quarta-feira, 5 de junho de 2013

A Filosofia a partir do Século XX

            A filosofia do século XX foi por nós escolhida como tema para o presente trabalho, que será principalmente baseado na obra A Filosofia no Século XX de Fritz Heinemann, embora outras obras tenham sido lidas também, como por exemplo A História da Filosofia Contemporânea de Johannes Hirschberger, na qual percebemos uma mais acurada apreciação da fenomenologia de Husserl, das questões entre ontologia e metafísica na obra de Hartmann, do realismo crítico de Driesch, Becher e Wenzl, bem como uma apresentação um pouco mais extensa do pensamento de Heidegger, que muito influenciou o existencialismo ateu de Sartre, ainda que aquele não pretendesse colocar a questão do ser em termos de teísmo ou ateísmo, liberando a ontologia da ontoteologia da metafísica clássica.
             O que temos no século XX é o desenvolvimento das ciências e o início do processo pelo qual disciplinas científicas e filosóficas vão adquirindo autonomia, de modo que se torna inviável um saber sistemático e globalizante de toda a ciência com pretensões definitivas e fechado em si mesmo, como se esgotasse toda possibilidade de conhecimento na concretização de um saber absoluto a designar o fim dos tempos na chegada do estágio final do progresso histórico e da humanidade. É assim que Heinemann distingue a pretensão à constituição de uma enciclopédia das ciências filosóficas, como a de Hegel, de sua enciclopédia do século XX que apresenta um caráter geral a respeito das disciplinas e temas.
            Heinemann considera impossível uma enciclopédia das ciências filosóficas, considerando que as disciplinas filosóficas estão em processo de se tornarem ciências autônomas, como a lógica e a psicologia, de modo que, ao especializar-se cada vez mais, o saber perde a possibilidade de ser integrado em um sistema único e absoluto de pensamento. Do mesmo modo, a noção de tempo histórico de Hegel simbolizada pela imagem cíclica ou circular é rejeitada e substituída pela representação linear do tempo.
            Ainda tendo referência no século XIX para passar ao século XX, temos em vista a seguinte enunciação emblemática: “Deus morreu, foi a sua piedade pelos homens que o matou” ; esse dizer  enuncia o ser do tempo de Nietzsche como substituição dos valores de verdade metafísicos e teológicos pelas constatações efetivas das ciências empíricas que já não mais permitiam a crença em fundamentos absolutos da realidade, nem mesmo como princípios apriorísticos da razão, já que tal modo de pensar permanece ainda sob a determinação metafísica da noção de sujeito dos modernos[1].
            O século XIX caracteriza-se pelo humanismo ateu de Feuerbach, pelo materialismo histórico e dialético de Marx, pelo evolucionismo de Darwin, pelo positivismo de Comte e sua tentativa de erigir os sábios da humanidade à condição de deuses e a própria ciência à condição de religião. A morte de Deus enuncia a morte da metafísica dando lugar ao saber científico e às reflexões de caráter subjetivista[2] existencialista como terreno em que o homem se faz humano, demasiado humano, compreendendo-se enquanto tal como ser finito que tem somente o mundo da humanidade para compreender como realidade em que se constrói, através do tempo, como seta apontada para a liberdade.
             Ao longo da história simplesmente o destino do ser do ser-aí como ex-sistência e presença, lançado no mundo e tendo, como única possibilidade realmente efetiva, a morte, pelo que se reconhece como um ser finito de múltiplas possibilidades de projeto de ser, donde uma ontologia do ser da temporalidade e desta como condição do ser a concluir pelo não esgotamento da questão do ser pela filosofia e metafísica, o que culmina na compreensão do esquecimento do ser naquilo que ele é e num ocultamento da verdade do ser pela difusão da técnica e afundamento do homem nas preocupações práticas e utilitárias do cotidiano, assim constituindo um modo inautêntico da existência.
            Ora, tanto é assim que o positivismo lógico como tentativa de se estabelecer o que é um problema de ordem científica, distinguindo a ciência da metafísica como pseudo-problematicidade do real pela noção de verificabilidade, denota como o desenvolvimento científico alçou o homem à condição de determinador do que é real ou verdadeiro e do que assim não é.
            Do mesmo modo, o existencialismo ateu e humanista de Sartre proclama a liberdade como aquilo a que cada ser humano está fadado, definindo a existência em precedência à essência a partir da noção do ser como um projeto, como possibilidade e engajamento no sentido de não escapar à liberdade da escolha de seu destino em meio ao caráter indefinido do ser humano como uma abertura para o possível, como um lançar-se na aventura de construir sua própria essência no processo de sua existência.
            No entanto, voltemos à exposição das considerações de Heinemann a respeito da filosofia no século XX. Ele considera a filosofia em cada era histórica como sistemas de pensamento dependentes de supostos de crença, nos quais efetivamente tais sistemas podem fundar-se. A filosofia grega acreditava no ser, no cosmos, na natureza (physis) etc., a medieval acreditava na criação, na revelação e em Deus como ente supremo, e a filosofia moderna tem como suposto de crença o homem e sua capacidade racional de realizar o reino de Deus na Terra através da ciência e do conhecimento. Segundo Heinemann, a filosofia no século XX leva a crença moderna ao extremo, de modo que o pensar hodierno realiza uma cisão das próprias crenças, caracterizando nosso tempo pelo crer e descrer de tudo.
