Há por certo o
inefável. Isso se mostra, é o Místico.[1]
É
sabido que o pitagorismo apresenta uma noção segundo a qual os números são
entidades reais que fundamentam ontologicamente a realidade sensível; disso
podemos depreender uma considerável influência na teoria das formas ou ideias
como realidades puramente inteligíveis, a partir das quais todo ente sensível
se constitui como cópia ou simulacro do real. Ademais, os fragmentos
pitagóricos de Filolau e Arquitas, analisados por Mário Ferreira dos Santos no
Capítulo III de Pitágoras e o tema do
Número, mostram o quanto não são exclusivas de Platão muitas das teorias
que ele apresenta em seus diálogos, por exemplo: a distinção entre sensível e
inteligível, doxa e epistéme se encontra toda nos fragmentos
4 e 5 de Arquitas, assim como a doutrina do Bem
ou Um (Deus) transcendente se
encontra no fragmento 1 de Arquitas e aparece em Filolau como Deus a
hipostasiar o ilimitado e o limitado, Um que é causa antes da causa, conforme
Arquenetas, e que ultrapassa em potência
e em dignidade toda razão e toda essência[2],
palavras estas atribuídas a Brontinos.
O questionamento pela constituição
estrutural da realidade em seus fundamentos ontológicos passa, necessariamente,
pela abordagem de um problema filosófico clássico, a saber: a indagação pela
uno-multiplicidade do real; este é uno ou múltiplo? Se for uno, por que há
multiplicidade? Se for múltiplo, como é possível concebê-lo intelectivamente,
unificá-lo, e mesmo perceber configurações distintas (múltiplas) de formas
(unidades) individuadas? E já que percebemos a presença tanto da unidade quanto
da multiplicidade em uma conexão recíproca que sustenta ambas em um todo
estrutural que é o próprio real, qual deles seria o mais originário, o uno ou o
múltiplo? Seriam ambos igualmente primordiais como sustentáculos da realidade?
Com efeito, não usamos à toa a
expressão única que abrange os dois: uno-multiplicidade
do real. Os primórdios do filosofar remontam à inauguração da pergunta pela physis e pelo princípio fundamental (arché ou arqué) inerente à realidade. Percebemos o todo como multiplicidade,
mas a intelecção de uma totalidade múltipla nos leva à busca pela unidade
integradora que recolhe o todo (atividade do lógos) e as partes em sua integração harmônica, conforme uma medida
ou proporção, a qual pode, por sua vez, figurar-se numericamente. Desse modo, uma
indagação assombra o espírito dos primeiros pensadores: como é possível haver
mudança (movimento, diversidade) e simultaneamente permanência (repouso,
unidade)? E o espanto admirado com o puro emergir do ente múltiplo na
totalidade levou igualmente o pensamento, a nosso ver, à busca pela ataraxia na
bem-aventurança, ou seja, na eudaimonia da
existência unificada consigo mesma, embora marcada pela cisão que acompanha a
finitude do mortal e a ânsia infinita a caracterizar a liberdade do espírito
diante da ação corrosiva da matéria como pura tendência à forma; pura tendência
que dissolve a própria forma, a qual aparece em um ente singular, no movimento
infinito de geração e corrupção da natureza, que se mostra no ente finito que
nasce e morre.
