A
presença no ethos grego clássico e arcaico do sentido original da filosofia
como paideia humana universal através do pitagorismo
A
proposta inicial deste trabalho é retomar um sentido possível de interpretação
da cultura grega clássica, de um ideal apolíneo de homem e de uma paideia que o possibilite, a partir da
compreensão das influências do pitagorismo no platonismo. É sabido que o
pitagorismo apresenta uma noção segundo a qual os números são entidades reais
que fundamentam ontologicamente a realidade sensível; disso podemos depreender
uma considerável influência na teoria das formas ou ideias como realidades
puramente inteligíveis a partir das quais todo ente sensível se constitui como
cópia do real. Ademais, os fragmentos pitagóricos de Filolau e Arquitas,
analisados por Mário Ferreira dos Santos no Capítulo III de Pitágoras e o tema do Número, mostram o
quanto não são exclusivas de Platão muitas das teorias que ele apresenta em
seus diálogos, por exemplo: a distinção entre sensível e inteligível, doxa e epistéme se encontra toda nos fragmentos 4 e 5 de Arquitas, assim
como a doutrina do Bem ou Um (Deus) transcendente se encontra no
fragmento 1 de Arquitas e aparece em Filolau como Deus a hipostasiar o
ilimitado e o limitado, Um que é causa antes da causa, conforme Arquenetas, e
que ultrapassa em potência e em dignidade
toda razão e toda essência[1],
palavras estas atribuídas a Brontinos.
Especialmente
o fragmento 5 de Arquitas nos apresenta a concepção gnosiológica pitagórica,
presente no mito da linha partida ao final do Livro VI e retomado na alegoria
da caverna no Livro VII de A República
de Platão, de tal maneira que nos apresenta a divisão entre os âmbitos sensível
(corpo) e inteligível (alma): apresenta ainda o nous (intelecto ou razão), acima do qual reside o Bem ou Uno, o qual (o nous) acessa os entes inteligíveis
(formas ou ideias, estas ultrapassadas em dignidade e poder pelo Bem); apresenta a ciência (epistéme) do entendimento ou diánoia que opera pelo logismós (palavra que articula medidas,
cálculo) e que corresponde ao nível dos entes matemáticos, que são os números
como entes intermediários entre o sensível e o inteligível e que figuram como a
possibilidade de conhecer a estrutura do real, cujo fundamento gnosiológico e
ontológico reside nas formas ou ideias; abaixo disso, a crença ou fé (pistis) relativa às conjecturas no
domínio da opinião (doxa); e
finalmente a sensação que fornece os elementos (sensações ou imagens) da
imaginação (eikasia). A dialética
seria o método verdadeiro da filosofia a possibilitar a ascensão e descensão da
alma entre esses níveis divididos em dois: o inteligível como âmbito
epistêmico, o âmbito da ciência propriamente dita, e o sensível como âmbito
geral da opinião e da crença.
Com
efeito, os fragmentos pitagóricos de Filolau e Arquitas, execrados da escola
por haverem publicado conhecimentos considerados esotéricos, segundo Mário
Ferreira, tratam do Kosmos como um
composto de elementos ilimitados e limitados e da atividade de um Deus (Um supremo) que seria responsável
por hipostasiar os elementos e ordenar a totalidade cósmica em sua diversidade
de configurações e individuações a nascer e perecer, “segundo a necessidade e o
estatuto do tempo”, para lembrar o dito de Anaximandro. No entanto, em vez de
nos prendermos, neste trabalho, a reflexões de cunho puramente especulativo
acerca do princípio da realidade ser uno ou múltiplo, ou as duas coisas, ou de
como entidades inteligíveis subsistem por si mesmas e fundamentam
ontologicamente as coisas sensíveis, pretendemos vislumbrar no platonismo a presença
de um ethos apolíneo herdado do pitagorismo, e isso em
conformidade ao tema do ethos na
antiguidade, assim determinando o pitagorismo e o platonismo como um modo de
viver. Com isso, pensamos também apontar para um sentido original da filosofia
que não a reduz a mera reflexão pura especulativa lógico-ontológica ou a mero
formalismo intelectual, de modo que apontamos sim para um sentido que vislumbra
o aspecto formativo da filosofia na busca por uma paideia (formação ou educação) capaz de forjar um caráter humano,
propriamente filosófico, o que por si já mostra uma possibilidade de
compreensão do ethos na
antiguidade.
