Hegel
e Marx - Introdução
Hegel viveu entre 1770 e 1831 e teve seu pensamento
marcado pelos acontecimentos da Revolução Francesa. O progressivo
desaparecimento das formas de organização da sociedade feudal e o
estabelecimento das formas burguesas de sociedade iam mostrando-lhe que havia
um processo em marcha na história e que isso constituía o devir do Espírito ou
da Razão que, após efetivar todas as suas manifestações, desintegra as formas
anteriores e reintegra-se a si mesmo em uma nova forma mais completa de
aparecimento das Eras Históricas.
Esse
devir histórico do Espírito é sua própria vida, cujo pulsar marcha por suas
manifestações e determinações em ritmo dialético, assim desintegrando figuras
do mundo passado e reconfigurando-se em novas formas de seu existir; o
movimento dialético e vívido do Espírito a transfigurar-se na História não tem
repouso, sua permanência é evanescer e subsistir como substância que faz a
mediação de si mesma na alteridade e na objetividade e se consuma na
consciência-de-si da subjetividade absoluta; isso constitui a identidade entre
a Razão e realidade e leva ao extremo a crença iluminista no poder da Razão de
expressar e realizar o ideal da liberdade humana.
A
síntese dialética do Espírito em sua forma absoluta consuma a totalidade de
suas possibilidades manifestativas de tal modo que toda dicotomia entre razão e
mundo natural, cultura e natureza, ideal e real, espírito e matéria, sujeito e
objeto se vê caduca no reconhecimento de si da Razão como o Real enquanto tal.
A ciência, inclusive, realiza-se plenamente quando se torna ciência de si do
Espírito, de maneira que a Razão se torna senhora de todo ser e não reconhece
como real qualquer oposição a si, qualquer negação de seu ser.
A
dialética nada mais é que a lógica da ideia que se consolida na história. A
história do mundo é a descrição do fenômeno ou do aparecimento das diversas
manifestações do Espírito no tempo,
tal como a natureza é o desenvolvimento da ideia no espaço. A antítese
dialética entre espírito (consciência subjetiva) e natureza (objetividade pura
e simples) alcança sua superação (a síntese dialética entre os contrários, a consciência
de si do espírito) na subjetividade absoluta da razão que se percebe o
princípio de sua exteriorização na objetividade enquanto tal e pode, assim,
reconhecer-se como realidade concreta e universal. Isso assegura o domínio
sapiencial do homem sobre a totalidade dos entes na medida em que esta se vê
contida no conceito, forma de expressão da ciência em geral e levada ao extremo
pela filosofia (de Hegel em especial, que é a expressão clara da ciência de si
do espírito como razão universal e realidade única).
No entanto, ainda se costuma ver em Hegel e
Marx uma oposição de tipo “idealismo” e “materialismo”, porque os grandes
intelectos do ocidente, embora tenham passado por revoluções de pensamento
filosófico e científico, não admitem uma conexão e mesmo unidade de ser entre
“matéria” e “espírito”. Por isso, não aceitam que a matéria dita “inorgânica” tenha
vida, que a natureza seja animada, porque querem usufruir dos entes como
disponíveis ao consumo, como produtos descartáveis utilizáveis e renováveis
para novo consumo, sem perceber que sua ação sobre a natureza esgota as
possibilidades desta, entorpecendo o meio ambiente e a conduta humana sempre
ávida por mais consumismo e busca libidinal por prazer à custa da vitalidade da
natureza mortificada pela ação do Espírito que, ao objetivar-se, choca-se com a
natureza como se lhe fosse contraposta e não consegue harmonizar-se em uma
síntese que verdadeiramente totalize em uma unidade integrada as múltiplas
determinações das relações entre o homem e a totalidade dos entes naturais ou
não, bem como não se harmonizam as contradições sociais e culturais cujas
soluções são buscadas em teorias antropológicas, políticas, sociológicas,
históricas que de antemão já partem do pressuposto de que falar do homem
cientificamente é fazer “ciência humana”, que isso nada tem que ver com
“ciência da natureza” e que, conforme Nietzsche, Deus já morreu e não encontra seu lugar na Terra, a qual segue
sendo devastada, como diz Heidegger, pela técnica ocidental globalizada e pela
universalização do modo ocidental de experimentar, na linguagem, o advento do ser, que vige em esquecimento.
