Este é meu projeto de mestrado, isto é, a introdução à Doutrina Holística da Metafísica como Sistema do Saber Universal, ou simplesmente a Filosofia Derradeira.
O SIGNIFICADO DA METAFÍSICA COMO
SISTEMATIZAÇÃO DO SABER E SEU VÍNCULO COM A IDEIA DE FORMAÇÃO DA HUMANIDADE
PELA CULTURA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A UNIDADE DA ÉTICA COM A ESTÉTICA.
RESUMO
O presente projeto foi desenvolvido a
partir de pesquisa sobre a Filosofia da Natureza de Schelling, com bolsa de
iniciação científica concedida pelo CNPq de duração de 1 ano, a qual sendo
renovada por mais um ano possibilitou a complementação dos estudos do referido
autor no que diz respeito à sua Filosofia da Arte. O amplo estudo realizado sobre a Filosofia da Natureza e a Filosofia
da Arte de Schelling permitiu a visualização do tema da possibilidade de
sistematização do saber, no qual um mesmo saber está expresso nas disciplinas
específicas: o saber absoluto que é saber do absoluto; ideia a partir da qual,
tanto na Filosofia da Natureza quanto na Filosofia da Arte, torna-se possível
entender o saber como construção de si, construção simultânea do sujeito e do
objeto do saber, pelo que o Absoluto (Eterno Ato de Conhecimento) se torna
consciência de si (no homem, na cultura, na história mediante movimento de
autoformação) e não só uma inteligência inconsciente (natureza, visão de mundo).
Com base nisso, a proposta de retomada do ideal metafísico socrático-platônico
e sua conexão com o sentido de formação do homem, ou a formação mesma (Paideia,
Bildung, Kultur, Cultura, Educação) tanto ideal (supra-estrutura social) quanto
real (infra-estrutura social) nos pareceu viável para chegarmos ao
desencobrimento do sentido histórico da metafísica como projeto de
sistematização do saber ou de constituição sistemática do todo da ciência. Como
o homem é esse ente especial que produz a ciência e se autoproduz ou se
autoforma mediante o saber sistematizado, que é veiculado mediante os meios de
difusão do conhecimento, sobretudo nas instituições de ensino em seus diversos
graus de escolaridade, e como essa autoformação da Humanidade se processa na
transmissão do saber às futuras gerações, a ideia da auto-organização da
natureza na Filosofia da Natureza de Schelling e da tomada de consciência da
natureza universal individuada na espécie humana poderá nos fornecer uma
possível sustentação de que, pela Filosofia da Arte de Schelling, o elo do
sistema do saber é possível; sendo esse elo o elemento fundante da realidade
universal que se expõe em todos os âmbitos específicos do saber, de tal modo
que a sistematização do saber é revelada em seu sentido original como
metafisica imanente, como o transcender mesmo da liberdade humana para o saber
de si e para sua autoformação deveniente. São esses pressupostos que nos
levarão a considerar uma possível unidade metafísica e imanente da Ética com a
Estética e a perguntar sobre a possibilidade de uma Educação Estética do Homem. Assim,
o conceito unificador de natureza, em Schelling, pode servir de base para a
fundamentação de uma visão holística do saber e do ente que sabe, o Homem, na
sua relação com os objetos do saber (a natureza em geral em sua positividade
como objeto real e o ente histórico e cultural, o homem em sua negatividade,
como sujeito ideal do saber; oposição mutuamente conservadora entre necessidade
e liberdade), de tal maneira que a ciência mais elevada de todas, a metafísica,
possa vir a ser compreendida em seu significado historicamente subjacente como
sistematização do todo da ciência. A partir disso, a própria noção de
sistematização do saber universal, há muito abandonada pelas filosofias
contemporâneas, pode desvelar-se em seu escopo fundamental, a saber: a
concretização da ideia de Humanidade, desdobrando-se historicamente como devir
da experiência da consciência ou autoformação do espírito, somente em cujo seio
a ideia estética do Belo e a ideia ética do Bem se mostram como uma e a mesma
realidade, motivo pelo qual pensamos ser possível fundamentar teoricamente a
possibilidade de uma Educação Estética do
Homem a partir do significado intrínseco da Metafísica assim considerada.