Fazemos
isso de tal modo que reconhecemos em A
República de Platão um projeto de reforma da paideia grega, visto que Platão se confronta a todo instante com a
concepção formativa herdada de Hesíodo e Homero presente nos tragediógrafos,
além de fazer várias alusões a elementos pitagóricos e délficos (ou apolíneos),
em detrimento de elementos “dionisíacos”; lembremos que os cultos e rituais
dionisíacos eram oriundos da Trácia, bem como o orfismo baseado na lenda do
poeta mítico Orfeu que, segundo Giovanni Reale, se apresenta como evocador de
um tipo de vida diverso daquele proposto pelos heróis homéricos. Orfeu haveria
entoado um tipo de vida interior e espiritual que preconizava ritos de
purificação a fim de que a alma imortal expiasse um tipo de culpa originária
responsável por sua queda em um corpo mortal. A iniciação nos cultos órficos
permitiria a libertação da alma do ciclo de renascimentos ou transmigrações
através desses rituais de purificação e de expiação da “culpa originária” como
causa da suposta queda. O fato de a religião pública estar fundada na tradição
homérico-hesiódica e de o orfismo e o pitagorismo serem religiões secretas
misteriosóficas deve estar no fundamento de, ao que sabemos, essas religiões
terem sido perseguidas; do contrário, por que emigrariam de modo errante, sem
pátria? E, quanto à importância do orfismo, Reale nos diz o seguinte:
Quando
Tales disser que “tudo está cheio de deuses”, mover-se-á, sem dúvida, em
análogo horizonte naturalista; os deuses de Tales serão derivados do princípio
natural de todas as coisas (água). Mas quando Pitágoras falar de transmigração
das almas, Heráclito, de um destino ultraterreno das almas e Empédocles
explicar a via da purificação, então o naturalismo será profundamente
lesionado, e tal lesão não será
compreensível senão remetendo-se à religião dos mistérios, particularmente ao
orfismo.[2]
Contudo,
Reale nos assevera que o pitagorismo empreendeu uma reforma fundamental no
orfismo, qual seja: o abandono de aspectos dionisíacos dos cultos baseados no
entusiasmo orgiástico em prol da adoção da ciência racional, ou da matemática,
como elemento constitutivo da purificação da alma, de tal maneira que isto
corresponderia a um ideal propriamente filosófico de vida contemplativa (bios theoretikós) que se caracterizaria
como preservação de um ethos, de uma
conduta ou comportamento “apolíneo”. Esse comportamento estaria, a nosso ver,
idealizado em A República de Platão
como sendo a formação filosófica como tal que visa ao governo das paixões (do Éros sensível elevado ao inteligível)
através de prescrições de conduta tais como as virtudes propostas por Platão:
temperança, sabedoria, justiça e coragem; e isto na medida em que a parte
racional da alma assume o controle sobre as partes irascível e concupiscente. É
desse modo que Platão afirma[3]
que os povos da Trácia (donde vêm os cultos órficos e do deus Dioniso) são de
temperamento irascível, e que o gosto pelo saber é um atributo “do nosso país”,
provavelmente atributo da “Grécia” ou da cidade de Atenas, a cidade natal de
Platão. E tal atributo seria caracterizado como o elemento “apolíneo” na origem
da filosofia.