Todavia,
essas são digressões ainda pouco claras, tornemos a Hegel.
A
negação da negatividade instaura a positividade absoluta da Razão e torna o
Espírito consciente de si como única realidade efetiva do devir histórico das
diversas culturas humanas ao longo das eras. Veremos que a inteira liberdade da
humanidade e a absoluta consciência de si do Espírito humano se refletirão em
Marx no ideal do Comunismo, que instalaria a ausência da negatividade dos
conflitos e desigualdades de classe; a nosso ver, isso não deixa de ser
inspiração dos lemas da Revolução Francesa: Igualdade, Liberdade e Fraternidade;
e da crença irrestrita na razão humana, procedente do iluminismo.
Em
uma época de globalização proporcionada pelas tecnologias de massa, pelas
mídias comunicativas, pela superficialidade de ser muito culto ao ser um
poliglota que viaja pelo mundo e usufrui do consumismo turístico e dos grandes
eventos mundiais nos âmbitos da arte, da moda, dos esportes, da música, do
cinema, das ciências acadêmicas em geral e dos programas universitários de
intercâmbio cultural, do projeto de ser da existência como trabalho de cunho
empresarial, tudo isso talvez somente oculte a loucura do consumismo em marcha
conjunta ao ideal não inteiramente efetivado de uma humanidade livre, igual e
fraterna, contanto que a divisão do trabalho e das riquezas produzidas se faça
de cada um conforme seu poder a cada um conforme seu poder, visto que o ser é,
para todo ente, a vida, e esta é a vontade de poder que, como diz
Heidegger, apenas oculta o caráter de vontade de vontade da ausência de sentido
na supremacia definitiva do completo niilismo procedente do modo como o ideal
da humanidade se estabeleceu com a
globalização do modo de pensar e agir do ocidente europeu.
No
entanto, após mais uma digressão, tornemos a Hegel e ao tema do ritmo dialético
do devir do Espírito. Esse ritmo, esse pulsar vital do Espírito, obedece a três
batidas que se harmonizam na efetivação das novas formas do Espírito no
tempo-espaço do mundo histórico-objetivo da cultura humana até atingir sua
consumação na consciência de si absoluta, quando a Razão se percebe ela mesma a
realidade que se fazia ao longo da história universal.
Essas
três batidas são a tese, a antítese e a síntese; para melhor compreendermos
esses conceitos, podemos dizer que a tese é a posição da ideia, a mera
consciência subjetiva que, ao exteriorizar-se, choca-se com a alteridade
enquanto tal e, na dialética da intersubjetividade, choca-se com outra
consciência que se lhe contrapõe, assim gerando uma contradição a partir da
qual a ideia pode realizar-se junto com a objetivação da consciência subjetiva
que se aliena na objetividade pura e simples da natureza, o que possibilita um
devir da experiência e da ciência da natureza por parte do espírito.
Do
mesmo modo, a alienação da consciência subjetiva em face de outra consciência
pode gerar a experiência do devir dos conflitos sociais de classe que movem as
transformações do espírito nas diversas sociedades e culturas, assim
possibilitando uma ciência da experiência da consciência, a fenomenologia do
espírito, propriamente dita, que tem na dialética entre senhor e escravo o
motor da história, isto é, do processo da realidade como vir a ser da
consciência até o saber de si mesma, a figura última do espírito; essa figura é
designada absoluto, pois ali o
espírito integra a totalidade de suas manifestações conservando e suprimindo as
contradições na unidade de seu ser real, o saber de si mesma da Razão
Universal.
Essa
dialética entre uma consciência escrava e uma livre (senhor) é o substrato da
teoria da luta de classes de Marx, cuja perspectiva já não verá mais a história
como devir da consciência espiritual pura e simplesmente, mas como processo
histórico-dialético do desenvolvimento das relações de produção material e de
propriedade dos meios de produção que, sendo alteradas, revolucionam as
posições sociais e estabelecem novas formas de organização dessas relações, de
modo que as estruturas de pensamento espiritual (filosofia, religião, direito,
moral etc.) se modifiquem e expressem a concordância ideológica que mantém as
novas formas organizacionais da sociedade.
