
e diferentes modalidades (pintura, escultura, poesia, música etc.). Com isso,
Schelling anuncia que a sua Filosofia da Arte é uma repetição de seu sistema,
que vislumbramos no primeiro capítulo pela Filosofia da Natureza, contudo uma
repetição ou retomada que acontece na potência mais alta.[128]
É preciso ainda entender que a retomada ou repetição dá a ideia de algo que se
volta para si mesmo e acontece de novo, repetidamente de forma nova,
renovadamente; assim também o infinito do saber se finitiza em cada objeto do
saber e retorna a si, como unidade do sistema, na totalidade do saber
universal, porque saber do universo figurado na arte, na natureza, na história,
enfim saber do infinito imaginado no finito e deste retomado naquele na forma
do saber absoluto (filosofia).
O
saber absoluto é a filosofia propriamente dita, a ciência mesma em que a
demonstração da possibilidade (essência) é também a constatação da realidade
(existência). Uma tal identidade entre a possibilidade e a realidade se tornou
atribuível somente a um ente, Deus,
cujo conceito é aquele do Absoluto no idealismo alemão em geral, mas que é o
Espírito ciente de si como espírito (Homem/História) em Hegel. A identidade
entre o conceito e a realidade do conceito só pode ser aquela fornecida pelo
movimento dialético; por exemplo: na Filosofia da Natureza de Schelling se
elabora uma compreensão lógico-conceitual da natureza como produtividade
infinita (natureza naturante) e como produto finito (natureza naturada – o
conjunto do universo e de todos os fenômenos naturais que nele se mostram em
âmbito macro e microcósmico); para fins de compreensão lógico-conceitual,
fala-se de duas naturezas (naturante e naturada), porém se trata de um único
ente na compreensão de sua determinação ôntico-ontológica, a saber, a
substância universal (o Absoluto como unidade sagrada do infinito e do finito,
do incondicionado e do condicionado, da liberdade e da necessidade na natureza
mesma); e isso é a sagração do real (objetivo) e do ideal (subjetivo) no Eterno
Ato de Conhecimento, pois sagrado é o que chegou a ser si mesmo e sabe o todo
de seu processo como lei de seu devir. Somente a Razão Especulativa Dialética
pode compreender a unidade da identidade e da diferença entre o conceito lógico
e o ente real em seu ser, assim fornecendo uma compreensão ontológica do todo.
A
compreensão do ser como o todo orgânico da arte na Filosofia da Arte já se
mostra pela síntese dialética que o próprio saber filosófico realiza, a saber:
a arte é o real objetivo, a filosofia é o ideal subjetivo; assim, obtém-se a
seguinte fórmula: a filosofia da arte é a exposição do real que há na arte no
ideal que há na filosofia; essa fórmula pode ser aplicada a qualquer saber
filosófico determinado: Filosofia do Direito, Filosofia da História, Filosofia
da Natureza = exposição do real objetivo que há no âmbito respectivo do ente
abarcado no ideal do saber filosófico, que é o subjetivo transcendental
propriamente dito como atividade de construção do saber a priori, isto é, como construção do saber pela criação conceitual
do objeto do saber e do sujeito do saber; portanto toda filosofia é uma só,
posto que exposição do Absoluto ou do Universo figurado na arte, na história,
na natureza, na religião, enfim na unidade do subjetivo com o objetivo do saber
em geral.
A
restrição da Filosofia (ciência absoluta) em disciplinas filosóficas não indica sua supressão em ciências
particulares, do contrário não se trata mais de Filosofia, mas tão somente
expõe o todo único do saber em diversas potências[129].
Estas constituem as diferentes determinações ideais da única essência
absolutamente real (existente), a saber: Deus
ou Universo. Com isso, chegamos à
exposição do sistema do saber universal (metafísica) que indicamos no item 1.5
que conclui o capítulo primeiro deste trabalho. Schelling define a Filosofia
como manifestação na totalidade de todas
as potências (...) imagem fiel do
Universo – mas esta = ao Absoluto, exposto na totalidade de todas as
determinações ideais[130].