É
notável que os fragmentos 14 e 15 de Heráclito façam referência às mênades, aos
bacantes e aos iniciados como celebradores de mistérios ímpios, igualando Hades
(senhor dos mortos ou dos reinos inferiores) e Dioniso. Parece-nos indicar que
deliram e festejam a morte, e não a vida. Assim, o fragmento 21 enuncia que
“morte é tudo que vemos despertos (...)”. Do mesmo modo, ao final do Livro II
de A República, Platão nos diz que não há amigos dos deuses entre delirantes e
loucos (382a-e) em um momento em que buscava, na confrontação com Homero e
Hesíodo, uma noção mais adequada acerca dos deuses de modo a constituir uma paideia e um ethos que julgava fundamentais para a formação do caráter
filosófico; esse homem guiado pelo ideal do que é bom, belo e justo. Um pouco
antes, Platão afirmava que Deus é um
ente que não se altera, não se transforma e que não é causa de males, mas
somente de bens. Pensamos que a busca por um conceito do que seja deus ou divino constitua esse amor pelo
saber que dá forma ou caracteriza filosoficamente a alma humana a partir de um
modo de vida que se configura como um ethos
e, por que não, como um projeto formativo, uma paideia do gênero humano. Por isso, o pensamento
socrático-platônico preconiza a busca pelo que é belo, bom e justo; não é à toa
A República ter como ponto de partida
a discussão acerca da Justiça, que será pensada em vista da felicidade,
harmonia e unidade da Cidade, coletivamente, e da alma em particular. Não
obstante o fragmento 102 de Heráclito afirmar que “para o deus tudo é bom, belo
e justo”, enquanto para o homem ou mortal somente algumas coisas serem belas,
outras não, umas justas, outras não etc., o pensamento pitagórico-platônico
visa sempre ao cultivo de um ethos e
ao projeto de uma paideia capaz de
aproximar o humano do divino; daí Platão sempre pensar no belo em si, no justo
verdadeiro e não só no que parece ser justo sem ser verdadeiramente, e no Bem como fundamento da totalidade do
real, aspiração de nossa existência mortal através do saber, da ciência ou do
conhecimento.
Na
passagem 475a-e, situada ao final do Livro V de A República, Platão nos fala dos amadores de espetáculos e dos
amadores de audições, que alugam seus ouvidos para os coros das Dionísias
Rurais e Urbanas, como não sendo propriamente filósofos. Os filósofos são
caracterizados como “amadores do espetáculo da verdade”. A partir da passagem
seguinte, Platão caracteriza os filósofos, até o final deste Livro V, como os
amantes do ser em si, ao passo que os amadores de espetáculos, ao perceberem
sensivelmente uma multiplicidade de coisas belas, são incapazes de discernir e
amar o belo em si. Isso permite a Platão designar os amadores de espetáculos
como amantes da opinião e das aparências das coisas, ao passo que os filósofos
são amantes das coisas em si, amantes da essência e da sabedoria. Isso encerra
o Livro V e prepara o Livro VI, no qual haverá a referência ao mito da linha
partida, que já explicamos como sendo uma doutrina gnosiológico-ontológica de
cunho pitagórico presente nos fragmentos de Arquitas.
Com
efeito, buscamos uma interpretação de sentido ou significado do pitagorismo no
seio da cultura grega e da paideia
como formação de um tipo ideal de homem, como determinação apolínea e sublime
da ideia de humanidade, e evocamos mais um dito de Heráclito para nos ajudar: “O Senhor, de quem é o oráculo de Delfos, nem diz nem oculta, mas dá
sinais.”[4].
Este
fragmento, além de fazer menção a Apolo, indica que a linguagem do deus é um
pronunciamento que dá sinais, doa sentido ao real, sem dizer ou ocultar, ou
seja, sem afirmar (é) ou negar (não é) algo (objeto) de algo (sujeito) na forma
da proposição por predicação; portanto, trata-se da enunciação de uma verdade
divina, não referente a qualquer valor lógico de verdade ou falsidade do juízo
ou da proposição em uma comprovação lógica da adequação do pensamento consigo
mesmo, nem referente a uma verificação empírica na adequação do pensamento com
a experimentação das coisas sensíveis. O mesmo se aplica à linguagem
matemática, que não se reduz à mera efetuação de raciocínios lógicos ou
cálculos proposicionais. A poesia e a música, por sua vez, também não se
reduzem a entretenimentos e passatempos lúdicos como obras de arte criadas com
o objetivo de uma mera fruição do gosto, são modos de revelação e doação de
sentido, dação de sinais do deus ao homem, formando-o e educando-o paro o belo,
o bom e o justo através da catarse ou purificação das paixões da alma, a fim de
obter ataraxia.
