quinta-feira, 27 de junho de 2013

Hegel e Marx

Hegel e Marx - Introdução

            Hegel viveu entre 1770 e 1831 e teve seu pensamento marcado pelos acontecimentos da Revolução Francesa. O progressivo desaparecimento das formas de organização da sociedade feudal e o estabelecimento das formas burguesas de sociedade iam mostrando-lhe que havia um processo em marcha na história e que isso constituía o devir do Espírito ou da Razão que, após efetivar todas as suas manifestações, desintegra as formas anteriores e reintegra-se a si mesmo em uma nova forma mais completa de aparecimento das Eras Históricas.

Esse devir histórico do Espírito é sua própria vida, cujo pulsar marcha por suas manifestações e determinações em ritmo dialético, assim desintegrando figuras do mundo passado e reconfigurando-se em novas formas de seu existir; o movimento dialético e vívido do Espírito a transfigurar-se na História não tem repouso, sua permanência é evanescer e subsistir como substância que faz a mediação de si mesma na alteridade e na objetividade e se consuma na consciência-de-si da subjetividade absoluta; isso constitui a identidade entre a Razão e realidade e leva ao extremo a crença iluminista no poder da Razão de expressar e realizar o ideal da liberdade humana.

A síntese dialética do Espírito em sua forma absoluta consuma a totalidade de suas possibilidades manifestativas de tal modo que toda dicotomia entre razão e mundo natural, cultura e natureza, ideal e real, espírito e matéria, sujeito e objeto se vê caduca no reconhecimento de si da Razão como o Real enquanto tal. A ciência, inclusive, realiza-se plenamente quando se torna ciência de si do Espírito, de maneira que a Razão se torna senhora de todo ser e não reconhece como real qualquer oposição a si, qualquer negação de seu ser.

A dialética nada mais é que a lógica da ideia que se consolida na história. A história do mundo é a descrição do fenômeno ou do aparecimento das diversas manifestações do Espírito no tempo, tal como a natureza é o desenvolvimento da ideia no espaço. A antítese dialética entre espírito (consciência subjetiva) e natureza (objetividade pura e simples) alcança sua superação (a síntese dialética entre os contrários, a consciência de si do espírito) na subjetividade absoluta da razão que se percebe o princípio de sua exteriorização na objetividade enquanto tal e pode, assim, reconhecer-se como realidade concreta e universal. Isso assegura o domínio sapiencial do homem sobre a totalidade dos entes na medida em que esta se vê contida no conceito, forma de expressão da ciência em geral e levada ao extremo pela filosofia (de Hegel em especial, que é a expressão clara da ciência de si do espírito como razão universal e realidade única).

 No entanto, ainda se costuma ver em Hegel e Marx uma oposição de tipo “idealismo” e “materialismo”, porque os grandes intelectos do ocidente, embora tenham passado por revoluções de pensamento filosófico e científico, não admitem uma conexão e mesmo unidade de ser entre “matéria” e “espírito”. Por isso, não aceitam que a matéria dita “inorgânica” tenha vida, que a natureza seja animada, porque querem usufruir dos entes como disponíveis ao consumo, como produtos descartáveis utilizáveis e renováveis para novo consumo, sem perceber que sua ação sobre a natureza esgota as possibilidades desta, entorpecendo o meio ambiente e a conduta humana sempre ávida por mais consumismo e busca libidinal por prazer à custa da vitalidade da natureza mortificada pela ação do Espírito que, ao objetivar-se, choca-se com a natureza como se lhe fosse contraposta e não consegue harmonizar-se em uma síntese que verdadeiramente totalize em uma unidade integrada as múltiplas determinações das relações entre o homem e a totalidade dos entes naturais ou não, bem como não se harmonizam as contradições sociais e culturais cujas soluções são buscadas em teorias antropológicas, políticas, sociológicas, históricas que de antemão já partem do pressuposto de que falar do homem cientificamente é fazer “ciência humana”, que isso nada tem que ver com “ciência da natureza” e que, conforme Nietzsche, Deus já morreu e não encontra seu lugar na Terra, a qual segue sendo devastada, como diz Heidegger, pela técnica ocidental globalizada e pela universalização do modo ocidental de experimentar, na linguagem, o advento do ser, que vige em esquecimento.