A indagação pela uno-multiplicidade
do real se desdobra nas diferenças entre o universal e o particular, o abstrato
e o concreto, o repouso e o movimento, o ser e o devir. “A realidade é uno-múltipla”
seria uma máxima, talvez, mais próxima possível do “verdadeiro” ou da physis em seu mistério e resguardo de
ser em devir ou de devir em seu ser. A máxima “o uno é o múltiplo, e o múltiplo
é o uno” sem que um dos dois seja privilegiado como “o mais originário” é a
tentativa de proposição da realidade que ensaiamos aqui e agora. Pois na physis encontramos o ser e o devir
plenamente coadunados como princípios da integração entre os entes ordenados e
limitados e os entes ainda não ordenados e ilimitados (possíveis), de tal modo
que o possível, o que ainda não é não entra na alçada do “não-ser”, mas do que
pode vir a ser (devir) e, portanto, ser. Com isso, pensamos que ser e devir são
o mesmo (dito de diversos modos), e o não-ser nem sequer entra na constituição
do devir, ou se entra, então entra como “ilusão”, “erro” e “mentira”, posto que
verdadeiro é o ser-ato (enérgeia) em
sua perfeição (entelécheia) ou em seu
movimento (kínesis) segundo sua
possibilidade (capacidade) ou potência (dynamis).
Qualquer causa que inviabilize o movimento ou o devir da atualização de uma
potência, o movimento de vir-a-si do ser em aparição, o tornar-se fenômeno do
ser como substância (conjunto de matéria e forma), é uma causa que
impossibilita o possível, portanto negadora tanto do ser quanto do devir; e só
assim o não-ser verdadeiro é possível, a saber: como impossibilidade do
possível, como velamento do desvelamento, como retração do mostrar-se que manifesta
um não-aparecimento, como matéria que não recebe uma forma, e como forma sem
matéria.
Algumas correntes de pensamento
(monistas e pluralistas) privilegiam o “uno” e outras, o “múltiplo”, mas ambos
se apresentam na diferença clássica entre a essência (inteligível) e a
aparência (sensível), procurando na articulação entre ambas o fundamento de uma
interação transcendente ou imanente. Contudo, a pergunta por uma interpretação
monista ou dualista do pitagorismo não guiará nossa reflexão, pois indagar se
as formas ou unidades numéricas são transcendentes e os entes sensíveis, a sua
cópia, ou se as formas são imanentes ao sensível, assim correspondendo à physis pré-socrática, em suma, esse
procedimento questionador nos levaria ainda a perguntarmos como o transcendente
(a forma separada e subsistente por si) é suficientemente imanente (presente)
nas suas cópias a ponto de fundá-las ontologicamente sem ele mesmo tonar-se um
ente figurado como cópia de um original, isto é, sem dividir-se e deixar de ser
o uno-em-si que garante a unidade dos muitos; ou como um princípio imanente e
imutável pode estar (oni)presente nas coisas sensíveis e cambiantes, embora não
aparente em uma forma determinada, de tal modo que não seja imediatamente
percebido em sua presença nas coisas exteriores particulares, mas somente
mediante um movimento de reflexão do pensamento a constituir uma olhar interno
que capta ou apreende o princípio universal do todo do ente por meio de uma
intuição racional, esta projetada na linguagem (lógos, ratio, razão) na
medida em que dá à luz (concebe) um conceito (ente iluminado para a apreensão
do intelecto, portanto compreendido em seu ser).
O
conceito, por sua vez, se articula no juízo na forma da predicação, o “ser”
figurando como cópula no movimento (devir) de um sujeito que se projeta em
atributo (predicado ou objeto) e de um predicado que retorna ao sujeito como o
“ser” (atributo essencial) ou como o estar-sendo (acidente) de “algo que é
dessa ou daquela maneira”, “em tal ou qual condição”, “sob este ou aquele
aspecto”: o uno é múltiplo, o múltiplo é uno, o real é uno-múltiplo. O movimento
de pro-posicionar-se do objeto (oposto) através do sujeito (posto) e do sujeito
no objeto (ambos ligados pelo verbo ser no presente do indicativo “é”) é tal
que a estrutura da linguagem proposicional instaura a redução do lógos (composto do posto e do oposto/ligação
entre sujeito e objeto em um juízo) à forma secundária (não menos importante)
do funcionamento puramente lógico da estruturação de proposições encadeadas
entre si, isto é, do jogo dos puros raciocínios e da pura lógica proposicional
como cálculo e maquinação racional do real empreendida pelo espírito no jogo da
busca pela fundação (causação) da realidade em seus fundamentos (primeiros
princípios), e isso juntamente à possibilidade da linguagem, do conhecimento e
do acesso ao objeto conhecido. A pergunta pela possibilidade da predicação e do
conhecimento de objetos por parte de um sujeito su-põe (sub-põe como subjacente
e pressuposto, ainda que esquecido) a interpelação pela realidade em seus
fundamentos ôntico-ontológicos (diferença entre ser e ente). Só assim é válida
uma indagação pela essência da linguagem, do lógos, da razão como capacidade ou faculdade de produzir juízos.