            Nesse contexto, ele percebe uma descentração do fluxo do pensar filosófico proveniente do núcleo europeu, embora este ainda seja referência principal. Ele descarta a filosofia oriental (China e URSS), pois precisaria de uma análise profunda de sua situação e da transformação de suas tradições pela implementação do materialismo histórico e dialético de procedência marxista, no que vê também só uma importação de pensamento proveniente do núcleo europeu. Percebemos nisso, porém, uma importante manifestação daquele imperativo do século anterior, a enunciação da  morte de Deus, pois o próprio Marx disse que a religião é o ópio do povo”.
            Além do deslocamento de ordem política, há também o deslocamento de ordem cultural, que perde o foco das reflexões sobre o espírito numa espécie de materialismo científico e técnico a despeito de considerações filosóficas de cunho mais religioso. O problema da cultura se intensifica na cientificidade reinante a fim de fundamentar o exercício da técnica potencial, enquanto determinação do que é tecnificável através da lógica dos símbolos e da matemática, assim fundamentando a aplicabilidade da técnica em suas várias formas, fomentando as políticas da marcha do progresso pela noção de bem-estar na paz e na vitória, seja na guerra entre nações, entre competidores financeiros, ou entre os cidadãos maquinalmente objetificados na luta por espaços no mercado de trabalho e na vaidade egoístico-social da vivência consumista.
            Heinemann divide a filosofia em duas esferas culturais, a saber, a européia e a anglo-americana, que, embora proceda daquela, assume independência e configuração própria; às vezes ele parece referir-se a esta em termos de pensamento anglo-saxão, incluindo muitos pensadores alemães e ingleses, que contribuíram para a elaboração de filosofias da lógica, da matemática, da linguagem etc., a fim de libertarem-se da metafísica e dedicarem-se a um pensamento com maior rigor científico e voltado para a cientificidade mesma em sua precisão e calculabilidade extremamente racionalista.
            Na filosofia européia ele identifica: 1.a filosofia da vida de Bergson, Dilthey, Nietzsche, Klages, procurando exatamente o livramento da vida em relação à calculabilidade da técnica e da ciência lógica que matematiza tudo e sufoca a natureza e o homem pelas amarras do rigor excessivo da racionalidade; 2. a fenomenologia de Husserl, que pretendia ser uma filosofia de primeiros princípios a nível eidético capaz de descrição objetiva das essências das estruturas imanentes da consciência pura transcendental, sendo uma ciência anterior à ciência empírica propriamente dita; 3. a ontologia de Hartmann, que essencialmente valoriza o ser em precedência ao conhecer, pensando, diferentemente de Kant, a relação do pensamento em vista do ser e não deste em vista daquele, do mesmo modo o sujeito devendo ser pensado como ser, e não o ser como sujeito, além do que rejeita a tendência monista da metafísica a reduzir tudo a um único princípio, fazendo-o pela estruturação do ser em camadas, a saber, o ser inorgânico, o orgânico, o psíquico e o espiritual, donde se tiram categorias como predicados do ente anteriores a toda predicação e em conexão com as peculiaridades de cada camada correspondente de ser; 4. a filosofia da existência, cujos principais representantes são Heidegger e Sartre, tendo em vista o pensador do século XIX Kierkegaard como seu fundador, enfatizando os aspectos determinantes da existência humana individual, suas angústias marcadamente influenciadas pelo sentimento de estar-no-mundo lançado na decorrência do tempo e rumando ao nada na morte inevitável, dispondo de uma curta existência efêmera na qual possa constituir sua essência, que, mesmo assim, dissolver-se-á no tempo e no nada de que brotou originariamente, pelo que o nada ganha estatuto ontológico e a lógica e a ciência podem ser criticadas como insuficientes desvios da questão fundamental do pensamento e do ser, bem como  as definições metafísicas de homem dadas pela filosofia ao longo da história sejam vistas como incapazes de esgotar o caráter do possível e do ainda não pensado no âmbito da re-instauração da discussão sobre a humanidade do humano, o que é expresso na máxima sartreana “o existencialismo é um humanismo”.
            No desenvolvimento da filosofia na esfera da cultura anglo-americana, Heinemann identifica também quatro correntes distintas de pensamento, a saber: 1. o pragmatismo; 2. o instrumentalismo; 3. o positivismo lógico; 4. as escolas analíticas. Os dois primeiros são do particular domínio da filosofia norte-americana e têm como representantes principais C. S. Pierce e William James, no pragmatismo, e John Dewey no instrumentalismo.