Todavia, essas são digressões ainda pouco claras, tornemos a Hegel.  
      
A negação da negatividade instaura a positividade absoluta da Razão e torna o Espírito consciente de si como única realidade efetiva do devir histórico das diversas culturas humanas ao longo das eras. Veremos que a inteira liberdade da humanidade e a absoluta consciência de si do Espírito humano se refletirão em Marx no ideal do Comunismo, que instalaria a ausência da negatividade dos conflitos e desigualdades de classe; a nosso ver, isso não deixa de ser inspiração dos lemas da Revolução Francesa: Igualdade, Liberdade e Fraternidade; e da crença irrestrita na razão humana, procedente do iluminismo.

Em uma época de globalização proporcionada pelas tecnologias de massa, pelas mídias comunicativas, pela superficialidade de ser muito culto ao ser um poliglota que viaja pelo mundo e usufrui do consumismo turístico e dos grandes eventos mundiais nos âmbitos da arte, da moda, dos esportes, da música, do cinema, das ciências acadêmicas em geral e dos programas universitários de intercâmbio cultural, do projeto de ser da existência como trabalho de cunho empresarial, tudo isso talvez somente oculte a loucura do consumismo em marcha conjunta ao ideal não inteiramente efetivado de uma humanidade livre, igual e fraterna, contanto que a divisão do trabalho e das riquezas produzidas se faça de cada um conforme seu poder a cada um conforme seu poder, visto que o ser é, para todo ente, a vida, e esta é a vontade de poder que, como diz Heidegger, apenas oculta o caráter de vontade de vontade da ausência de sentido na supremacia definitiva do completo niilismo procedente do modo como o ideal da humanidade se estabeleceu com a globalização do modo de pensar e agir do ocidente europeu.

No entanto, após mais uma digressão, tornemos a Hegel e ao tema do ritmo dialético do devir do Espírito. Esse ritmo, esse pulsar vital do Espírito, obedece a três batidas que se harmonizam na efetivação das novas formas do Espírito no tempo-espaço do mundo histórico-objetivo da cultura humana até atingir sua consumação na consciência de si absoluta, quando a Razão se percebe ela mesma a realidade que se fazia ao longo da história universal.  
Essas três batidas são a tese, a antítese e a síntese; para melhor compreendermos esses conceitos, podemos dizer que a tese é a posição da ideia, a mera consciência subjetiva que, ao exteriorizar-se, choca-se com a alteridade enquanto tal e, na dialética da intersubjetividade, choca-se com outra consciência que se lhe contrapõe, assim gerando uma contradição a partir da qual a ideia pode realizar-se junto com a objetivação da consciência subjetiva que se aliena na objetividade pura e simples da natureza, o que possibilita um devir da experiência e da ciência da natureza por parte do espírito.

Do mesmo modo, a alienação da consciência subjetiva em face de outra consciência pode gerar a experiência do devir dos conflitos sociais de classe que movem as transformações do espírito nas diversas sociedades e culturas, assim possibilitando uma ciência da experiência da consciência, a fenomenologia do espírito, propriamente dita, que tem na dialética entre senhor e escravo o motor da história, isto é, do processo da realidade como vir a ser da consciência até o saber de si mesma, a figura última do espírito; essa figura é designada absoluto, pois ali o espírito integra a totalidade de suas manifestações conservando e suprimindo as contradições na unidade de seu ser real, o saber de si mesma da Razão Universal.

Essa dialética entre uma consciência escrava e uma livre (senhor) é o substrato da teoria da luta de classes de Marx, cuja perspectiva já não verá mais a história como devir da consciência espiritual pura e simplesmente, mas como processo histórico-dialético do desenvolvimento das relações de produção material e de propriedade dos meios de produção que, sendo alteradas, revolucionam as posições sociais e estabelecem novas formas de organização dessas relações, de modo que as estruturas de pensamento espiritual (filosofia, religião, direito, moral etc.) se modifiquem e expressem a concordância ideológica que mantém as novas formas organizacionais da sociedade.

