Creio que teu Jornal de Poesia seja um espaço para publicação de teus textos próprios. Por isso, modifico meus intentos para um mero exercício de diálogo contigo.
Em teu texto A Sátira a serviço de Gregório, falas sobre o Barroco:
"... o Barroco. Época marcada pela contradição e tensão, pelo conflito e dualismo: mistura de religiosidade e sensualismo, de misticismo e erotismo, de valores terrenos e carnais e de aspirações espirituais. O homem barroco e sua visão de mundo são altamente dialéticos, levando essa dualidade para dentro de suas obras, que passam pela provocação dos contrários para convergir a um ponto que une.
Esse ponto que une os contrários é o próprio processo dialético do real como tal, o lógos ou a razão universal presente na natureza, como espírito individuado no drama da história e da humanidade em cada um de nós. Por isso, não há como escapar do abarcamento que tudo abrange, o pensamento que dirige tudo através de tudo, o raio fulgurante que atravessa o todo com um único pensamento e, assim, permanece o sempre sendo que se exprime como elemento fundante do simples dizer, do espontâneo enunciar que mostra o sentido e abre o espaço-tempo da experiência do ser-no-mundo do homem como devir da experiência da consciência; eis a Fenomenologia do Espírito como segredo que se revela na Dialética do Mundo, que te abraça e que constitui toda tua existência, enquanto humano, isto é, enquanto ente constituído de facticidade e historicidade, à luz da autodoação do ser como simples acontecer do tempo, que apropria o ente para o seu originário advento no puro emergir da totalidade compreendida em seu ser, como lógos.
Assim, em a Dialética do Mundo me abraça, tu mesma dizes:
A escuridão e a luz movem,
como alavancas indissociáveis,esse imenso ser em contínuo duelo.
O preto e o branco
O quente e o frio
O mais e o menos
O céu e a terra
O tudo e o nada
O som e o silêncio
O nascer e morrer
Olhar e não ver
Estar e não ser
São instâncias da mesma realidade.
A harmonia se impõe na superação dos limites.
A escuridão e a luz se movem, como alavancas indissociáveis, esse imenso ser em contínuo duelo. Grande poetisa do ser, não sabes como enuncias o mistério sublime da natureza em repouso, lúcida e tranquila na embriaguez de seus produtos fenomênicos a dançar sob a lei da vida e da morte, a dialética da pessoa do Todo como Deus, a dialética de Deus como Todo (universo), o mover em conjunto da escuridão e da luz.
Pois à imagem da escuridão corresponde o conceito de matéria, cujo fenômeno é a gravidade e a coesão dos corpos; enquanto à luz corresponde o conceito de espírito, que se mostra como inteligência inconsciente presente na natureza em geral e como inteligência consciente no homem, em que vem à luz a razão no mundo e a capacidade não só de intuir esteticamente, mas de construir o conceito de toda experiência estética possível aprioristicamente, porquanto o homem seja o término do processo de espaço-temporalização do infinito no finito, do qual retorna o espírito que nunca foi mais do que si mesmo; a luz é o espírito, que se expande no tempo e desagrega os corpos finitos, por isso estes têm seu lugar no equilíbrio com a gravidade da matéria.
Contudo, a luz é intensão do Universo, Tempo, enquanto a matéria é extensão do Universo, Espaço, a dialética entre ambas é o movimento do infinito no finito como espaço-tempo, em que gravidade e luz se potenciam na dialética da atração (amor) e da repulsão (ódio) (Amor e Ódio como princípios da Natureza, como falava Empédocles de Agrigento). O fenômeno dessa lei se mostra no magnetismo e na eletricidade, cuja síntese dialética ocorre no quimismo. Os processos químicos da matéria são orientados por uma conformidade a fins, tendo a vida como causa inicial e final, de modo que a interação entre os elementos químicos da matéria inorgânica possam vir a ser matéria organizada, isto é, organismo, determinação do espírito que se individua no tempo-espaço e funda o movimento de "evolução dos seres vivos", cuja dialética entre sensibilidade e excitabilidade se sintetiza no fenômeno da reprodução, o qual requer a dualidade dos sexos (em casos de reprodução sexuada, obviamente, nos organismos mais complexos), assim também masculino e feminino também são instâncias da mesma realidade. (Essas intuições poéticas sobre a Dialética do Mundo, que te abraça, podem ser assim entendidas à luz conceitual da Filosofia da Natureza de Schelling, que acabei de expor-te resumidamente).
A Harmonia se impõe na superação dos limites. A Harmonia, a justa medida, a proporção, o lógos de que falava Heráclito de Éfeso, o ápeiron ou ilimitado de que falava Anaximandro de Mileto, o ar ilimitado (pneuma ápeiron) de que falava Anaxímenes de Mileto... e tantas pessoas que disseram o simples ponto de convergência dos limites que se movem como configuração do mundo dos fenômenos que desfilam, dialeticamente, como aparências do ser do tempo ao nosso espírito finito.
O poeta tem a alma do tamanho do mundo porque o poeta é completamente preenchido pela alma do mundo, que nele se individua e, assim, se apresenta à humanidade inteira pelo dom da palavra como autodoação do ser ao homem. Mas muitos nem sequer aprendem a ler e escrever, ou pouco se importam; outros usam a linguagem como objeto de uso e, assim, movem-se a vida inteira pelas vias pragmáticas dos interesses utilitaristas e das vantagens obtidas com barganhas comerciais em falsas relações sociais; este também é um destino da linguagem e do ente que nela tem sua morada, próximo ao ser, embora dele esquecido como não-ente, como dizia Heidegger.
Eu gostaria de compartilhar minha humilde poesia, pelo menos a que restou. Sou um humilde estudante quase professor de filosofia, compartilhando poesia; presumo que não gostes de minha escrita rústica, mas se quiseres trocar uma ideia, será um descanso de minha solidão.
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