Assim, da perspectiva da identidade das diversas potências, Deus é o universo, o único real fora do
qual nada há; da perspectiva da totalidade, o universo é Deus; mas na Ideia Absoluta totalidade e identidade são
um só no princípio da Filosofia (Metafísica); a Ideia Absoluta é este princípio
mesmo em que não há nenhuma das determinações ideais porque todas já estão nele
compreendidas; este princípio é o ponto de identidade absoluto e confere a
unidade da totalidade do sistema do saber. Por isso, Schelling afirma:
“(...) aquilo
que conhecemos na história ou na arte é essencialmente o mesmo que também
existe na natureza: é que a absolutez inteira é conatural a cada um deles, mas
essa absolutez se encontra em potências diferentes na natureza, na história e
na arte. Se se pudesse colocá-las de lado, a fim de ver a essência pura como que
despida, em tudo haveria verdadeiramente um.”[131]
Com
base nisso, Schelling elabora uma compreensão fundamental e própria: que as
filosofias particulares são meras formas sem essencialidade, se elas não forem
a exposição do universo figurado (imaginado) em uma forma determinada, a forma
da arte, da história ou da natureza. Essa essencialidade é a ideia absoluta
como matéria real da ciência que expõe universalmente sua formação-em-um
particularizada. Só há uma ciência ou filosofia, pois só há a exposição
infinita do incondicionado em uma forma determinada finita, em uma sua potência
ou determinação ideal; assim também essa potência retorna ou retoma a ideia
absoluta e nela se dissolve, como o finito que expõe o infinito e a ele se
volta como sua essência real, a fim de captar a essência incondicionada e
formar uma possibilidade de sua exposição no real objetivo e fenomênico
condicionado. A Filosofia da Arte é, portanto, ciência da totalidade universal
na potência ou na forma da arte, assim como a Filosofia da Natureza é a
exposição do universo na determinação ideal (ou no conceito) da natureza[132].
Desse modo, o objeto da construção do saber filosófico deve acolher em uma
forma particular o infinito inteiro ou o universo figurado (imaginado).
Assim como fizemos no
primeiro capítulo em relação à Filosofia da Natureza de Schelling, fazemos
também agora em relação à Filosofia da Arte do mesmo autor, com intuito de
buscarmos uma compreensão da Filosofia como metafísica (saber universal), de
modo a assim nos encaminharmos para a sustentação da interpretação da
sistematização do saber em geral como sendo um projeto formativo da ideia da
Humanidade, visto que o homem é o ente que sabe e, no saber, ama o saber e, no
amar, sabe o amor (vida). Esse saber, porém, é o processo ou o devir da
experiência da consciência que se concretiza na história e que se torna ciência
de si em uma descrição de seu devir fenomenológico, em que a consciência
aparece para si mesma e se intui ou se concebe como o viver mesmo do espírito.
Essa vida é a existência mesma em sua facticidade e historicidade, é a
existência que de substância vem a ser sujeito absoluto (consciência de si) e
não opõe mais um mundo extrínseco de objetividades fenomênicas a uma coisa em
si pensável, embora incognoscível na experiência possível, mas é o pulsar mesmo
como coisa em si que vem a ser para si na autoformação deveniente de sua
experiência (vivência), que é o drama histórico da humanidade autocompreendido
como história do ser (Fenomenologia do
Espírito).
Assim, o espírito
enquanto existente pode retomar a tradição e escavar os entulhos de uma
ontologia da substancialidade e das categorias que permitem seu mostrar-se em
juízos e modos de ser possíveis do ente simplesmente dado (verdade da
proposição como adequação), a fim de reconhecer-se como Dasein mediante uma análise existencial ou uma hermenêutica da
facticidade da presença no mundo (ser-aí como ser-no-mundo). A transcendência
do ser-no-mundo está tão intimamente ligada à imprescindível compreensão de ser
que o destino da verdade do ser apropria a presença (existência fática) para o
acontecimento do desvelamento-velamento (retração epocal) do ser, de tal
maneira que a diferença ontológica (diferença entre ser e ente) irrompe no
âmago da existência em todo seu fazer teórico e prático.
Esse acontecer, porém,
é temporalização da própria presença em sua finitude, em seu poder-ser mais
próprio (ser-para-a-morte), e somente dessa temporalidade originária (ser como
temporalização do ser-aí) da presença fática é que irrompe a história como
destino do esquecimento do ser na instalação da técnica. As diversas retrações
do ser nas ontologias da Era da Metafísica (desdobramento da linguagem em seu
uso técnico-racional e no esquecimento de sua essência mito-poética) constituem
os momentos ou as determinações possíveis do ser, cuja temporalização é a
possibilitação mesma do ser fático e histórico da presença de acordo com seu
poder-ser finito. Pois se pensar e ser
são o mesmo, e se o pensar é o espírito que chega a ser ciente de si como
espírito, que pensa o ser do ente como espírito, então a Fenomenologia do Espírito de Hegel e a História do Ser de Heidegger são o mesmo, pois aí o ser
abandona a metafísica para o ser-aí pensar a si mesmo enquanto ser-aí e chegar
ao pensamento do sentido do ser, como o estar a caminho do ser que destina a
pre-sença (Dasein) para o seu próprio
ser, ainda que este a cada vez decaia em esquecimento de si no mundo das
ocupações com as coisas e da publicidade cotidiana.