Mas a enunciação, antes de Platão e Aristóteles, funcionava de outro modo.
“O Senhor, de quem é o oráculo de Delfos, nem diz nem oculta, mas dá
sinais.”[3].
Este
fragmento, além de fazer menção a Apolo, indica que a linguagem do deus é um
pronunciamento que dá sinais, doa sentido ao real, sem dizer ou ocultar, ou
seja, sem afirmar (é) ou negar (não é) algo (objeto) de algo (sujeito) na forma
da predicação; portanto, trata-se de um nível mais originário do lógos (razão) em que a verdade se dá
como desvelamento, e nada ainda referente a qualquer valor lógico de verdade ou
falsidade do juízo ou da proposição em uma comprovação lógica da adequação do
pensamento consigo mesmo conforme a regras de linguagem (pois todo jogo tem sua
regra), nem referente a uma verificação empírica na adequação do pensamento
(sujeito) com a experimentação das coisas exteriores (objeto). A única regra
que se vê no jogo do desvelamento é que o jogo simplesmente joga e deixa o ente
jogado (iluminado, tornado manifesto), no âmago da essência existente do ser-aí
lançado à sua própria sorte no destino do aparecimento e do desaparecimento, da
afirmação e da negação, do dizer e do ocultar (calar) [pois “a respeito do que
não se pode falar, deve-se calar”[4]],
e isso somente a partir da doação de sinais, da doação de sentido que deixa ver
um visto, apreender um pensado, conceber um inteligível como eidos ou forma; eis o destino do lógos, da razão, e do ente que é
determinado como animal racional, vivente que possui linguagem e que institui
valor e sentido (significação na linguagem ou representação de objetos para um
sujeito racional com faculdades transcendentais de produção de juízos) para o
real. O mesmo se aplica à linguagem matemática em sua originariedade não
redutível à mera efetuação de raciocínios ou cálculos entre símbolos: o sentido
originário é a instauração do sentido, capaz de unificar os símbolos em uma
operacionalidade formal do intelecto, que se mostra experiência possível na
unificação entre forma e matéria a compor a substância sensível. A linguagem da
poesia e da música, por sua vez, também não as reduz a entretenimento e
passatempo lúdico como obras de arte criadas com o objetivo de uma mera fruição
do gosto, são modos de revelação e doação de sentido, dação de sinais do deus
(imanifesto, ou místico, “de que não se pode falar”) ao homem (manifesto, o
ente que fala sobre o que pode [manifestar-se] no seio do estar aberto para a
presentação do ser).