INTRODUÇÃO
Ao introduzirmos o tema
do projeto a ser desenvolvido em uma dissertação de mestrado, orientamo-nos por
uma pergunta: é possível um projeto de "Educação Estética do Homem",
como propunha Schiller? Porém talvez não seja objetivo nosso responder
afirmativamente ou negativamente a esta pergunta, e sim vislumbrar uma
construção possível de sentido da metafisica como sistema do saber, a qual
viabilize a constatação de que, de um modo ou de outro, a constituição do saber
pelo progresso histórico da ciência, portanto da humanidade, já tem se
constituído em sua prática teórica e em sua dinâmica de produção de
conhecimento e de tecnologias como um processo de autoformação do homem no seio
da cultura. Ademais, procuramos pensar a possibilidade metafísica de uma
educação estética do homem a partir da filosofia de Schelling no que diz
respeito à ideia do sistema do saber universal, que exprime o Absoluto como
objeto do saber e como sujeito do mesmo saber que se constrói em torno a este
objeto, de tal modo que a integração do saber nas diversas disciplinas da
Filosofia seja vislumbrada em sua possibilidade pela Filosofia da Arte. Mas
como as diversas disciplinas no sistema do saber exprimem o mesmo conteúdo
imanente, isto é, o Absoluto, então uma Filosofia da Natureza e uma Filosofia
da Arte se constituem como modos de um único saber, o mesmo ocorrendo com a
Filosofia do Homem, da História ou da Cultura, esta considerada como Fenomenologia do Espírito, na qual se
expõe o ethos do homem na dinâmica de
sua autoformação espiritual através do evolver histórico do saber de si da
Humanidade enquanto sujeito ético, isto é, enquanto sujeito que delibera sobre
suas ações e produções nos diversos níveis do saber.
O
problema do sentido da metafísica de que trataremos na dissertação já nos
encaminha para isso através da possível solução da dicotomia kantiana entre uma
Razão Pura Teórica e uma Razão Pura Prática ou entre a sensibilidade (Estética)
e a racionalidade (Ética); e isso a partir da consideração da resolução da
dialética entre uma inteligência inconsciente e uma inteligência consciente
pela Filosofia da Arte (da Natureza, da Mitologia, da Identidade, da Religião
etc.) de Schelling. Pois o problema do conflito entre necessidade e liberdade
ocorre para a inteligência consciente (homem), e não para a inconsciente
(natureza em geral), na medida em que a natureza mesma, no homem, ainda não
evolveu até o saber de si do absoluto na história ou no devir mesmo do
espírito; daí o idealismo alemão aparecer como uma nova metafísica
socrático-platônica pela proposta de Schelling de uma teoria imanentista das
ideias, em sentido platônico, como determinações ideais ou potências do
Absoluto, que nelas se expõe mediante o sistema integrado do saber nas
Filosofias que são uma só Filosofia da exposição do Universo na forma da Arte,
da Natureza, da História etc[1].
Detectamos que o
problema moderno da cisão entre o sensível o suprassensível é uma herança platônica da Filosofia Transcendental de
Kant como Crítica da Razão Pura em seus usos Teórico e Prático, de modo que o
âmbito próprio da produção estética pela arte, cuja essência procuramos
compreender pela Filosofia da Arte de Schelling e de sua inserção no todo
orgânico do saber universal, e o da deliberação ética pela deontologia (ciência
dos valores éticos como postulados práticos para regular o dever-ser da ação
humana) foram compreendidos em uma relação de subordinação da ideia estética do
belo à ideia ética do bem. A procura por uma autonomia da arte levará Hegel a
fazer a crítica da Educação Estética do
Homem de Schiller como herança da dicotomia e da subordinação referidas
advinda de Kant[2]. Uma vez
que todo esse problema entre sensibilidade e razão nos foi herdado de Kant pela
problematização moderna da metafisica ou da possibilidade desta tão somente
como filosofia crítica em sentido transcendental, a labuta especulativa de
nossa pesquisa precisará realizar uma problematização histórica da metafísica
mediante a vinculação da noção de “sistema do saber”, fornecida pelo idealismo
alemão, em sua possível vinculação de significado com a “metafísica” em sentido
clássico socrático-platônico. Assim, o ideal clássico socrático-platônico de
busca pelo saber (amor pelo saber ou filosofia) como busca pelo que é em si e
por si mesmo bom, belo e justo nos parece mostrar a fundamentação do sistema do
saber ou da metafisica em sua conexão essencial com a noção de formação (Bildung) ou educação (Paideia) pela cultura (Kultur). Essa problematização da
metafísica nos leva ao esforço de sustentação do sistema da Filosofia Geral e
das filosofias particulares (ontologias regionais) como partes integrantes do
sistema do Saber Absoluto; esta noção nos é fornecida pelo idealismo alemão, particularmente
o de Schelling, cuja compreensão como metafísica da transcendência imanente do
Absoluto pela sua Filosofia da Natureza e pela sua Filosofia da Arte nos
permite sustentar a tese de que a ideia estética do belo e a ideia ética do bem
são uma e a mesma e de que, portanto, metafisicamente não há qualquer conflito
ou cisão entre Razão e Sensibilidade, Ética e Estética. Tal cisão ocorre
somente quando a Arte não procura mais a Beleza da forma, a ideia do belo, tal
como a Ética também não procura mais a forma do Bem; isto é o fim da metafísica
ou a dissolução da possibilidade de sistematização do saber.