Para Hegel, o escravo ao tomar consciência de que detém em suas mãos os meios de produção e o conhecimento para operá-los, embora o senhor seja o proprietário legal dos meios, acaba por adquirir a consciência livre, enquanto o senhor, afastado do trabalho e alienado da realidade do trabalho no ócio, alienado do contato com a natureza e do processo de transformação da matéria bruta em artefato produzido para consumo humano, torna-se dependente do escravo; isso ocasiona uma revolução das posições, pois o dominado assumiu consciência e condição de liberdade, ao passo que o dominante se tornou dependente e adquiriu consciência de escravo.
A nosso ver, Hegel já compreende os processos materiais junto com o devir do espírito em sua dialética, Marx conservará esta lógica dialética do processo histórico da sociedade e aprofundará as análises sobre a estrutura das relações sociais de produção e de propriedade, somente a partir das quais uma consciência pode ser gerada enquanto consciência de classe que detém ou não os meios de produção e, assim, pode controlar ou lutar por controlar o aparato jurídico e institucional em geral pelo qual possa propagandear uma espiritualidade conservadora ou reformadora, reacionária ou revolucionária quanto às relações de propriedade vigentes, assim mantendo a classe dominada em estado de alienação espiritual e material concomitantemente, ou evocando sua consciência para a luta armada, conforme a posição social que ocupe.

Mas a tomada de consciência dessa alienação, a consciência de classe do proletariado contraposta à do burguês proprietário é antes uma tomada de consciência da alienação espiritual em meio à situação material também alienada; o que queremos dizer é que as transformações materiais e espirituais caminham lado a lado, sem uma necessária oposição radical entre “espírito” e “matéria”; por isso, percebemos o pensamento de Marx como um complemento e uma continuação do pensamento de Hegel, ainda que radical, pois a supressão da luta de classes culminaria no comunismo, a figuração do absoluto para Marx, a síntese de todas as contradições possíveis em uma totalidade integrada de todas as determinações da história. Pensamos que essas reflexões nos ajudem a compreender um pouco os caminhos pelos quais a humanidade ruma atualmente na esteira da globalização. No entanto, voltemos à tese, antítese e síntese dialéticas.
A pura posição gera uma anteposição. A antítese, portanto, constitui a contraposição da ideia, assim como o objeto se contrapõe ao sujeito que se põe na objetividade pura e simples, alienando-se em uma realidade “não-espiritual”, a natureza, ou em uma realidade não idêntica à consciência, o outro. No entanto, a realidade mesma só se completa na síntese que engloba conservando e suprimindo a contradição antitética em uma totalidade de determinações mais elevada que a precedente.

A síntese é a composição de múltiplas determinações engendrada no movimento da posição e da anteposição, isto é, a síntese conjuga tese e antítese, consciência subjetiva e alienação na objetividade, ideia e coisa, espírito e matéria, cultura e natureza, classe dominante e classe dominada, senhor e escravo, e tudo mais que se contraponha na composição estrutural da totalidade integrada em seus diversos fatores conflitantes. A consciência da totalidade é a subjetividade absoluta, a Razão, que se reconhece a si mesma como princípio do movimento, como primeira posição, agora em nível mais elevado após o movimento de composição da totalidade do real.

Isso é o saber absoluto, o saber que sabe a si mesmo e se expressa em conceito. A máxima expressão por conceitos é a filosofia, pois só se expressa por conceitos o que sabe a si mesmo como objetividade primeira de objetos, a subjetividade em plena consciência de si como capacidade transcendental representadora de objetos e legisladora da realidade, esta seja ético-moral, estética ou natural (Kant), na medida em que a Razão atinge sua plena luz e brilho absoluto quando Hegel anuncia que “o real é racional e o racional é real”. Isto significa que a consciência de si do espírito absoluto já amanheceu, e o Sol supremo da Razão Universal agora brilha em todo seu esplendor.  