Em
Pitágoras e o tema do Número, Mário
Ferreira dos Santos nos diz que o nome “Pitágoras” significa “anunciador
pítico”. Acrescentamos ainda os seguintes sentidos para o nome: “anunciador
délfico”, “anunciador apolíneo”, “servo de Apolo”. Portanto, poder-se-ia dizer
em linguagem figurada (o que não indica falta de seriedade da linguagem enquanto
âmbito em que se dá a instauração-figuração de sentido para o real) que o pitagorismo
é um conjunto de revelações divinas das sapiências dos deuses aos homens, e
todos os pitagóricos são profetas da verdade da uno-multiplicidade do real, são
filósofos, amantes do saber, amantes da suprema sabedoria ou instrução (Mathesis Megisthe). Essa sabedoria é
saber universal e supremo porque é una com o saber do ser-devir do Kosmos, cuja harmonia se assenta na
terceira geração dos deuses liderada por Zeus, conforme a narrativa cosmogônica
de Hesíodo em sua Teogonia. O saber
oracular que contempla e reflete o ser-devir do Kosmos é o pronunciamento do deus que vige e vive plenamente uno
com o universo, com a própria uno-multiplicidade do real. Intentamos, com isso, forjar um sentido
sacral da linguagem figurada do mito e da matemática para os antigos, o que não
se diferencia da poesia e da música, em sentido originário, como formas de
acesso a “revelações divinas”, à sapiência dos deuses (os entes em si mesmos e
para si mesmos, o ser-em-si-para-si do real uno-múltiplo como tal). Essa
sabedoria é olímpica porque os deuses olímpicos constituem propriamente a
geração da ordem no caos, da ordenação configuradora da forma na matéria, a
resplandecência da luz nas trevas, presentação da unidade na multiplicidade,
eles constituem propriamente o universo em sua beleza, plenitude, supremacia,
harmonia, proporção e razão. O Universo é a ordenação do caos imposta pelo
“Pai” de todas as coisas, Zeus, que como raio fulgurante atravessa o todo e põe
cada ente em sua posição ou ordem, segundo a medida e necessidade, harmonizando
o Tempo (Kronos), o Céu (Uranos) e a Terra (Géia), bem como todos os entes
(epítetos) que se mostram sob esses domínios. A Razão ou Lógos, ou melhor, o lógos racionalizado
pela linguagem conceitual e argumentativa dessacralizada se funda na figuração
mítica do deus (espírito) que ordena o caos (matéria), o tempo, o céu e a terra
e estabelece o governo da geração olímpica, a ordem universal da
uno-multiplicidade do real, dando-lhe uma forma configurativa, um sentido e uma
possibilidade de manifestação e permanência em meio ao nascer e perecer do ente
temporal. As batalhas de Zeus e sua geração contra os gigantes e Titãs, na Teogonia de Hesíodo, não revelam outra
coisa que o princípio de formação do Kosmos,
da ordem una da totalidade múltipla, em meio ao Caos. “Zeus” não é outra coisa que “o raio fulgurante que dirige o
curso de todas as coisas”, como é dito no fragmento 64 de Heráclito, “pois uma só é a (coisa) sábia, possuir o
conhecimento que dirige tudo através de tudo.”[5]
Amar
o saber não é outra coisa senão amar o Deus dos deuses, ou seja, amar o
conhecimento do ente em si e por si subsistente (o Uno ou Bem que é mais alto
em dignidade e poder que as formas puras, posto que sumo ente) como forma
inteligível e possibilidade das possibilidades ou formas inteligíveis da
experiência das coisas sensíveis; daí o sensível ser a referência ao múltiplo
de intuições, e o inteligível apontar para a forma pura a priori da experiência enquanto esta se torna cognoscível no
pensamento por conceitos e juízos, fundado na unidade sintética da apercepção
transcendental (eu penso, não
enquanto sujeito individual, mas enquanto espírito universal, consciência-de-si
do absoluto como totalização da relação dicotômica sujeito-objeto). Por isso, Mário
Ferreira dos Santos nos indica, além das polaridades par-ímpar,
ilimitado-limitado, masculino-feminino etc. algumas classificações que dizem
respeito ao ethos, à morada e ao
comportamento do homem segundo a lei da década (tetráktis) sagrada, supremo conhecimento pitagórico: o 1 é
número-símbolo da Razão/ o 2 é a Opinião/ o 3 é a Santidade/ o 4 simboliza a
Justiça/ 5, o Matrimônio/ 6, o princípio da Vida/ 7, a Saúde/ 8, o Amor ou
Amizade/ 9, a Justiça em grau superior/ e o 10 é o número sagrado da perfeição
do todo. Outra coisa não significam as dez leis de Pitágoras, que não podemos
explicitar minuciosamente aqui, situadas no capítulo XVI de Pitágoras e o tema do Número, a saber:
Lei da Unidade; Lei da Oposição; Lei da Relação; Lei da Reciprocidade; Lei da
Forma; Lei da Harmonia; Lei da Evolução Cósmica; Lei da Evolução Superior, Lei
da Integração Universal; ao final, o Bem
como unidade transcendental superior à ordem cósmica, a Lei da Unidade
Transcendental como Lei das Leis (unidade das multiplicidades), o Bem superior às ideias, ao ser e à
essência em dignidade e poder; o espírito universal ciente de si como eu penso, eu existo e fundamento da
totalização da relação sujeito-objeto na síntese de realidade operada pela
apercepção transcendental. E quando Platão pronuncia esse mistério pitagórico,
através de Sócrates, ao final do livro VI de A República, ele mesmo exclama através de Glauco, a fim de nos
provocar o mesmo afeto (páthos): “ – Valha-nos, Apolo! Que transcendência tão
divinal!”. (Platão, A República,
509a).