Para
Hegel, o escravo ao tomar consciência de que detém em suas mãos os meios de
produção e o conhecimento para operá-los, embora o senhor seja o proprietário
legal dos meios, acaba por adquirir a consciência livre, enquanto o senhor,
afastado do trabalho e alienado da realidade do trabalho no ócio, alienado do
contato com a natureza e do processo de transformação da matéria bruta em
artefato produzido para consumo humano, torna-se dependente do escravo; isso
ocasiona uma revolução das posições, pois o dominado assumiu consciência e
condição de liberdade, ao passo que o dominante se tornou dependente e adquiriu
consciência de escravo.
A
nosso ver, Hegel já compreende os processos materiais junto com o devir do
espírito em sua dialética, Marx conservará esta lógica dialética do processo
histórico da sociedade e aprofundará as análises sobre a estrutura das relações
sociais de produção e de propriedade, somente a partir das quais uma
consciência pode ser gerada enquanto consciência de classe que detém ou não os
meios de produção e, assim, pode controlar ou lutar por controlar o aparato
jurídico e institucional em geral pelo qual possa propagandear uma espiritualidade conservadora ou
reformadora, reacionária ou revolucionária quanto às relações de propriedade
vigentes, assim mantendo a classe dominada em estado de alienação espiritual e
material concomitantemente, ou evocando sua consciência para a luta armada,
conforme a posição social que ocupe.
Mas
a tomada de consciência dessa alienação, a consciência de classe do
proletariado contraposta à do burguês proprietário é antes uma tomada de
consciência da alienação espiritual em meio à situação material também
alienada; o que queremos dizer é que as transformações materiais e espirituais
caminham lado a lado, sem uma necessária oposição radical entre “espírito” e
“matéria”; por isso, percebemos o pensamento de Marx como um complemento e uma
continuação do pensamento de Hegel, ainda que radical, pois a supressão da luta
de classes culminaria no comunismo, a figuração do absoluto para Marx, a síntese de todas as contradições possíveis em
uma totalidade integrada de todas as determinações da história. Pensamos que
essas reflexões nos ajudem a compreender um pouco os caminhos pelos quais a
humanidade ruma atualmente na esteira da globalização. No entanto, voltemos à
tese, antítese e síntese dialéticas.
A
pura posição gera uma anteposição. A antítese, portanto, constitui a
contraposição da ideia, assim como o objeto se contrapõe ao sujeito que se põe
na objetividade pura e simples, alienando-se em uma realidade “não-espiritual”,
a natureza, ou em uma realidade não idêntica à consciência, o outro. No
entanto, a realidade mesma só se completa na síntese que engloba conservando e
suprimindo a contradição antitética em uma totalidade de determinações mais
elevada que a precedente.
A
síntese é a composição de múltiplas determinações engendrada no movimento da
posição e da anteposição, isto é, a síntese conjuga tese e antítese,
consciência subjetiva e alienação na objetividade, ideia e coisa, espírito e
matéria, cultura e natureza, classe dominante e classe dominada, senhor e
escravo, e tudo mais que se contraponha na composição estrutural da totalidade
integrada em seus diversos fatores conflitantes. A consciência da totalidade é
a subjetividade absoluta, a Razão, que se reconhece a si mesma como princípio
do movimento, como primeira posição, agora em nível mais elevado após o
movimento de composição da totalidade do real.
Isso
é o saber absoluto, o saber que sabe a si mesmo e se expressa em conceito. A
máxima expressão por conceitos é a filosofia, pois só se expressa por conceitos
o que sabe a si mesmo como objetividade primeira de objetos, a subjetividade em
plena consciência de si como capacidade transcendental representadora de
objetos e legisladora da realidade, esta seja ético-moral, estética ou natural
(Kant), na medida em que a Razão atinge sua plena luz e brilho absoluto quando Hegel
anuncia que “o real é racional e o racional é real”. Isto significa que a
consciência de si do espírito absoluto já amanheceu, e o Sol supremo da Razão
Universal agora brilha em todo seu esplendor.