Digressões à parte, a
relevância de nossa confrontação dialógica se mostra novamente, pois a
recuperação da metafísica clássica é a retomada da ideia da humanidade que se
autoforma no saber (pensar) do ser, na determinação da transcendência do ser-aí
como destinação do amor pelo saber (filosofia).
Então, concluamos com Schelling: pois a filosofia (sistematização do saber =
metafísica = formação da humanidade) expõe os protótipos das coisas reais, e
como na ciência filosófica a exposição da possibilidade (idealidade) é a
exposição da realidade, então assim como para a filosofia em geral o Absoluto é
o protótipo da verdade (o Bem na República de Platão?), na arte ele é o
protótipo da beleza; de modo que verdade e beleza sejam dois modos distintos de
considerar o Absoluto[133],
assim como o são a bondade e a justiça no ideal socrático-platônico de busca
pelo que é em si e por si mesmo bom, belo e justo. Assim, o platonismo com que
Schelling encerra a introdução de sua Filosofia
da Arte está em consonância ao Programa
Sistemático, do qual tratamos no capítulo anterior:
“Por último, a
Ideia que unifica tudo, a Ideia de beleza,
tomada a palavra em seu sentido superior, platônico. Pois (...) o ato supremo
da Razão, aquele que engloba todas as ideias, é um ato estético, (...) verdade e bondade só estão irmanadas
na beleza. O filósofo tem de possuir tanta força estética quanto o poeta[134].
Esse
platonismo das Ideias como protótipos das coisas reais existentes enquanto
particulares (ideadas ou formadas segundo a essência universal) desemboca na
pergunta por como a ideia se diferencia e se pluraliza em coisas belas
(estéticas), boas (éticas), verdadeiras (metafísicas) e justas (jurídicas). A
doutrina dos protótipos ou das Ideias, segundo Schelling, explica isso pela
consideração do Absoluto como um e o mesmo, que é intuído absolutamente em suas
formas particulares (potências ou determinações ideais). Cada uma dessas formas
é divina e absoluta em si mesma; a arte intui as ideias realmente, ao passo que a filosofia as intui em si ou idealmente; a Filosofia da Arte então conjuga a intuição
ideal e a intuição real na consideração da exposição do Universo pela Arte. As
Ideias são a matéria absoluta e universal da Arte em geral e sua intuição na
realidade objetiva equivale à poetização dos deuses; estes são as Ideias reais
existentes e vivas que se expõem mediante a mitologia.
Isso leva Schelling a
considerar que a questão da possibilidade de diferenciação e pluralização do
belo em si nas coisas belas particulares, ou do Absoluto em geral como
idealidade da verdade, da bondade, da beleza e da justiça nas realidades
particulares que correspondem a seus protótipos, é uma questão que se resolve
na construção da Mitologia (Filosofia da Mitologia). E isso na medida em que os
deuses da mitologia equivalem às Ideias (determinações ontológicas do ente em
seu ser ao longo da história do ser?) da filosofia geral, na medida em que
sejam (as Ideias) intuídas objetivamente. Pode-se ver nisso como Schelling leva
em consideração o fato de a intuição puramente ideal da filosofia expor o
Absoluto na forma árida e seca do conceito, ao passo que a mitologia expõe o universo
imaginado (formado-em-um ou individuado) na pluralidade das ideias intuídas
realmente nos fenômenos da natureza. Assim, Filosofia e Mitologia também se
unem naquela reivindicação por um senso estético para o filósofo, na criação de
uma Mitologia da Razão ou de uma Religião Sensível. Assim também a metafísica
em sentido clássico socrático-platônico pode ser interpretada como uma
sistematização do saber universal que visa à formação-em-um da Humanidade ideal
(racional) e real (sensível) no devir da história e da cultura, e talvez assim
seja possível uma Educação Estética do Homem.