Com
base nisso, recorremos a um dito de Platão no Livro IV de A República, mais precisamente em 424a-e, a saber: É que nunca se abalam os gêneros musicais
sem abalar as mais altas leis da cidade. Se a cidade é uma figura de
linguagem da alma humana relativamente a seu governo interior, como se afirma
ao final do Livro IX, então disso se pode perceber também o valor da música
para a formação do ethos.
Evidentemente, a música está intimamente ligada às artes em geral, à poesia, às
artes cênicas dos comediógrafos e tragediógrafos tão criticados por Platão, estes
sim, juntos aos sofistas, verdadeiros corruptores da juventude, ao invés de
Sócrates, mestre de Platão. Logo em seguida (427a-e), pergunta-se o que resta
ainda em matéria de legislação da cidade, e a resposta é tal que isso se deve
deixar a Apolo de Delfos, bem como a edificação de templos e cultos aos deuses,
visto que este é o verdadeiro deus “da nossa pátria”, como afirma Platão.
Assim, a cidade está fundada nas quatro virtudes: sabedoria, coragem,
temperança e justiça.
Em
Pitágoras e o tema do Número, Mário
Ferreira dos Santos nos diz que o nome “Pitágoras” significa “anunciador
pítico”. Acrescentamos ainda os seguintes sentidos para o nome: “anunciador
délfico”, “anunciador apolíneo”, “servo de Apolo”. Portanto, todo o pitagorismo
se nos mostra como um conjunto de revelações divinas das sapiências dos deuses
(olímpicos) aos homens, e os pitagóricos são como profetas da verdade do
universo, são filósofos, amantes do saber, amantes da suprema sabedoria ou
instrução (Mathesis Megisthe). Essa
sabedoria é saber universal e supremo porque é una com o saber do ser-devir do Kosmos, cuja harmonia se assenta na
terceira geração dos deuses liderada por Zeus, conforme a narrativa cosmogônica
de Hesíodo em sua Teogonia. E isso é
conforme também ao fragmento 6 de Arquitas, na versão apresentada por Mário
Ferreira, posto que a sabedoria não tem por objeto um ente determinado, mas a
inteligibilidade presente em todos os entes, cuja apreensão possibilita o
conhecimento dos princípios universais da realidade. Este fragmento nos mostra
o ideal de uma sabedoria capaz de reunir todos os gêneros e espécies de seres
em um mesmo princípio e, assim, possibilitar ao homem o acesso ao divino como princípio de tudo, segundo a
justiça e a reta razão. Só assim o homem conhece a natureza universal e realiza
a verdadeira catarse ou purificação capaz de libertar a alma dos grilhões do
corpo e das paixões através da ataraxia.