A
concepção de Estado de Hegel
Nesse
movimento histórico-dialético do espírito, Hegel se refere ao espírito objetivo
como exteriorização da vontade coletiva por meio da moral, do direito e da
política. O mundo da cultura é o âmbito da objetivação do espírito, e o Estado
constitui a mais elevada síntese desse processo. Compreendermos a noção de
Estado de Hegel nos ajudará na compreensão da noção comunista de Marx, que se
consolida na supressão do Estado. E isso porque se, para Hegel, o Estado
sintetiza os conflitos da sociedade e os harmoniza em uma estrutura totalizante
unificadora, para Marx, isso significa que o Estado é um aparelho ideológico
coercitivo cuja função é entravar a revolução e manter o poder dominante. Desse
modo, Marx poderá propor uma revolução socialista e uma tomada de poder da
classe proletária com a finalidade de extinguir a propriedade privada dos meios
de produção, que gera o capital, assim possibilitando a supressão do Estado na
sociedade livre, igual e fraterna do Comunismo.
Hegel
critica as teorias contratualistas por isolarem os indivíduos no estado de
natureza a partir do qual formam a sociedade civil e o Estado, artificialmente,
através de um pacto que garante a liberdade individual e a propriedade privada.
Ao contrário, Hegel pensa que o Estado é anterior e constitui já de antemão o
indivíduo humano inserido na sociedade, sem que se o possa pensar em um
hipotético estado de natureza.
Sempre
pensando dialeticamente, Hegel concebe que o Estado seja a síntese das
contradições coletivas, assim compondo a unidade da totalidade dos interesses
antepostos (contrapostos ou antitéticos) entre os indivíduos, famílias, grupos
e a sociedade civil inteira. Para Hegel, a família integra (compõe ou
sintetiza) as contradições individuais; a sociedade civil integra as famílias e
se interpõe entre estas e o Estado. Este assume sua melhor forma na monarquia
constitucional, que não é governo de um déspota, visto que os poderes do Estado
são divididos em órgãos que os exercem. A sociedade civil, por sua vez, integra
as contradições econômicas, os antagonismos de classes ricas e pobres, de tal
modo que a soberania do Estado deve prevalecer para a garantia do bem coletivo
expresso nos interesses públicos e universais da nação, da pátria etc.
Em
momento posterior, a influência de Hegel no pensamento político gerou uma
divisão entre esquerda e direita hegelianas. Esta se formou por uma corrente
conservadora que exaltava o Estado e o luteranismo alemães. A esquerda
hegeliana, todavia, desenvolveu críticas radicais a Hegel; uma delas é o
marxismo que veremos adiante, o qual procurará suprimir o Estado no Comunismo,
estágio da história em que não haveria luta de classes e nem propriedade
privada dos meios de produção e das riquezas socialmente produzidas, visto que
o Estado legitima o poder de uma classe dominante que detém a propriedade dos
meios de produção material e de difusão de sua ideologia espiritual. Essa ideologia
penetra nas instituições de ensino, nas instituições jurídicas, na mídia, nas
doutrinas religiosas e filosóficas e legitima, no plano espiritual, as relações
de propriedade vigentes impostas sobre a classe dominada. Esta, então, aliena-se
espiritualmente na aceitação da ideologia reinante a sustentar as condições
objetivas de trabalho que alienam materialmente o trabalhador do produto de seu
próprio labor.
Marx
O
socialismo científico de Karl Marx e Friedrich Engels surge no seio das contradições
do século XIX; surge em meio ao contexto subsequente à Revolução Francesa,
cujos reflexos ainda se manifestavam como consequências. As ideias liberais e
burguesas de igualdade e liberdade contradiziam as condições miseráveis da
classe trabalhadora e as expansões imperialistas dos europeus sobre os povos
africanos e asiáticos, aos quais o conceito de democracia não se aplicava por
ser somente adequado aos povos ditos avançados, como Stuart Mill mesmo
afirmava, não muito diferentemente do que Hegel também julgava a respeito dos
povos não germânicos e não europeus em geral.
Devido
à insuficiente tentativa de um projeto reformador da sociedade por parte dos
socialistas utópicos, Marx e Engels se esforçam por elaborar seu socialismo
científico; por motivos de abreviação, referir-nos-emos a este como “marxismo”
e a seu principal expoente, Karl Marx.