O
saber do filósofo, no pitagorismo, é a matemática, visto que assim se constitui
uma ciência verdadeiramente epistêmica que se afaste da doxa (opinião) por fundar-se em juízos apodíticos, isto é,
universalmente válidos. A importância do universal é tamanha na tradição
filosófica que se mostra em toda sua caracterização apodítica na relação lógica
entre os juízos universais e os particulares no quadrado aristotélico das
oposições: os particulares são subalternos dos universais; de tal maneira que
poderíamos nos perguntar se isso não seria uma evidência do privilégio do uno
sobre o múltiplo; não seria ainda a particularidade do particular dada pela
unidade, de tal modo que o uno está em cada particular, particularizando casos
especiais e amarrando-os em gêneros, de tal modo que a multiplicidade infinita
seja possível pela ação infinita do uno que se limita ilimitadamente? A
especificação ou multiplicação ocorre ao infinito como diversificação e
individuação no devir da formação dos entes na matéria, ao passo que o Uno é o
gênero supremo como princípio do ser, da forma e do limite. A singularidade,
que não é um caso particular subsumido no universal, não escapa ao uno, pois o
singular é simplesmente único e, complexamente, na relação com outro singular,
diverso, múltiplo. O real é uno-múltiplo; o uno é o múltiplo, este é o uno. Mário
Ferreira dos Santos nos fala da diferença entre uma matemática transcendente e
uma imanente; esta seria aquela que aprendemos no segundo grau, abstrações e
cálculos meramente quantitativos; aquela seria um tipo de saber esotérico só
para iniciados de alto grau, inclusive na Academia platônica, a qual haveria
extraído do pitagorismo a inscrição: “aqui não entra quem não souber
geometria”. Mas isso incorre na questão do número como princípio da realidade
“transcendente” ou “imanente”, que determina uma visão dualista ou monista do
pitagorismo; a afirmação do dualismo metafísico está intimamente ligada à
vinculação do pitagorismo com o platonismo no intuito de mostrar que aquele
está todo presente neste. A nosso ver, a uno-multiplicidade do real se
estrutura de tal modo que o real é transcendente-imanente, dualista-monista,
mas a linguagem predicativa só enuncia o que é (o mesmo, a forma) na diferença
(acidente, matéria), o uno no múltiplo, pois o querer manifestar o múltiplo em
sua unidade, a diferença em sua identidade, assim o exige para a
inteligibilidade da substância (algo de determinado, matéria formada, intuição
sensível conceituada em conformidade a categorias como formas lógicas do juízo,
possibilidades de aparecimento do ente e de apreensão de seu ser na estrutura
da predicação dada em sua universalidade pelo poder a priori da Razão e de suas faculdades transcendentais).