A concepção de Estado de Hegel

Nesse movimento histórico-dialético do espírito, Hegel se refere ao espírito objetivo como exteriorização da vontade coletiva por meio da moral, do direito e da política. O mundo da cultura é o âmbito da objetivação do espírito, e o Estado constitui a mais elevada síntese desse processo. Compreendermos a noção de Estado de Hegel nos ajudará na compreensão da noção comunista de Marx, que se consolida na supressão do Estado. E isso porque se, para Hegel, o Estado sintetiza os conflitos da sociedade e os harmoniza em uma estrutura totalizante unificadora, para Marx, isso significa que o Estado é um aparelho ideológico coercitivo cuja função é entravar a revolução e manter o poder dominante. Desse modo, Marx poderá propor uma revolução socialista e uma tomada de poder da classe proletária com a finalidade de extinguir a propriedade privada dos meios de produção, que gera o capital, assim possibilitando a supressão do Estado na sociedade livre, igual e fraterna do Comunismo.

Hegel critica as teorias contratualistas por isolarem os indivíduos no estado de natureza a partir do qual formam a sociedade civil e o Estado, artificialmente, através de um pacto que garante a liberdade individual e a propriedade privada. Ao contrário, Hegel pensa que o Estado é anterior e constitui já de antemão o indivíduo humano inserido na sociedade, sem que se o possa pensar em um hipotético estado de natureza.
Sempre pensando dialeticamente, Hegel concebe que o Estado seja a síntese das contradições coletivas, assim compondo a unidade da totalidade dos interesses antepostos (contrapostos ou antitéticos) entre os indivíduos, famílias, grupos e a sociedade civil inteira. Para Hegel, a família integra (compõe ou sintetiza) as contradições individuais; a sociedade civil integra as famílias e se interpõe entre estas e o Estado. Este assume sua melhor forma na monarquia constitucional, que não é governo de um déspota, visto que os poderes do Estado são divididos em órgãos que os exercem. A sociedade civil, por sua vez, integra as contradições econômicas, os antagonismos de classes ricas e pobres, de tal modo que a soberania do Estado deve prevalecer para a garantia do bem coletivo expresso nos interesses públicos e universais da nação, da pátria etc.

Em momento posterior, a influência de Hegel no pensamento político gerou uma divisão entre esquerda e direita hegelianas. Esta se formou por uma corrente conservadora que exaltava o Estado e o luteranismo alemães. A esquerda hegeliana, todavia, desenvolveu críticas radicais a Hegel; uma delas é o marxismo que veremos adiante, o qual procurará suprimir o Estado no Comunismo, estágio da história em que não haveria luta de classes e nem propriedade privada dos meios de produção e das riquezas socialmente produzidas, visto que o Estado legitima o poder de uma classe dominante que detém a propriedade dos meios de produção material e de difusão de sua ideologia espiritual. Essa ideologia penetra nas instituições de ensino, nas instituições jurídicas, na mídia, nas doutrinas religiosas e filosóficas e legitima, no plano espiritual, as relações de propriedade vigentes impostas sobre a classe dominada. Esta, então, aliena-se espiritualmente na aceitação da ideologia reinante a sustentar as condições objetivas de trabalho que alienam materialmente o trabalhador do produto de seu próprio labor.

Marx

O socialismo científico de Karl Marx e Friedrich Engels surge no seio das contradições do século XIX; surge em meio ao contexto subsequente à Revolução Francesa, cujos reflexos ainda se manifestavam como consequências. As ideias liberais e burguesas de igualdade e liberdade contradiziam as condições miseráveis da classe trabalhadora e as expansões imperialistas dos europeus sobre os povos africanos e asiáticos, aos quais o conceito de democracia não se aplicava por ser somente adequado aos povos ditos avançados, como Stuart Mill mesmo afirmava, não muito diferentemente do que Hegel também julgava a respeito dos povos não germânicos e não europeus em geral. 

Devido à insuficiente tentativa de um projeto reformador da sociedade por parte dos socialistas utópicos, Marx e Engels se esforçam por elaborar seu socialismo científico; por motivos de abreviação, referir-nos-emos a este como “marxismo” e a seu principal expoente, Karl Marx.