O
saber oracular que contempla e reflete o ser-devir do Kosmos é o pronunciamento do deus que vige e vive plenamente uno
com o universo, com a própria totalidade do real. Intentamos, com isso, forjar um sentido
sacral da linguagem e da matemática para os antigos, o que não se diferencia da
poesia e da música, em sentido originário, como formas de acesso a revelações
divinas, à sapiência dos deuses. Essa sabedoria é olímpica porque os deuses
olímpicos constituem propriamente a geração da ordem no caos, da luz nas
trevas, da unidade na multiplicidade, eles constituem propriamente o universo
em sua beleza, plenitude, supremacia, harmonia, proporção e razão. O Universo é
a ordenação do caos imposta pelo “Pai” de todas as coisas, Zeus, que como raio
fulgurante atravessa o todo e põe cada ente em sua posição ou ordem, segundo a
medida e necessidade, harmonizando o Tempo (Kronos), o Céu (Uranos) e a Terra
(Géia), bem como todos os entes (epítetos) que se mostram sob esses
domínios. As batalhas de Zeus e sua
geração contra os gigantes e Titãs, na Teogonia
de Hesíodo, não revelam outra coisa que o princípio de formação do Kosmos, da ordem una da totalidade
múltipla, em meio ao Caos. “Zeus” não
é outra coisa que “o raio fulgurante que dirige o curso de todas as coisas”,
como é dito no fragmento 64 de Heráclito, “pois
uma só é a (coisa) sábia, possuir o conhecimento que dirige tudo através de
tudo.”[5]
Com
efeito, a interpretação segundo a qual a palavra “filosofia” tenha sido cunhada
por Pitágoras evoca o sentido primordial da existência humana nesta Terra: amar
o saber não é outra coisa senão amar os deuses, amar o deus ou o divino em
todas as coisas e, como tal, guardar a presença divina em nossas ações em toda
nossa vida; eis o supremo saber. Por isso, Mário Ferreira dos Santos nos
indica, além das polaridades par-ímpar, ilimitado-limitado, masculino-feminino
etc. algumas classificações que dizem respeito ao ethos, à morada e ao comportamento do homem segundo a lei da década
(tetráktis) sagrada: o 1 é
número-símbolo da Razão/ o 2 é a Opinião/ o 3 é a Santidade/ o 4 simboliza a
Justiça/ 5, o Matrimônio/ 6, o princípio da Vida/ 7, a Saúde/ 8, o Amor ou Amizade/
9, a Justiça em grau superior/ e o 10 é o número sagrado da perfeição do todo.
O todo em sua perfeição é o Kosmos Olímpico
surgido do Caos das gerações anteriores, o próprio devir que acende e apaga
segundo medidas (fragmento 30 de Heráclito) em meio à discórdia caótica (Éris)
através da guerra (Ares) sábia e justa, porque procede da sapiência nascida da
cabeça de Zeus (Athena), esta sendo objeto de desejo incoercível (Eros) e fonte
geradora de impulsos à fecundação (Afrodite) a transbordar em beleza e provocar
o amor (philia) ao saber (sophia) no âmago da alma dos mortais.
Outra
coisa não significam as dez leis de Pitágoras, que não podemos explicitar
minuciosamente aqui, situadas no capítulo XVI de Pitágoras e o tema do Número, a saber: Lei da Unidade; Lei da
Oposição; Lei da Relação; Lei da Reciprocidade; Lei da Forma; Lei da Harmonia;
Lei da Evolução Cósmica; Lei da Evolução Superior; Lei da Integração Universal;
ao final, o Bem como unidade
transcendental superior à ordem cósmica, a Lei da Unidade Transcendental como
Lei das Leis (unidade das multiplicidades), o Bem superior às ideias, ao ser e à essência em dignidade e poder. E
quando Platão pronuncia esse mistério pitagórico, através de Sócrates, ao final
do livro VI de A República, ele mesmo
exclama através de Glauco, a fim de nos provocar o mesmo afeto (páthos): “ – Valha-nos, Apolo! Que transcendência tão divinal!”. (Platão, A República, 509a).