A
diferença entre um monismo e um pluralismo comumente calcada em uma divisão do
pensamento antigo na forma de um confronto entre a escola jônica e a eleática,
geralmente resumido em uma oposição entre Parmênides e Heráclito, não é capaz
de vislumbrar a estrutura constitutiva do real no todo de sua uno-multiplicidade;
talvez somente a experiência “mística” do impronunciável e incomunicável possa
fazê-lo. Heráclito nos fala do Hén panta,
tudo um ou uno todo e sua articulação de contrários reciprocamente excludentes
e harmonicamente integrados na reciprocidade conflituosa que configura o
movimento do real, o devir do Kosmos
(fogo eternamente vivo que acende e apaga conforme medidas, fragmento 30).
Parmênides nos fala da Verdade bem redonda que abarca a única via, a do ser, e
também a via intransitável, a do não-ser. Com que razão Platão realiza o tal
parricídio em seu Sofista, afirmando
que sob certos aspectos o ser não é e o não-ser é? Com que razão se costuma
distinguir Heráclito de Parmênides, um como pensador do devir, outro como
pensador do ser? Devir não significa vir-a-ser, isto é, o movimento de
tornar-se do próprio ser? O ser não se entorna na alteração de si contornando-se
indefinidamente no entorno de seus limites, tonando-se si mesmo, definindo-se
ilimitadamente? O devir é o vir-a-ser do próprio ser; a alteração é a
transformação da forma em matéria e desta em forma, movimento que repousa na
unidade do todo, permanência que se plenifica na diversidade do múltiplo,
multiplicidade do uno, unidade do múltiplo; mesmidade do outro, alteridade do
mesmo. E isso de modo que o devir é sempre para o ser e no ser, e o ser vem a si
mesmo no devir e para sempre vir-a-ser; o “não-ser” completamente excluído do
todo (em-si/para-si do real) como via intransitável pelo pensamento, embora
abarcado pela verdade, que é a possibilidade da mesmidade de pensar e ser e da
impossibilidade de não-ser e não-pensar; Parmênides ressuscitado e Platão
absolvido do parricídio.
Todavia,
e Mário Ferreira junto com Giovanni Reale afirma: o Um não é um número. Este
surge da combinação harmônica entre o ilimitado e o limitado, infinito e
finito, par e ímpar, díade e unidade; o Uno é tudo isso: ímpar-par,
ilimitado-limitado, infinito-finito, uno-múltiplo, transcendente-imanente,
movimento-repouso, ser-devir, Apolo-Dioniso, forma-matéria, mas nunca “não-ser”
(o fragmento 60 de Heráclito diz ser a rota para cima e para baixo uma e a
mesma, o fragmento 67 diz que o deus é dia noite, inverno verão, guerra paz,
saciedade fome; ou seja, o Uno não cai nas regras lógicas da predicação,
portanto não cai nas aporias insolúveis quanto ao ser poder não ser, e quanto
ao não-ser poder ser). E isso, é claro, sempre de acordo com a proporção, o lógos, a razão, de modo que a
uno-multiplicidade do real se estruture em uma articulação constituída por
princípios de determinação-indeterminação, os quais desencadeiam a série
numérica infinita através das delimitações que se expandem ilimitadamente: o um
é somado ao um, gera-se o par, o um é somado ao dois, gera-se o ímpar, com mais
um o um se multiplica ao infinito, limitando-se na paridade e ilimitando-se na imparidade,
visto que ele é ímpar-par. A série da uno-multiplicidade do real se exprime nos
números através de um acréscimo do um a si mesmo e a todos os outros números
que disso decorrem; o princípio de tal movimento é o um mesmo sempre presente
porque vigente em todos os números como incessante somatório de um mais um mais
um mais um... (1 + 1 = 2 + 1 = 3 + 1 = 4...) O um, portanto, é a própria
uno-multiplicidade do real em sua estrutura ímpar-par, limitada-ilimitada,
figurada no conjunto dos números naturais. Não
de mim, mas do lógos tendo ouvido é sábio homologar tudo é um.[6]
Breve
digressão conclusiva: Contudo não podemos discursar assim
livremente em prol da uno-multiplicidade do real sem ao menos considerarmos o
importante rumo que a tradição ocidental traçou a partir do problema da teoria
das formas em Platão[7].