Além
das influências recebidas dos economistas ingleses Adam Smith e David Ricardo,
o marxismo também se baseou na dialética de Hegel para elaborar sua sustentação
filosófica, o materialismo dialético, cuja aplicação na história engendra uma
ciência do devir histórico das transformações sociais, de seus modos de
produção e de suas relações de propriedade; o materialismo dialético aplicado à
história culmina na ciência do materialismo histórico.
Ludwig
Feuerbach, um hegeliano de esquerda, também contribuiu para a elaboração do
conceito de alienação que direciona o pensamento ao materialismo, visto que
toda espiritualidade reflete a situação material vigente na sociedade; segundo
Feuerbach, a religião e noções como Deus
constituem uma alienação da liberdade humana para agir; sua obra mais conhecida
se chama a essência do cristianismo;
Marx também fez parte da esquerda hegeliana e não é à toa que tenha dito certa
vez que “a religião é o ópio do povo”. Trata-se, portanto, de suprimir a
religião do Espírito e da Razão de Hegel, que vê no ideal burguês da Revolução
Francesa o final da história e do espírito, visto que universaliza a liberdade
pela igualdade, para liberar o homem como agente social transformador de sua
realidade através da revolução socialista dos modos de produção e das relações
de propriedade capitalistas. Pois, segundo Marx, a Revolução Francesa somente
consolidaria a tomada de poder por parte dos burgueses capitalistas em relação
ao clero e aristocracia feudais e estabeleceria a liberdade de negócios e a
igualdade de condições para burgueses investirem no capital, largando a classe
proletária à miséria das condições de trabalho e à alienação do produto de seu
trabalho na mais-valia que será re-investida para gerar lucros ao patrão.
Marx
criticará Feuerbach por manter-se atrelado a uma visão mecanicista do
materialismo, herdada do século XVIII, e acrescentará sua visão do movimento do
materialismo no desenvolvimento histórico-dialético da luta de classes e das
relações de propriedade que determinam a divisão do trabalho e a exploração
humana através da dominação, esta exercida pelos detentores da propriedade dos
meios de produção mediante o aparato ideológico e coercitivo do Estado. Marx
pretende que este seja suprimido na supressão da luta de classes realizada no
Comunismo, mas para isso, conforme a lei dialética do materialismo histórico, o
Estado deve alcançar sua forma repressora máxima no estabelecimento da ditadura
do proletariado, a fim de extinguir a propriedade privada dos meios de produção
e desaparecer por completo na efetivação daqueles ideais que a Revolução
Francesa não foi capaz de concretizar: a igualdade, a liberdade e a
fraternidade entre os homens. Como se pode ver, parece que Marx pretendia materializar aquilo que Hegel vislumbrou
como mera consciência de si do Espírito
na consumação da Razão Universal e da liberdade humana, pois a suprema
liberdade seria a supressão da dialética entre senhor e escravo, a supressão da
luta de classes em todas as relações intersubjetivas entre indivíduos, grupos,
nações, culturas etc.
É
importante entender que, contra Hegel, Marx não admite a ideia como realidade
que se objetiva e se manifesta até alcançar sua máxima realização na síntese do
conceito, cuja expressão superior é a filosofia como ciência do espírito que
sabe a si mesmo, isto é, da consciência de si do espírito. Segundo Marx, a
filosofia é uma propaganda ideológica como a religião, esta sendo outra forma
de expressão do espírito que ruma à ciência absoluta de si mesmo, a filosofia da
fenomenologia do espírito conforme
Hegel. Ao contrário, o materialismo de
Marx vê a consciência como um produto das condições materiais objetivas, estas
sendo estruturadas pelas relações de produção e de propriedade dos meios de
produção; qualquer subjetividade será configurada pelas determinações
estruturais destas condições vigentes na sociedade.
O
materialismo de Marx não é mecanicista, não constata o mundo material puro e
simples e não admite o determinismo que daí deriva. O materialismo de Marx é dialético,
admite o poder de ação humana sobre a matéria, transformando-a através do
trabalho e do desenvolvimento dos meios de produção e das relações de
propriedade desses meios na sociedade. Assim, em âmbito social e histórico,
pode-se falar de uma revolução qualitativa, e não só de uma mera evolução
quantitativa.