Além das influências recebidas dos economistas ingleses Adam Smith e David Ricardo, o marxismo também se baseou na dialética de Hegel para elaborar sua sustentação filosófica, o materialismo dialético, cuja aplicação na história engendra uma ciência do devir histórico das transformações sociais, de seus modos de produção e de suas relações de propriedade; o materialismo dialético aplicado à história culmina na ciência do materialismo histórico.

Ludwig Feuerbach, um hegeliano de esquerda, também contribuiu para a elaboração do conceito de alienação que direciona o pensamento ao materialismo, visto que toda espiritualidade reflete a situação material vigente na sociedade; segundo Feuerbach, a religião e noções como Deus constituem uma alienação da liberdade humana para agir; sua obra mais conhecida se chama a essência do cristianismo; Marx também fez parte da esquerda hegeliana e não é à toa que tenha dito certa vez que “a religião é o ópio do povo”. Trata-se, portanto, de suprimir a religião do Espírito e da Razão de Hegel, que vê no ideal burguês da Revolução Francesa o final da história e do espírito, visto que universaliza a liberdade pela igualdade, para liberar o homem como agente social transformador de sua realidade através da revolução socialista dos modos de produção e das relações de propriedade capitalistas. Pois, segundo Marx, a Revolução Francesa somente consolidaria a tomada de poder por parte dos burgueses capitalistas em relação ao clero e aristocracia feudais e estabeleceria a liberdade de negócios e a igualdade de condições para burgueses investirem no capital, largando a classe proletária à miséria das condições de trabalho e à alienação do produto de seu trabalho na mais-valia que será re-investida para gerar lucros ao patrão.  

Marx criticará Feuerbach por manter-se atrelado a uma visão mecanicista do materialismo, herdada do século XVIII, e acrescentará sua visão do movimento do materialismo no desenvolvimento histórico-dialético da luta de classes e das relações de propriedade que determinam a divisão do trabalho e a exploração humana através da dominação, esta exercida pelos detentores da propriedade dos meios de produção mediante o aparato ideológico e coercitivo do Estado. Marx pretende que este seja suprimido na supressão da luta de classes realizada no Comunismo, mas para isso, conforme a lei dialética do materialismo histórico, o Estado deve alcançar sua forma repressora máxima no estabelecimento da ditadura do proletariado, a fim de extinguir a propriedade privada dos meios de produção e desaparecer por completo na efetivação daqueles ideais que a Revolução Francesa não foi capaz de concretizar: a igualdade, a liberdade e a fraternidade entre os homens. Como se pode ver, parece que Marx pretendia materializar aquilo que Hegel vislumbrou como mera consciência de si do Espírito na consumação da Razão Universal e da liberdade humana, pois a suprema liberdade seria a supressão da dialética entre senhor e escravo, a supressão da luta de classes em todas as relações intersubjetivas entre indivíduos, grupos, nações, culturas etc.

É importante entender que, contra Hegel, Marx não admite a ideia como realidade que se objetiva e se manifesta até alcançar sua máxima realização na síntese do conceito, cuja expressão superior é a filosofia como ciência do espírito que sabe a si mesmo, isto é, da consciência de si do espírito. Segundo Marx, a filosofia é uma propaganda ideológica como a religião, esta sendo outra forma de expressão do espírito que ruma à ciência absoluta de si mesmo, a filosofia da fenomenologia do espírito conforme Hegel.  Ao contrário, o materialismo de Marx vê a consciência como um produto das condições materiais objetivas, estas sendo estruturadas pelas relações de produção e de propriedade dos meios de produção; qualquer subjetividade será configurada pelas determinações estruturais destas condições vigentes na sociedade.

O materialismo de Marx não é mecanicista, não constata o mundo material puro e simples e não admite o determinismo que daí deriva. O materialismo de Marx é dialético, admite o poder de ação humana sobre a matéria, transformando-a através do trabalho e do desenvolvimento dos meios de produção e das relações de propriedade desses meios na sociedade. Assim, em âmbito social e histórico, pode-se falar de uma revolução qualitativa, e não só de uma mera evolução quantitativa.