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[1] SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Obras
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[2] Cf. SCHELLING, Friedrich Wilhelm
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(p.07-39). E também: GONÇALVES, Márcia Cristina Ferreira. Filosofia da Natureza. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.
[3] Imaginação em alemão se diz Einbildungskraft. Segundo Schelling,
essa palavra significa a “força da formação-em-um” (die Kraft der Ineinbildung). Essa força é o poder criador da
natureza propriamente dita, é uma força de individuação, por meio da qual é
possível a unidade do ideal e do real, da alma e do corpo, do espírito (homem,
história) e da matéria (natureza). (SCHELLING: 2001, pp.48-9).
[4] SCHELLING. Escritos sobre filosofia
de la naturaleza. Madri: Editora Alianza, 1996. (p.120-129).
[5] HEIDEGGER, Martin. A Superação da Metafísica IN Ensaios e Conferências. Trad. Emmanuel
Carneiro Leão, Gilvan Fogel e Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes,
2008. (p.61-86).
[6] MACHADO, Roberto. Nietzsche e a Verdade. III Verdade e
Valor. Cap. 3. n.19: “É preciso não esquecer que para Nietzsche a história da
filosofia é a história do platonismo e que o cristianismo é um platonismo para
o povo”.
[8] Cf. HEIDEGGER, Martin. Construir,
Habitar, Pensar/A Coisa IN Ensaios e Conferências;
tradução de Emanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel, Márcia Sá Cavalcante Schuback.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. (p. 129-131 e p. 155-157).
[9] Hölderlin
y la Esencia de la Poesía.
Traducción de Samuel Ramos, publicada en: Martin Heidegger, Arte y Poesía,
Buenos Aires, F.C.E, 1992. (p.07-10)
[11] COELLO, Arturo Leyte. Arte e Sistema IN As Filosofias de Schelling. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005 (p.
17-41).
[12] Cf. GONÇALVES, Márcia Cristina
Ferreira. Filosofia da Natureza. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006. (p. 51).
[13] COELLO, Arturo Leyte. Arte e Sistema IN As Filosofias de Schelling. Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2005, p. 38.
[14] SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Obras
Escolhidas. São
Paulo: Abril Cultural, 1979. (p. 47-55).
[16] SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Obras
Escolhidas. São
Paulo: Abril Cultural, 1979. (p.52).
[17] IDEM. Ibidem. 1979 (p.52).
[18] IDEM. Ibidem. 1979 (p.55).
[20] IDEM. Ibidem. 1996
(p. 120). E também: SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph. Aforismos
para introdução à filosofia da natureza e aforismos sobre filosofia da
natureza. Rio de
Janeiro: Ed. PUC-Rio: Loyola, 2010. (p.23-26).
[21] HEGEL, Friedrich Wilhelm. Prefácio à Fenomenologia do Espírito IN Obras Seletas. São Paulo: Abril
Cultural, 1999. (p. 319-320).
[23] Cf. IDEM. Carta sobre o Humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1973 (p.358).
[24] IDEM. Ibidem. (p.366).
[26] Cf. SCHELLING. Escritos sobre filosofia
de la naturaleza. Madri: Editora Alianza, 1996. (p.119-173).
[27] GONÇALVES, Márcia Cristina
Ferreira. Filosofia da Natureza. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006. (p. 38-51).
[28]SCHELLING, Friedrich Wilhelm
Joseph. Aforismos para introdução à
filosofia da natureza e aforismos sobre filosofia da natureza. Rio de
Janeiro: Ed. PUC-Rio: Loyola, 2010. (p.102).
[30] IDEM. Ibidem. (p.55)
[31] IDEM. Ibidem. (p.57-58)
[32] IDEM. Ibidem. (p.186-188)
[33] FICHTE, Johann Gottlieb. Introdução
à teoria do Estado. São Paulo:
Abril Cultural. 1979 (contracapa).
[36] PLATÃO. A República; Livro VI, 505a. 2008, (p.201-202).
[37] KANT. 2004, (p. 435).
[38] IDEM. Ibidem, (p.267-269).
[39] Cf. SCHELLING. 1996, (p. 121).
[40] Cf. GONÇALVES, Marcia C. F. Schelling: Filósofo da natureza ou cientista
da imanência? IN VIERA, Leonardo Alves e PUENTE, Fernando Rey (Org.). As Filosofias de Schelling. Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2005. (p. 71-88).
[42] KANT. 2004, (p. 442-443).