É assim que se pode falar de três leis da dialética: a
lei da passagem da quantidade à qualidade; a lei da interpenetração dos
contrários; e a lei da negação da negação. Essas três leis constituem nova
maneira de interpretar a tese, antítese e a síntese, aplicando a dialética ao
materialismo histórico. Assim, pode-se compreender o movimento das contradições
sociais, dos antagonismos de classe estruturados nas relações desiguais de
propriedade e na exploração do trabalho.
O materialismo histórico-dialético, portanto, expressa o
movimento de revolução das condições materiais de produção da sociedade
amparadas em relações de propriedade e de exploração do trabalho legitimadas
por um aparato institucional de difusão de ideologias conformadas à situação
vigente. O materialismo histórico-dialético é a descrição das leis da passagem
de um modo de produção a outro pela supressão de suas contradições e pela
geração e conservação de novas contradições sociais oriundas das transformações
ocorridas nas relações de propriedade e nos próprios modos de produção.
A
negação da negatividade das contradições sociais se dá revolucionariamente no
plano material através de ações políticas de luta entre as classes divergentes,
e é também um embate de consciência no plano ideológico que visa à tomada do
poder e à alteração das condições vigentes, caso a classe dominada atinja o
poder, ou a manutenção dessas condições caso a classe dominante permaneça no
controle do aparato estatal de propaganda e coerção social. No interior do
capitalismo, essas contradições sociais se dão entre as classes de burgueses e
proletários; ao liberalismo econômico da economia capitalista, o proletário
opõe a ideologia do Estado socialista, ditatorial e revolucionário que
planifica a economia até que não seja mais necessária sua intervenção. A
supressão da contradição entre burguesia e proletariado culminará, portanto, na
ausência da luta de classes e na eliminação gradativa das desigualdades
oriundas das relações de propriedade e da exploração capitalista do trabalho;
efetiva-se, assim, o Comunismo proposto por Marx, utopia que não deixa de ser
inspirada nos ideais não plenamente realizados da Revolução Francesa.
O marxismo vê nas relações de produção o fundamental de
toda sociedade. Essas relações se dão nas interações entre o homem, os meios
naturais e os meios fabricados artificialmente disponíveis como forças
produtivas. A alteração dessas forças produtivas
gera uma transformação nas relações entre os homens, assim gerando uma
diversificação de modos de produção ao longo da história. Os modos de produção
constituem as maneiras pelas quais são organizadas as forças produtivas em
relações de produção historicamente determinadas. Importa-nos saber que o
terceiro modo de produção descrito por Marx, o escravista, é aquele no qual surge a propriedade privada dos meios
de produção e inicia-se a exploração do homem pelo homem. Aqui surge
propriamente a diferença entre senhor e escravo e a divisão do trabalho em
intelectual e manual; dessa forma, o homem livre é aquele que goza do ócio e se
dedica a atividades intelectuais, enquanto o trabalho manual é desprezado e
considerado servil.
As contradições desse modo de produção escravista se
resolvem nas lutas entre as classes bárbaras e as classes dominantes do Império
Romano. A ruína desta sociedade exige novas relações de produção que culminam
no modo de produção feudal. O servo trabalha para si e para o senhor; este lhe
cobra impostos pelo uso dos meios de produção e das terras do senhor. A
contradição entre essas classes gera uma nova, a burguesia que vive da
iniciativa privada e comercial e preza pelas liberdades comerciais das cidades
em formação. Assim, a burguesia será responsável pelo surgimento de novas
formas de forças produtivas centradas na atividade mercantil e comercial; isso
exigirá novas relações de produção e formará o modo de produção capitalista.
A luta de classes agora assume a forma da contradição
entre os burgueses detentores do capital e os proletários que vendem sua força
de trabalho. O capitalismo se baseia na produção de mercadorias; estas assumem
não o valor de uso, mas sim o valor de troca, de venda no mercado. O que
acontece é que o processo de produção de mercadorias se dá através da venda, por
parte do trabalhador, da única mercadoria que possui, a sua capacidade de
trabalhar. O valor da força de trabalho
se limita à mera necessidade de subsistência do trabalhador: alimentação,
vestimenta, sustentação de lar e família. Atualmente os sistemas de crédito dão
a ilusão de que qualquer pessoa é capaz de consumir as mercadorias produzidas
para entretenimento em poucos momentos ociosos de lazer. O trabalhador
assalariado não é um escarvo porque assina um contrato supostamente livre entre
partes. No entanto, o contrato não é verdadeiramente livre, visto que o
trabalhador é explorado pelo que Marx denomina mais-valia.