Se Mario Ferreira indica a presença dos fundamentos da teoria das formas no
pitagorismo, pensando os números como entes ou substâncias inteligíveis que
constituem o real e asseguram a unidade na multiplicidade, portanto a
diversidade inteligível, Aristóteles pensa, por sua vez, que Platão tenha interposto
os entes matemáticos entre as formas e as coisas sensíveis. Com efeito, Platão
empreende a segunda navegação no Fédon
com o intuito de abandonar a indagação pela physis
e pelo princípio físico do que nasce e perece, a fim de acessar as puras
realidades existentes em si e por si mesmas, as puras formas inteligíveis como
condição de possibilidade das coisas sensíveis, âmbito em que movimento e
repouso, grande e pequeno, unidade e diversidade, semelhança e dessemelhança
aparecem, de certo modo, confundidos em meio ao fenômeno em si mesmo
uno-múltiplo do real; daí as argumentações pela imortalidade da alma, pois esta
necessita de uma fundamentação de seu poder de acessar as puras formas, como
entes que não nascem e nem perecem, imutáveis, e que são a causa e essência de
tudo que nasce e perece. Se as formas são imutáveis, então são unas em si mesmas.
Mas essa teoria incorre nas aporias discutidas no Parmênides, a saber: se o uno for predicável, então ele é múltiplo,
ou seja, ele não é, visto que a predicação exige a multiplicidade; o problema
todo reside em que múltiplos entes sensíveis participam de formas contrárias,
por exemplo, o semelhante e o dessemelhante, posto que são uno-múltiplos, mas
as formas da semelhança e da dessemelhança em si mesmas não podem alterar-se,
pois são unas somente, e não múltiplas. Coloca-se o problema da relação das
formas com as coisas de que são formas e da divisibilidade das próprias formas:
a forma seria uma, portanto estaria inteira em cada caso, e estando inteira em
cada caso particular ela se dividiria e separar-se-ia de si mesma; ainda se
poderia perguntar em que medida a forma sendo um ente hipostasiado, uma
substância, as coisas sensíveis fariam parte de uma parte da forma, ou da forma
inteira? No primeiro caso a forma é divisível e múltipla, no segundo, a forma é
toda na coisa sensível, portanto é a própria coisa, ambas as hipóteses
inaceitáveis para o platonismo.
O
ato de hipostasiar as formas gera o problema de ter de considerar as formas
como sendo da mesma natureza das coisas, o inteligível é sensível, o uno é
múltiplo, como propusemos à revelia do platonismo e da oposição tradicional
monismo e dualismo, imobilismo (eleatas/Parmênides) e pluralismo
(jônios/Heráclito). Se considerarmos as formas como regras lógicas que
possibilitam a predicação, sem hipostasiá-las, ainda resta perguntar como uma
regra se relaciona com suas aplicações ou determinações que dela emanam;
haveria uma segunda regra para relacionar a primeira com suas aplicações em
casos, mas isso nos levaria ao infinito na busca pela regra da regra, pela
forma da forma na garantia da participação das coisas sensíveis nas formas
inteligíveis como separadas das coisas de que são formas. Aqui toma espaço o
argumento do terceiro homem, que mostra o absurdo de complexidade aporética do
regresso ao infinito, em que cai a necessidade de uma forma que garanta a relação
da participação da forma com a coisa que participa da forma.