[43] IDEM. Ibidem. 2004, (p.437)
[45] IDEM. 1995, (p.11-13)
[46] IDEM. Ibidem, (p.23-24)
[47] NIETZSCHE. 1992, p.30.
[48] IDEM. Ibidem, p.31.
[49] IDEM. Ibidem, p.32.
[50] IDEM. Ibidem, p 37.
[51] IDEM. Ibidem, p.79.
[52] IDEM. 2003, p. 17.
[53] PLATÃO. A República; Livro X 608a-e. 2008, p.308.
[55] NIETZSCHE. 1976, p.19.
[56] HEIDEGGER. 1973, p.388.
[57] IDEM. Ibidem, p.389.
[58] IDEM. Ibidem, p.390.
[59] IDEM. Ibidem, p.391.
[60] IDEM. Ibidem, p.392.
[61] IDEM. Ibidem, p.392.
[62] IDEM. Ibidem, p. 394-397.
[63] Cf. HEIDEGGER, Martin. Introdução à Filosofia. São Paulo:
Martins Fontes, 2008. (p.369-425).
[64] IDEM. 1973, p.399.
[65] IDEM. Ibidem, p.399.
[66] IDEM. Ibidem, p.400.
[67] IDEM. Ibidem, p.400.
[68] HEIDEGGER. 2003, p.67-68.
[69] IDEM. Ibidem, p.67.
[71] IDEM. Ibidem, p.32-33.
[72] IDEM. Ibidem, p.33-37.
[73] IDEM. Ibidem, p.38-39.
[74] IDEM. Ibidem, p.39-42.
[75] IDEM. Ibidem, p.44.
[76] COELLO, Arturo Leyte. Arte e Sistema IN As Filosofias de Schelling. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005, p.
38.
[77] HEIDEGGER. 2003, p.43.
[78] IDEM. Ibidem, p.46.
[79] IDEM. Ibidem, p.47.
[80] IDEM. Ibidem, p.51.
[81] IDEM. Ibidem, p.54.
[82] IDEM. Ibidem, p.50.
[83] IDEM. 2005, p.209-210.
[84] HEIDEGGER. 2005, p.34.
[86] IDEM. 2008, p.212-245. IDEM.
2003, p.412.
[88] HABERMAS. 2000, p. 187-227.
[89] SCHELLING. 2010, p.47-48.
[90] HEIDEGGER. 2005, p.38.
[91] IDEM. Ibidem, p.262.
[92] MARCONDES, Danilo e JAPIASSU,
Hilton. Dicionário Básico de Filosofia.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1996. (p.227).
[93] HEIDEGGER. 2005, p.54.
[94] Cf. IDEM. Carta sobre o Humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
[95] IDEM. Ibidem, p.369
[96] IDEM. Ibidem, p.363.
[97] IDEM. Ibidem, p.367.
[98] IDEM. Ibidem, p.369.
[99] IDEM. Ibidem, p.366.
[100]
IDEM. Ibidem, p.357.
[101] HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Rio de Janeiro: Vozes, 2005. (p. 263-264, §42).
[102] IDEM. Ibidem. 2005, p. 264.
[104]
ARISTÓTELES. 2001,
p.14-94-99.
[105]
HABERMAS. 2000, p.413-414.
[106]
BELLO. 1998, p.79.
[107]
IDEM. Ibidem, p.83.
[109] BELLO. 1998, p.86-90
[110] HEIDEGGER. 2008, p.36.
[111] IDEM. Ibidem, p.36.
[114]
Cf. REALE. p.71-90.
[117]
Cf. VIERA, Leonardo Alves e
PUENTE, Fernando Rey (Org.). As
Filosofias de Schelling. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005. p.58.
[119]
Cf. VIERA, Leonardo Alves e
PUENTE, Fernando Rey (Org.). As
Filosofias de Schelling. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005. p.50.
[120]
IDEM. Ibidem, p.51. Vide o
esquema dialético.
[122] SCHELLING. 2010, pp. 47-48.
[123]
IDEM. Ibidem, pp.47-48.
[124]
IDEM. Ibidem, p.67.
[126]
IDEM. Ibidem, p.22.
[127]
IDEM. Ibidem, p.23.
[128]
IDEM. Ibidem, p.26.
[129]
IDEM. Ibidem, p.28.
[130]
IDEM. Ibidem, p.29.
[131]
IDEM. Ibidem, pp.28-29.
[132] IDEM.
Ibidem, p.30.
[133]
IDEM. Ibidem, p.32.
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