A mais-valia é gerada porque o trabalhador, sendo
contratado por um período de tempo com a finalidade de produzir o equivalente a
esse período, está disponível o tempo inteiro e produz mais que o valor
calculado previsto na contratação. Esse trabalho excedente é reutilizado pelo
patrão no processo de investimento no próprio processo pelo qual outra
mais-valia será gerada e assim incessantemente durante a vigência da economia
capitalista. O trabalhador é, então, alienado do produto excedente de seu
trabalho, que é reembolsado pelo patrão no investimento de seu capital; isso
gera a “constante reprodução do operário como operário e do capitalista como
capitalista”; eis a manutenção do modo de produção capitalista, que se vale
inclusive de bonificações do tipo “participação nos lucros da empresa”; uma
participação de porcentagem ínfima que é suficiente para aumentar a capacidade
de consumo do trabalhador, mas que só esconde como a existência humana se
tornou ela mesma uma mercadoria, e o consumismo cada vez mais se consuma na
medida em que consome o homem na crença de que sua felicidade e liberdade maior
é consumir.
Aqui se vê então a complexidade singular do conceito
marxista de alienação. As condições econômicas efetivas do trabalho determinam
que o trabalhador, ao vender sua força de trabalho a outrem, seja alienado do
produto de seu labor; o produto independe do trabalhador, e a mecanização do
trabalho contribui para isso. O trabalhador não mais tem controle sobre seu
produto, não mais projeta ou concebe a execução de seu trabalho; isso gera uma
separação entre a concepção e a execução, entre o pensar e o agir. A aceleração
da produção e a mecanização crescente do trabalho geram a especialização das
tarefas, e o trabalhador passa a executar uma parte do todo da produção da
mercadoria. Desse modo, o trabalhador perde o controle voluntário e consciente
sobre o produto de seu trabalho, e a mercadoria assume um poder próprio sobre o
produtor. A mercadoria se torna autônoma e passa a dominar o todo da existência
humana; essa autonomização da mercadoria constitui sua fetichização, cuja contrapartida é a reificação do homem, este se torna uma coisa (res = coisa). A mercadoria assume vida além do homem, e este
sucumbe às leis do mercado que coisificam o homem e geram guerras, desemprego e
crises inúmeras.
A ideologia entra aqui como o conjunto das produções
espirituais que ocultam a vigência de tal estado material de coisas; é o
conjunto das realizações supra-estruturais manifestadas na arte, na escola, na
religião, na filosofia, no direito que oculta as contradições sociais e impede
a formação da consciência de classe, por parte da classe dominada, de modo que
se evite a revolução socialista inerente, para Marx, ao processo
histórico-dialético cuja culminância seria o comunismo.
Como
já falamos, é aqui que Marx se opõe à concepção de Estado de Hegel, pois o
Estado, em vez de superar as contradições da sociedade civil, mantém-nas
vigentes e sustenta-as, assim evitando a revolução do modo de produção
capitalista. Por isso, Marx defende a tomada do poder estatal por parte da
classe de trabalhadores. Esta deve estabelecer o Estado socialista com governo
ditatorial até que se suprima de uma vez a classe de burgueses capitalistas. O
Estado socialista trataria de distribuir as riquezas produzidas de cada um
segundo sua capacidade a cada um segundo seu trabalho. Após a total supressão
do Estado, o Comunismo se instalaria e substituiria, na fórmula, a palavra
“trabalho” por “necessidades”, assim estabelecendo em todo o mundo, a nosso
ver, a liberdade, a igualdade e a fraternidade que até hoje não foram
possíveis.