OBJETIVO(S) E JUSTIFICATIVA(S)
Os objetivos do projeto,
bem como sua justificativa, na medida em que se trata de um projeto de
Filosofia, limitam-se ao âmbito próprio do pensamento puro especulativo e
conceitual, sem qualquer viabilidade pragmática utilitária; não que isto seja
um objetivo menor, conquanto seja objetivo derivado a que o projeto não volta
suas intenções. Na verdade, o único objetivo deste projeto é buscar movimentar
alguns elementos ou conteúdos filosóficos capazes de, a nosso ver, viabilizar
uma construção teórica argumentativa em prol da tese de que o sentido histórico
da metafísica é a possibilidade da sistematização da ciência e de que isto é
essencialmente vinculado à constituição da cultura humana, pelo devir do saber,
como autoformação (educação) do homem. Isso feito, acreditamos que o projeto se
justifica em sua ambição talvez não necessariamente inovadora do pensamento
filosófico, mas reveladora de um sentido possível da própria metafísica ou da
filosofia em seus primórdios, um sentido ou significado que buscaremos mostrar
nesta tese e que, a nosso ver, sempre se manteve em vigor no processo do
progresso do saber, portanto no devir histórico da humanidade, ainda que tal
vigor tenha se mantido oculto no operar puro e simples dos acontecimentos do
movimento histórico do pensamento especulativo e da ciência em geral. É
exatamente tal obnubilação das origens e dos fins da prática científica que
condiciona a insistência errante do pensamento metafísico na dicotomia transcendente/imanente,
coisa-em-si/fenômeno, suprassensível/sensível, encaminhando a dissolução da
unidade sistemática do saber metafísico na instauração de ciências específicas
autônomas, separando assim os âmbitos da Ética e da Estética e forçando ou uma
tentativa fracassada de subordinação de um ao outro, o que supõe já a separação
de um e de outro, ou o abandono completo de uma unidade sistemática daqueles
dois âmbitos citados; unidade sistêmica do saber sem a qual não conseguimos
vislumbrar uma possibilidade efetiva de Educação
Estética do Homem.
DELIMITAÇÃO
DO PROBLEMA (FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA)
A
Filosofia da Natureza de Schelling nos fornece o conceito de natureza em geral
ou Universo. Um saber que se constrói em torno a este objeto se mostra como
saber universal da natureza em geral e é capaz de situar o próprio sujeito
desse saber no interior do mesmo como tomada de consciência de si da natureza
universal, na medida em que esta se individua no espírito (na obra humana que
se processa na história e se autoforma na cultura). Assim, a Física Dinâmica ou
Filosofia da Natureza de Schelling se nos mostra como uma metafísica da
imanência da natureza e do espírito, cuja transcendência vem a ser o elemento
do devir que funda, de maneira abissal, a autoformação do espírito na história
e na cultura em analogia ao processo de auto-organização da matéria na
natureza. E ainda, a noção de sistematização do saber como articulação da
unidade entre a natureza e o espírito pela arte permitirá a suposição da
conexão intrínseca entre Ética e Estética mediante uma problematização do
sentido da metafísica, cujo fim é vislumbrar seu significado como vínculo do
saber em geral com a noção de formação do homem, o ente que sabe. Essa
problematização ocorre na medida em que nos antecipamos a possíveis críticas em
uma confrontação dialógica com pensadores que problematizaram, à sua maneira, a
metafísica e a história da metafisica. Assim, pela compreensão do vínculo do
sentido formativo da atividade de sistematização do saber em geral com a
metafísica clássica em sentido socrático-platônico pensamos fazer uma leitura
do idealismo de Schelling como metafísica da imanência do espírito e da natureza
pela arte, motivo pelo qual pensamos fundamentar a tese da unidade da Ética com
a Estética, da Razão e da Sensibilidade e da possibilidade de uma Educação Estética do Homem.