Talvez,
comportando-se conforme à medida dada por essas leis, o homem transcendesse
tudo que nasce e perece e se elevasse a uma condição divina ou semidivina: certamente o filósofo, convivendo com o que
é divino e ordenado, tornar-se-á ordenado e divino até onde é possível a um ser
humano (Platão, A República,
500a). A frase é sensacional e não é ocasional: o filósofo é esse homem
especial que vive com o que é divino
e, portanto, sempre ordenado; por isso, certamente ele se torna (devém)
ordenado e, a partir daí, divino até onde é possível a um humano. Com tais
indicações somos levados a entender que o pitagorismo, ao ensinar a
transmigração das almas, promove uma paideia
sui generis (uma formação original)
do gênero humano, que é figurada na Alegoria da Caverna do Livro VII de A República. Pois o filósofo é este que
ascendeu acima da caverna até o inteligível
e contemplou a luz da uno-multiplicidade do real, a luz cuja fonte é o Bem. Assim, ele deve retornar à caverna
(corpo ou prisão da alma no sensível) e levar essa iluminação sapiencial aos
acorrentados no interior das sombras da ignorância. Por isso, ele ensina a
justiça, a beleza, a coragem, a temperança e a sabedoria, para que os homens
sejam ordenados e semelhantes aos deuses. Esse homem, segundo Platão, deve
governar a Cidade, mas para isso é preciso uma paideia, uma cultura que
possibilite a formação desse tipo especial, o filósofo; o tipo humano que
realiza em sua vida o oráculo de Delfos e desvenda o mistério: “conhece a ti
mesmo” e “torna-te o que és”.
O
saber do filósofo, no pitagorismo, é a matemática, visto que assim se constitui
uma ciência verdadeiramente epistêmica que se afaste da doxa (opinião) por fundar-se em juízos apodíticos, isto é,
universalmente válidos. Mário Ferreira dos Santos nos fala da diferença entre
uma matemática transcendente e uma imanente; esta seria aquela que aprendemos
no segundo grau, abstrações e cálculos meramente quantitativos; aquela seria um
tipo de saber esotérico só para iniciados de alto grau, inclusive na Academia
platônica, a qual haveria extraído do pitagorismo a inscrição: “aqui não entra
quem não souber geometria”. Em conexão com a geometria, o número um é o ponto,
o dois é a reta, o três é a superfície, o quatro é o sólido. O número quatro
assume grande importância simbólica porque a soma dos quatro primeiros números
resulta em dez (1 + 2 + 3 + 4 = 10). Isso nos leva a crer que em tudo há certa
quaternidade, e que essa quaternidade leva à perfeição da década sagrada (tetráctys). Essa perfeição é a
consumação (ser-devir, uno-multiplicidade) da totalidade do real. Essa
quaternidade nos lembra do ser de quadratura, do qual Heidegger nos fala como
aquilo que os homens devem guardar na lida com as coisas e na preocupação com
os outros enquanto habitam poeticamente esta terra: a unidade originária entre
Céu e Terra, deuses (imortais) e homens (mortais); o ser de quadratura é
prenunciado no §42 de Ser e Tempo
como auto-interpretação pré-ontológica do ser-aí (da-sein) como cura,
figurada em uma fábula de Higino ali narrada, e na citação da epístola 124 de
Sêneca, que se encontra no mesmo parágrafo de Ser e Tempo. Esses indicativos parecem nos mostrar algo do ethos ou do caráter formativo presente
na antiguidade grega através do pitagorismo e do platonismo, bem como em outros
exemplos que vislumbramos em Hesíodo e Heráclito. Esse ethos é a busca por uma existência que guarde na lida cotidiana com
as coisas e os outros a tétrada sagrada,
para os pitagóricos, ou a quadratura, para Heidegger. Cumpre-nos encerrar este
trabalho com citações de trechos dos “versos áureos de Pitágoras” atribuídos a
Lysis, e de Platão. Com tais versos, pensamos destacar o aspecto ético do
pitagorismo, exemplificando a presença de um modo de viver proposto por esta
escola antiga de pensamento:
“Aos
Deuses imortais o culto consagrado
Rende
(...)
Que
se não passe um dia amigo, sem buscares
Saber:
(...)
A
Tétrada sagrada, imenso e puro símbolo,
Fonte
da Natureza, e modelo dos Deuses,
(...)
Conhecerás
de Tudo o princípio e o termo.
E,
se o Céu permitir, saberás que a Natura,
Em
tudo semelhante, é a mesma em toda parte;
(...)