Talvez esta seja a consciência de si do saber
absoluto, segundo Marx, o materialismo histórico-dialético que culmina na
revolução socialista e no totalitarismo de esquerda que impede o homem de
acreditar em “deus”, em “espírito”, inclusive, na simplicidade de espírito que
a verdadeira religiosidade reverente e agradecida incute nas almas dos homens,
abrandando seus corações; este saber consciente de si, este espírito absoluto
do materialismo histórico-dialético, que acabaria por resultar em mais mortes,
guerras, atrocidades, homogeneização ideológica, enfim, esta Razão Universal
ecoaria pelo século XX como grito nas bocas de jovens estudantes rebeldes,
toscos em seus modos e impulsivos beberrões: “- proletários de todos os países, uni-vos”. Nunca houve tamanho
dogmatismo, nunca houve tamanha homogeneização de pensamento e conduta como nos
ciclos ditos de “esquerda”. Talvez fosse melhor seguirem a síntese do
sacrifício e do caminho do meio, esses ocidentais e sua filosofia da história
da filosofia; talvez, se fossem capazes de ouvir a voz serena e suave e se
fossem capazes de maior brandura no coração, repetiriam em uníssono o canto
sereno da manhã: “- amai-vos uns aos
outros como eu vos amei”. Talvez superassem as dicotomias e conflitos
sociais e intersubjetivos, como esquerda e direita, ocidente e oriente, e
outras que ocasionaram tantas guerras, se não desejassem mais o desejo do outro
e não lutassem tanto por reconhecimento de si no outro, deixando o outro ser em
sua liberdade e vivendo isto reciprocamente; talvez através do sacrifício
obtivessem o que desejam sem muitos esforços e com mais cooperação, ou talvez
realizassem a síntese suprema das múltiplas determinações da totalidade dos
entes, assim como Neo no terceiro filme de Matrix ao lutar contra o agente
Smith que já havia expandido seu niilismo, isto é, a reprodução do nada de sua
ausência de sentido existencial em toda a matrix. Seguindo o caminho do meio,
nem esquerda e nem direita, talvez fossem capazes de nem odiar e nem se
arrepender, visto que entre os ladrões crucificados, tanto o da esquerda,
quanto o da direita, pois todos são igualmente ladrões, estava aquele que veio
perdoar os pecados; mas, segundo a lenda, só o arrependido se salvou. Acusar-nos-ão
de postura religiosa; fazemos somente uma crítica da civilização ocidental
capitalista hoje globalizada e de sua incapacidade de superar antíteses e lutas
de classes, talvez porque não foram capazes de compreender a lei suprema da
verdadeira síntese dialética:
“Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem
e emprestai
Sem esperar
nenhuma paga; será grande o vosso galardão,
E sereis filhos
do Altíssimo. Pois ele é benigno até para os ingratos e maus.
Sede
misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai.”
Todavia,
a única visão que a sapiência ocidental (após a declaração da Morte de Deus no século XIX pela filosofia a golpes de martelo que
decretou o crepúsculo dos ídolos)
consegue ter do Pai é a do Complexo de Édipo freudiano. E assim
continua a reinar a fetichização da mercadoria e a reificação do homem na era
do uso e abuso de todos os entes, a era da técnica que consuma a metafísica
ocidental no fim da filosofia, na
medida em que a humanidade mata o pai
(Deus ou Céu) e estupra a mãe (natureza
ou Terra), a fim de gerar as
produções técno-científicas e o cotidiano do trabalho e do entretenimento, em
uma cultura mundial completamente desarmonizada no que diz respeito a uma
unidade (lei) originária do Céu e da Terra, de Deus e da Natureza, como Comos ou ordem bela, boa e justa da
totalidade organizada dos entes. No interior dessa lei em seu movimento surge
um ente que é capaz de, tão somente, voar como águia até os píncaros mais
elevados e contemplar ao longe a luz do Sol e, depois disso, decair, como
Ícaro, na terra e, sem asas, rastejar como uma serpente que se devora mordendo
a própria cauda, sem saber que nada sabe, pensando haver atingido o cume do
conhecimento e da evolução, enquanto, na verdade, apenas oculta de si mesmo a
responsabilidade e a omissão de haver criado as condições de possibilidade de
sua autodestruição. Esse ente é o ser-aí que a cada vez eu sou como ec-sistente a in-sisir na verdade do ser, que vige em
esquecimento.
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