Segundo
a Filosofia da Natureza de Schelling, a ideia se encontra presente de maneira
objetiva na natureza; e nesta coexistem duas atividades, a saber: a ideal
(construção consciente do objeto mediada por conceitos a exprimir-se na
ciência) e a real (intuição imediata e inconsciente da natureza a exprimir-se
em uma visão de mundo). A intuição intelectual é responsável pela reunião de
ambas atividades na autopercepção do espírito, que se torna ciente de si pela
intuição intelectual. Ocorre que a Filosofia da Arte de Schelling vislumbrará a
arte como atividade do espírito em que inteligência inconsciente e consciente
se unificam em uma mesma ação, que se expressa em obras (as obras de arte como
produtos da liberdade humana, esta como finalidade da necessidade da natureza).
Desse modo, pensamos que a arte unifica a liberdade subjetiva e a necessidade
objetiva na obra humana, isto é, na autoformação do espírito como edificação do
mundo da cultura.
A
consideração da analogia entre o jogo-articulação das potências do espírito e o
jogo de forças dialéticas presente na natureza (expansão/retração), nos leva a
considerar que: o espírito se expande rumo ao mundo objetivamente real em sua
positividade fenomênica no exercício de sua potência teórica (Razão Pura em seu
uso teórico) a fim de constituir uma experiência possível sobre a natureza como
produto (fenômeno para a consciência pura transcendental mediante a
constituição da experiência de objetos pela articulação das categorias do
entendimento com os dados das formas puras da intuição sensível de espaço e de
tempo).
Contudo,
o espírito também se retrai da objetividade exterior pura e simples ou da
necessidade objetiva da natureza como representação fenomênica (como produto
finito); essa retração do espírito para si mesmo em sua idealidade subjetiva
constitui a negatividade do espírito e é índice de seu caráter de
transcendência. O espírito transcende o real como dado fenomênico e vai “além
dele”, isto é, se move além da experiência possível a fim de possibilitar o
aparecimento de uma nova figura do saber, portanto uma nova figura de si mesmo
como sujeito e objeto do saber que se processa ou se autoforma na história por
meio de seu devir fenomenológico, como ciência
da experiência da consciência. Esta se mostra na figura do Absoluto quando chega a ser saber de si,
isto é, quando se sabe a totalidade ou a unidade da identidade e da diferença
entre o subjetivo e o objetivo. Essa negatividade do espírito é índice de sua
liberdade, isto é, de sua potência prática (Razão Pura em seu uso prático) e
delimita as possibilidades do ethos do
espírito que se apresenta e se autoforma na história como devir da consciência,
cujo fenômeno é o todo da cultura. Essa negatividade do espírito se nos afigura
como o que Heidegger denomina a transcendência
do ser-aí (Da-Sein), a liberdade do ser-no-mundo
(In-der-Welt-Sein).
Com isso pensamos ser possível uma articulação
metafisica da Filosofia da Natureza com a Filosofia do Espírito, na medida em
que a metafisica seja o sistema do saber imanente à natureza pensada como
substância universal, em cujo movimento de auto-organização da matéria a
idealidade transcendental do saber já está presente como possibilidade de
chegar a ser ciente de si (Selbstbewusstsein),
pela cultura, como Sistema Universal da Razão (Lógos) do mundo natural e histórico, estes respectivamente como
objetos das ciências da natureza (Naturwissenschaften)
e das ciências do espírito (Geisteswissenschaften).
Na
Filosofia do Espírito de Hegel, o ser que não sabe é propriamente o ser
inconsciente (Unbewusste), ao passo
que o ser que sabe é o ser consciente (Bewusstsein),
isto é, a consciência mesma. Contudo, é o pensamento de Schelling sobre o
sistema do saber universal, posto que o Universo mesmo se exponha idealmente
como objeto das filosofias particulares, que nos permite vislumbrar a unidade
do sistema do saber (da natureza e do espírito) na Filosofia da Arte, posto que
a arte seja considerada a produtividade que reúne a atividade da inteligência
inconsciente com a da inteligência consciente, como se lê no §19 da Primeira
Seção da Filosofia da Arte de Schelling: Necessidade
e liberdade se relacionam como inconsciente e consciente. A arte se baseia, por
isso, na identidade da atividade consciente e inconsciente[3].