            Em geral, essas correntes norte-americanas são vistas como super-valorizações teóricas da aplicabilidade prática dos conceitos e das proposições filosóficas mediante a constatação de sua verdade pelo alcance prático de sua finalidade na consequência factual de sua aplicação, tendo como referência sua utilidade para o progresso advinda da importância dada às ciências experimentais e sua conseqüente atividade produtiva no campo técnico e tecnológico em geral através de sua contribuição para as teorias da lógica, da matemática e da linguagem, viabilizando métodos precisos e rigorosos para assegurar a cientificidade da ciência.
            No entanto, esse mesmo pragmatismo lógico e científico, também valoriza as consequências práticas, sob o ponto de vista de sua utilidade, de conceitos e proposições referentes aos planos da metafísica, da religião e da moral, no âmbito do pensamento do psicólogo William James.
            De qualquer modo, é no projeto neopositivista da Escola de Viena de elaboração de uma teoria da legitimidade das proposições com sentido, que podem assumir caráter científico, pela delimitação de fronteiras entre aquilo que é verificável empiricamente, ou nas proposições lógicas, e o que é tido como pseudo-problema e, por conseguinte, considerado não-científico e sem sentido, como os conceitos e proposições de ordem metafísica, como dizíamos, é em tal rigor empírico, por um lado, e lógico-matemático por outro, que se fundam as correntes anglo-americanas, assimilando o empirismo britânico e a especulação de ordem lógica dos alemães ao peculiar pragmatismo norte-americano.
            Esse projeto do positivismo lógico contribuiu também para as escolas analíticas de desenvolvimento da lógica e das teorias da linguagem, pois é no neopositivista Carnap, por exemplo, que se vê a importância dada ao cumprimento das regras da sintaxe para a validade da proposição, do que não se tira, no entanto, sua correspondência com uma realidade factual empírica, característica que estava ausente da maioria das proposições filosóficas da metafísica.
             O desenvolvimento da lógica foi viabilizado, sobretudo, por Bertrand Russel que deu prosseguimento ao projeto de Frege de identificar a lógica e a matemática através de deduções puramente lógicas. Russel reconheceu em Frege a importância de extirpar do domínio da lógica as noções de caráter psicologizante; a lógica almejava libertar-se de conceitos psicológicos a fim de tornar-se uma ciência puramente lógica, uma disciplina autônoma.
            Além de Russel, G. E. More e o chamado II Wittgenstein contribuíram para a filosofia analítica da linguagem. O primeiro tentou basear o pensamento filosófico em uma noção de senso comum (common sense), a partir da qual se identificaria o valor de verdade das proposições; suas reflexões foram de maior relevância no âmbito ético e moral, segundo afirma Heinemann.
            Wittgenstein contribuiu principalmente com o que se chama de uma lógica da linguagem cotidiana para livrar-se da metafísica. Aqui, nota-se uma divisão não muito definida entre os grupos de Oxford e o de Cambridge, ambos sob influência de Wittgenstein. Em Cambridge havia uma espécie de “psicanálise linguística” ou “positivismo terapêutico”, nos termos de Heinemann, que considerava a metafísica uma perturbação de ordem interior a ser sanada por doses de reflexão linguística e semântica.
            Para Wittgenstein propriamente, uma palavra não designa uma essência real, sendo sua significação não evidente, mas sim derivada de um uso correspondente. Assim, devem ser pesquisados seus usos em situações concretas, donde se tiram regras lúdicas não muito precisas do uso das palavras, portanto constituindo um jogo divertido de linguagem, cujas regras seriam alteradas na continuidade da atividade lúdica.
            Enfim, pensamos ter apresentado uma visão geral do pensamento de Heinemann acerca da filosofia do século XX, com pitadas de nossa visão pessoal principalmente nas referências ao século XIX como manifestação do surgimento da cientificidade amadurecida enquanto tal no anúncio da “morte de Deus”, pois é com esse tom de descrença, multiplicidade de pensamentos e vários pressupostos de crença (autofundamentação do discurso pela ausência da sacralidade) em que se os baseiam, direcionando as questões para reflexões particulares que pretendem resolver o problema universal do ser humano e falham em tal empreitada, que o autor conclui e caracteriza os rumos do pensamento filosófico hodierno, tendo em vista a impossibilidade de uma sistematização globalizante do saber científico filosófico e humano em geral por causa da disciplinarização específica das ciências em âmbitos autônomos de conhecimento.


BIBLIOGRAFIA:

HEINEMANN, Fritz. A filosofia no século XX. Lisboa; tradução e prefácio de Alexandre F. Morujão, 3ª edição: Fundação Calouste Gulbenkian, 1963.
HISCHBERGER, Johannes. História da Filosofia Contemporânea. São Paulo: Editora Herder, 1968.






























 
             
              
                
             
           
           




[1]Que para Nietzsche não passava de um preconceito gramatical, como se lê no primeiro capítulo Dos Preconceitos dos Filósofos de sua obra Para além do Bem e o Mal.
[2]Subjetivismo do qual Heidegger tenta escapar pela sua ontologia do ser do ser-aí, do ser como presença e ex-sistência, o ser lançado no mundo e projetado no tempo tendo como única certeza a morte, isto é, o nada., que se apresenta antecipadamente como angústia.

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