Sobre
teu corpo reine e brilhe a Inteligência
Para
que, te ascendendo ao Éter fulgurante,
Mesmo
entre os Imortais consigas ser um Deus.”[6]
E
ainda o pitagórico Platão, após narrar o mito de Er, encerra A República indicando o ethos que guarda o ser de quadratura, a
cura como auto-interpretação pré-ontológica do da-sein (ser-aí ou presença), o sentido da existência humana
enquanto habita esta terra, sob o céu, experimentando a morte como morte, assim
como a experimentou Sócrates no Fédon
de Platão:
“Se
acreditarem em mim, crendo que a alma é imortal e capaz de suportar todos os
males e todos os bens, seguiremos sempre o caminho para o alto, e praticaremos
por todas as formas a justiça com sabedoria, a fim de sermos caros a nós mesmos
e aos deuses, enquanto permanecermos aqui; e (...) seremos felizes.”[7]
BIBLIOGRAFIA:
Detienne,
Marcel. Os Mestres da Verdade na Grécia
Arcaica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
Heidegger,
Martin. Ser e Tempo I e
II.
Trad. Marcia de Sá Cavalcante. Petrópolis: Vozes, 2005 (I) e 1989 (II).
___________. Ensaios
e Conferências. Trad. Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel e Márcia Sá
Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2008.
Hesíodo. Teogonia – A origem dos deuses. São
Paulo: Iluminuras, 2007.
Marcondes,
Danilo. Iniciação à história da
filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Ed., 2001.
Os
Pré-Socráticos.
São Paulo: Abril Cultural, 1996.
Platão, A República. Lisboa:
Calouste Gulbenkian, 2001.
Reale, Giovanni.
História da filosofia antiga; vol. 1
e 2. São Paulo: Loyola, 1993.
Santos, Mário
Ferreira dos. Pitágoras e o tema do
número. São Paulo: IBRASA, 2000.
Introdução
e justificativa do trabalho:
Iniciamos
esta introdução pelo que dissemos no final do trabalho e intentamos justificar
a abordagem temática de um possível sentido original da filosofia a partir da
rápida referência ao Fédon de Platão
e ao “ser de quadratura” de Heidegger. Este pensador nos fala de uma unidade
originária entre céu e terra, imortais e mortais, deuses e homens como modo de
habitação (ethos) que o homem guarda
enquanto existe poeticamente nesta terra, como mortal; o ser de quadratura é, a
nosso ver, o sentido da auto-interpretação pré-ontológica do ser-aí (dasein) como cura figurada em uma fábula
de Higino narrada no §42 de Ser e Tempo.
Se considerarmos que Heidegger intenta, no início de Ser e Tempo, remover os entulhos acumulados pelo legado de uma
tradição petrificada (§6), para a qual o sentido de ser permaneceu
histórico-ontologicamente em esquecimento, isto é, velado ou oculto em sua
essência, então podemos vislumbrar tal sentido em sua concepção tardia da
referida unidade originária entre deuses (imortais) e homens (mortais), céu e
terra, a saber: o ser de quadratura; pois, com efeito, o mortal se reconhece na
articulação de sentido que configura uma totalidade (composição) em meio à qual
se contrapõe ao imortal (deus) e assim compreende a sua finitude no mundo. Por
isso, a filosofia resguarda um sentido original eminentemente existencial.
A
primeira parte de Ser e Tempo termina
com uma afirmativa segundo a qual a resposta à questão pelo sentido do ser
ainda precisa ser conquistada. A partir da compreensão da estrutura ontológica
originária do dasein como cura, a
segunda parte de Ser e Tempo ensaia a
possibilidade de uma compreensão do ser-todo do ser-aí em seu vínculo com o ser-para-a-morte. A partir do terceiro
capítulo desta segunda parte, a temporalidade será entendida como sentido
ontológico da cura, a temporalidade originária como irrupção das três ekstases
(o ter sido, a atualidade e o porvir) em comum unidade. Isso leva Heidegger a
uma repetição mais originária da analítica existencial (§66), isto é, da
análise da existência (o ente com caráter de ser-aí que a cada vez nós somos) do ponto de vista da temporalidade
originária que abre o fenômeno do tempo, assim como havia feito na primeira
parte uma análise do fenômeno da mundanidade aberto pela estrutura ontológica
do dasein como ser-no-mundo, a partir do qual se compreende a cotidianidade, o
mundo circundante e, a partir disso, a espacialidade do ser-aí, da qual a
tradição se serviu para interpretar o “mundo” como conjunto das coisas dotadas
de extensão (res extensa).