Na Crítica da Faculdade do Juízo[4], a
última das críticas de Kant, o sistema da razão se encontra completo, mas
fragmentado: o uso teórico da razão visa à constituição da experiência objetiva
de fenômenos através da articulação entre as categorias puras do entendimento e
as formas da intuição sensível de espaço e de tempo, os juízos objetivos de
conhecimento constituindo-se como enunciações das leis necessárias da natureza
como fenômeno; o uso prático da razão visa à regulação da ação moral,
independente do mundo objetivo dos fenômenos, pela lei do princípio autônomo da
liberdade que se enuncia no imperativo categórico. Mas além do juízo prático
moral subjetivo e do juízo de conhecimento teórico objetivo, há o juízo
estético acerca do Belo, do qual Kant trata na Analítica do Belo; pensando o particular no universal, esta forma
de juízo encontra sua determinação a
priori em uma necessidade subjetiva, isto é, em uma legalidade formal do
juízo que é desinteressada e que agrada universalmente, sem conceitos e
independente da experiência objetiva do juízo teórico de conhecimento.
Uma
vez que as ideias da razão como postulados práticos não encontram um correlato
na experiência possível e que os conceitos puros do entendimento, em seu uso
transcendental, não devem se referir às ideias como entidades transcendentes,
mas aos dados da intuição sensível na constituição da experiência objetiva de
fenômenos, então o juízo estético se põe como intermediário do reino do
entendimento (categorias que constituem objetos da experiência) e do reino da
razão (ideias sem correlato na experiência, mas com uso prático como postulados
da ação moral). Contudo, o juízo estético é meramente contemplativo, em sua
legalidade subjetiva formal, sem finalidade exterior a si mesmo e desprovido de
conceitos, nem teórico nem prático.
Talvez
exatamente por isso o âmbito do juízo estético do belo, embora gozando de certa
autonomia, será subordinado ao âmbito do bem ético na consideração do belo como
símbolo do bem moral, uma vez que o bem poderá ser implantado como conteúdo objetivo da legalidade subjetiva
meramente formal do juízo estético. Pois o reconhecimento do sentimento do
sublime como parte característica do belo levará Kant ao vínculo de
subordinação do estético com o ético, ou do belo ao bem (lembrando Platão em A República); a nosso ver e como
procuraremos mostrar, um vínculo que não é de subordinação, mas de unidade do belo
estético com o bem ético, que se expõe em ações belas advindas de uma formação
da Cidade (Pólis) e do cidadão pela
filosofia como busca pelo que é em si e por si mesmo bom, belo e justo.
Exatamente
esse ideal clássico da metafísica socrático-platônica de busca pelo que é em si
e por si mesmo bom, belo e justo nos aponta para o sentimento do sublime como
ponto de ligação do ético com o estético. Pois o sublime matemático aponta para
a capacidade de a razão superar as medidas da experiência sensível de
fenômenos, enquanto o sublime religioso aponta para a potência suprassensível
da razão prática. Contudo é a caracterização da natureza como Absoluto pela
metafísica imanente de Schelling que nos permite sustentar que não há um
caráter de ser-transcendente entre o âmbito suprassensível e o sensível, o
ético e o estético. Na verdade, o ato de transcender os limites dados pela
necessidade objetiva da natureza como fenômeno, esse ato da razão, advém da
liberdade da natureza como produtividade infinita, que se individua no homem e
chega a ser saber de si consciente pela autoformação deveniente do espírito na
cultura. Assim, esse transcender constitui a penetração mesma no recôndito
mistério da natureza como Eterno Ato de Conhecimento do Absoluto, que permanece
no repouso imanente de seu próprio ser; um repouso que em momento algum se
separa da finalidade ou da conformidade a fins do movimento de auto-organização
da matéria ou da substância universal como unidade da própria natureza, esta
como produtividade infinita e como produto finito (mundo dos fenômenos ou o
fenômeno mesmo do mundo como totalidade cósmica desses fenômenos).