            É assim que se pode falar de três leis da dialética: a lei da passagem da quantidade à qualidade; a lei da interpenetração dos contrários; e a lei da negação da negação. Essas três leis constituem nova maneira de interpretar a tese, antítese e a síntese, aplicando a dialética ao materialismo histórico. Assim, pode-se compreender o movimento das contradições sociais, dos antagonismos de classe estruturados nas relações desiguais de propriedade e na exploração do trabalho.

            O materialismo histórico-dialético, portanto, expressa o movimento de revolução das condições materiais de produção da sociedade amparadas em relações de propriedade e de exploração do trabalho legitimadas por um aparato institucional de difusão de ideologias conformadas à situação vigente. O materialismo histórico-dialético é a descrição das leis da passagem de um modo de produção a outro pela supressão de suas contradições e pela geração e conservação de novas contradições sociais oriundas das transformações ocorridas nas relações de propriedade e nos próprios modos de produção.

A negação da negatividade das contradições sociais se dá revolucionariamente no plano material através de ações políticas de luta entre as classes divergentes, e é também um embate de consciência no plano ideológico que visa à tomada do poder e à alteração das condições vigentes, caso a classe dominada atinja o poder, ou a manutenção dessas condições caso a classe dominante permaneça no controle do aparato estatal de propaganda e coerção social. No interior do capitalismo, essas contradições sociais se dão entre as classes de burgueses e proletários; ao liberalismo econômico da economia capitalista, o proletário opõe a ideologia do Estado socialista, ditatorial e revolucionário que planifica a economia até que não seja mais necessária sua intervenção. A supressão da contradição entre burguesia e proletariado culminará, portanto, na ausência da luta de classes e na eliminação gradativa das desigualdades oriundas das relações de propriedade e da exploração capitalista do trabalho; efetiva-se, assim, o Comunismo proposto por Marx, utopia que não deixa de ser inspirada nos ideais não plenamente realizados da Revolução Francesa.

            O marxismo vê nas relações de produção o fundamental de toda sociedade. Essas relações se dão nas interações entre o homem, os meios naturais e os meios fabricados artificialmente disponíveis como forças produtivas.  A alteração dessas forças produtivas gera uma transformação nas relações entre os homens, assim gerando uma diversificação de modos de produção ao longo da história. Os modos de produção constituem as maneiras pelas quais são organizadas as forças produtivas em relações de produção historicamente determinadas. Importa-nos saber que o terceiro modo de produção descrito por Marx, o escravista, é aquele no qual surge a propriedade privada dos meios de produção e inicia-se a exploração do homem pelo homem. Aqui surge propriamente a diferença entre senhor e escravo e a divisão do trabalho em intelectual e manual; dessa forma, o homem livre é aquele que goza do ócio e se dedica a atividades intelectuais, enquanto o trabalho manual é desprezado e considerado servil.

            As contradições desse modo de produção escravista se resolvem nas lutas entre as classes bárbaras e as classes dominantes do Império Romano. A ruína desta sociedade exige novas relações de produção que culminam no modo de produção feudal. O servo trabalha para si e para o senhor; este lhe cobra impostos pelo uso dos meios de produção e das terras do senhor. A contradição entre essas classes gera uma nova, a burguesia que vive da iniciativa privada e comercial e preza pelas liberdades comerciais das cidades em formação. Assim, a burguesia será responsável pelo surgimento de novas formas de forças produtivas centradas na atividade mercantil e comercial; isso exigirá novas relações de produção e formará o modo de produção capitalista.