Do mesmo modo, a segunda parte de Ser e Tempo busca a compreensão do
fenômeno originário ou ontológico da temporalidade na sua articulação com a
cotidianidade, a historicidade e a intratemporalidade. O tempo originário é o
que possibilita a abertura do “aí” como temporalidade ekstática no âmago do
ser-aí a possibilitar a extensão do tempo (em passado/vigor de ter sido,
presente/atualidade e futuro/porvir), de tal modo que a ek-sistência
(existência) humana tenha acesso ao ente intramundano como “sendo no tempo”,
assim constituindo o fenômeno da intratemporalidade como o aberto do ente que
nasce e perece, a mortalidade como tal, experimentada pelo existir humano em
seu fundamento existencial ontológico como ser-para-a-morte.
Assim,
vislumbramos no Mito de Er, narrado no Livro X de A República de Platão, a enunciação do sentido do tempo originário
em linguagem mítico-poética; e vislumbramos ainda, no Fédon, o sentido original da filosofia que propomos, a saber:
filosofia como preparação (educação, formação ou paideia) para a morte, honrando em vida a tutela ou guarda que os
deuses exercem sobre os homens na convivência mútua em meio às coisas e de modo
a resguardar, em nosso ethos
(comportamento, habitação, morada na linguagem e no fenômeno do ente
intramundano e do intratemporal, no espaço-tempo do aparecimento do mundo ou Kosmos como totalidade do que nasce e
perece, physis), como dizíamos, de
modo a resguardar o habitar poético, a unidade originária do ser de quadratura
que se mantém retraída no mistério.
O
mistério reside lá onde a verdade já não mais se limita à estrutura lógica
interna do pensamento humano ou de uma analítica da linguagem, tampouco a
verdade como alétheia se limitaria a
uma investigação da lógica da ciência a fim de estabelecer quais são os
critérios demarcadores de um conjunto de proposições que, adequadas à
verificação empírica ou capazes de resistir a testes de refutação constantes,
seriam classificadas como proposições científicas. A alétheia é o jogo dos desvelamentos, ocorridos na história do
pensamento (nous) ou espírito (geist), que se ocultam no âmago do lógos (razão), que de divino se degrada
(degradar = privar-se de graus nos degraus que descem do céu à terra) em humano
e re-vela, assim, a essência originária da espaço-temporalidade do todo em uma
proposição (expressão ou fórmula numérica) fundamental que serve de base de
sustentação de um sistema de proposições encadeadas entre si.
É
a partir de tal compreensão que se torna possível a ousadia de ser si-mesmo,
singular, não um qualquer, mas um indivíduo diante de Deus na solidão isolada e
imensa de seu próprio esforço e responsabilidade, conforme nos diz Kierkegaard
no prefácio de seu O Desespero Humano, no qual se afirma
ser o desespero a doença, e não o
remédio. Kierkeggard, então, afirma que o remédio é exatamente morrer, morrer para o mundo.
[1] Santos: 2000, p. 89.
[2] Reale, Giovanni. História da filosofia antiga; vol. 1.
1993, p. 22.
[3]
Platão, A República, 435a-e.
[4] Heráclito, fragmento 93 In Os Pré-Socráticos. São Paulo: Abril
Cultural, 1996 (p.97).
[5] Heráclito, fragmento 41. In Os Pré-Socráticos. São Paulo: Abril
Cultural, 1996 (p.92).
[6] Santos, 2000, p. 234-36.
[7] Platão, A República, 621a-d.
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