Portanto,
como delimitação do problema e como fundamentação teórica deste projeto, a
consideração da unidade metafísica imanente entre Ética e Estética pelo
desencobrimento do significado histórico da metafísica como sistematização do
saber e seu vínculo possível com a noção de formação da humanidade pela cultura
é a tese em prol de cuja sustentação nosso labor de pesquisa se dignificará a
concretizar uma dissertação de mestrado. E isso porque, segundo nossa
compreensão a partir de Schelling, uma Educação
Estética do Homem é possível de ser pelo menos teoricamente compreendida a partir
da conexão entre uma Filosofia da Natureza e uma Filosofia do Espírito pela
Filosofia da Arte; a natureza e o espírito se re-únem pela arte, a educação
estética é a formação do ethos humano
em busca do belo, do bom e do justo na natureza mesma, por cujo bem o homem
deve zelar a fim de preservar a sua cultura. Por isso tudo, pensamos concordar
com Hegel quanto à noção de formação do espírito:
“A presente Fenomenologia do Espírito apresenta esse devir da ciência em geral ou do saber. (...) A tarefa de conduzir o indivíduo
da sua situação de incultura até o saber tinha de ser entendida no seu sentido
universal e tinha de considerar o indivíduo universal, o Espírito
consciente-de-si, no processo de sua formação. Pelo que diz respeito à relação
dos indivíduos, cada momento no indivíduo universal se apresenta segundo o modo
com que consegue alcançar a forma concreta e sua própria configuração. O
indivíduo particular é o Espírito incompleto, uma figura concreta em cujo
existir total uma determinidade
tem a primazia, e na qual as outras estão presentes apenas com traços apagados.
No Espírito que está mais elevado que um outro, o existir concreto inferior
recaiu na condição de um momento que não aparece. O que antes era a coisa mesma
é agora apenas um vestígio. Sua figura está coberta por um véu e tornou-se um
simples perfil de sombra. O indivíduo, cuja substância é o Espírito num estágio
mais elevado, percorre esse passado do mesmo modo como aquele que se dispõe a
adquirir uma ciência superior percorre os conhecimentos preliminares, que há
muito tem guardados em si, para tornar presente seu conteúdo. Evoca sua
recordação sem, no entanto, ter neles seu interesse ou neles demorar. O
indivíduo singular deve percorrer igualmente, segundo o seu conteúdo, os
degraus da formação do Espírito universal, mas como figuras já abandonadas pelo
Espírito, como estágios de um caminho que já foi aberto e aplainado. Vemos
assim, com respeito a conhecimentos que em tempos passados ocupavam o espírito
amadurecido dos homens, que eles desceram ao nível de conhecimentos, exercícios
ou mesmo jogos de idade juvenil, e assim se reconhecerá no progresso
pedagógico, esboçada como numa silhueta, a história da cultura mundial. Esse
existir passado é já uma propriedade adquirida do Espírito universal que
constitui a substância do indivíduo e, aparecendo assim como exterior a ele,
constitui sua natureza inorgânica. Considerada a partir do indivíduo, a cultura
consiste, segundo este modo de considerar, em que ele adquira o que se lhe
apresenta, consuma em si sua natureza inorgânica e a tome como possessão sua.
Considerado porém a partir do Espírito universal como substância, esse processo
não significa senão que tal substância se dá a sua consciência-de-si e produz
em si seu devir e sua reflexão.
Assim como representa na
sua atualização e na sua necessidade esse movimento de formação, assim
a ciência representa igualmente na sua figuração o que já passou a momento e
propriedade do Espírito."[5]
A
ciência ou o saber é aquilo de que o Espírito deve se apropriar no movimento de
sua formação, pois esta é o progredir mesmo do saber que se sabe objeto e
sujeito do saber. Mas o saber universal da natureza e do espírito se nos mostra
unificado não pela Ciência da Lógica de
Hegel, mas pela Filosofia da Arte de
Schelling, embora a Filosofia do Espírito de Hegel seja mais conhecida. Pois em
Schelling a natureza não é só o espírito alienado de si, mas sim o espírito é a
reflexão da natureza que vem a ser saber de si universal individuado na obra
humana (o mundo da cultura). As potências da natureza se movem na dialética da
expansão (luz) e da coesão (gravidade) da auto-organização da matéria e se
tornam fenômeno na eletricidade e no magnetismo, cuja síntese é a formação dos
corpos físicos e dos fenômenos químicos; o quimismo da matéria resultará na
potência do organismo, o corpo vivo, como resultado do movimento da matéria que
se organiza em um processo de sensibilidade, excitabilidade e reprodução; com
isso, podemos pensar que a vida é a finalidade do movimento de auto-organização
da matéria porque, desde sempre, a ideia ou ser da vida já se encontra pulsando
(volitando) no interior da natureza ainda não formada em organismos; assim,
podemos entender que a conformidade a fins ou lei do movimento universal da
matéria é a vida, ou seja, a Razão Universal, em cujo ser já se encontra a
verdade transcendental da ideia ética do bem e da ideia estética do belo, estas
unificadas na formação do homem justo, cuja intelecção cabe ao homem vislumbrar
ou não em suas produções técnicas, isto é, no labor de sua cultura.