            A luta de classes agora assume a forma da contradição entre os burgueses detentores do capital e os proletários que vendem sua força de trabalho. O capitalismo se baseia na produção de mercadorias; estas assumem não o valor de uso, mas sim o valor de troca, de venda no mercado. O que acontece é que o processo de produção de mercadorias se dá através da venda, por parte do trabalhador, da única mercadoria que possui, a sua capacidade de trabalhar.  O valor da força de trabalho se limita à mera necessidade de subsistência do trabalhador: alimentação, vestimenta, sustentação de lar e família. Atualmente os sistemas de crédito dão a ilusão de que qualquer pessoa é capaz de consumir as mercadorias produzidas para entretenimento em poucos momentos ociosos de lazer. O trabalhador assalariado não é um escarvo porque assina um contrato supostamente livre entre partes. No entanto, o contrato não é verdadeiramente livre, visto que o trabalhador é explorado pelo que Marx denomina mais-valia.

            A mais-valia é gerada porque o trabalhador, sendo contratado por um período de tempo com a finalidade de produzir o equivalente a esse período, está disponível o tempo inteiro e produz mais que o valor calculado previsto na contratação. Esse trabalho excedente é reutilizado pelo patrão no processo de investimento no próprio processo pelo qual outra mais-valia será gerada e assim incessantemente durante a vigência da economia capitalista. O trabalhador é, então, alienado do produto excedente de seu trabalho, que é reembolsado pelo patrão no investimento de seu capital; isso gera a “constante reprodução do operário como operário e do capitalista como capitalista”; eis a manutenção do modo de produção capitalista, que se vale inclusive de bonificações do tipo “participação nos lucros da empresa”; uma participação de porcentagem ínfima que é suficiente para aumentar a capacidade de consumo do trabalhador, mas que só esconde como a existência humana se tornou ela mesma uma mercadoria, e o consumismo cada vez mais se consuma na medida em que consome o homem na crença de que sua felicidade e liberdade maior é consumir.

            Aqui se vê então a complexidade singular do conceito marxista de alienação. As condições econômicas efetivas do trabalho determinam que o trabalhador, ao vender sua força de trabalho a outrem, seja alienado do produto de seu labor; o produto independe do trabalhador, e a mecanização do trabalho contribui para isso. O trabalhador não mais tem controle sobre seu produto, não mais projeta ou concebe a execução de seu trabalho; isso gera uma separação entre a concepção e a execução, entre o pensar e o agir. A aceleração da produção e a mecanização crescente do trabalho geram a especialização das tarefas, e o trabalhador passa a executar uma parte do todo da produção da mercadoria. Desse modo, o trabalhador perde o controle voluntário e consciente sobre o produto de seu trabalho, e a mercadoria assume um poder próprio sobre o produtor. A mercadoria se torna autônoma e passa a dominar o todo da existência humana; essa autonomização da mercadoria constitui sua fetichização, cuja contrapartida é a reificação do homem, este se torna uma coisa (res = coisa). A mercadoria assume vida além do homem, e este sucumbe às leis do mercado que coisificam o homem e geram guerras, desemprego e crises inúmeras.

            A ideologia entra aqui como o conjunto das produções espirituais que ocultam a vigência de tal estado material de coisas; é o conjunto das realizações supra-estruturais manifestadas na arte, na escola, na religião, na filosofia, no direito que oculta as contradições sociais e impede a formação da consciência de classe, por parte da classe dominada, de modo que se evite a revolução socialista inerente, para Marx, ao processo histórico-dialético cuja culminância seria o comunismo.

Como já falamos, é aqui que Marx se opõe à concepção de Estado de Hegel, pois o Estado, em vez de superar as contradições da sociedade civil, mantém-nas vigentes e sustenta-as, assim evitando a revolução do modo de produção capitalista. Por isso, Marx defende a tomada do poder estatal por parte da classe de trabalhadores. Esta deve estabelecer o Estado socialista com governo ditatorial até que se suprima de uma vez a classe de burgueses capitalistas. O Estado socialista trataria de distribuir as riquezas produzidas de cada um segundo sua capacidade a cada um segundo seu trabalho. Após a total supressão do Estado, o Comunismo se instalaria e substituiria, na fórmula, a palavra “trabalho” por “necessidades”, assim estabelecendo em todo o mundo, a nosso ver, a liberdade, a igualdade e a fraternidade que até hoje não foram possíveis.