Aristóteles
procura resolver essas questões considerando que o universal não é uma
substância, portanto as ideias ou formas platônicas não são substâncias e nem
são separadas das coisas sensíveis. Em primeiro lugar, o estagirita não se
satisfaz com as explicações das teorias platônicas da imitação e da
participação das formas. Segundo ele, os platônicos dizem que há o Um, e há o
Grande e o Pequeno como dualidades básicas: isso que no pitagorismo seria o
ilimitado, no platonismo é a díade de grande e pequeno como oposição à unidade
em si mesma, o Uno; a díade corresponde à matéria de que se predicam as formas,
em âmbito sensível, e o Um em âmbito inteligível; o Uno é a forma das formas. A
interpretação de Aristóteles sobre o pitagorismo é imanentista: os números são
o real como physis; a díade é uma
natureza oposta ao Um, a dualidade sendo posta pelo próprio Um como princípio
da limitação do ilimitado, assim como a imagem do demiurgo que imprime as
formas na matéria. Mas o grande problema com Platão, herança histórica do
pensamento ocidental, está em que as formas não são separadas e independentes
da matéria, segundo Aristóteles, e sim ambas juntas constituem as substâncias
sensíveis. O ente substancial como produto determinado da composição de
ilimitado (matéria) e determinação (limitação pela forma individuada na e pela
matéria) ainda nos parece uma ideia semelhante ao pensamento pitagórico
presente nos fragmentos de Filolau e Arquitas, tais quais aparecem na tradução
de Mário Ferreira. De todo modo, a questão da uno-multiplicidade do real
perpassa toda essa discussão que influenciará a história do pensamento
ocidental; tentamos fugir dessa influência falando de maneira “livre”, mas esta
digressão conclusiva se fez necessária como reconhecimento da importância
magnânima de Platão e Aristóteles no conjunto das teorias sobre a possibilidade
de predicação (ser como cópula entre o sujeito e o predicado da frase), sobre
as regras da lógica e do pensamento, sobre a divisão do ser em gêneros e
espécies, sobre a possibilidade de conhecimento como possibilidade do próprio
discurso ou da linguagem e de nossa acessibilidade ao real, inaugurando a
filosofia como pensamento sistemático e metafisico que se movimenta no cerne do
conceito. Infelizmente nossa inútil ânsia de liberdade de pensar a
uno-multiplicidade como physis, em
que ser e devir não se opõem necessariamente, nos impediu de reservar maior
espaço, neste trabalho, para esses grandes mestres do pensar.
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uno-multiplicidade da realidade a partir da influência pitagórica na história
do pensamento ocidental
[1] Wittgenstein, Tractatus (6.522).
[2] Santos: 2000, p. 89.
[3] Heráclito, fragmento 93 In Os Pré-Socráticos. São Paulo: Abril
Cultural, 1996 (p.97).
[4] Wittgenstein. Tractatus, 7.
[5] Heráclito, fragmento 41. In Os Pré-Socráticos. São Paulo: Abril
Cultural, 1996 (p.92).
[6] Os Pré-Socráticos. São Paulo: Abril Cultural, 1996, frag. 50 p. 93.
[7] E aqui seria cabível um estudo
sobre o problema da uno-multiplicidade, da possibilidade da predicação, do
problema do ser e do não-ser a partir das categorias de repouso e movimento,
mesmo e outro e do modo como Platão tece as possíveis relações
lógica-ontológicas entre todos esses termos, em confrontação aos pensadores
originários ou pré-socráticos, em seu diálogo Sofista, visto que ali se procura exatamente a diferença que pode
determinar o ser de cada um, o do sofista e o do filósofo (o sábio como amante
do saber, e não como caçador de jovens ricos e mercador de sofismas e
tagarelices), e visto que o problema como ali é colocado instaura a tradição de
pensamento que se convencionou denominar metafísica,
embora este termo tenha sido somente cunhado por Andrônico de Rodes em
referência aos escritos de Aristóteles que receberam este nome. Todavia, cabe
também se questionar em que medida essa mesma tradição filosófica não se
mostrou mero jogo de tagarelices e flatus
vocis, ao longo dos séculos, e junto ao que Whitehead afirma, a saber: “a história
da Filosofia não passa de uma sucessão de notas de rodapé da obra de Platão”.
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