Assim
como na natureza ocorre um processo de auto-organização da matéria universal,
no devir da cultura ocorre um progresso de autoformação do espírito universal.
As potências do espírito são: a razão teórica, em que sujeito e objeto estão
separados e em conflito no conhecimento da natureza como fenômeno ou objeto
(incognoscível, porém, como sendo em-si ou sujeito), o âmbito da necessidade; a
razão prática em que sujeito e objeto já se encaminham para uma unificação pela
liberdade da ação moral, isto é, da autonomia do sujeito humano; e a síntese
entre ambas ocorre na arte como síntese da liberdade e da necessidade. É
exatamente a ideia dessa síntese pela arte que nos move à argumentação em prol
da tese deste projeto em uma dissertação de mestrado como considerações sobre a
unidade entre a Ética e a Estética, pois o conflito entre a liberdade do
espírito e a necessidade da natureza se resolve, também, na consideração da
possibilidade metafísica de uma Educação
Estética do Homem, isto é, da formação sensível do espírito ético pela
arte. Não seria esse o sentido da função catártica da arte trágica da Grécia
antiga, precisamente o alcance do equilíbrio de uma justa medida entre a
liberdade da vontade e a necessidade objetiva do mundo dos fenômenos naturais e
das obrigações sociais?
METODOLOGIA
A metodologia de pesquisa se resume ao exercício básico de reunião de uma
bibliografia que forneça os dados ou conteúdos filosóficos determinados, cujo
arranjo em um texto dissertativo constituirá a argumentação que será feita em
prol da sustentação ou defesa da tese apresentada neste projeto. Enfim, o
método da pesquisa será aquele caminho próprio de uma investigação teórica
filosófica; muita leitura, fichamentos e resumos de textos que exercitem a
escrita e o labor de interpretação.
PLANO DE TRABALHO E CRONOGRAMA DE PESQUISA
Resumo de atividades para o primeiro
ano de pesquisa:
Primeiro Semestre da Pesquisa
Reunir uma
bibliografia geral e tentar dividi-la em bibliografia principal e secundária ou
complementar, embora tal divisão não constitua, em princípio, uma necessidade.
Isso já pressupõe alguma leitura prévia, o que permite o planejamento geral das
atividades.
Segundo Semestre da
Pesquisa
A bibliografia estando
reunida, daremos início à leitura dos textos no sentido de coletar as
informações de conteúdo conceitual que permitem, mediante uma determinada
interpretação de sentido, a construção da argumentação que mostra a
plausibilidade da tese. Com isso, é possível a concretização da tese em uma
dissertação que já se encontra esboçada em quatro capítulos, quais sejam:
Capítulo 1 - Esboço geral da ideia de
projeto de constituição da formação (Paideia) integral do homem como fundamento
da ciência primeira ou metafísica geral em sentido clássico socrático-platônico;
Capítulo 2 - Antecipação a possíveis
críticas: confrontação dialógica com Immanuel Kant, Friedrich Nietzsche e
Martin Heidegger; Capítulo 3 - O mais
antigo programa sistemático; Capítulo 4 A
compreensão da metafísica ou da filosofia propriamente dita como formação do
homem pela sistematização do saber em geral na Filosofia da Arte de Schelling.
OBS: apenas o primeiro
ano de pesquisa se encontra previamente planejado devido à possiblidade de, no
decorrer da pesquisa, esta sofrer alterações. Além disso, estando este plano
bem alicerçado, o restante do tempo de pesquisa será dedicado à construção ou
organização do texto de tal modo que este possa ser apresentável em moldes
academicamente adequados.
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