 Talvez esta seja a consciência de si do saber absoluto, segundo Marx, o materialismo histórico-dialético que culmina na revolução socialista e no totalitarismo de esquerda que impede o homem de acreditar em “deus”, em “espírito”, inclusive, na simplicidade de espírito que a verdadeira religiosidade reverente e agradecida incute nas almas dos homens, abrandando seus corações; este saber consciente de si, este espírito absoluto do materialismo histórico-dialético, que acabaria por resultar em mais mortes, guerras, atrocidades, homogeneização ideológica, enfim, esta Razão Universal ecoaria pelo século XX como grito nas bocas de jovens estudantes rebeldes, toscos em seus modos e impulsivos beberrões: “- proletários de todos os países, uni-vos”. Nunca houve tamanho dogmatismo, nunca houve tamanha homogeneização de pensamento e conduta como nos ciclos ditos de “esquerda”. Talvez fosse melhor seguirem a síntese do sacrifício e do caminho do meio, esses ocidentais e sua filosofia da história da filosofia; talvez, se fossem capazes de ouvir a voz serena e suave e se fossem capazes de maior brandura no coração, repetiriam em uníssono o canto sereno da manhã: “- amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Talvez superassem as dicotomias e conflitos sociais e intersubjetivos, como esquerda e direita, ocidente e oriente, e outras que ocasionaram tantas guerras, se não desejassem mais o desejo do outro e não lutassem tanto por reconhecimento de si no outro, deixando o outro ser em sua liberdade e vivendo isto reciprocamente; talvez através do sacrifício obtivessem o que desejam sem muitos esforços e com mais cooperação, ou talvez realizassem a síntese suprema das múltiplas determinações da totalidade dos entes, assim como Neo no terceiro filme de Matrix ao lutar contra o agente Smith que já havia expandido seu niilismo, isto é, a reprodução do nada de sua ausência de sentido existencial em toda a matrix. Seguindo o caminho do meio, nem esquerda e nem direita, talvez fossem capazes de nem odiar e nem se arrepender, visto que entre os ladrões crucificados, tanto o da esquerda, quanto o da direita, pois todos são igualmente ladrões, estava aquele que veio perdoar os pecados; mas, segundo a lenda, só o arrependido se salvou. Acusar-nos-ão de postura religiosa; fazemos somente uma crítica da civilização ocidental capitalista hoje globalizada e de sua incapacidade de superar antíteses e lutas de classes, talvez porque não foram capazes de compreender a lei suprema da verdadeira síntese dialética:

Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai
Sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão,
E sereis filhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para os ingratos e maus.
Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai.”

Todavia, a única visão que a sapiência ocidental (após a declaração da Morte de Deus no século XIX pela filosofia a golpes de martelo que decretou o crepúsculo dos ídolos) consegue ter do Pai é a do Complexo de Édipo freudiano. E assim continua a reinar a fetichização da mercadoria e a reificação do homem na era do uso e abuso de todos os entes, a era da técnica que consuma a metafísica ocidental no fim da filosofia, na medida em que a humanidade mata o pai (Deus ou Céu) e estupra a mãe (natureza ou Terra), a fim de gerar as produções técno-científicas e o cotidiano do trabalho e do entretenimento, em uma cultura mundial completamente desarmonizada no que diz respeito a uma unidade (lei) originária do Céu e da Terra, de Deus e da Natureza, como Comos ou ordem bela, boa e justa da totalidade organizada dos entes. No interior dessa lei em seu movimento surge um ente que é capaz de, tão somente, voar como águia até os píncaros mais elevados e contemplar ao longe a luz do Sol e, depois disso, decair, como Ícaro, na terra e, sem asas, rastejar como uma serpente que se devora mordendo a própria cauda, sem saber que nada sabe, pensando haver atingido o cume do conhecimento e da evolução, enquanto, na verdade, apenas oculta de si mesmo a responsabilidade e a omissão de haver criado as condições de possibilidade de sua autodestruição. Esse ente é o ser-aí que a cada vez eu sou como ec-sistente a in-sisir na verdade do ser, que vige em esquecimento.  


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